O Diário da Escrava Amada
Capítulo 60 · O último “capítulo”
Acordei na manhã seguinte com o meu corpo coçando e se doendo todo, como uma forma de pedido para que eu fosse ler o diário e ignorasse até mesmo as minhas necessidades fisiológicas. Mas, não pude mesmo ignorar o “chamado da natureza”. Depois disso, sai de fininho do quarto, deixando Kazuko e Takumi dormindo igual a dois anjinhos.
Peguei o diário, sentei no sofá e abri para ler as últimas páginas que restavam.
“Não sei nem o porquê, mas reencontrei este antigo diário dentre minhas coisas. Eu devo ter deixado no fundo de uma gaveta e hoje, ao mexer no armário, ele caiu de algum lugar. Acho que nunca vou saber de onde! Só lembro que queria escondê-lo de Makoto.
Deve ter bem mais seis meses que eu escrevi pela última vez.
Confesso que parei a arrumação do armário e estou aqui, relendo algumas partes e rindo do meu eu do passado. Admito que não foi uma época nada fácil da minha vida. A vida que eu conhecia me foi tirada da noite para o dia, com o aviso prévio de menos de um dia em que mal tive tempo de me preparar psicologicamente, arrumar minhas coisas – e que nem pude levar muitas – e me despedir da minha família. Achei que nunca mais os veria por um bom tempo e num último suspiro de liberdade fui numa loja perto de casa e comprei um caderno, do mais simples que achei, mas ainda assim com bastantes folhas. Dai para frente tudo o que aconteceu está registrado.
E só me pego pensando em como aquela menina não fazia ideia de como a vida dela ia mudar, no bom sentido. Não vou dizer que foi tudo uma maravilha, que foi um conto de fada. Senti-me subjulgada e menosprezada inúmeras vezes enquanto fui escrava. Até pelo próprio Makoto. Só que no fundo eu sabia que ele não era assim, ele fazia o que fazia por achar que este era o papel dele. A mesma sociedade que me botou no papel de escrava o colocou no papel de dono e nenhum de nós quis segui-los em dado momento. Claro que no começo nos estranhamos, mas o tempo construiu e moldou a nossa relação.
Agora estou aqui, sentada na escrivaninha do quarto em que durmo com Makoto todos os dias, porém como esposa dele e não escrava como antes. Descobrimos o amor na situação menos propensa para isso. Mas, isto é detalhe!
Bem, da última vez que escrevi foi quando eu e Makoto finalmente nos casamos e me mudei definitivamente para cá. Depois que terminei a escrita que eu guardei o caderno e me esqueci dele, já que não precisava mais dele.
Ironicamente, é a época que mais teria coisa para contar num diário. Só que aprendi uma coisa: felicidade se aproveita. Contudo, senti uma vontade de contar os acontecimentos dos últimos meses, de uma forma resumida e isso seria uma forma de encerrar este diário. Só não sei como se faz, nunca mantive um por tanto tempo a ponto de terminar. Acredito que vai ser mais como encerrar um ciclo para poder viver feliz depois de tudo o que nós passamos.
Não vai ser felicidade plena, até porque isso é impossível, só existe nos livros que li. Mesmo assim, livros têm ciclos, assim como a vida. Talvez seja por isso por isso que ela inspira tanto. E quero encerrar essa etapa contando como ela terminou, ou melhor, como a seguinte está começando.
Minha gravidez seguiu bem até o final. Makoto me fez continuar comendo tudo certinho para que Takumi recebesse todas as vitaminas necessárias para crescer na barriga e nascer forte e saudável. Sempre ia as consultas acompanhada, fosse da Keiko, da minha mãe ou de Makoto. Rin também era super atenciosa e prometeu que estaria comigo no dia do meu parto.
Também fizeram um chá de bebê. Isso foi ideia das minhas três sogras – é tão estranho chamá-las assim. Elas também tiveram isso com seus filhos e me disseram que nunca viram ninguém do “nosso antigo lado” fazer esse tipo de festa.
Para os ricos, um filho é uma coisa boa. Para os pobres, é mais um que quando crescer um pouco vai para o centro de escravos e pode ser tirado de você a qualquer momento. Ainda fico sem acreditar que meu filho sempre será livre, diferente de mim, da minha mãe, da minha avó. Takumi terá o futuro dele para ele. Queria muito que outras mães pudessem dormir tranquilas como eu posso. Eu só queria mesmo que essa escravidão acabasse e que mais nenhuma criança fosse vendida como brinquedo de ricos.
O dia que Takumi nasceu foi com certeza um dos mais felizes da minha vida. Ele está com uns três meses agora e ainda consigo quase sentir o peso da barriga em alguns dias. Só que ai eu olho o bebezinho dormindo no berço e me pego pensando se tudo isso é real mesmo.
Lembro que fiquei uns dias sentindo uns desconfortos aqui e ali, a Rin tinha me alertado sobre isso. Até que na madrugada do dia em que ele nasceu, acordei com a sensação de que os ossos do meu corpo se quebravam e latejavam. Era uma dor que vinha da lombar para a parte da frente. Tentei ficar deitada um pouco mais, só que eu não conseguia parar de me mexer, procurando uma posição minimamente confortável. Decidi me levantar, talvez para tomar um banho quente para relaxar. Só que ao me sentar veio uma pontada. Segurei o gemido que quis soltar, não queria acordar o Makoto, já que ele tinha trabalhado o dia todo.
Sai da cama e fui caminhando a passos bem lentos, como se tivessem facas nos meus calcanhares. Cheguei ao banheiro e sentei no vaso e vi uma gosma ou líquido, ou um tipo dela, sair do meu canal vaginal. Com as minhas pesquisas, eu sabia o que isso significava.
Ai eu não tive como não acordar o Makoto. Limpei-me e no mesmo passo lento me dirigi ao lado de Makoto na cama. Cutuquei-o, chamando-o.
– Oi, Kazuko. – respondeu resmungando
– A minha bolsa estorou. Precisamos ir ao hospital.
– Ah, tudo bem. – ainda com a voz sonolenta – Já vou me trocar. – levantou-se
– Eu vou precisar de ajuda. – disse sentindo mais uma fisgada
– Tudo bem? – preocupou-se
– Sim. – respirei fundo – É uma contração, eu acho.
– Tá contando o tempo entre elas?
– Talvez de 10 em 10. Não contei exatamente. – inspirei novamente
– Senta aqui. – me ajudou
Depressa, ele pegou a primeira roupa que viu na gaveta e vestiu. Na sequência, ele procurou uma para mim. Por sorte, a contração parou e pude colocar com o mínimo de ajuda.
Confesso que achei fofinho o Makoto tremendo todo, preocupado e nervoso comigo. Eu queria mesmo era sorrir e dizer que é assim mesmo e que eu ia sobreviver. Só que eu tinha que me concentrar para aguentar a dor e se eu emitisse algum gemido, ele ia ficar desesperado.”
A gente sempre acha que vai estar preparado para este momento. Estuda, pede conselho de amigos, mas quando chega a hora mesmo, trememos e nos desesperamos porque é algo novo e sempre existe o medo do desconhecido.
E também fiquei muito sentido ao ver Kazuko com dor. Eu não faço ideia, até hoje – e olha que eu já que já vi os partos dos meus irmãos mais novos – como é essa dor. Minhas madrastas descreveram como se fossem uma cólica bem forte. Kazuko me disse o que descreveu no diário: como se os ossos de todo corpo se quebrassem.
Eu já quebrei um braço e foi a pior coisa que me aconteceu. E olha que eu era criança e lembro como se tivesse acontecido hoje.
Mesmo que não fosse suportar essa dor, gostaria muito de poder dividí-la ou sentir por ela.
“Sem muita pressa, até porque as contrações estavam bem espaçadas. Eu as contei enquanto Makoto arrumava as coisas. Saímos de casa. Claro que com algumas paradas no caminho porque tinha a dor e o detalhe de já estar andando devagar. Com um bocado de esforço chegamos ao carro. Enquanto estava em direção ao hospital, liguei para Rin e a avisei. Apesar da voz de quem acabou de acordar, ela disse que sairia o mais rápido possível.
Cerca de quinze minutos dirigindo chegamos ao hospital. Dei entrada e fui levada a maternidade. Logo me colocaram no quarto. Uma enfermeira veio me examinar e disse que estava com poucos centímetros de dilatação e que ia demorar um pouco ainda. Perguntou sobre o intervalo entre as contrações e sobre a minha obstetra. Respondi calmamente. Makoto tratou de informar sua família e a minha também. Logo Rin chegou, falou comigo e verificou como estávamos eu e o bebê. Algumas horas depois, os outros chegaram.
Passei por longas horas de dor, entre me contorcer na cama, ficar em pé, andar pelo quarto ou pelo andar do hospital. E a parte de empurrar foi ainda pior. Mas ainda bem que quando Takumi saiu, toda a dor cessou e eu finalmente pude ver o rostinho dele e foi a coisinha mais linda que eu já vi. Makoto achou a mesma coisa, pois foi o que ele falou. Koishiro estava com uma câmera a postos e conseguiu capturar este exato momento e o registro está bem na minha frente.
Ainda me pegou algumas vezes apenas olhando para ele e só admirando. É um tipo de sentimento que nunca tive por ninguém, nem pela minha mãe e nem pelo Makoto.
Minha vida não poderia estar melhor. Quando Takumi crescer um pouco quero retornar aos meus estudos, porque quero fazer faculdade.
A única coisa que penso é em felicidade mesmo que não a tenha todos os dias, ela está presente na maioria deles. Mas, uma coisa que o lugar onde nasci me ensinou foi é que nunca devemos esquecer ou ignorar o passado. Não podemos nos perder da nossa própria história. É uma das poucas coisas que não nos é tomada. São experiências e vivências que ninguém nos tira. E são as mesmas que podemos dividir com outros ao recontarmos.
Esse foi outro pensamento que tive quando decidi escrever o diário. Desabafar, colocar pra fora e poder registrar. Por isso fazia questão de vir escrever o mais cedo que podia, para poder dar o maior nível de detalhes. Em alguns dias, eu me sentia atropelando as folhas do caderno ao colocar tanta coisa. A mão doía. Perdi a conta de quantas vezes parei de escrever por raiva ou porque minha visão embaçava de tanto chorar.
Por muito tempo eu escondi esse diário de todo mundo, até do meu marido. Acho que chegou a hora de mostrar ele a alguém. E quem melhor do que Makoto? Ele viveu tudo isso comigo.
Lembro já ter me despedido dele uma vez, mas agora é definitivo. Agradeço ao objeto que personifiquei, só para sentir que estava falando com alguém e isso me ajudou em muitos momentos.
Sou grata a tudo isso!
Agora, a minha vida continua e parte dela ficará para sempre registrada aqui.”
Então, ela colocou a data e assinou.
É irônico que ela tratou esse final como uma dedicatória de livro talvez.
Terminei a leitura, debulhado em lágrimas. E foi ai que senti algo se aproximar por trás de mim, me abraçando.
– Bom dia, amor. – e percebeu meu estado – O que houve?
– Terminei de ler o diário. – falei – E ainda não faço ideia do porquê chorei lendo essa parte especificamente.
– Tudo bem. Não precisa me explicar. – sorriu, tentando me animar – Fica ai que eu preparo o café. Aproveita e acorda o Takumi para ele comer conosco.
Fiz conforme ela pediu com meu rosto todo molhado. Sentamos a mesa e uns minutos depois, ela trouxe a comida. Puxei assunto durante a refeição:
– Você quis que eu lesse o diário?
– Sim. Afinal, toda história tem dois lados. Eu queria que soubesse o meu.
– E se eu te dissesse que mais pessoas deveriam ler?
– Eu não sei. Podemos conversar sobre isso.
– Acho que se fizermos, vai ser algo importante.
Espero conseguir convencê-la a colocar esta história no mundo.
– Alias, tenho uma sugestão de nome, somando o que você botou na capa: O Diário da Escrava Amada.