O Diário da Escrava Amada

Anelise Vaz · Capítulo 51 de 56

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O Diário da Escrava Amada

Capítulo 55 · É mesmo só um papel?

 

 

Hoje é domingo. Eu sempre reclamo dos finais de semana serem curtos e não sou só eu, tenho certeza.

É pouco depois do almoço agora. Kazuko foi colocar Takumi para tirar o cochilo da tarde dele. Eu estou esperando-a para continuar a assistir uma série. Vou aproveitar a espera e ler mais um trecho agora. Li um ou dois ontem a noite, então o próximo trata-se do meu 24º aniversário e onde eu e Kazuko tivemos outra mudança radical em nossas vidas. E não foi boa para nenhum de nós, mas só percebi isso um bom tempo após.

Comecei a leitura pelo trecho seguinte.

“Diário,

Acho que é oficialmente a última vez que lhe escrevo.

Estou definitivamente de volta a casa de minha mãe. A minha casa.

Pode parecer surreal, mas Makoto me alforriou na noite passada, no aniversário dele. Ele acabou de me deixar aqui, com todos os meus pertences.

Até agora não caiu a ficha do que aconteceu. Calma, eu vou recapitular o dia de ontem, para ver se me ajuda a entender.

Makoto saiu para trabalhar, como em todos os dias. Claro que dei os parabéns a ele, junto com o presente.

Passei o dia preparando as coisas para a festa surpresa que planejei. Chamei Koishiro, Minami, Minori, Shiori, Kyosuke, Akira e a família da Keiko. Uma coisa bem pessoal e fechada mesmo.

Perto do horário dele chegar do trabalho, já estavam todos aqui. Eles se esconderam quando recebi a ligação da pessoa que fica na entrada do prédio. Quando ele chegou todos gritaram: Surpresa! Foi maravilhoso ver a expressão dele! Ele abraçou todos, agradeceu o presente e depois veio comigo:

– Você quem armou isso, não foi?

– Exatamente.

– E eu nem desconfiei. Como?

– Só tratava disso quando você estava fora, então nem fazia ideia.

– Me enganou bem!

Ele me deu um beijo!

Era uma festa, aniversário, tudo correndo bem ou eu pensava assim, porque algumas horas depois tudo simplesmente virou do avesso.

Depois de cantar os parabéns, de comer o bolo que eu e Keiko fizemos, todos partiram. Ficamos apenas eu e Makoto em casa!

Infelizmente, eu não tinha o outro presente que queria dar a ele. Não deu certo de novo. Quanto tempo mais precisaria? Nem sei! E na verdade, acho que não me importa mais.

Makoto e eu fomos ao quarto, era o dia sim para a transa, seguindo as novas “regras”. Só que ele queria falar algo comigo antes, algo importante.

– O que é isso? – questionei, lendo depois – Carta de alforria? Makoto... – meus olhos marejaram – Você... Obrigada! – sorri

Lembro que disse ser só um pedaço de papel, mas o ato dele me libertar, isso tem grande significado.

– Tem outra coisa: quero que volte para a sua casa.

– Como assim? Eu quero ficar aqui, com você.

– Essa é minha última ordem, Kazuko. – ele disse com uma lágrima solitária caindo – Eu não quero mais que sofra por minha causa, por conta desse bebê que nunca vem. – já estava com o rosto molhado – Não quero que fique presa a mim dessa forma.

– Makoto, eu quero ficar. – chorando também

– Eu quero que seja livre e realize todos os seus sonhos. – ele respondeu

– Você sabe que meus sonhos mudaram.

– Mas tem um que nunca mudou: seu desejo de ser livre.

– Isso é verdade, mas eu quero ser livre ao seu lado. Não posso?

Ele não deu resposta, apenas sentou-se na cama, aos prantos. Abracei-o, mesmo sem entender muito bem os pensamentos dele.

– Amanhã arrume suas coisas. Te levarei de volta para casa.”

Recordando isso agora, eu noto o quão louco parece.

Meu eu do passado – de um passado nem tão distante, se for pensar direito – achava-se culpado por todo o sofrimento a Kazuko do passado.

A única forma que vi para me libertar dessa angústia era libertá-la. Deixá-la ir! Mesmo que meu coração quisesse que ela ficasse. Eu queria mesmo era que ela seguisse a própria vida sem mim. Eu não me achava merecedor do amor que ela nutria por mim. Ela era muito e eu, só um cara rico, que levava um dia de cada vez. Comprá-la mudou e muito a minha vida.

Apesar do medo que sentia, em muitos momentos, ela se mantinha sempre otimista. Soube esconder muito bem o que sentia por mim por um bom tempo. Só soube quando ela própria me disse.

Por essas razões e, principalmente, por amá-la, queria vê-la livre.

“– Está falando sério, Makoto? – não acreditava

– Estou. – e me beijou, então fiquei ainda mais perdida – Será feliz, com certeza. – olhou para mim – Mas ainda tenho um pedido: passa essa última noite comigo?

Dei-lhe outro beijo e logo ele me jogou na cama. Tirando minhas roupas e acariciando meu corpo inteiro. Depois fiz a mesma coisa com ele.

Logo ele penetrou e eu gemia enquanto nossos corpos atritavam e nós suávamos. Não demorou para Makoto cair exausto em meu peito, voltando a chorar.

– Vou sentir tanto a sua falta. – disse

– Você pode me visitar e eu posso te visitar. Não é o fim, Makoto.

– É sim, amanhã acaba tudo entre nós.

– Por que está fazendo isso?

– Eu não quero mais ser seu dono, Kazuko?

– Mas você é meu namorado também.

– Não acho que mereço ser.

– Makoto, eu não te entendo.

– Não entenda. Só aceite.

Então comecei a chorar, ele estava terminando comigo, de uma forma que nunca imaginei que seria.

Pensando agora, ele fez isso porque me ama. Aprendi que o amor é estranho algumas vezes. Mesmo com tudo aparentemente bem entre nós, ele quis me ver livre e longe dele, porém feliz. Um amor ao ponto de se sacrificar e abdicar da própria felicidade em prol do seu amado.

Será que o Makoto não me merece mesmo? Eu voltaria agora para a casa dele e ficaria lá. É o que eu quero! Contudo, respeitarei a última ordem e desejo dele: de que seguir minha vida e ser feliz.

Só não poderei controlar se pensarei nele o tempo todo ou não.

Espero que ele fique bem, que encontre alguém e tenha sucesso na carreira. Queria fazer parte disso, mas ele não deseja minha presença.

Então agora sou uma escrava liberta, ou seja, ex-escrava, não escreverei mais aqui. Deixarei guardadas aqui minhas experiências para relembrar, para parentes ou outras gerações. Estou triste, admito, eu perdi o homem que eu amava. Estou escrevendo isso e chorando.

Enfim, acho que este é o último adeus, diário.

Eu e Makoto seguiremos nossas vidas, separados. Obrigada por ter sido testemunha do amor diferente e conturbado. Obrigada por ser meu companheiro nos momentos bons e ruins. Preenchi-te com estas histórias. Proteja-as bem!

Obrigada e adeus!”

Parece até que esse é mesmo o último trecho do diário. Só que não!

Cerca de um mês depois ele foi revisitado pela Kazuko, porque ela cometeu uma loucura.

Mas, esta é uma leitura para outra hora. A Kazuko do presente voltou e vamos curtir um momento só nosso agora.

Bem simples, bobo, comum, mas nosso!