O Diário da Escrava Amada

Anelise Vaz · Capítulo 39 de 56

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O Diário da Escrava Amada

Capítulo 43 · Viagem Especial

 

Mais uma semana se passou, muito ocupada e ainda teve um outro evento: o nascimento da minha irmã Umi.

Eu não pude assistir ao parto porque estava em reunião com um cliente que apareceu de repente. Só pude sair após ouvi-lo por horas a fio. Mentalmente estava pedindo socorro!

Ainda busquei Kazuko e Takumi em casa e fomos ao hospital. Chegamos ao quarto e estavam meu pai, Minami, Minori, Kyousuke, Akira e claro, Shiori. Minha irmãzinha estava num berço ao lado da cama.

– Caramba, filho, vocês demoraram. – meu pai falou

– Desculpe. Um cliente chato ficou horas conversando comigo.

– E ainda foi nos pegar em casa. – Kazuko completou

– Que bom que vieram, de qualquer forma, mesmo sendo um tanto tarde. – Shiori falou

– Tinha que ver minha irmãzinha.

Cumprimentei os outros e passamos um tempo lá conversando. Minha irmã é a coisa mais fofa que já vi. É raro nascer meninas em minha família.

Claro que comentaram sobre o parto, com detalhes que muita gente detesta ouvir. Parece-me que correu tudo bem.

– Ele fala isso porque não é ele quem sente a dor. – Shiori ironizou

Foi uma gargalhada de todos dentro do quarto. Então, Rin, a médica da família e amiga, entrou.

– Ora, vejo que estão todos aqui finalmente.

Rin só perguntou a Shiori como ela estava se sentindo e verificou sua recuperação. Ela estava preocupada com sua paciente estar com visitas no quarto, assim não ficaria quieta para descansar. Porém, só o marido ficaria para dormir, o resto retornaria. E foi o que aconteceu em seguida. Levei minhas madrastas e meus irmãos para casa e voltei com Kazuko depois.

Chegamos e Kazuko pôs a mesa enquanto eu esquentava a comida que Keiko deixara pronta para nós. Ela colocou Takumi na cadeira dele, que é própria para bebês e arrumou o prato dele e eu levava as travessas com a comida, pratos e talheres para a mesa. Logo minha esposa se juntou a mim. Aproveitamos a comida e Takumi não parecia ter fome, mas Kazuko empurrava a comida na boca do menino. Até que ele fez barulho com a boca e foi sujeira na Kazuko, na toalha de mesa e até em mim.

– Takumi, olha os modos. – Kazuko gritou

– Ele não tá com fome, amor.

– Eu sei, mas se não comer agora, na hora de dormir não vai largar meu peito.

– Vai ver é isso que ele quer.

E o moleque fez de novo. Ela colocou o prato de comida dele na mesa e pôs a mão na testa, desistindo. Levantei e fui tentar, mas ele continuava na mesma. Então resolvi usar minha experiência em argumentação com ele.

– Ei, cara, vai mesmo rejeitar essa comida gostosa que a mamãe fez para você? – ele me olhou sério – Tem tudo o que você gosta, tem arroz, cenoura, carne. Vai dizer que não gosta de carne? – tentei dar comida e nada – Já deixo avisado que a mamãe é minha hoje. Se não comer vai ficar com fome. – fui eu com a colher na boca dele e ele abriu o máximo que pode – Muito bem! – sorri e garoto comeu até o final

Kazuko me olhou em choque.

– Que foi? – perguntei

– Nada, só não esperava isso.

– A gente precisa negociar algumas vezes.

Continuamos a refeição e conversamos:

– A Umi é tão fofinha, parece com a Shiori. – Kazuko comentou

– Verdade.

– Só de vê-la me dá vontade de ter outro. Quero dar uma netinha pro seu pai.

– Vamos com calma, Kazuko. Deixe Takumi crescer um pouco.

– Claro. Não quero ter dois bebês para cuidar. Um já dá trabalho, imagina dois.

Depois ela me perguntou do trabalho e o assunto seguiu dai. Arrumamos tudo depois e nos preparamos para dormir. Tomei banho primeiro e ela foi com Takumi depois. Decidi matar o tempo até ela sair para ler mais um trecho do diário, que era de mais uma viagem à casa de praia, quando a pedi finalmente em namoro.

“Diário amado,

Estou muito feliz, por isso lhe chamei assim.

Lembra que falei que Makoto e eu iríamos para a casa de praia nesse fim de semana? Saímos naquela noite mesmo, horas dentro do carro.

Chegamos de madrugada e cansados, só nos jogamos na cama e apagamos. Só acordamos no quando o Sol atravessou os vidros da janela e nos incomodou. Levantamos ao mesmo tempo e descemos para comer, usando o que trouxemos de casa. Depois trocamos de roupa e fomos direto à praia para aproveitar o Sol e brisa matinais. Demos um tempo antes de mergulhar e a água estava maravilhosamente gelada.

Almoçamos em casa mesmo e passeamos pela cidade, especialmente a área comercial. E eu praticamente obriguei Makoto a comprar algumas roupas mais leves, para usar nas férias. Ele só tem roupa de trabalho ou pijama. Que nervoso! Renovamos o guarda-roupa dele, graças a mim: Kazuko consultora de moda. E também uma ou outra coisa para mim.

A tarde de compras passou muito rápido, quando vimos já tinha escurecido e a fome veio junto. Procuramos um restaurante para jantar e encontramos um que ficava de frente para a orla (e perto da casa, para o retorno ser mais rápido). Nosso pedido foi a coisa mais clichê possível: Peixe.

Comemos, pagamos e no caminho de volta, conversávamos:

– Divertiu-se hoje? – ele perguntou

– Claro! Quem não gosta de fazer compras, não é mesmo?

– Eu nem tanto assim. – levou a mão da sacola de roupas – Mas ganhei uma parte nova no armário.

– Você só tem terno e gravata. Que agonia!

– Eu não saia tanto assim antes. Você que me faz ficar mais tempo fora de casa.

– Me culpando então?

– Exatamente!

Xinguei-o e dei-lhe um tapa no ombro, rindo junto com ele. Logo chegamos, entramos e ele disse, se espreguiçando:

– Quero só um banho e cama. Foi um dia longo.

– De fato!

Obviamente, não eram só essas duas coisas que ele queria. Tinha uma entre elas, chamada sexo. Vou ser sincera que eu queria também. Após isso, pegamos no sono.

Acordei no dia seguinte com um cheiro bom vindo do andar de baixo.

Nem tive preguiça, em cinco minutos tinha descido.

– Bom dia, Kazuko. Estava terminando e ia te chamar. – Makoto disse sorrindo

– Foi esse aroma que me acordou.

– Imaginei. Aconteceria a mesma coisa comigo. – trouxe um prato e se sentou a mesa – Pronto agora podemos comer.

Era um café da manhã em estilo americano, com direito a ovos, bacon e torradas.

– Gostoso! – falei com a boca cheia – Nunca comi nada assim, não no café.

– Eu sei. Por isso que eu fiz.

Apenas sorri. Aproveitamos o resto da refeição conversando sobre outras coisas. Quando terminamos, ele disse:

– Coloque seu biquíni. Vamos naquela praia atrás da colina. Preparei umas coisas para fazermos um piquenique lá.

Fiz conforme ele disse. Acho que essa foi a razão do café reforçado, a caminhada até a “praia secreta” era longa. Chegamos lá quase meio-dia, já que tínhamos acordado um pouco mais tarde. E claro, o percurso deu fome. Esticamos a toalha e nem arrumamos bonitinho para comer, o estômago não deixou. Abrimos a cesta e pegamos dali mesmo. Demos um tempinho e fomos mergulhar. A água estava deliciosa e bem calma, sem muitas ondas. O melhor de tudo isso é que estávamos apenas nós dois ali.

As horas passaram depressa. O Sol estava se pondo e eu fiquei preocupada com a nossa volta, pois o local da trilha tinha a mata bem densa. Transpareci isso falando:

– Makoto, logo vai escurecer. É melhor irmos. – levantei-me

– Kazuko, calma. – ele segurou meu pulso – Trouxe uma lanterna boa e que vai ajudar no caminho.”

Eu só pensava: por favor, Kazuko, não estraga o clima. Eu quero te perguntar algo importante.

“Bufei e sentei novamente.

– Aproveita a vista. A gente não precisa ter pressa para nada aqui. É uma viagem para relaxarmos. – acariciou meus cabelos

E assistimos a grande estrela ir desaparecendo na linha do horizonte, até se misturar com a água. Foi quando Makoto me pegou desprevenida, completamente desprevenida.

– Kazuko, lembra que eu revelei meus sentimentos por você aquele dia?

– Por que não me lembraria?

– Ainda não me deu uma resposta.

– Resposta? – engoli a seco, um pouco nervosa

– Se corresponde a esses meus sentimentos ou não. O que sente por mim, Kazuko?

Eu sabia perfeitamente o que dizer, mas não como. Havia um medo secreto em mim, por conta de todas as histórias de ex-escravas que se apaixonaram por seus donos que chegaram aos meus ouvidos. Um silêncio se formou entre nós, só se escutavam as ondas chocando-se com a areia. Makoto disse:

– É só falar se sim ou não. – olhou para mim

A boca travou. A língua imóvel e os lábios pareciam unidos por cola. Esforcei-me muito para finalmente emitir algum som. E foi de uma vez, para ser o menos indolor possível, usando todos os culhões que nunca usei na vida inteira:

– Sim! Eu amo você, Makoto.

E ele deu o sorriso mais sincero que já vi e falou:

– Eu também amo você, Kazuko!

E o mais natural aconteceu: um beijo.

Ficamos por lá mais um pouco antes de voltarmos, pela trilha mesmo, a maré estava alta para contornar a colina por fora nessa época. Passávamos pela outra praia antes de chegar a casa, quando ele me pegou de novo de surpresa:

– Kazuko, o que acha de namorarmos? – de uma maneira não-tão-romântica, confesso – Sem fantasias, de verdade?”

Tratei de explicar, pois já fingimos ser um casal antes. Provavelmente ela pensou ser outra fantasia minha.

“– Você está brincando né, Makoto? – indaguei, incrédula

Então ele parou e falou, virando para mim:

– Acha mesmo que é brincadeira? Eu terminei com a Kana porque percebi que sinto algo por você. E, eu não quero mais que me veja como seu dono. Quero ser algo além e melhor do que isso: um homem que te ama.

– Então, eu aceito. – sorri – Como a mulher que te ama. Não como sua escrava.

E, de uma forma diferente, com um abraço, nos tornamos namorados.

– Mas vai ser nosso segredo por enquanto. – ele completou

Assenti apenas.

Terminamos o caminho e de tão cansados, só tomamos banho e dormimos. Retornamos hoje de manhã. Makoto está trabalhando em casa e eu estou aqui.

Era só isso que queria lhe contar. Não consigo conter minha felicidade.”

E o trecho acabava aqui, sincronizando com a saída do banho. Takumi foi colocado no berço quase dormindo e Kazuko deitou ao meu lado e perguntou:

– Já leu seu capítulo?

– Sim!

– E o que aconteceu nele?

– Te pedi em namoro.

– Eu lembro. Do jeito mais anti-romântico possível.

– Estava nervoso, me dá um desconto.

– Tudo bem, tava na mesma naquele dia. – e riu – Boa noite, amor.

– Boa noite, querida.

Apagamos as luzes dos abajures e fomos dormir.