O Diário da Escrava Amada

Anelise Vaz · Capítulo 38 de 56

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O Diário da Escrava Amada

Capítulo 42 · Tudo em família

 

A semana passou mais depressa do que pude perceber, foi uma semana bem agitada, nem tive como ler o diário. O tempo transcorrido em ambos foi o mesmo.

Acordei cedo demais no sábado, por conta da falta de sono. Fui à sala, peguei o diário e me sentei para ler no sofá. A anotação era do dia em que fomos à casa do meu pai fazer uma visita e claro que contei a ele tudo o que aconteceu comigo e com a Kana.

Comecei a leitura.

“Olá diário,

Faz pouco tempo que voltamos da casa de Koishiro e ele me chamou para uma conversa séria, depois de falar com Makoto. Até fiquei com medo, mas não era nada demais. Porém, vamos por partes... Fomos lá para almoçar e passar à tarde, algo bem em família mesmo. Qual não foi a surpresa de ver que Kana não estava.

– Ué, cadê a Kana, filho? – Koishiro indagou

– Que Kana, pai? Terminei com ela tem uma semana.

– Isso sim é uma boa notícia. – Shiori soltou

E este assunto acabou aqui. Cumprimentamo-nos e sentamos a mesa para comer. Não ocorreram muitas conversas durante, a comida estava muito boa para tal. Depois nos dirigimos para o lado de fora da casa, onde inclusive fica a piscina e o jardim, pena que era um dia um pouco frio para um mergulho. Foi nesse momento em que os dois foram conversar a sós do lado de dentro. Enquanto isso, eram as madrastas que falavam comigo:

– Sabe por que ele terminou com ela? – Minami perguntou

– Não faço ideia. Só sei que foi depois do evento do meu aniversário.

– Alias, parabéns por enfrentá-la e pelo seu aniversário. Makoto nem falou nada. – Minami completou

– Ele também esqueceu, só lembrou porque eu disse.

– Vamos ficar te devendo o presente. – Minami novamente

– Agora fiquei curiosa. Conta com detalhes. – Minori pediu

Contei tudo e elas ficaram chocadas.

– Gente, a Kana era assim tão agressiva? – indagou Shiori

– Antes disso tínhamos brigado, no sentido físico da coisa.

– Vocês “caíram na porrada”? – Shiori soltou e todas rimos

– Tá mais para ela me bateu muito e eu dei um soco certeiro nela.

– Uau, arrasou! – Minami entrou na brincadeira

A conversa transcorreu comigo contando como estavam as coisas depois da saída da Kana. E minha relação com Makoto pode até parecer “normal“ para quem olha de fora, mas para nós está confuso. Revelamos nossos sentimentos um ao outro e ficou por isso. Nem sei se daremos o próximo passo, se é que realmente há um.

– Ele realmente terminou com ela por sua causa. Seus relatos só reafirmam. – Minori comentou

Eu, no meio de um interrogatório e completamente aflita com o que diabos Makoto e o pai dele estavam conversando.”

Não era nada muito além do que acontecia do lado de fora. Meu pai estava me sondando e muito. Quase completando um dossiê. Perguntou o que houve e pediu detalhes, mas apenas lhe contei os fatos. Só que é claro que ele ia mais a fundo, sabia que havia algo diferente. Ele tinha conversado sobre isso comigo antes.

– Então, terminou com a Kana por estar apaixonado pela Kazuko?

– Sim!

– Era só questão de tempo mesmo para você perceber.

– Peraí, sabia antes de mim?

– Sim, Makoto, você é teimoso igual a mim. Fiquei por muito fingindo que não sentia nada por suas madrastas. Escondi meus sentimentos por medo de estar fazendo algo errado ou do que iriam fazer. Mas, me sentia pior ao me lembrar de como as maltratei. Tenho vergonha de tudo o que fiz a elas no começo, só que logo notei meus erros e parei de fazê-lo. Porém, esse peso se mantinha sob meus ombros, junto com a dor da perda da sua mãe. Feri outros para tentar me curar, mas só fiz mais ferimentos. – uma lágrima correu – Desculpa, filho. – enxugou com a mão

– Não precisa ter vergonha de mim. – falei a ele, segurando a sua mão livre e me permitindo chorar também

Ele prosseguiu:

– Mesmo com tudo isso, com todos os meus defeitos e ações, elas aprenderam a me amar. E eu aprendi a amar de novo com elas. Nós quatro temos nossos traumas e apoiamos uns aos outros. Só assim que nos mantemos firmes. E foi escolha delas ficarem comigo, eu lhes dei a liberdade, porque não suportava vê-las presas a mim como escravas, mas elas voltaram para mim. Quando era jovem não entendia tanto assim o amor, aprendi com sua mãe e me fechei quando ela se foi, nunca achei ser capaz novamente. Agora percebo o quanto o amor é inusitado. Não tem critério para amar, não se escolhe classe ou passado e nem como vai acontecer. Só acontece! Tenho certeza que foi assim entre você e a Kazuko, não é?

– Sim. Revelamos nossos sentimentos um ao outro, porém, só eu o fiz diretamente.

– Mas ela o ama, não precisa dizer. Tem meses que ela demonstra. Como você acha que ela suportou a Kana?

– Não tinha pensado por esse lado.

– Com a liberdade que ela tem, com certeza teria fugido. Mas, dirá em seu tempo. E estão, sei lá, namorando?

– Não. Eu nem tive coragem para pedir.

– Você tem medo?

– Claro que tenho. Vai que...

– Que nada, Makoto! Porra! Acha mesmo que ela vai rejeitá-lo?

– Sempre existe esta dúvida.

– Tira ela da sua cabeça agora. Faz esse pedido ser especial, vai passar um fim de semana na casa de praia e a peça lá.

– É uma boa ideia, pai. Obrigado!

– Espero que seja a última vez . Tô cansado de ser seu cupido.

– Para de bobeira. – e ri

Após isso, quase todos voltaram para dentro para fazer companhia.

“E carreguei isso até a “entrevista” acabar. Precisei ficar um pouco sozinha lá fora quando elas retornaram para o lado de dentro.

E quem me aparece uns minutos depois? Koishiro!

Minha cabeça começou a doer de nervoso, se é que é possível. Ele se sentou na cadeira ao meu lado e começou:

– Kazuko, posso falar com você?

– Pode. – saiu um sussurro

– Bem, perguntei ao Makoto exatamente o que houve, entre ele e a Kana e entre vocês.

– E o que ele disse?

– Nada além do que eu já esperava.

– Por que será que eu tenho tanto medo? Estou tão nervosa. – desabafei

– É algo novo para vocês dois. Ainda mais você, que escondeu seus sentimentos por mais tempo. Não precisa ter medo. Vai dar tudo certo!

– Assim espero!

– Lembra o que lhe falei na minha festa de aniversário? Da pessoa perfeita para meu filho estar diante dele? Ele está começando a perceber isso.

– Ele já percebeu.

– Ainda não. Makoto ainda não lhe deu o valor que merece, só meteu vocês em histórias estranhas e fantasias malucas.

– Tipo a do casamento?

– Esse é o maior exemplo. Ainda acho que era a vontade secreta dele de namorar você.

– Tem mais uma, que é mais maluca.

– Qual? – arregalou os olhos, curioso

– Ele comemorou meu primeiro aniversário de escravidão?

– Quê? Ele não estava com a Kana na época e disse não querer traí-la?

– Despistou-a. E quem foi o escravo naquela noite foi ele. Uma inversão de papéis.

– Agora eu me pergunto o porquê dele ter feito isso.

– Segundo argumentos dele, para que me sentisse melhor. Mas acho que foi a forma dele mentir a si mesmo que sentia algo por mim. Nossa relação era só dono e escrava e só seria isso.

– Ele mentiu para si enquanto estava com a Kana.

– Koishiro, acho melhor pararmos essa análise do Makoto que logo ele nos escuta.

Ele riu.

– Tem razão. Acabamos o assunto aqui. – se levantou e se ajoelhou na minha frente, pegando minha mão – Eu espero, sinceramente, que meu filho me escute. Que dê certo entre vocês. Que ele não caia nos mesmos erros que eu.

– Ele não vai. E se fizer, dou um tapa na cabeça dele. – respondi sorrindo, Koishiro correspondeu

Assim, voltamos para o lado de dentro. E Makoto nem perguntou nada ao nos ver. Com certeza, o pai já o havia avisado.

Não tardou para irmos embora. Koishiro deu a chave da casa de praia para viajarmos no próximo final de semana e deu uma piscadinha para o filho. Isso está me cheirando a planinho dos dois.

Juntar-me-ei a Makoto agora.

Até depois!”

Fechei o diário e a barriga roncou alto. E uma voz veio do corredor:

– Eita fome! O vício é tanto que esquece até de comer. – era a Kazuko – Bom dia!

– Estava te esperando para comer.

– Toma conta do Takumi enquanto arrumo a mesa. – colocou-o sentado ao meu lado no sofá e me deu um beijo

Fiquei brincando com ele, comemos e aproveitamos o resto do dia juntos.