O Jogo
Capítulo 30
DEAN
No ano em que completei o ensino médio, meu irmão e eu fizemos uma viagem pela Europa — França, Itália, Espanha, Alemanha e terminamos na Áustria, porque tinha uma caverna enorme de gelo que Nick insistiu em conhecer. Tenho que admitir, foi muito, muito legal. O passeio só deixa você visitar o primeiro quilômetro, ou algo assim, que é todo coberto de gelo. Depois disso, as câmaras interligadas e as passagens intermináveis eram de calcário. Nick e eu não estávamos interessados num mísero quilômetro, então, metidos que somos, quebramos as regras e nos separamos sorrateiramente dos outros turistas.
Nós nos perdemos. Nos perdemos de verdade mesmo, e até hoje lembro a sensação sufocante que se apoderou de mim. O eco das nossas vozes ressoando contra muros absolutamente altos. A brisa fria soprando pela caverna. Os passos do guia de turismo que veio nos salvar — podíamos ouvi-los muito claramente, mas era impossível descobrir de onde vinham. Os ecos enganavam nossos ouvidos.
É assim que me sinto agora. Ouço a voz de Garrett, mas não o vejo, nem sei bem o que está dizendo. Sua voz é um eco. Ressoando contra as paredes e os meus ouvidos e só meio que… girando à minha volta.
Meu cérebro ainda não entendeu a primeira coisa que ele disse.
Beau morreu.
Tipo, está morto?
Beau está morto?
Beau Maxwell?
Meu amigo Beau Maxwell?
“… com o impacto.”
Minha cabeça se ergue num sobressalto. É como se as palavras de Garrett fossem bolinhas de papel molhado que ele está atirando contra a parede, e as três últimas enfim grudaram nela.
“O quê?”, pergunto com rispidez.
Seus olhos cinzentos estão revestidos de tristeza. “Disse que ele morreu com o impacto. Não sofreu.”
Pisco. Várias vezes. “Pode falar de novo? Quer dizer, explicar o que aconteceu.” Ele solta um palavrão. “Droga, por quê?”
Porque não ouvi uma palavra do que você disse!, quase grito. Respiro fundo e digo: “Porque preciso ouvir de novo”.
Garrett acena com a cabeça, embora relutante. “Tá bom.”
Cambaleio até a bancada da cozinha e abro o armário de cima. Ótimo. Achei uma garrafa de Jack. Abro a tampa e dou um longo gole, em seguida me junto aos meus colegas de república na mesa. Sento ao lado de Tuck, e, quando Garrett começa a falar de novo, o Jack Daniel’s passa de mão em mão.
Não é uma história muito comprida.
Mas é angustiante.
Beau foi de avião para Wisconsin, neste fim de semana, para o aniversário da avó. Já sabia disso — ele me ligou antes de ir. Combinamos de tomar uma cerveja na terça.
Ontem à noite, os Maxwell comemoraram o nonagésimo aniversário da avó num restaurante na sua cidadezinha. As estradas estavam cobertas de gelo. Eles foram em dois carros — Beau estava com o pai. O pai estava dirigindo.
Joanna contou para o treinador Deluca que o jantar foi muito divertido.
Na volta para casa, um cervo invadiu a pista, e o pai de Beau desviou o carro.
O carro deslizou no gelo e voou para fora da estrada, capotando duas vezes.
Depois, bateu numa árvore.
Beau quebrou o pescoço com o impacto.
O pai não sofreu nem um arranhão.
Engulo outro gole de uísque. O líquido queima minha garganta e deixa minhas entranhas em chamas. Meus olhos também estão em chamas. Estão quentes e ardendo, e, quando Garrett termina de falar, arrasto a cadeira para trás e pego a garrafa.
“Vou lá pra cima”, murmuro.
“Dean…” É Tucker, a voz trêmula pela tristeza.
Tuck mal conhecia Beau. Nem Garrett, nada além de esbarrar com ele nas festas. Logan era bem próximo, acho. Sei que ia até a casa de Beau às vezes. Mas eu… Era um dos melhores amigos de Maxwell. E ele era um dos meus melhores amigos.
De alguma forma, consigo subir as escadas sem cair. Minha mão treme tanto que quase deixo a garrafa de uísque cair uma meia dúzia de vezes antes de chegar ao meu quarto. Desabo na cama e viro a garrafa, despejando o líquido âmbar na boca. Ele espirra por meu pescoço e embebe a gola da minha camisa. Não me importo. Só bebo mais.
Então acho que Beau morreu.
Ele tinha vinte e três.
Bebo mais. E mais um pouco. E mais um pouco, até minha visão não passar de uma névoa cinzenta distorcida.
Estou completamente bêbado agora. Não, mais que bêbado. Meu cérebro não funciona direito mais. Mãos? Me tocando? Esquece. Tento colocar a garrafa na mesa de cabeceira e ela cai no chão. Por alguma razão, isso me faz rir.
Acho que o tempo passa. Ou talvez não. Talvez o tempo tenha parado, porque o pescoço de Beau Maxwell partiu feito um galho e agora ele está morto. Morto. Acabado. A-ca-ba-do.
“Dean…?”
Uma voz sussurra meu nome de longe, muito longe. Nossa. Talvez eu esteja na caverna de novo. Talvez nunca tenha saído dela — quão foda seria isso? Se eu tivesse morrido numa caverna na Áustria, mas não soubesse? Se a vida que estou levando desde a viagem à Europa fosse só fruto da minha imaginação, e meu corpo na verdade está em decomposição numa caverna de gelo agora?
“Seria muito louco”, gaguejo, enrolando a língua.
“Dean.” Mãos quentes seguram minhas bochechas. Ouço um xingamento baixinho. “Meu Deus. Você tá muito bêbado.”
Estou quicando. Não, é o colchão. Está balançando, porque tem alguém subindo na cama comigo, e meu estômago começa a ficar enjoado. Sinto a náusea na garganta. Engulo. Respiro fundo. Posso sentir o cheiro do uísque, mas tem outro cheiro no quarto também. O aroma misterioso de Allie.
“Meu amor.” Sinto minha cabeça se movendo. Ela está me colocando em seu colo, enfiando os dedos em meu cabelo úmido. Estou suando em bicas. Por que está tão quente aqui? “Logan acabou de me contar o que aconteceu. Eu…” Sua mão treme em meu cabelo. “Sinto muito, meu amor.”
“Quebrou… o pescoço.” Minha voz também soa muito distante. Nem parece minha. Nossa, como estou bêbado. Nojento, patético e entorpecido.
“Eu sei”, sussurra Allie. “E eu sinto muito, muito mesmo. Sei que você tá sofrendo agora. Eu…” Ela acaricia minha testa quente. “Eu tô aqui, tá bom? Tô aqui e não vou a lugar nenhum.”
Puxo o ar de forma entrecortada. “Gata”, murmuro.
“O que foi?”
“Acho que vou…” Levanto a cabeça, mas o simples ato de fazer isso incita exatamente o que estava tentando preveni-la.
A náusea me sobe à boca, e vomito no colo da minha namorada.
ALLIE
O velório de Beau é no estádio de futebol. O time inteiro está lá, junto com a comissão técnica, seus amigos, sua família, centenas de alunos e milhares de pessoas que provavelmente nem o conheciam.
Uma notável ausência?
Dean.
Antes de eu sair de casa, ele estava no quarto, de terno preto e uma expressão sombria. Ele me disse para ir na frente com Hannah e Garrett, e que ele me encontraria no velório.
Quando chego em casa, ele ainda está no quarto, ainda de terno preto e a mesma expressão sombria. Só que agora está segurando uma garrafa de vodca e suas bochechas estão coradas.
Está bêbado.
Esta semana, ficou bêbado todos os dias. Na verdade, bêbado ou chapado. Duas noites atrás, eu o vi fumar quatro baseados, um seguido do outro, antes de capotar no sofá da sala de estar. Logan teve que colocá-lo no ombro e arrastá-lo para o segundo andar, e nós dois ficamos de pé na porta do quarto, olhando Dean desmaiado de braços abertos na cama. “As pessoas sofrem de maneiras diferentes”, murmurou Logan.
Eu entendo. Acreditem em mim, entendo. Quando perdi minha mãe, passei por diversas fases do luto. Principalmente negação e depressão, até que enfim aprendi a aceitar que ela não estava mais lá. Demorei um tempo para chegar a esse estágio, mas cheguei. Dean também vai conseguir, sei que vai. Mas tem sido doloroso — não, insuportável — vê-lo recorrer ao álcool e à maconha essa semana, quando podia se apoiar em mim.
“Não consegui”, murmura ele, ao me ver na porta. Tirou o paletó e a gravata, e o colarinho da camisa branca está torto. O cabelo louro está revolto, como se ele tivesse passado os dedos por ele várias vezes.
Entro no quarto com passos tímidos, ainda usando o vestido preto simples e de gola alta que escolhi para a cerimônia.
“Não tive estômago, gata.” É um sussurro. Envolto em tristeza. “Fiquei imaginando os pais dele… e Joanna… vendo seus rostos…” Dean pousa a garrafa de vodca na cômoda e afunda lentamente na beirada da cama.
Respirando, sento ao seu lado e descanso a cabeça em seu ombro. “Ela cantou.”
“O quê?”
“Joanna”, digo em voz baixa. “Tinha um palco montado com um piano. Ela cantou ‘Let It Be’. Foi lindo. E triste.” Pisco por sobre as lágrimas. “Foi triste e bonito.”
Dean faz um barulho abafado.
Acaricio seu rosto com a ponta dos dedos. Sua pele está quente, mas ele não parece tão embriagado quanto na noite passada. Ele se inclina contra o meu toque, a respiração instável esquentando minha mão. “Não consegui”, diz, de novo.
“Eu sei. Tudo bem, meu amor.”
Mas está tudo bem? Ele tinha que ter ido, porra. A família de Beau estava lá. Se eles tiveram “estômago”, então Dean também devia ter tido.
A recriminação dura desperta uma onda de culpa. Quem sou eu para decidir o que alguém deve ou não deve fazer? As pessoas faltam a enterros e velórios o tempo todo, por todos os motivos. Talvez queiram chorar por seus entes queridos a sós. Talvez seja muito difícil. Talvez simplesmente não acreditem em funerais. Não é meu papel julgar, e me forço a lembrar disso ao deslizar a mão gentilmente sobre a bochecha de Dean.
“Não acredito que Beau tá morto”, diz Dean, apático.
Fico momentaneamente assustada, porque é a primeira vez em que ele diz o nome de Beau desde que tudo aconteceu. Fico ainda mais assustada quando viro a cabeça e vejo as lágrimas não derramadas nos olhos de Dean. Ele pisca, e um par de gotas escorre até onde meus dedos acariciam seu queixo.
Suas lágrimas atraem as minhas, contagiosas como um bocejo. De repente, estamos os dois chorando, Dean está enterrando o rosto nos meus seios, e todo o seu corpo estremece em soluços silenciosos. Não sei quem beija quem primeiro. Ou quem despe quem. Ou como acabamos entrelaçados na cama, nus, ofegantes, enfiando a língua na garganta um do outro e freneticamente tocando nossos corpos. Uma vez, Megan me falou de uma estatística maluca que fez que oitenta por cento dos entrevistados numa pesquisa sobre o luto admitiram ter relações sexuais logo antes, durante ou depois de um velório.
Acho que faz sentido, se você pensar no assunto. Celebrar a vida diante da morte. Precisar de alguém em quem se segurar, uma ligação tangível com outra pessoa viva.
Soltamos gemidos simultâneos, quando ele desliza para dentro de mim. Sem camisinha, mas desde que o semestre começou que não usamos mais. Nós dois fizemos testes antes das férias, e eu já tomava pílula.
Recebo seu membro grosso e latejante em meu corpo, arqueando os quadris para encontrar suas investidas desesperadas. O orgasmo que me domina me atordoa pela força. Não achei que fosse possível sentir esse tipo de prazer, cru e intenso, quando estou tão tomada pela tristeza.
Dean emite um ruído profundo e torturado ao gozar, tremendo violentamente. Com a respiração baixa e rasa, desaba em cima de mim, então gira nossos corpos, de modo que minhas costas suadas tocam seu peito molhado. Sinto a umidade em minha nuca. Não é suor, mas lágrimas. Todas as lágrimas que ele estaria tentando segurar se tivesse ido ao velório de Beau.
Viro de frente para ele e envolvo seus ombros largos, enquanto ele chora pelo amigo que perdeu. Não sei quanto tempo ficamos nessa posição, mas, por fim, Dean fica imóvel e adormece com o rosto contra o meu. Pela primeira vez em sete dias, sinto um minúsculo lampejo de esperança. Esperança de que a liberação emocional que ele acabou de experimentar alivie um pouco a sua dor e o leve para mais perto do caminho da aceitação.
Mas sabe qual é a pior coisa da esperança?
Com muita frequência ela leva à decepção.