O Diário da Escrava Amada
Capítulo 50 · Sonho de ser pais
Algumas semanas passaram, entre sessões de leitura do diário, longos julgamentos no tribunal, finais de semana e claro, preparativos para o aniversário do Takumi. E bem, era finalmente o grande dia. Decidimos alugar outro local para evitar ter que ficando arrumando alguma casa depois. Era uma festa grande e com uma boa quantidade de convidados, tanto da família de Kazuko quanto da minha e os nossos amigos. Devia ter umas cem pessoas.
Como o meu eu do passado, de pelo menos uns dois anos atrás, ia imaginar estar fazendo o 1º aniversário do filho, ou melhor, que ia ter um filho? Se bem que pelas minhas contas era mais ou menos essa época que eu e Kazuko começamos a tentar ter um filho. Só que não foi tão fácil, ainda mais no início.
Voltando a festa. Escolhemos um tema de um desenho que ele gosta, sempre fica fixado assistindo.
Takumi estava até feliz, animado abraçando as pessoas, pegando os presentes, rasgando os embrulhos, tirando foto. Nunca vi aniversariante mais animado. Todos estavam se divertindo, ainda mais com essa alegria dele. E a nossa casa vai ficar mais abarrotada de coisas, por causa desses presentes.
Kazuki me deixou com Takumi a festa toda, enquanto dava atenção aos convidados. Nem reclamo disso, ela passa todos os dias com ele e se empenhou muito para que o evento ocorresse. O mínimo era que ela aproveitasse.
Só que tem que ter disposição para seguir a energia do meu filho. Ele não parava um segundo. E que bom que tinha outras crianças para brincar com ele, incluindo meus meio-irmãos: Kyosuke e Akira.
Em certo momento, sentei a mesa com meu pai, enquanto ele olhava os filhos dele e eu, o meu. Ele comentou:
– Me lembro o quanto me fez ficar correndo atrás de você quando era do tamanho do Takumi.
– E minha mãe?
– Ela ficava rindo. Eu não tinha muito jeito naquela época. – suspirou –
Acho que ela ia gostar de estar aqui, curtindo o neto dela.
– Não a conheci direito, mas se diz...
– Sua mãe amava você. Ela dizia que era a melhor coisa da vida dela. Eu me pego pensando nela algumas vezes, dá saudade. – Kazuko passou perto de nós e sorriu – E a Kazuko me lembra muito dela, especialmente o jeito.
– Só não chora, pai. Hoje é um dia feliz! Se bem que... Podemos chorar!
– Já parei de chorar por isso há anos. Suas madrastas que finalmente fecharam minhas feridas.
– Eu sei. E Kazuko fechou as minhas.
Akira nos interrompeu chamando para entrarmos na brincadeira.
Aquela festa me recordava a minha própria infância, todos os meus aniversários. Talvez fosse diferente se Kazuko não me contasse da gravidez. Mas, isso é assunto mais para frente no diário, com certeza. Takumi veio bem depois daquilo tudo, ele foi quase surpresa. Enfim, o que importa é que ele está aqui e é a melhor coisa de nossas vidas. A gente se sente importante e até especial quando tem alguém tão pequeno e indefeso aos nossos cuidados.
Não tardou muito até cantarmos os parabéns, cortar o bolo e as pessoas começaram a ir embora. Sempre acontece isso! Kazuko, eu e Takumi (já apagado de tanto cansaço) fomos os últimos, obviamente. Chegamos com um carro lotado de coisas, decidi retirar apenas na manhã seguinte. Só tinha força para chegar ao quarto e dormir.
Nós três tomamos banho praticamente com os olhos fechados. Nem sei como encontramos a cama para deitar. Talvez seja pelo costume e por conhecermos a nossa própria casa. Nem sei como dormi, quando dormi, só dei por mim ao acordar mesmo. Um bocejo longo e uma espreguiçada de estalar as costas. Apesar disso, o corpo não quis levantar, mesmo com tantas horas dormidas e a disposição estava em zero.
O diário estava ao meu lado, na mesinha de cabeceira. Na vontade de permanecer deitado pelo menos mais alguns minutos, estiquei o braço e o peguei. Abri na parte em que parei e o trecho era mais ou menos um mês depois do começo do tratamento.
“Diário,
Acho que estou um pouco ansiosa porque alcancei um mês de tratamento e bem, estou com atraso na minha menstruação. Sei que não posso me precipitar tanto, mas há uma ponta de ansiedade de que o atraso seja por um bom motivo.
Nem vou comentar nada com Makoto ainda, porque ele está acho que até mais ansioso e animado que eu.
Melhor não alarmar ninguém com isso! Até porque Rin me falou que esses atrasos são totalmente normais, especialmente porque também tinha parado de tomar o remédio e que não era para me preocupar.
A minha ansiedade foi afetada pelo passeio que eu e Makoto fizemos hoje. Ele quis fazer uma surpresa quando fomos ao shopping hoje. Não era um passeio inocente. O safado resolveu ir à loja de bebês e que íamos sair de lá com alguma coisa.
– Precisa mesmo? – questionei – Acho que é um pouco cedo demais para isso, Makoto.
E você não faz ideia da vergonha que eu fiquei com as perguntas do vendedor para nós e ter que responder não a todas elas.
– Mas estamos querendo ter um. – Makoto completou por fim
– Ah, sim. Vieram pesquisar então?
– Isso também! – sorriu e eu querendo enfiar a minha cara embaixo da terra, igual avestruz
– Fiquem a vontade! Qualquer coisa só me procurar.
Só foi então que Makoto me percebeu quase escondida atrás dele.
– Que isso, Kazuko?
– Vergonha.
– Não estamos fazendo nada de errado.
– Eu sei, mas você já tá querendo comprar berço e nem tem nada nessa barriga ainda.
– Não vamos comprar um berço, só algumas roupinhas e brinquedos.
– Menos mal. – respirei alividada – Tava assustava já!
– Mas vai me dizer que não está animada para quando formos fazer isso?
– Claro que estou!
Então, começamos a passar pelos corredores e nesse momento meus olhos brilharam, porque tinha tanta coisa fofinha e se bobeasse, levava todas. Porém, me controlei e escolhi só três.
– Viu? Até que não foi ruim. – ele falou quando saímos
– Avisa da próxima vez.
– Quis só fazer uma surpresa, Kazuko.
– E me matar do coração, né? – ri – Tudo bem! Só não preciso passar essa etapa do questionário.
– O vendedor não sabia.
– Que eu esteja grávida da próxima vez.
– Tá bom, Kazuko. Cheia de exigências e nem tem bebê nessa barriga ainda. – ironizou
– Respeite a futura mãe do seu filho.
– Respeito com o pai. – respondeu
E rimos dessa bobeira que só nós fazemos.
Após isso, continuamos andando pelo shopping, compramos mais algumas coisas – que não eram para bebês e nem crianças – e jantamos por lá mesmo. Comendo o tradicional sushi, que eu inclusive comi apenas uma vez na minha vida fora esta: na minha formatura do colégio.
Logo voltamos para casa e estou aqui lhe escrevendo.
Bem, ainda bem que o Makoto não percebeu meu atraso nas regras. Vamos ver quanto tempo vai levar para tal.
Agora vou dormir.
Boa noite!”
A leitura me deixou mais disposto para continuar deitado e ler mais um trecho.
Kazuko ainda apagada ao meu lado, como certeza por estar com dobro de cansaço. Ela fez o possível e o impossível para que essa festa acontecesse. Ela merece dormir. Não vou incomodá-la. Talvez só olhar um pouco o quanto ela é linda até dormindo.
Segui para a anotação seguinte, que se tratava da primeira ansiedade de um possível bebê. A data era do dia posterior.
“Olá Diário,
Lembra que eu falei do meu pequeno atraso no ciclo?
Pois é, era só atraso mesmo. Já sabia disso e nem fiquei surpresa quando acordei de manhã e vi que minhas roupas sujaram um pouco de sangue. Porém, só porque eu comentei, Makoto notou que estava atrasada, ou melhor, suspeitava e resolveu perguntar:
– Kazuko, suas regras vieram? – acho engraçado que ele não diz o nome da coisa mesmo
– Ainda não.
– Será que? – sorriu, empolgado
– Acho que não. Rin já me alertou um possível atraso este mês por conta da falta de usar o remédio por um tempo.
– Entendi. Mas ela disse haver possibilidade de ser por isso, ou seja...
– Eu sei, Makoto. Mas só podemos esperar para ver. Mas não vou mentir que também quero saber logo.
A chance de um tratamento do meu tipo dar certo em um mês é mínima. Não estou sendo pessimista, apenas realista. Só que partiu e muito meu coração ter que dizer ao Makoto que não tinha sido dessa vez. Ele fez uma cara como se seu sonho tivesse sido roubado. Foi só assim que eu notei que ele quer tanto isso quanto eu. Só não é algo dentro do nosso controle e ela levaria um tempo.
– Calma, Makoto. Vamos continuar tentando.
Só contei isto a ele quando voltou do trabalho. Não queria que isso o atrapalhasse por lá.
O dia correu normalmente fora isso. Keiko ficou um pouco decepcionada também.
– É assim mesmo, Kazuko. Vão levar uns meses até que tenha um bebezinho aí. Vou continuar na torcida! – ela me disse
– Obrigada, Keiko. Espero que tudo ocorra em seu devido tempo.
Eu e Makoto já estamos com nossos planos, pelo menos nesse próximo ano, feitos. Só falta eles acontecerem mesmo. Estamos com o sonho de ter um filho agora, só que ainda é algo que surgiu recentemente em nós. Ainda estamos numa euforia e empolgação que não condiz com a forma como as coisas acontecem e bem, acabamos nos frustrando um pouco. Contudo, vamos levando né?
Preciso ir jantar agora.
Até!”
Eis que Kazuko começou a se mexer parecendo que acordaria. Depressa, coloquei o diário de volta onde estava e me deitei. Sim, ia fingir que estava dormindo. Fechei os olhos e só senti ela se virar na cama, dizendo depois.
– Bom dia, amor.
– Bom dia. – respondi – Dormiu bem?
– Sim, o melhor sono que tive em meses. Ué, não está lendo hoje? Que milagre é esse?
– Fiquei olhando você dormir e me distraí. – ela fez careta, não acreditando e não consegui mentir – Tá bom! Eu li um pouco porque estava com preguiça de levantar.
– Viu? Você não me engana, Makoto.
– Podemos ir comer? – falei já sentindo o estômago roncar
– Claro. Deixa eu chamar o Takumi. – levantou-se e foi até o berço dele e para nossa surpresa, ele já estava até em pé segurando nas grades – Olha só, já acordou. Foi dormir cedo, né?
Ele riu esticando os braços para que ela o pegasse no colo. E após isso, fomos tomar café, como uma família feliz. Quer dizer, somos uma família feliz.