O Jogo

Elle Kennedy · Capítulo 10 de 39

Páginas do PDF

O Jogo

Capítulo 9

 

ALLIE

 

“Então, que série é essa?” O sr. Não-Gosto-de-Camiseta olha para a televisão. A imagem está pausada nos créditos de abertura do episódio que eu estava prestes a assistir antes de Dean aparecer.

“Solange”, respondo.

Ele franze o nariz. “O que é Solange?”

“É uma série francesa que tô vendo para aprender a língua.”

Dean solta uma risada. “Você sabe que a faculdade tem um departamento de francês, né? Com aulas a que você pode assistir?”

“É, onde tudo o que eles ensinam é conjugar verbos, pedir informações e perguntar onde fica o banheiro. Meu lance é a imersão. Ouvir as pessoas falando francês vai me fazer aprender muito mais rápido.”

Ele levanta as sobrancelhas. “E tá dando certo?”

“Não muito…” Ele ri de novo. “Mas ainda tô na primeira temporada”, protesto. “Tenho certeza de que, com o tempo, vou ser fluente.”

Dean olha para a tela e, em seguida, volta-se para mim. Sei que está se perguntando se cometeu um erro terrível ao aparecer aqui hoje. Mas ele me surpreende, dizendo: “Beleza. Sobre o que é a história? Me atualiza aí sobre o que já aconteceu”.

“Jura que você tá falando sério?”

“Pela minha mãe mortinha.”

“Não brinca.”

Sorrio para ele, porque é a primeira vez que alguém se oferece para assistir a essa série comigo. Minhas amigas se recusam. Verdade seja dita, Hannah aguentou o piloto até o final. Depois me disse que preferia ter os olhos bicados por corvos a assistir ao episódio seguinte. Pra falar a verdade, não a culpo. A série é bem ruim. Eu sei. Mas o que começou como um exercício de idioma terminou me deixando viciada. É tipo crack para mim agora.

“Certo, essa é a Solange.” Aperto play, e uma ruiva deslumbrante de peitos imensos e cintura fina aparece na tela.

“Ah”, comenta ele. “A protagonista. Belos peitos.”

Suspiro. “Enfim, Solange namora Sebastian…”

“Sebastian? É meu nome do meio.” Ele faz uma pausa. “Quer dizer, um deles”, se corrige.

Franzo a testa. “Quantos nomes do meio você tem?”

“Dois. Meu nome completo é Dean Sebastian Kendrick Heyward-Di Laurentis.”

Balanço a cabeça, estupefata. “Qual o problema dos seus pais? Pra que tanto nome? Eles queriam que você fosse zoado na escola?”

Isso o faz rir. “Vai por mim, comparado com alguns dos outros alunos, isso não é nada. Um cara que jogava lacrosse comigo tinha seis nomes do meio.”

“Então é coisa de gente rica? Acumular o máximo de sílabas desnecessárias na certidão de nascimento do filho?”

“Não, em geral é pra homenagear os avós ou algum outro parente rico.” Ele dá de ombros. “Sebastian é o meu avô por parte de pai, Kendrick é por parte de mãe.”

Acho que faz sentido. Mas, nossa, o nome completo dele é praticamente um testamento.

Algo chama a minha atenção, e aponto depressa para a tela. “Tá vendo aquele cara ali, no canto? De bigode? Aquele é o Antoine. Está seguindo a Solange.”

Dean inspira o ar de forma exagerada. “A trama vai se formando!”

Mostro o dedo do meio para ele. “Mas, no último episódio, descobrimos por que ele tá fazendo isso, e não é para um rala e rola.”

“Rala e rola?”

“É, transar com ela.”

“Claro.” Seus lábios se contorcem, como se estivesse tentando conter o riso. “Então por que ele tá dando uma de psicopata?”

“Porque a mãe dela tá pagando para ele fazer isso.” Abaixo o tom de voz, como se Solange pudesse me ouvir, e logo me sinto uma idiota. “Ah, e escuta só. No último episódio teve uma grande reviravolta. A colega da Solange na agência de modelos — essa aí.” Na tela, uma loura maravilhosa entra no restaurante e caminha até a mesa de Solange. “É a mãe dela”, informo a Dean. “A mãe da Solange tá fingindo ser colega de trabalho dela!”

Ele franze a testa. “Como pode? Elas têm a mesma idade.”

“Não”, digo, radiante. “É aí que entra a empresa de cosméticos.”

Dean parece completamente perdido. “Que empresa de cosméticos?”

“Beauté Éternelle. Eu pesquisei, significa ‘beleza eterna’. É uma empresa da família da Solange. Ah, e o pai e o tio dela são cirurgiões plásticos renomados. Enfim, Solange acha que a mãe fugiu quando ela era criança. Bem, ela até fugiu. Mas, depois que o pai morreu, Marie-Thérèse voltou para a Riviera Francesa e chantageou o tio a fazer uma plástica nela, então agora ela tá completamente diferente. Solange não tem nem ideia de que passou os últimos seis meses trabalhando com a mãe.”

“Allie.” Dean aproxima o rosto do meu e me fita com um olhar estranhamente sombrio. “Essa série é ridícula.”

“Eu sei”, digo, timidamente. “Mas é viciante. Vai por mim, um episódio dessa porcaria e você vai ficar viciado.”

“Desculpa, gata, mas posso assegurar com toda a certeza que isso não vai acontecer.”

 

DEAN

 

Aconteceu.

Alguém me ajuda. Fiquei viciado naquele negócio.

Vim aqui hoje com o único propósito de conquistar Allie e convencê-la a dormir comigo de novo. Em vez disso, estou tomando margarita, já assisti a duas horas da série francesa e agora estou escrevendo para Logan para avisar que não vou ao Malone’s. Porque… socorro… Quero saber o que vai acontecer.

Marie-Thérèse e Antoine se pegaram no último episódio, que terminou com uma Marie-Thérèse enlouquecida, ameaçando Antoine com um abridor de cartas junto do pescoço dele — quando não havia nenhuma indicação anterior de que houvesse alguma divergência entre os dois. Ou, vai saber, talvez houvesse, e a gente simplesmente não pescou, porque não fala uma palavra de francês.

“Ainda não entendi o problema dela com a Solange”, admito, enquanto Allie se debruça sobre a mesa de centro para completar nossas margaritas. O decote largo de sua camiseta se desloca para um dos lados, me proporcionando o vislumbre de um ombro nu e a curva de seu seio esquerdo.

Estou prestes a comentar como a visão sensual é bem-vinda, mas acabo achando melhor me conter. Jurei não dar em cima dela hoje, e, se quebrar a promessa, ela pode me expulsar antes de eu descobrir por que Marie-Thérèse tentou matar Antoine.

Allie desaba no sofá ao meu lado, e comemoro em silêncio, porque, desta vez, não se preocupa em deixar meio metro entre nós. Estamos a poucos centímetros de distância, o que me diz que ela está começando a ficar à vontade comigo.

“Também não. Não entendi a história de fundo direito ainda. Acho que tem a ver com o pai da Solange gostar mais da filha do que da esposa”, divaga Allie. “Tiveram alguns flashbacks nos episódios anteriores que deixaram fortemente implícito que ele queria um rala e rola com a filha.”

“Pervertido.”

Ela ri.

Ficamos em silêncio e assistimos ao episódio seguinte retomar exatamente de onde o anterior parou. Antoine consegue se soltar de Marie-Thérèse, e os dois passam a brigar por dez minutos. Não me pergunte sobre o quê, porque é tudo em francês, mas noto que uma mesma palavra — héritier — se repete a todo instante.

“A gente precisa pesquisar o que é isso”, digo, incomodado. “Acho que é importante.” Allie pega o celular e destrava a tela. Olho por sobre o seu ombro, enquanto ela abre um aplicativo de tradução. “Como você acha que se escreve?”, pergunta.

Erramos a ortografia três vezes até encontrar uma tradução que faça sentido: herdeiro.

“Ah!”, exclama ela. “Eles estão falando do testamento do pai.”

“Merda, só pode ser. Ela tá brava porque a Solange herdou todas as ações da Beauté Éternelle.”

Trocamos um high-five por termos descoberto e, no instante em que nossas palmas se tocam, sou tomado por um relance de clareza e percebo com toda a nitidez o que a minha vida se tornou.

Com um grunhido, pego o controle remoto e aperto o pause.

“Ei, ainda não acabou”, reclama ela.

“Allie.” Inspiro fundo. “A gente tem que parar agora. Antes que minhas bolas desapareçam completamente e minha carteirinha de homem seja revogada.”

Ela arqueia uma das sobrancelhas louras. “Revogada por quem?”

“Sei lá. O Conselho dos Homens. Os trabalhadores braçais. Jason Statham. Pode escolher quem você quiser.”

“Então você é macho demais para ver série francesa?”

“Sou.” Viro a margarita, mas o gostinho salgado é outro lembrete de quão baixo cheguei. “Gente, e tô bebendo margaritas. Você é péssima pra minha reputação, gata.” Por fim, atiro um olhar de advertência na direção dela. “Ninguém pode saber sobre isso.”

“Rá. Vou postar na internet inteira. ‘Gente, adivinha só: Dean Sebastian Kendrick Heyward-Di Laurentis tá na minha casa agora assistindo série e bebendo drinque de mulherzinha.’” Ela mostra a língua para mim. “Você nunca mais vai pegar ninguém.”

Allie tem razão. “Você pode pelo menos acrescentar que a noite terminou com um boquete?”, resmungo. “Porque aí todo mundo ia pensar, ah, ele só aguentou aquilo tudo pra ganhar uma ensebada no mastro.”

“Uma ensebada no mastro? Que descrição mais nojenta.” Mas seus olhos estão brilhando, e ela ri ao fazer o comentário.

Nossa, como é linda. E sexy… sexy pra cacete. Por que nunca percebi isso antes? Talvez porque todas as vezes que a vi antes de sexta à noite estava grudada ao namorado.

No momento em que penso no ex de Allie, o telefone vibra. Falando no diabo…

“O que ele quer agora?” Mal consigo esconder a irritação, mas ela está distraída demais com a mensagem para notar.

Allie vira a tela para mim, e minha irritação só aumenta. E aí? A gnt pode tomar um café? Preciso mto falar c/ vc.

“Responde que não”, aconselho.

Seus dentes estão cravados no lábio inferior. “É… difícil.”

“Você não tem problema nenhum em dizer não pra mim.”

“Não namorei você três anos”, ressalta ela.

Tiro o telefone gentilmente da sua mão e pouso sobre a mesa. “Certo. Pronta pra uma conversa séria?”

Ela assente, trêmula.

“Sean não vai parar de escrever pra você. Ele vai mandar e-mails, ligar e fazer tudo que estiver a seu alcance para conquistar você de volta. Quer saber por quê? Porque você é inteligente, engraçada e bonita pra cacete, e ele sabe que é um idiota por ter perdido isso.”

A surpresa transparece em seus olhos.

“Ele vai continuar insistindo. O que significa que você precisa aprender a ignorar.” Estudo seu rosto. “Quer dizer, se você estiver decidida mesmo a partir pra outra.”

Ela assente de novo, resoluta desta vez. “Estou.”

“Então parta pra outra, gata. Você não pode correr pra casa do namorado da sua amiga ou ficar se escondendo no alojamento toda noite. Fala pro cara que você não quer conversar e arruma alguma coisa pra te distrair. Posso te ajudar com isso, se quiser.”

“Deixa eu adivinhar”, diz ela, secamente. “Você se voluntaria como escravo sexual?”

“Não. Pela primeira vez, não tô falando de sexo.”

“O que você sugere, então?”

Sorrio. “Acho que você precisa viver a Vida de Dean.”

“Hmm. Certo. Então preciso colocar um uniforme de hóquei, ser esmagada por um bando de gigantes contra o vidro do rinque todas as noites e me recompensar com uma sequência interminável de transas casuais. Entendi.”

Eu me inclino e puxo uma mecha de seu cabelo. “Deixa de ser besta.”

“Perdão.” Ela sorri. “Por favor, me conte mais sobre a Vida de Dean.”

Minha mão desce por sua bochecha macia para segurar seu queixo. “Olha pra mim, Allie-Cat. Eu tenho cara de quem tem muitos problemas? Você acha que um dia vai me ver deprimido no quarto ou esquentando a cabeça por causa de alguma bobeira?”

“Não”, responde ela, lentamente.

“Em geral, sou uma pessoa feliz, não sou?”

Seu olhar suspeito sustenta o meu. “É. Mas como pode? Ninguém é feliz o tempo todo.”

“É absolutamente possível.” Deslizo o polegar sobre seu lábio inferior. Sua boca é tão macia. Estou louco para beijá-la de novo. “Quer saber o meu segredo?”

“Quero.” Ela parece distraída. Acaricio seus lábios de novo e fico satisfeito de ver sua respiração falhar.

“Eu faço o que quero, quando quero. E não dou a mínima pro que as outras pessoas pensam de mim.”

Isso parece chamar a sua atenção. “Parece bom ser capaz de fazer o que se quer o tempo todo. Mas infelizmente não é assim que a vida funciona.”

“Você faz a vida funcionar para você, gata.” Meus dedos deslizam por seu pescoço esguio e consigo sentir sua pulsação. “O que você quer, Allie? Me fala uma coisa que você morre de vontade de fazer, mas que nunca teve tempo.”

Ela pensa no assunto, a testa franzida. “Bem. Tô querendo começar uma nova desintoxicação, mas fico sempre adiando.”

“Não tenho ideia do que significa isso.”

“Umas duas vezes por ano, faço uma desintoxicação com sucos”, explica ela. “É uma merda, porque você fica presa a uma dieta líquida por duas semanas inteiras, mas no final você se sente tão melhor.”

“Você é doida. Escolhe outra coisa. Algo normal.”

Ela fica em silêncio, imersa em pensamentos de novo, então seu rosto se ilumina. “Sempre quis aprender a dançar salsa.”

Que coisa mais mulherzinha de se dizer. “Então aprende”, digo a ela.

Ela morde o lábio de novo. “Não sei… Falei disso com Sean uma vez, mas ele não quis fazer aula comigo, e eu tinha vergonha de ir sozinha. Pesquisei um curso uma vez e descobri que, se você aparecer sozinho, eles te colocam com um parceiro aleatório.”

“E daí? É uma oportunidade de fazer novos amigos.” Dou de ombros. “Acho que você deve se matricular.”

“Tá se oferecendo para fazer aula de salsa comigo?” Sua expressão é esperançosa.

Bufo de rir. “De jeito nenhum. Só faço o que eu quero, lembra? E não quero dançar salsa. Mas acho que você deve.”

“Talvez eu me matricule”, diz ela, pensativa.

“Esse é o espírito.” Dou um beliscão de leve no seu queixo. “Ouça o que eu digo, e a sua vida vai mudar para melhor. Essa é a garantia Di Laurentis.”

Allie solta um suspiro.

“O que foi?”, pergunto.

“Não sei se você tá sendo sincero ou se tá tentando se dar bem comigo de novo.”

Levanto as sobrancelhas. “Quem falou que não pode ser as duas coisas?” Quando isso provoca outro suspiro, minha voz fica rouca. “Tô sendo sincero.”

“Uau. Acho que você tá mesmo falando sério.”

Por alguma razão, diante do seu exame minucioso, me ajeito desconfortavelmente no sofá. E, de repente, estou plenamente ciente do fato de que não estou de camiseta. Ela também, porque aqueles grandes olhos azuis baixam, concentrando-se em meu abdome antes de afastar o rosto. O ar entre nós parece crepitar. Allie está com as pupilas dilatadas, e não tem como não notar a vibração acelerada nas artérias do seu pescoço.

Sei identificar excitação quando vejo. Míni Dean também, e ele aumenta prontamente sob meu zíper.

“Allie…” Minha voz sai rouca.

Num piscar de olhos, ela está fora do sofá. “E… tá na hora de você ir embora.”

Allie soa animada demais, e sei que está lutando para controlar as mesmas ondas de desejo que estão praticamente me engolindo por inteiro.

Fico sentado, e ela franze a testa profundamente. “Se veste e vaza, Dean.”

“Allie.” Levanto lentamente. Minha boca está rachando de seca, quando digo: “Quero…”.

Ela ergue a mão espalmada. “Nem se atreva a terminar essa frase. Tô falando que é hora de sair daqui.”

Quero perguntar por quanto tempo ela vai continuar lutando contra isso, mas, como sei que só vou irritá-la ainda mais, fico de boca fechada e faço o que a moça mandou — vou embora.

Na volta para casa, me resigno com mais uma noite de intimidade com a minha mão direita.