O Diário da Escrava Amada

Anelise Vaz · Capítulo 53 de 56

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O Diário da Escrava Amada

Capítulo 57 · Surpresa?

 

Eu nem sei que horas Kazuko foi dormir na noite passada, acabei apagando tão rápido que nem vi quando ela desligou o abajur.

No trabalho foi tudo normal, acho que acontece só um pouco de coisas interessantes, ainda mais que eu cuido logo das tretas de famílias. Acontece mesmo drama e não algo muito... Vocês entenderam!

Infelizmente, eu tô no ponto do ano em que já estou pedindo férias, porque tem dia que eu simplesmente não aguento mais. Hoje mesmo fui falar com meu chefe para ele ver o calendário de férias dos funcionários e já marquei as minhas próximas.

Outra coisa é que o diário está acabando. Um dia, lendo do jeito que leio, ia acontecer né? Estou só apreensivo de chegar ao ponto de parar de ler só para não terminar. Ai que Kazuko me mata mesmo. E por falar nele, assim que cheguei em casa, tomei um banho e corri para a sofá. Kazuko brincava com Takumi no tapete da sala. Observei-os um tempo e abri o diário e ironicamente era sobre o dia que Takumi apareceu pela primeira vez em nossas vidas. Lendo o diário e relembrando nossa história, eu vejo o quanto a vida é irônica.

Comecei a leitura.

“Não sei por que voltei aqui.

Acho que esse diário se tornou algo para meus lapsos de “aconteceu algo grande”. Da última vez, eu fui que nem louca na casa de Makoto. Agora, bem, vamos aos primórdios da ordem cronológica levando em conta a última vez que escrevi aqui. Se eu só jogar assim de cara, eu mesma tomo um susto porque nem eu estou acreditando.

Eu e Makoto continuamos juntos desde aquela noite, mas parecemos até um casal de adolescentes. Todos os finais de semana, ele vem aqui em casa e ficamos aqui nas redondezas.

Claro que já rolam os boatos imagináveis e inimagináveis por toda a vizinhança. De que estou saindo com um cara rico. Que eu voltei a ser escrava ou até que nunca deixei de ser. Mas, que falem e pensem o que quiser, o que importa somos eu e Makoto e bem... Tá! Vou contar!

Tem uns dias que estou me sentindo esquisita, inchada, enjoada e até sem fome. E eu já me senti uma vez assim antes, já passei por isso. Não havia a certeza, mas uma leve suspeita. Só tinha um jeito de confirmar: indo ao médico.

Eu e Makoto até transamos algumas vezes, mas em quantidade bem menor se comparar quando eu era escrava dele. Não quer dizer que a qualidade diminuiu. Meu coração palpitou só de ver todos os sintomas junto com as regras atrasadas. Comentei com minha mãe e ela disse:

– Só não deixe que isso atrapalhe seus estudos. Você ainda precisa passar na prova, filha.

Pois é, a tentativa de entrada na faculdade não deu certo. Tinha muito tempo que não estudava e não fui bem. Estava me dedicando para fazer novamente. Contudo, não era algo tão urgente assim. Já fora adiada uma vez.

Liguei para Rin e marquei um encaixe com ela naquele dia mesmo. Estava muito nervosa e ansiosa para esperar um dia sequer pelo resultado. E ela sabia bem que eu e Makoto estávamos juntos.

Fui até lá no horário e demorou bastante, na verdade, eu fui a última a ser atendida. Logo, ela me chamou e eu entrei:

– Olá, Kazuko! Então, me diga o que houve para vir nessa urgência toda.

– Bem, meu ciclo está atrasado e estou cansada, enjoada, se fome.

– Fez um teste de farmácia pelo menos?

– Não!

– E de sangue? – ela colocou a mão a testa – Esquece. Vá se trocar que vou lhe examinar.

Fiz conforme ela disse e deitei na mesa de exame. Parecia até com um dos exames de rotina, mas ela foi descrevendo coisas diferentes que percebia no meu corpo. Seios bem inchados e sensíveis, barriga a mesma coisa.

Então, ela pediu para que abrisse as pernas e pegou o aparelho de transvaginal e comentou:

– Esse é o único jeito de saber se tem um bebê ai.

Ela pegou aquele longo e fino tubo com uma câmera na ponta e introduziu. Não demorou muito, ela teve a confirmação e falou:

– Meus parabéns, Kazuko. Você está grávida!

– Sério? – disse me levantando – O que eu faço, Rin? – um desespero e despreparo me pegaram – Eu mal voltei com o Makoto, eu não queria...

– Você tem duas opções: ou conta para ele ou não conta e faz um aborto.

Comecei a chorar e ela disse:

– Nem acredito que é a mesma pessoa que queria tanto um filho uns meses atrás.

– Eram outras circunstâncias. – respondi entre leves fungadas – Eu tenho outros planos agora.

– Eu sei. – ela me abraçou – Mas pense bem no que vai fazer. Pelo que vi aqui, o embrião deve ter umas seis ou sete semanas. E um conselho: melhor contar ao Makoto.

– Nem tenho como ir lá hoje, gastei o que tinha para vir aqui hoje. Só tenho como voltar. Nada mais!

– Eu te dou uma carona até lá. Pode ser?

Assenti, agradecendo.

– Deixa eu só imprimir isso aqui, para você mostrar para ele. Além de um parecer meu.

– E a consulta, Rin? – pois é, eu mal tinha dinheiro para o transporte e fui em médico de gente rica

– Somos amigas e você é madrinha da minha filha, não vou te cobrar!

Rin arrumou o consultório e saímos juntas. A casa de Makoto era na metade do caminho dela. Ela me deixou e desejou boa sorte e pediu que a mantivesse informada.

Admito que eu fiquei nervosa, com frio na barriga, tudo o que se possa imaginar. Subi e ele nem tinha chegado ainda. Keiko ficou sem entender o que fazia ali num dia de semana. Eu só disse que queria falar com Makoto. Ainda bem que ela é alguém que respeita quando alguém diz que é algo particular. Makoto também estranhou, mas ele fez uma cara de preocupado quando disse que queria falar com ele a sós.”

Eu já disse outra vez que isso é suficiente para o cagaço aparecer. Eu achei que ela queria terminar comigo ou algo assim.

“Ele pediu para irmos ao escritório para conversar melhor. Sentei-me numa cadeira e ele no outro lado da mesa. Então, me questionou:

– O que é tão urgente e sério, Kazuko?

Peguei o envelope com os exames que a Rin me deu e entreguei a ele, que leu e soltou:

– O que é isso?

– Um exame de gravidez.

– Não me diga que você...

– Sim! Estou!

Ele saiu de onde estava e se ajoelhou diante de mim, pegou em minhas mãos:

– Essa é a melhor notícia que eu podia receber. Eu vou ser pai!

Eu não sabia o que dizer, só comecei a chorar e ele me abraçou. Qualquer medo que restou, simplesmente sumiu. Ironicamente, o que nós mais queríamos veio apenas depois de praticamente ter desistido. Estávamos voltando devagar e a vida vem e apronta uma dessas. Ou melhor, não fomos nós meio irresponsáveis? Não é hora de pensar nisso. O que importa é que ele está aqui e faremos de tudo para que nasça saudável.

Makoto não me deixou voltar para casa, disse que me levaria de manhã. Eu avisei a minha mãe que ficaria por lá e bem, ela ficou bem feliz de saber que vai ser avó. Contamos a novidade a Keiko também, que até se lembrou do quanto eu e Makoto tentamos antes. Ela até fez uma sobremesa para comemorarmos. Koishiro, Minami, Minori e Shiori também receberam a notícia através do telefone.

Passei a noite com Makoto, que não parava um segundo com a mão na minha barriga. Eu já estava ficando nervosa com aquilo, mas não falei nada para não estragar a felicidade dele.

Hoje de manhã, ele me trouxe de volta falando no caminho que pagaria todo o pré-natal e nem precisaria me preocupar com isso. Recomendou que começasse a me cuidar por meu bem e do bebê também.

Acho que eu estar grávida agora não é uma grande surpresa, visto que estávamos tentando antes da separação. Mas, por outro lado, também foi uma surpresa, porque bem... Não era algo que achei que fosse acontecer rápido. Realmente tem momentos em que não controlamos nada.

Porém uma outra coisa me veio aos pensamentos agora: comentários vindos da vizinhança e da família. Mesmo que eu não liguei de forma geral, não acho legal ficar ouvindo outros tecendo comentários acerca da sua vida, que só diz respeito a você próprio.

Não quero nem imaginar o que falarão de mim. Que eu quero dar o golpe em rico e etcs.

Então, caso haja algum acontecimento, eu venho aqui.”

Kazuko continua rindo e brincando com Takumi.

E ao término de mais uma leitura, eu passei a entender ainda mais o lado de lá, os de classe mais baixa. O que para eles é algo comum, para nós é surreal e vice-versa. Por um bom tempo não compreendi algumas atitudes dela, porém, o diário me faz ter mais clareza em relação a essa época.

Recordo do meu colega de trabalho que leu o diário sem querer e disse que dava um bom livro. E a leitura é isso mesmo, é algo para nos fazer pensar, ao mesmo tempo em que entretém.

Falarei sobre isso com Kazuko, ver se ela aceita a ideia.

Agora vou me juntar a brincadeira.