O Diário da Escrava Amada
Capítulo 34 · Tudo é guerra
Com a chegada de mais um final de semana, dei mais uma acelerada na leitura do diário. Kazuko foi ao aniversário de uma prima com Takumi. Como estava muito cansado, resolvi ficar em casa. Ou melhor, dei desculpa para não socializar. Não que as pessoas sejam chatas ou não tenha afinidade, só não estava com vontade de sair.
Li anotações de uma semana e meia, até que cheguei em mais uma descrição de um passeio da Kazuko com a Rin, que com o início do meu namoro com Kana estavam cada vez mais frequentes.
“Oi diário,
Acabei de voltar de mais um passeio com a Rin. Realmente nossas conversas têm sido a coisa mais interessante a se contar que tem me acontecido.
Makoto continua falando bem pouco comigo. Só me cumprimenta e pergunta como foi meu dia. E eu também sou praticamente monossilábica com ele. Keiko continua a minha melhor companhia. E Rin, tem sido a melhor amiga para desabafar.
Hoje fui almoçar com ela e sua esposa. E elas tinham uma novidade para me contar. Sentamos no restaurante e elas não conseguiram segurar por muito tempo, me falando:
– Kazuko, nós vamos ter um bebê.
– Sério? – sorri
– Sim. – Rin respondeu – Namie está grávida.
– Eu fico tão feliz por vocês. Se amam e agora a família vai aumentar. Mas, só por curiosidade, como fizeram? Eu não entendo tanto disso.
– Foi por inseminação, uma técnica criada entre o século XX e XXI para ajudar a casais inférteis, homoafetivos ou qualquer um que precise a ter filhos de forma natural. Antigamente era necessário um doador, porque só conseguiam com um espermatozóide e um óvulo. Atualmente conseguem misturar os genes dos pais mesmo que do mesmo gênero. Porém, os casais masculinos ainda precisam de uma barriga de aluguel.
– Lembro de ter aprendido na escola, mas me recordava dos detalhes.
– E você? Como estão as coisas por lá?
– Na mesma! – dei de ombros – Kana tem passado os fins de semana lá.
– E provavelmente, ela te trata mal. – disse Namie
– Até demais. Ela sempre reclama de eu comer com eles na mesa, de eu estar apenas presente com eles. E toda noite sou obrigada a ouvir os sons vindos do quarto.
– Essa parte é sempre a pior. – falou Rin
– Acho que outra pessoa no meu lugar já teria fugido.
– E por que não o faz? Pelo menos como um teste. – indagou Namie
– Não consigo. – soltei um suspiro
– Não me diga que... – Rin não precisou completar
– Acho que sim. – com os olhos marejados – Eu me sinto uma completa idiota.
Ela se levantou e sentando ao meu lado, me abraçou. Então, eu desabei, porque eu sabia que podia fazer tal coisa com as duas. Depois completou:
– Não vou te julgar. Só espero que pense melhor sobre isso.
– Obrigada!
E depois a conversa continuou com outro assunto.
Cheguei deste passeio tem poucos minutos. Se pudesse, sairia com elas todos os dias. Pena que ambas tem carreiras ocupadas. Só me resta aproveitar as poucas horas que tenho com elas.
Agora, ajudarei a Keiko a preparar o jantar para mim, ela, Makoto e “a chata”.
Até!”
Uma clara demonstração de ciúmes da Kazuko.
Passei para a anotação da data seguinte, onde ela contou sobre a pequena revisão de história que ela fez ao ler um livro na biblioteca.
“Diário querido,
Acabei de sentir uma saudade enorme dos meus tempos de escola. Não que realmente tenha tanto tempo assim, mas eu sinto como se fosse uma eternidade atrás. Minha vida mudou tanto que tudo parece um local distante e feliz na minha memória.
E por que me ocorreu essa nostalgia? Simples! Um livro de História.
Hoje era mais uma tarde entediante que vou à biblioteca e procuro algo qualquer para me perder em uma leitura. E o livro de História foi o sortudo. Ele era especificamente da história da minha região. Folheei por eras mais antigas, como a em que todos se vestiam do jeito que queriam, eram livres para usar roupas coloridas e cabelos coloridos, saias rodadas. Passei por dois séculos inteiros até chegar ao “agora”.
E eu me lembrei das coisas horríveis que as pessoas são capazes de fazer para conseguir algo de seu interesse. Ainda mais um governo.
A “guerra” terrível que houve cerca de 60 anos atrás e deixou a parte pobre de uma das duas cidades que seu unificaram em Ioma completamente dependente – e subjulgada – a população rica. E essa subjulgação é tão extrema, que algumas crianças são vendidas como mercadoria para atender aos caprichos e desejos mais nojentos deles.
E tudo isso por conta de uma riqueza natural. É impressionante ver o egoísmo que existe nas pessoas e em situações específicas.
Acho que o meu maior sonho atualmente é o mesmo de todos iguais a mim: liberdade. Uma liberdade plena. Além, é claro, do desejo de que todas as oportunidades para nós melhorem. Existe muita segregação entre os pobres e os ricos. Muito preconceito deles conosco, até com a classe média que trabalha para eles.
É um lugar horrível de se viver, porque você está à mercê de uma quantidade menor de pessoas que tem mais dinheiro. Até hoje, é isso o que manda por aqui.
Daria tudo para ter nascido no passado, bem antes dessas coisas acontecerem e deixar tudo como agora está. Sei que não devia ser uma maravilha, mas com certeza é melhor do que aqui.
Nenhum rico deve sequer imaginar o que se passa em nossas cabeças todos os dias. Seja durante as aulas na escola ao ouvir sobre isto, nas diversas noites que vamos ao centro de escravos e somos expostos como mercadoria, tudo o que passamos e ouvimos sobre seu tratamento com os escravos ou simplesmente quando paramos um segundo e tentamos absorver esses acontecimentos históricos e vemos a vida miserável que levamos.
Não é só perigoso ser escrava, é perigo ser alguém da classe baixa.
Agora irei. Makoto chegou e com a namorada chata dele.”
Cansado da leitura, fechei o diário. Peguei-me pensando em tudo o que minha esposa de anos atrás disse.
Posso ter ouvido, presenciado e vivido muita coisa com as escravas de meu pai, mas, eu nunca saberei exatamente como é ser da classe rebaixada e subjulgada.
Por conta disso, tentava ser o melhor possível com a Kazuko. Contudo, a época que namorei Kana foi, com certeza, uma das mais conturbadas e difíceis que vivemos.