O Diário da Escrava Amada
Capítulo 47 · Um tempo
No dia seguinte, Kazuko continuou com os preparativos, pedindo ajuda a Keiko, que tem anos e mais anos de bagagem e experiência em festas, por conta de seus filhos.
Arrumei-me e logo sai para o trabalho. Era um dia atarefado, cheio de processos para preencher, documentos para analisar. A hora do almoço demorou uma eternidade para chegar.
Comi e decidi usar o resto do tempo para ler o diário, mesmo com todo o barulho em volta do pessoal do escritório. A parte em questão é ainda sobre a decisão de Kazuko e eu termos ou não um bebê.
“Querido diário,
Estou de novo no meu quarto na minha antiga casa. Foi um dia deveras confuso.
Makoto e eu estávamos estranhos desde a manhã. Demos um bom dia seco, brigado. Obviamente, a Keiko percebeu. Ela veio conversar comigo assim que ele saiu:
– Aconteceu algo?
– Brigamos. – respondi
– Mas, você está bem? Não está machucada?
– Não, Keiko. Estou mais abalada psicologicamente.
– Foi por causa daquilo que me falou?
– Sim, foi por causa desse talvez futuro bebê. Queria mesmo era entender esse medo dele.
– Acho que nem ele sabe explicar.
– Imagina se ele descobre que te contei sobre isso.
– Só que não vai. Você precisa desabafar e eu sei guardar segredo. – e riu
– Fico com receio do que pode acontecer comigo.
– Fique calma, Kazuko. Logo vocês se resolvem.
– Assim espero.
Não aconteceu nada demais no meu dia, pelo menos até Makoto voltar para casa.”
Eu passei aquele dia inteiro pensando nisso, no que fazer, nas reais razões.
Sabia bem que Kazuko queria, só que eu precisava de um tempo para absorver tudo isso. Precisava de um tempo só para mim, para pensar.
“Assim que chegou, me chamou para o escritório. Sentou de um lado da mesa e pediu para eu sentar no outro. Mais frio e hierárquico impossível. Olhamo-nos por um instante, num silêncio distante. Até que começou:
– Kazuko, estive pensando nisso o dia todo. Precisamos de um tempo.
– Por quê? – meus olhos arderam, segurei as lágrimas
– Eu preciso pensar em tudo: em nós, no futuro bebê, no meu trabalho, conciliar todas as mudanças. Tomar a decisão certa e melhor.
Não consegui mais, aquelas palavras tocaram fundo em mim, acabei chorando. Eu sabia que isto ia nos abalar.
– Ei, – ele pegou minha mão, olhei-o – Não é o fim para nós, Kazuko. Isto não é com você, é comigo. Não se culpe!
– Como que não é? Tudo isso está acontecendo por algo que eu quero.
– Eu sei. Mas, eu quero ter essa vontade com você, só não estou pronto ainda. Sei que preciso estar, porque te amo.
– Não te entendo, Makoto.
– Apenas aceite, assim como faço com você. Cada um tem seu tempo. Estou tirando o meu.
– Ficarei aqui então?
– Não. Arrume suas coisas, passe uma semana com sua mãe. Vai ser bom para você.
– Tem certeza? – solucei
– Sim. – ele passou a mão em meu rosto – Vai ficar com raiva de mim por isso?
– Não! Vou arrumar a mala.
– Eu te ajudo.
Saímos do escritório e fomos para o meu quarto. Bem, Makoto não foi ajudar. Ele sentou na cama e ficou me olhando escolher, tirar e separar as roupas para levar.
– Achei que fosse me ajudar, Makoto.
– Estou dando apoio moral.
– Deixa de bobeira! – eu ri – Pega a mala em cima do armário, por favor.
Fez conforme pedi e foi colocando as mudas dentro, ajeitando no espaço.
– Não acha que é muita coisa?
– Não. É que minhas roupas antigas que estão lá não me servem mais.
Ele só continuou. Um silêncio ficou por alguns instantes. Então, perguntei:
– Vai me levar lá agora?
– Sim.
– Não pode ser de manhã?
– Você sabe que é o oposto do caminho para o trabalho. Acabaria chegando atrasado.
– Entendi. É que é ruim ir neste horário, ainda mais voltar.
– Não se preocupe com isso.
Apenas assenti.
Terminei de arrumar tudo, despedi-me da Keiko, explicando a situação e partimos.
A viagem seguiu silenciosa até chegarmos à casa de minha mãe. Ele auxiliou-me a carregar minhas coisas. Bati à porta e claro, recebi uma cara de surpresa ao ver minha mãe.
– Filha, veio me visitar assim tão tarde?
– Eu vou passar uns dias aqui com você.
– Como assim? Por quê? – então ela viu Makoto – Boa noite, Makoto. Como vai?
– Vou bem, Saiko. – sorriu
– Qual a razão da Kazuko ficar um tempo comigo?
– Eu tenho umas coisas para resolver e precisarei sair da cidade por uns dias. – falou deixando a mala no chão
– Entendo. Então, boa viagem.
– Obrigado!
Despediu-se, me dando um beijo na testa, voltou ao carro e saiu.
Eu sabia que ela sabia que não era isso. Alias, estava esboçado em mim que não era só uma viagem.
– O que houve? Sei bem que não é isso. – disse assim que fechou a porta da sala
– É complicado, mãe. Estamos dando um tempo.
– Por quê?
– Algumas desavenças sobre o nosso namoro. A gente acabou até brigando.
Ela só me abraçou, não tinha e nem precisava dizer nada.
Depois juntas, fizemos o jantar e vimos um filme. Agora que vim lhe escrever e logo irei dormir.
Nem sei como te coloquei na mala sem Makoto ver, porque ele não saiu do meu lado até me deixar aqui.
Eu sinceramente espero que este tempo seja bom para nós. Porque eu ainda estou preocupada.”
Durante este período um pouco solitário, aproveitei para colocar muitas coisas da minha cabeça no lugar. Tudo tinha mudado de maneira rápida. Tirei uns dias de folga para tal. Dei uma folga para a Keiko também.
Ainda havia tempo suficiente para a leitura de mais um trecho.
“Diário,
Sei que tem breve período que não lhe escrevo. Estou aproveitando de verdade essa semana em casa. Eu e minha mãe saímos para vários lugares, visitamos alguns parentes. Ela está fazendo de tudo para eu esquecer o Makoto, pelo menos um pouco. Até adianta, durante o dia não me pego pensando nele, só que antes de dormir ele é a primeira pessoa que vem a mente. Fico querendo saber se ele está bem e se está pensando em mim também. Ai vem a saudade!
Nesses momentos percebemos o quanto somos pessoas bobas e até um pouco carentes quando estamos apaixonados. Passei por diversos momentos tensos e muito complicados com Makoto e também por causa dele. Momentos em que faria total sentido me revoltar ou ficar triste, só que não fiquei. Apenas sorri e me mantive firme, mesmo com o peito ardendo.
Agora, apenas com poucos dias de distância e com uma pequena briga, eu estou assim. Tudo bem que eu sobrevivo, é uma semana só. Porém tudo que veio antes disso me deixa preocupada.
Mais uma decisão que não será minha, como tem sido a mais de um ano. Já não sei mais o que é ter controle da própria vida. Realmente, uma escravidão muda tudo. Se teremos um filho ou não, só Makoto poderá decidir.
Enquanto isso, só me resta mesmo aproveitar o tempo que ele me deu aqui com minha mãe. Tentando tirar ele um pouco da minha cabeça. Tudo bem que a única coisa que podia controlar – meu coração – ele tomou também. Não num ato de roubo, mas sim de conquista. De cada dia, gesto e atitude. Só o tempo nos deu um relacionamento. Só o tempo para fazer mudanças.
Resta apenas esperar.
Até!”
O trecho seguinte datava de uns dias depois e era curto. Ainda restava cinco minutos e sim, dava tempo para mais este.
“Querido diário,
Está é a ultima noite nas minhas, digamos, férias aqui na minha mãe.
Não tenho mesmo do que reclamar. Diverti-me muito. Revisitei diversos lugares que tinha uns bons anos que não ia. Senti-me criança novamente.
E agora estou ansiosa para amanhã. Finalmente Makoto virá me buscar e vou saber se o meu maior desejo agora se realizará.
Conto o que aconteceu depois.
Beijos!”
Logo os colegas que saíram para comer fora voltaram.
O que era antes apenas um barulho suportável se tornou quase uma algazarra. Ainda bem que não vou ler mais. Não dá para ouvir os próprios pensamentos aqui.
Fechei o diário e guardei-o em minha maleta.