O Diário da Escrava Amada

Anelise Vaz · Capítulo 48 de 56

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O Diário da Escrava Amada

Capítulo 52 · Frustração

 

Alguns dias se passaram, nada de muito interessante aconteceu. Eu a cada dia mais pego um caso novo no trabalho, até porque consigo resolver pelo menos dois por dia, mas são uns que ficam meses comigo algumas vezes. Não reclamo porque é a profissão que escolhi. Sinto-me muito bem quando minha defesa dá um ganho de causa. Bem, vocês não querem saber do meu trabalho né? E sim do diário.

Não tinha nada demais naquela época. Kazuko passou a escrever menos no diário, talvez porque as folhas estavam acabando ou por não ter nada a contar. Os espaços de tempo entre as anotações aumentara, sendo de três dias até uma semana de diferença. Sendo assim, avancei uns três ou até quatro meses no tempo, em meio a leituras no trabalho e antes de dormir.

O meu eu do passado e Kazuko continuávamos tentando e não funcionava. E bem, já estávamos pensando em recorrer a um reforço no tratamento. Talvez comigo também tomando algum medicamento. Iríamos a Rin para verificar essa possibilidade.

E tem outra coisa daquela época que recordo bem: o quanto Kazuko ficava triste quando via a menstruação dar as caras. Ela sempre vinha me falar com lágrimas nos olhos que não fora daquela vez. Ver todo aquele sofrimento dela estava me matando por dentro. Não gostava de vê-la assim. Pensava ter boa parte da culpa nisso! Ambos não estávamos ficando bem em meio àquela situação!

O trecho de hoje, mais um de hora do almoço, é sobre nossa consulta com Rin para ver algo para ajudar.

“Diário,

Eu e Makoto acabamos de voltar de uma consulta com a Rin. Infelizmente, depois de meses num tratamento, vimos que ele não surtiu efeito. Seguindo as recomendações dela, marcamos o retorno antecipadamente. Ela nos recebeu com um sorriso no rosto e um pouco de preocupação.

– Estava esperando vocês chegarem. O tratamento não funcionou.

– Não. – não foi bem um pergunta, mas respondemos mesmo assim

– Já pensei numa solução alternativa. Reforçarei o seu remédio. E vou receitar um para você, Makoto. – ela olhou para ele – Tudo bem para você?

– Claro. – falou segurando em minha mão

– OK! É que tem alguns homens que acham um absurdo. Acham que só as mulheres que precisam.

– Complicado isso. – comentou Makoto – Parece um pensamento de muitos séculos atrás.

– E é! Nossa sociedade só o reforça ainda mais.

– Como advogado, sei bem disso. Se pudesse mudaria todas essas leis.

– Sempre soube que era alguém diferente, Makoto. Desde que trouxe suas madrastas aqui e enfrentou seu pai. – terminou de preencher a receita dele – Aqui. Tomar duas vezes ao dia. E você, senhorita, – levou um tempo para preencher os papéis e me entregar – tem uma dosagem maior do que está tomando e te passei umas vitaminas. Bem, já estamos em época de repetir os exames. Vamos lá!

Fiz o procedimento que já me era comum: fui ao banheiro, tirei a roupa, coloquei o avental e sai. É o que faço de seis em seis meses, em média, quando vou fazer meu preventivo para ver se está tudo bem. Na verdade, até ser escrava eu nunca tinha ido a uma ginecologista. Algumas especialidades são um pouco caras para quem é de classe baixa. Normalmente, ajudamos umas as outras por lá e bem, hospital para ter filho? Não existe! Acontece tudo em nossas próprias casas. Não que seja ruim. Acho que é um processo natural e que ir a um local só para isto é supérfluo. Quantos primos já vi nascer assim? São luxos que não podemos nos dar.

Depois de repetir os processos, Rin perguntou:

– Tem feito quantas vezes na semana?

– Todo dia praticamente.

– Tem calculado seu ciclo?

– Sim. Sempre sei quando a menstruação vem.

– Não só dela. E o seu período fértil?

– Não sei.

– É uma coisa importante de saber se quer engravidar. Achei que soubesse!

– Ninguém me ensinou.

– Imaginei. – sentei-me na mesa de exame, ela já tinha acabado – Posso te dar umas dicas? Se não for te irritar, é claro.

– Rin, você é médica e minha amiga.

– Você precisa conhecer como seu corpo funciona. Saber, até mesmo por calendário, os dias que está mais propensa a engravidar. Costuma ser entre o 7º e o 14º dia, considerando seu ciclo de um mês ou menos, como o seu.

– Passarei a fazer isso, Rin.

– Tem mais uma coisa. Seu corpo dá sinais até quando vai menstruar, a TPM sabe. E outra, não precisa ser todo dia, uma vez a cada dois ou três pelo menos, assim o esperma do Makoto pode ter uma qualidade melhor e isso aumenta as chances de sucesso.

– Não sabia que conhecia isso tudo, Rin.

– Olha que eu nem gosto da fruta. – e rimos – São os anos de profissão, da faculdade, da vida de ex-escrava. A vida ensina, só que você não teve tempo de aprender ainda.

– Por isso que passamos os conhecimentos uma para as outras né?

– Exatamente. Pode ir lá se trocar.

– Pode falar essas coisas que disse para mim para o Makoto também?

– Claro. Mas, só depois que estivermos todos juntos.

Assenti. Vesti-me novamente e retornei. Então, Rin repetiu tudo o que disse na outra sala e Makoto entendeu. Ao final, ela reforçou:

– O tratamento é só uma ajuda, ele não vai fazer milagre para vocês. Precisam fazer sua parte.

– Temos ciência disso! – ele respondeu

– Então, boa sorte. – Rin disse por fim – Mantenham-me informada.

Despedimo-nos e saímos. No caminho de volta para casa, conversávamos:

– Será que vai dar certo, Makoto?

– Vai sim. Acho que comigo tomando remédio também, teremos um reforço.

– Obrigada por isso. – sorri

– Por você, faço tudo. E pelo nosso filho também.

– Eu fico pensando se não tem algo errado com o meu corpo... Talvez.

– A Rin não disse que está tudo normal? Talvez o problema seja até comigo.

– Inférteis não somos. Já engravidei uma vez.

– Precisamos é ter paciência, Kazuko. Ou isso, ou a gente morre de ansiedade todo mês. Todo mundo com quem conversei me aconselhou isso.

– Mas tem o detalhe de que nós queremos muito.

– Eu sei. E isso muda muito nossa percepção de tudo. Ficamos mais sensíveis e emotivos.

– Sim. Acho que precisamos ser racionais um pouquinho.

Ele concordou e mudou de assunto.

– Vamos jantar aonde hoje?

– Não sei, você escolhe. Sabe bem que não tenho problema com comida, só com a falta dela.

Fomos ao shopping e escolhemos um restaurante por ali mesmo.

Com toda essa agitação do tratamento e ansiedade por um bebê, tínhamos nos esquecidos das coisas simples de casal. Sair, conversar um pouco, passear. Porque nós dois já estamos aqui. Parece que viramos duas máquinas de sexo, com um único objetivo, não somos tanto um casal nessas situações. Esquecemos, pelo menos por aquelas poucas horas todos os nossos problemas, preocupações e frustrações. Era só eu e ele, com uma conversa boba e divertida. Relembramos muitas coisas pelas quais passamos e rimos de algumas dessas. Eu me senti mais leve e acho que ele também.

Após comer, pagamos a conta e voltamos para casa. Tomamos banho juntos e eu só vim aqui me trocar e lhe escrever. Acho que só vamos dormir mesmo hoje. Não estamos com vontade e não que seja mesmo necessário sempre. A vida e relacionamentos não giram em torno disso, não é o único aspecto.

Deixa eu ir lá, antes que Makoto bata na porta me chamando.

Até breve, diário!”

O sinal do final do almoço tocou. Engraçado que não toca sempre, tanto que até tomei um susto.

Eu tinha um monte de coisa dos meus clientes para resolver e não poderia continuar como faço em dias mais tranquilos.

Eu já estava pensando no quanto sentiria saudade de revisitar minha própria história e a de Kazuko através do diário. Nunca disse isso, mas é interessante ler o que outra pessoa escreveu sobre o próprio passado. Para muitos eventos, eu tinha outro modo de ver que o diário mudou. Alias, tem momentos em que tenho extrema vergonha do eu do passado. Como eu era trouxa! Perdoe-me Kazuko do passado. Outro detalhe: como a Kazuko se apaixonou por aquele cara?

Acho melhor parar de devanear antes que eu descubra um buraco no espaço-tempo.