O Diário da Escrava Amada

Anelise Vaz · Capítulo 50 de 56

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O Diário da Escrava Amada

Capítulo 54 · Algo Estranho

 

E aqui estou, novamente, para ler o diário, como tenho feito por uns bons meses. Revistando tanta coisa que eu perdi a conta das memórias que me foram despertadas.

Hoje é um sábado, daqueles bem preguiçosos, por conta da chuva lá fora. Um tempo que pede cobertas e um bom filme, ou no caso, um “livro”.

Avancei um pouco na leitura nos últimos dias, chegando em outra parte crítica do passado, mas que foi só para mim. Kazuko não sabia e nem fazia ideia do dilema em que me encontrei.

Não suportava mais vê-la sofrer, especialmente depois daquela situação no jantar. Estava chegando a um ponto em que nós estávamos desgastados e nossa relação também estava, por consequência de todos os meses de tentar ter um filho e sem sucesso.

Então, sei lá por que pensei que eu tinha uma culpa nisso. Na verdade, já tinha um bom tempo que eu queria fazer isso. Eu queria dar a alforria a Kazuko. Eu já não a via mais como escrava e achava que isto a deixava muito presa a mim, de uma forma ruim. Resolvi aprontar os documentos e dar entrada no pedido, que demorava umas duas semanas até sair a carta de alforria. Mas, claro, Kazuko percebeu que algo de errado não estava certo. Eu sou péssimo em disfarçar.

Sentei-me no sofá da sala, enquanto os outros membros da família não acordavam.

“Querido diário,

Tem algo de estranho acontecendo com o Makoto. Ele chegou bem mais tarde que o habitual hoje. Tem mesmo uns dias em que ele chega atrasado, mas ele não é evasivo em suas respostas.

– Eu estava resolvendo umas papeladas. Apesar de ser esta era, ainda precisamos disso. Temos tanta coisa avançada, mas isso não. – foi o que ele disse

Sabe quando você nota que tem algo diferente acontecendo? Pois é!

Tava muito na cara dele. Mas, não quis perguntar, só para não irritá-lo, porque ele também parecia preocupado.”

Viu? Eu sou um péssimo mentiroso. Ainda fico impressionada que, mesmo assim, sou um bom advogado. Ou será que não sei contar as minhas mentiras?

“Ele foi tomar banho e se trocar para o jantar. Cheguei a comentar com Keiko sobre o que notei, mas ela disse que talvez fosse algo muito pessoal do cliente e ele não podia contar.

Resolvi não tocar no assunto para evitar mais atritos. Já estamos com muitas complicações, não precisamos de mais uma. Por causa desse bebê, que não vem, minha relação com Makoto está um pouco morna. Não sinto que somos o mesmo casal apaixonado do começo do namoro. Em certos momentos, a hierarquia escrava e dono ainda aparece, só para me lembrar do que realmente me mantém junto a ele além do coração.

Foi ele quem me deu a ordem para que tivéssemos um filho. E isso pesa nos meus pensamentos algumas vezes. Pode ter algum momento em que ele vai desistir e dizer para não tentarmos mais. Sinto que isso até está mais próximo de chegar. Ou será que ele está planejando outra coisa para mim, como me libertar? Espero que seja só ideia mesmo.

Jantamos conversando normalmente, mas suas ações estavam receosas, como se tivesse medo de escorregar na fala. Não resisti e perguntei:

– Makoto, aconteceu alguma coisa? Você está estranho desde que chegou.

– Estou aflito com um caso que peguei do escritório. Muitos documentos para pegar e coisa para pedir, por isso cheguei bem tarde hoje. É um caso complexo e extenso.

Dessa vez, eu vi que ele dizia a verdade, ou usou bem o poder de advogado para me convencer. Apenas demonstrei apoio.”

Bem, tecnicamente eu disse a verdade. Só não dei nome a alguns detalhes. Num caso desses de verdade velada, eu consigo falar sem levantar suspeita.

“Só aquela pulga atrás da orelha ainda ficou lá.

Prometo ficar de olho nisso!

Deixa eu ir lá, hora de dormir!”

Nem sinal ainda de que alguém levantou ainda. O que isso quer dizer? Bem, mais leitura. Um belo pulo de uma semana no tempo. Meu aniversário já se aproximava de novo no calendário.

“Diário,

O comportamento estranho do Makoto parou. Acho que era só coisa mesmo da minha cabeça, ele estava preocupado com o trabalho só.

E quanto as nossas tentativas? Bem, ainda estamos só nisso mesmo. Seguindo a risca o tratamento e recomendações da Rin, nossa média de transas semanais foi para três ou quatro. Acho que isso melhorou a qualidade. E é bom só dormir junto mesmo. Aprendemos a valorizar os momentos juntos, nem que seja só para ficar deitado ou ver um filme. Coisas simples, que tem horas que apenas esquecemos por conta da correria ou de outros problemas. E isso pode trazer dificuldades às relações.

Ultimamente, eu e Makoto também estamos brigando por coisas bobas. Uma palavra dita errada e pronto. Porém do mesmo jeito que ela surge, a gente se acerta.

Nunca namorei na vida, então não tenho experiência com isso. Talvez seja assim mesmo, altos e baixos, um dia de cada vez.

Percebi, nesse pouco tempo que o amor também é algo que se constrói e se alimenta também, porque ele pode sofrer e também morrer, acabar. Qualquer tipo de amor é assim, creio eu, especialmente o romântico, o de casais, essas coisas que a gente aprende nas aulas de literatura.

Então, quero fazer algo pela data que se aproxima: aniversário do Makoto. Ele não é fã do próprio aniversário, só que eu penso ser uma data importante, pois se trata do dia que chegamos aqui e começamos nossas trajetórias. Nesta data é mais um ano que se completa de missão cumprida. Sempre passamos por desafios dos mais diversos, então, só de estar aqui já é muito coisa.

No ano passado, tive o pior aniversário da minha vida. Só que ficou no passado, como as coisas ruins ficam. Já as boas eu guardo nas lembranças. Por isso, quero preparar uma surpresa mais que maravilhosa para ele.

Ainda tenho um tempo para planejar e quem sabe não vem com outro presente junto. Conversarei com a Keiko para ela me ajudar. Vou comprar presente, fazer bolo e decorar a casa. Chamar as pessoas mais próximas, mais família e os íntimos. Acho que ele prefere assim.

Agora deixe-me ir porque ele já deve estar chegando.

Beijos, Diário. Até breve!”

Fechei o diário e liguei a TV. Coloquei num filme que já vi várias vezes, mas nunca perco uma chance de revê-lo quando está passando.

Logo, Kazuko e Takumi apareceram, com mais fome que eu talvez.

– O café está pronto, amor? – ela indagou

– Não! Estava esperando vocês acordarem.

– Deixe-me adivinhar: lendo o diário?

– Não. Vendo filme.

– Finge que me engana, Makoto, que eu gosto.

E rimos. Bobeiras!

– Isso me lembra o que você do passado falava no diário. – comentei

– Sobre aproveitar as coisas mais simples?

– Isso mesmo!

– Eu sigo isso até hoje. Foi uma coisa que você me ensinou. – sorriu – Agora, podemos comer?

Assenti e fomos nós três até a cozinha preparar a primeira refeição do dia.