O Jogo
Capítulo 20
DEAN
Estou sentado no vestiário vazio, de cabeça baixa, com os ombros curvados. Contendo bravamente o impulso de pegar o objeto mais próximo — que vem a ser o meu capacete — e atirar longe na parede. Os nós dos dedos da minha mão direita estão rachados e sangrando graças ao murro violento que dei no queixo do atacante do St. Anthony, mas aperto as palmas das mãos contra as coxas e deixo o sangue manchar a calça do uniforme.
Odeio aqueles babacas do St. Anthony. Nossos times são rivais de longa data, então sempre que jogamos um contra o outro é esperada alguma tensão, além de um monte de provocações verbais. Mas a hostilidade piorou nos últimos dois anos. E, duas semanas atrás, uns caras do St. Anthony mexeram com uma das amigas de Grace, roubando o telefone dela e a impedindo de sair do quarto de motel decadente em que eles estavam hospedados.
Hoje à noite, a culpa é toda minha. A partida abriu com a provocação habitual na disputa pela posse do disco, patinação agressiva e entradas excessivamente físicas de ambos os lados. Mas eu já tinha entrado no jogo de cabeça quente, e quando aquele babaca me incitou a partir para cima dele simplesmente perdi a razão.
Fui expulso por conduta antidesportiva. Tá bom. Se os juízes tivessem ouvido metade da grosseria que Connelly estava cuspindo sobre nossas mães, tinham expulsado o desgraçado também.
Tal como as coisas estão, sou o único jogador expulso. Um soco num jogo já esquentado provavelmente não vai me render uma suspensão do time, mas agora estou preso no vestiário, proibido de sair até levar a bronca obrigatória do treinador Jensen.
Ou talvez ele delegue novamente e deixe a bronca a cargo de O’Shea. Que sorte a minha. Dois sermões daquele filho da mãe em vinte e quatro horas. O’Shea me chamou na sala dele ontem à noite quando eu estava voltando para casa do jogo do Hurricanes. Acrescente a isso a informação de que Allie estava com o ex, e adivinha? Acabei enchendo a cara com Beau.
Juro por Deus, se Allie tiver voltado com aquele idiota que não a merece, vou… o quê? Perder a cabeça de novo? “Terminar” com ela? Tudo o que fiz até agora foi evitá-la, porque sou um frouxo. Sinceramente, estou com medo do que ela pode ter para me dizer.
Ouço passos ecoando atrás da porta. Na mesma hora, fico tenso. Espera, é a porta errada. A que se abre para o corredor principal, e não para o gelo.
“Dean?” A voz de Allie me faz erguer a cabeça num sobressalto.
Como ela conseguiu entrar aqui? Em dia de jogo, a arena sempre tem uma equipe de segurança vigiando os corredores, para impedir que as pessoas invadam os vestiários e mexam no equipamento. Isso chegou a acontecer uns anos atrás — um torcedor fanático do time adversário entrou aqui e pichou um enorme PERDEDORES nos nossos armários. Não sabia que algumas faculdades admitiam crianças de cinco anos de idade.
Ouço uma batida suave. “Dean, você tá aí?”
Respondo, a respiração irregular. “Tô.”
Allie passa a cabeça loura pela porta. Ela me vê no banco e caminha na minha direção. Está de jeans e suéter vermelho, os cabelos presos num coque bagunçado, e ou estou vendo coisas ou seus olhos estão vermelhos. Ela andou chorando?
“Como você passou pela segurança?”, pergunto, bruscamente.
“Falei para o guarda que sou sua namorada e que precisava desesperadamente ver como você estava. Posso ter recorrido a algumas lágrimas de crocodilo no processo.” Ela sorri com ironia. “A capacidade de conseguir chorar quando quero realmente é bem útil às vezes.”
“E ele acreditou?”
“Acreditou. Sou muito convincente. Mas tive que mostrar a carteirinha da Briar para provar que não era uma sabotadora do time adversário.” Ela senta ao meu lado. “Por que você foi expulso do jogo?”
Olho para a frente. “Dei um murro em outro jogador. Maior burrada da minha parte. Mereço estar aqui.”
“Talvez. Mas continua sendo uma merda.” Ela fica em silêncio por um momento. Posso sentir seus olhos azuis perscrutando a lateral do meu rosto. “Você tá me evitando.”
Olho para ela de lado. “Só um pouco.”
“Um pouco? Não dá para evitar alguém só um pouco, Dean. Ou você evita alguém, ou não.”
“Não é verdade. Às vezes existem circunstâncias atenuantes. Variáveis inesperadas.”
“Como o quê?”
Dou de ombros. “Não importa.”
“Claro que importa”, corrige ela, “mas a gente não precisa resolver isso agora.” Ela aperta uma das mãos no meu rosto, em seguida, a desliza até o meu queixo e me vira na direção dela, me forçando a fitar seus olhos. “Sei que você tá chateado comigo porque encontrei com Sean.”
“Não tô chateado. Você pode se encontrar com quem quiser.” Opto por um tom de indiferença, embora, por dentro, esteja me mordendo de raiva. “Mas espero que você enxergue a hipocrisia disso tudo. A gente não ia avisar um ao outro antes de ficar com outras pessoas?”
“Não fiquei com ele.”
“Não?”
“Não”, repete ela, com firmeza. “E se o seu silêncio também tem alguma coisa a ver com você achar que eu e Sean voltamos a namorar, posso assegurar que não voltamos. Ele queria, mas eu disse não.”
Não posso explicar o alívio que me invade o peito. “Bom saber”, digo, simplesmente, mas o brilho nos olhos dela me diz que Allie sabe muito bem o quanto estou satisfeito.
Ela pega a minha mão e entrelaça nossos dedos. “Meu namoro com Sean agora é passado. Não quero ficar com ele, e foi exatamente isso que disse a ele ontem.”
“Aposto que ele não ficou feliz.”
“Não, mas vai ter que aceitar.” Ela esfrega o polegar em meus dedos sensíveis. Não estão sangrando mais; no entanto, pela maneira como ela suspira, seria de imaginar que amputaram minha mão. “Você não devia brigar”, me repreende, com firmeza.
“Jogadores de hóquei têm sangue quente, gata. Às vezes a gente briga. Não é o fim do mundo.”
“O que o babaca disse pra você dar um soco na cara dele?”
“Nem lembro mais”, admito. “Foi tudo tão rápido, e eu já estava com um humor de merda, pra começo de conversa.”
Suas feições são tomadas pela culpa. “Por minha causa?”
“Não…” Aperto a mão dela na minha. “O’Shea tá no meu pé de novo por causa de outra foto que apareceu no Instagram.” Rio com esforço. “Preciso começar a prestar mais atenção quando estiver no Malone’s.”
“O’Shea é seu assistente técnico? Aquele que te forçou a trabalhar de voluntário na escola?”
“Coordenador defensivo, e sim.”
“Certo, e que foto foi essa? Espera, uma foto no Malone’s? De nós?” Seu rosto fica pálido.
“Não”, tranquilizo-a. “Eu e Penelope, a maria-patins que estava pendurada no meu pescoço. O’Shea tá morrendo de raiva.”
“Por quê? É proibido ficar com marias-patins?” E ela acrescenta depressa: “Não que eu esteja dizendo que você ficou com ela — sei que era ela que estava dando em cima de você. Mas, só pra completar meu raciocínio, mesmo que você estivesse retribuindo, qual o problema disso?”.
“Ele não estava reclamando disso. Na foto, tô segurando uma cerveja, e O’Shea tem uma política super-restrita sobre não podermos beber.”
“Hum. Ele sabe que tá treinando um time de faculdade, não sabe? É impossível impor uma restrição dessas.”
“Eu sei.”
“E na foto você tá só segurando uma cerveja? Como assim? É diferente de ser pego cheirando cocaína nos peitos dela.”
Um sorriso brinca em meus lábios. “Claro que não. E se eu fosse cheirar carreiras nos peitos de alguém, seria nos seus.”
“Ah, obrigada. Que romântico.” Ainda acariciando a palma da minha mão com os dedos, ela se aproxima e beija minha bochecha. “O’Shea é um babaca. Não deixa ele te abalar assim, tá legal? Principalmente a ponto de ficar tão irritado, sair batendo nas pessoas e sendo expulso de jogos.”
Ela tem razão, preciso controlar melhor meu temperamento. Mas Frank O’Shea… droga. Só o som da sua voz afiada e condescendente me irrita.
Os lábios de Allie roçam meu queixo num beijo fugaz. Em seguida, ela solta a minha mão, visivelmente relutante. “Acho melhor eu ir, antes que alguém me veja aqui. O terceiro período já deve estar acabando.”
“Por acaso você viu o placar antes de entrar?”
“Acho que estava empatado.”
Merda. Bem, com sorte, os meninos vão conseguir transformar o empate numa vitória, porque estou cansado desse negócio de perder.
E, para falar a verdade, estou cansado de ter que ficar me escondendo com Allie.
No começo, dormir com ela em segredo foi emocionante, mas não estou mais curtindo isso. Quando ela apareceu no Malone’s daquele jeito na outra noite, quis enfiar a língua na garganta dela na frente de todo mundo. Foi quase impossível fingir que ela não estava me afetando, e já estou cheio de ficar mandando mensagens às escondidas para ela, chamando para uma rapidinha e mentindo para os meus amigos sobre onde estou indo.
Amigos que, por sinal, agora acham que incorporei vibradores na minha rotina de masturbação. Quando Tucker me entregou um prato de bacon com ovos hoje de manhã, perguntou, inocente, se o meu “amiguinho cor-de-rosa” iria se juntar a nós para o café da manhã. Garrett quase quebrou uma costela de tanto rir. A coitada da Grace ainda não consegue olhar para mim sem ficar vermelha.
Sei que Allie não quer que nossos amigos saibam que estamos tendo um caso, mas queria encontrar um jeito de termos um pouco mais de liberdade. Talvez a gente pudesse marcar um hotel para o fim de semana e passar dois dias na cama sem se preocupar com…
Tenho uma ideia. “Ei, espera.” Procuro sua mão antes que ela possa ficar de pé. “Já marcou sua passagem de trem para o feriado de Ação de Graças?”
Allie solta um palavrão. “Droga! Ainda não. Por que sou tão esquecida? Coloquei um lembrete!”
“Não marque.”
“Por que não?”
“Porque tenho uma ideia melhor.” Hesito. “Por que não vamos para Nova York juntos? Podemos ir no meu carro.”
Ela parece assustada. “Ah. Você… hmm… quer passar o dia de Ação de Graças comigo? Hmm. Bem. Vou visitar meu pai…”
“Não tô me convidando pra jantar nem nada assim”, interrompo. “Pensei em ficar na minha casa de Manhattan, enquanto você fica com o seu pai, e se você estiver livre na quinta ou na sexta à noite pode passar lá.” Agito as sobrancelhas para ela. “A casa vai ser toda nossa.”
“Bem, isso é interessante”, comenta ela, devagar. “Que dia você precisa voltar pra Briar por causa do jogo?”
“Teria que sair no sábado de manhã. Que dia você estava pensando em voltar?”
“Sábado de manhã.” Um pequeno sorriso curva os seus lábios. “O cronograma bate…”
“Isso significa que você topa?”, pergunto, esperançoso.
“Uma carona de graça para Nova York e sexo selvagem no fim de semana? Claro.”
“Ótimo. Mas tenho uma coisa pra pedir.”
Ela inclina a cabeça, esperando que eu continue.
Meu estado de espírito, que antes era o pior possível, agora está tão radiante quanto o sorriso que abro para ela. “Não esqueça o Winston.”
E é assim que acabo dirigindo para Nova York com Allie no banco do carona.
O sol já se pôs no momento em que pegamos a estrada, porque Allie tinha ensaio até as seis e precisou de uma hora inteira para fazer a mala. Eu trouxe uma mochila. Ela? Uma mala de rodinha empanturrada que mal cabe no meu porta-malas.
Tinha deixado a bolsa do hóquei no carro, porque literalmente não imaginei que ela fosse trazer tanta coisa para passar três dias. Por sorte, o estacionamento nos fundos da Bristol House está completamente deserto, o que significa que ninguém nos vê tentando enfiar a mala no carro. O silêncio no campus chega a ser sinistro, quase como se o apocalipse tivesse começado e todo mundo tivesse sido arrebatado para o céu. Está na cara que não fomos os únicos que decidiram viajar na véspera do feriado.
Hannah e Garrett voaram para a Filadélfia hoje de manhã, e Grace e Logan saíram algumas horas depois. Vão visitar o pai de Logan na clínica de reabilitação e depois seguir para a casa da mãe dele, em Boston, onde vão dormir antes de voltar para Hastings, para passar o feriado com o pai de Grace. Tucker ainda estava em casa quando saí, mas vai dirigir até a casa de Hollis, em New Hampshire, amanhã de manhã. Ainda bem, porque, se não tivesse para onde ir, a culpa teria me obrigado a convidá-lo a ir para Manhattan.
Quando Allie e eu enfim nos acomodamos nos bancos da frente, descubro que temos gostos musicais completamente diferentes. Depois de uns cinco minutos discutindo, chegamos a um acordo — cada um escolhe a música por trinta minutos, durante os quais a outra pessoa não pode reclamar. A criatura coloca até um alarme para garantir que ninguém está burlando as regras. E, claro, anuncia que quem começa é ela.
“Por que não posso começar?”, contraponho.
“Porque estou dando a carteirada da vagina.”
Sorrio para ela. “Supertrunfo. Estou dando a carteirada do pênis.”
“Não é assim que funciona.” Ela parece exasperada.
“Então como é que funciona? Porque, até onde sei, órgãos genitais não decidem quem escolhe a música primeiro.”
“Ah, decidem sim, mocinho.” Allie me trata como se eu tivesse cinco anos de idade. “Porque, se você fizer greve de sexo, vou ficar bem por meses. Anos até. Mas, se eu fizer greve de sexo, você vai ficar doidinho. Feito um náufrago se afogando no mar, desesperadamente agarrado a uma boia.” Ela sorri. “Portanto, vagina ganha de pênis.”
Meu sorriso desaparece, porque Allie está certa.
Como resultado, passo os primeiros trinta minutos da viagem ouvindo baladas cafonas dos anos 80, todas com a palavra “love” no título.
“I Want to Know What Love Is.”
“I Just Called To Say I Love You.”
“It Must Have Been Love.”
Qualquer um se perguntaria se Allie não está sutilmente tentando me dizer alguma coisa, mas eu tenho quase certeza de que todas as músicas feitas nos anos 80 são sobre amor.
Na minha vez, escolho as faixas mais sujas de que sou capaz. Ol’ Dirty Bastard. Uns proibidões do Jay-Z. Cypress Hill. Boto até um Insane Clown Posse.
Allie revida com sucessos da Madonna.
Em vez de puni-la, decido me dar um prêmio e passo do hip-hop para a música country. É isso aí, o menino rico gosta de Tim McGraw. Me processem.
Ainda estamos na I-90, com cerca de duas horas de viagem pela frente, quando Allie pega o telefone e começa a digitar.
Mantendo os olhos na estrada, pergunto: “Escrevendo pra quem?”.
“Dillon… uma amiga da escola. Faz faculdade na Flórida, mas tô torcendo pra que ela tenha vindo passar o feriado em casa. Ah, e eu deveria ver se Fletch também vai estar na cidade.”
“Fletch?”
“Kyle Fletcher, mas chamo de Fletch”, responde, distraída. “Ex-namorado.”
Viro a cabeça na direção dela. “Tá fazendo planos com o seu ex-namorado?”
“Pode recolher as garras, gatinho. Fletch ainda é um bom amigo.”
Não posso lutar contra a curiosidade. “Quanto tempo vocês ficaram juntos?”
“Três anos.”
Assobio baixinho. “E depois três anos e meio com Sean… Você é viciada em compromisso, hein?”
“Não, não sou”, protesta ela.
“Gata, você passou quase sete anos da vida namorando. E você só tem vinte e dois.”
“Vinte e um. Faço aniversário no Natal.”
“Sério? No vinte e cinco?”
“No vinte e quatro. Ou seja, na verdade, faço aniversário na véspera de Natal. Desculpa.”
“Pode ir pedindo desculpa mesmo. Como se atreve a me enganar desse jeito?”
Ela revira os olhos. “Mas, enfim, você tem razão. É muito tempo mesmo.” E faz uma pausa. “Quanto tempo durou o seu relacionamento mais longo?”
“Um pouco mais de um ano”, respondo, sem mover o olhar da estrada escura.
“Sério?”, exclama Allie, surpresa. “Muito mais do que eu esperava. Foi no colégio?”
Faço que sim.
“Por que vocês terminaram?”
Minha vez de revirar os olhos. “Porque estávamos no colégio.”
“E daí? E se ela fosse a sua alma gêmea?”, desafia Allie. “Você não acredita que primeiros amores podem dar certo?”
“Não. Acho que é impossível você saber o que quer ou o que precisa de um relacionamento com essa idade. Quando você está na escola, não tem nenhuma ideia do que é a vida real. Não entende o quanto ainda precisa crescer. Eu definitivamente não sou a mesma pessoa que era na adolescência. Cara, não sou a mesma pessoa que era no semestre passado.”
“Claro que é.” Ela sorri, docemente. “No semestre passado, você era um pegador, e continua sendo um pegador neste semestre.”
“Verdade”, digo, com uma risadinha.
Allie coloca o telefone no suporte de copo do painel e gira no assento para me ver melhor. “Você ainda fala com a sua namorada do tempo de colégio?”
Sinto a tensão varar meus ossos. “Não.”
“Perdeu o contato?”
“Pode-se dizer que sim.” Expiro lentamente, na esperança de aliviar o aperto em meu peito. “Na verdade, ela é o motivo pelo qual o treinador O’Shea me odeia. Miranda é filha dele.”
“Ai, não. Você namorou a filha do treinador?” Allie adota um tom de repreensão. “Meu bem, essa é a regra número um no manual do namoro — nunca pegue a filha do chefe.”
“E eu pareço alguém que segue as regras?” Mas meu sorriso desaparece depressa. “Não pude evitar”, admito. “Na época, Miranda era o máximo. Impossível de resistir. Frequentava o colégio de graça, porque Frank dava aula lá, então não era uma criança rica. Era completamente diferente das meninas com quem eu saía na escola. Não dava a mínima pra imagem ou pra ser popular, não diminuía os outros pra se sentir melhor. Era pé no chão. Engraçada. Gostosa.”
“Dã. Dean Heyward-Di Laurentis só traça gostosas.”
“Não tracei Miranda. Pelo menos não de cara. Levamos um bom tempo até chegar lá, mas eu não estava com pressa.” Dou uma piscadinha. “Nos divertíamos fazendo outras coisas.”
“Então quando vocês chegaram nos finalmente?”
“Uns dois meses antes de terminarmos.” Meus ombros se enrijecem de novo. Odeio lembrar daquela noite.
Allie percebe, porque seu tom se torna cauteloso. “O que aconteceu?”
Merda, por que eu fui abrir essa porta? “Com uns nove meses de namoro, as coisas ficaram… intensas.” E por que ainda estou respondendo à pergunta? “Miranda começou a falar sobre continuarmos juntos na faculdade, o que nunca foi parte do acordo.”
“Espera, O’Shea já sabia? Que você estava namorando a filha dele?”
“Sabia. Não ficou muito satisfeito com a história, mas disse que, desde que Miranda estivesse feliz, ele estaria feliz. O que não o impediu de pegar no meu pé. Toda vez que eu a buscava pra sair, ele me interrogava sobre onde estávamos indo, quem estaria lá, que horas a gente iria voltar. E uma vez ameaçou arrancar minhas bolas se eu não a tratasse com respeito.”
“Meu pai fez a mesma coisa com Fletch, quando começamos a namorar. Vai por mim, é coisa de pai.” A risada de Allie morre. “Então Miranda começou a falar da faculdade…?”
“O tempo todo, e eu fui ficando preocupado, porque, quando a gente começou, estávamos no mesmo pé. Eu não queria manter um namoro a distância durante a faculdade. Vi meu irmão e a ex-namorada passarem por isso, e também uns amigos que tinham se formado um ano antes. Passaram o primeiro ano inteiro se apegando a algo que deviam simplesmente ter deixado para trás. As ligações foram ficando menos frequentes, as visitas acabaram, o ciúme e insegurança se instalaram. Uma preocupação constante sobre o que a outra pessoa estava fazendo, com quem estava saindo. Eu não queria isso, nem Miranda. Ela estava planejando ir para a Duke. Eu estava pensando na Briar ou em Harvard. Nós dois concordamos que, se ainda estivéssemos juntos na formatura, iríamos terminar.”
“Mas ela mudou de ideia?”
“Pois é. No começo, foi sutil. Ela comentava sobre alguma coisa que a gente iria fazer no futuro, eu lembrava que aquilo provavelmente não iria acontecer, e ela ria e dizia que tinha esquecido. Mas aí ela começou a ficar… controladora. Me ligava umas dez vezes por dia, e de repente ficou paranoica de que eu a estava traindo. O que, aliás, eu não estava — nunca traí ninguém com quem tive um compromisso sério.”
“Então você terminou? Não, espera, primeiro transou com ela.”
Ouço o tom de acusação na voz de Allie, e não posso negar que ela acerta em cheio. “Pois é. Transei.” Minha boca fica seca. Tento engolir. “Antes de mim, Miranda namorou um outro cara por uns dois anos. Quando começamos a sair, ela me disse que já tinha feito sexo antes.”
“Ai, não”, murmura Allie. “Não tô gostando de onde isso vai dar.”
“Fomos a uma festa, e ela estava toda controladora de novo, não me deixava falar com ninguém, não soltava a minha mão. Me seguia até a porra do banheiro. Eu estava frustrado e com raiva, e comecei a encher a cara de cerveja, porque era a única maneira de passar o tempo. Ela não queria ir embora, mas também não desgrudava de mim. Cheguei a pensar em terminar tudo ali mesmo, e acho que ela percebeu, porque, quando dei por mim, ela estava me arrastando para o segundo andar.” O arrependimento lateja dentro de mim. “Eu estava nojento de bêbado, sem falar que era um adolescente de dezessete anos cheio de tesão, então não estava exatamente resistindo. A gente transou. E depois ela admitiu que era virgem.”
“Merda.”
“Se soubesse, teria sido mais… sei lá, cuidadoso? Mais gentil? Eu estava bêbado e desleixado, e o sexo foi exatamente assim, desleixado. Na primeira vez dela, Allie. Me senti um canalha completo no dia seguinte, mas Miranda não estava com raiva. Disse que se sentia mais próxima de mim do que nunca e, depois disso, entrou em modo controladora nível máximo. De repente, estava planejando visitas à faculdade e dizendo que a gente deveria pensar em ficar noivo, que um compromisso mais forte iria tornar mais fácil manter a fidelidade.” Meu estômago se agita só de pensar nisso. Eu não tinha nem dezoito anos.
“Então, como qualquer adolescente faria, você se assustou e terminou tudo.”
Faço que sim com a cabeça.
Ela suspira. “Não culpo você. Tenho certeza de que qualquer um teria se sentido pressionado numa situação dessas.”
“Talvez. Mas… Miranda não lidou com o fim do namoro muito bem”, confesso, lutando contra a náusea se instalando em meu estômago. “Acontece que ela já tinha batalhado contra a depressão no passado, mas nunca tinha me contado sobre isso. Eu também jamais teria imaginado, porque ela era tão feliz e descontraída o tempo todo. Mas depois descobri que era por causa dos remédios que estava tomando. Remédios que parou de tomar depois que a gente terminou.”
“Merda”, diz Allie, de novo.
“Ela mudou completamente. Chorava o tempo todo, gritava comigo nos corredores do colégio, me ligava no meio da noite ameaçando se suicidar. Não tive escolha, tive que envolver o pai dela, porque estava apavorado com o fato de ela poder se matar mesmo. Depois disso, Frank tirou Miranda da escola, e nunca mais vi nem ouvi falar dela desde então.”
Allie fica boquiaberta. “É sério?”
“Frank não deixava.” A frustração que senti na época retorna. “Ele me contou que Miranda tinha voltado a tomar os remédios e estava recebendo ajuda profissional. Ah, e, se eu tentasse entrar em contato com ela de novo, ele disse que iria cortar a minha garganta. Isso não me impediu de me preocupar com ela. Quer dizer, gostava dela, embora não estivéssemos mais juntos, então, mais ou menos um mês depois que ela saiu escola, encurralei o treinador no estacionamento e exigi ver Miranda.” Minha mandíbula treme. “E ele me deu um soco na cara.”
“Meu Deus. Alguém viu isso?”
“Não. Já era tarde, e ele estava saindo de uma reunião de equipe. Não tinha ninguém por perto. Mas sim, ele me acertou em cheio. Foi aí que descobri que Miranda contou pra ele que a gente tinha feito sexo. Ela também disse que eu estava caindo de bêbado quando isso aconteceu.”
“Bem, isso não é certo”, intervém Allie, com raiva.
“Nada do que aconteceu foi certo. Eu não devia ter me deixado seduzir por ela naquela noite, de jeito nenhum.” A amargura obstrui minha garganta. “Mas ela deixou o pai acreditar que fui um bêbado canalha que se aproveitou dela, o que também não foi justo.” Eu me forço a relaxar as mãos agarradas ao volante. “De qualquer forma, é por isso que O’Shea não quer me ver nem pintado de ouro. Acha que tirei vantagem da sua filha, que passei um ano tentando levá-la pra cama, e depois a larguei assim que consegui o que queria.”
“E você não tem nem ideia de como ela está agora? Não tentou entrar em contato com ela?”
“Mandei um pedido de amizade no Facebook há um tempo”, admito. “Ela não aceitou. Mas acho que está bem. O perfil diz que estuda na Duke.”
“Acho que faz sentido O’Shea ser tão superprotetor”, reflete Allie. “Deve ter sido muito difícil pra ele ver a filha lutar contra a depressão, vê-la começar a melhorar e depois voltar praquele lugar terrível de novo.”
Talvez, mas me recuso a sentir empatia por aquele filho da mãe, não quando ele está tentando tornar o meu último ano na Briar um inferno.
“Você também faz mais sentido para mim agora”, acrescenta ela.
“Como assim?” Não gosto do seu olhar pensativo, perscrutador.
“É por isso que você é sempre tão aberto quando se trata de sexo, né? Quer ter certeza de que as meninas com quem você sai estão no mesmo pé que você.”
“Nunca mais vou enganar ninguém, isso é certo. Ou confiar piamente na palavra delas. Não me importo se isso faz de mim um canalha, mas nunca, jamais minto sobre minhas intenções. E não saio com virgens”, acrescento, um pouco depois. “Nem alunas do primeiro ano, porque elas tendem a ser grudentas.”
“A Vida de Dean sem dúvida tem muitas regras.”
“Sem essas regras, a Vida de Dean não existiria.”
“Imagino que não.” Ela faz uma pausa. “Mas a coisa da virgindade é complicada. É muito fácil pra uma menina mentir sobre isso. Quer dizer, só andar a cavalo já deve ter rompido cinquenta por cento dos himens por aí.”
Solto uma gargalhada. “Vai por mim, meu radar de virgem é infalível atualmente.”
“Ah, é? E como você sabia que eu não era virgem?”
“Porque Garrett dorme no seu alojamento fim de semana sim, fim de semana não, e já ouviu você e Sean bimbando. Ele disse que você é do tipo que grita.”
Ela puxa o ar, indignada. “Disse nada.”
“Disse sim. Pode admitir, gata, você é barulhenta.” Rio diante da sua expressão aflita. “Isso não é uma coisa ruim. Gritar é bom.” Penso em seus gemidos guturais e nos Ai, meu Deus ofegantes, e, na mesma hora, começo a ficar duro. “Gritar é muito bom.”
“Não, é constrangedor”, murmura ela. Suas bochechas estão rubras.
“Ei, prefiro ir pra cama com uma mulher que grita do que com uma silenciosa. As que gozam sem fazer barulho são as piores. Dormi com uma garota uma vez que não deu um pio o tempo todo. Sério, não sabia nem se ela estava se divertindo. No final, ela virou pra mim e me agradeceu pelos orgasmos múltiplos.”
Allie dá uma gargalhada. “Mentira.”
“Eu não minto.”
“Não… você não mente mesmo, né? Tô começando a achar que você pode ser a pessoa mais honesta que já conheci.”
“Outra exigência da Vida de Dean. Seja sincero e se responsabilize pelo que diz.”
“E faça o que quiser.”
“E faça o que quiser”, repito.
“Acho que gosto muito da Vida de Dean.”
Acho que gosto muito de você, quase deixo escapar.
Felizmente, consigo conter o sentimento, porque… que história é essa agora? Gosto de transar com ela. Allie tem um papo bom e é boa de cama — é só isso. E considerando o quão inflexível está sendo sobre isso não passar de um caso, sei que concorda plenamente comigo.
Mas, algumas horas depois, quando paro na frente da casa de três andares com fachada de arenito vermelho no Brooklyn Heights, Allie me pega desprevenido.
“Quer jantar com a gente amanhã?”
O convite é alarmante e inesperado.
E alarmante.
Eu falei alarmante?
Meu mal-estar deve estar estampado em meu rosto, porque Allie se apressa em acrescentar: “Não vou ficar insultada se você disser que não. Sério, pode recusar. Só estava imaginando você sozinho em Manhattan no dia de Ação de Graças, enquanto sua família devora um peru tropical em St. Bart, e foi uma imagem tão solitária e deprimente que achei que podia te convidar”.
“O que…” Limpo a garganta. “O que você vai dizer pro seu pai?”
Ela dá de ombros. “Que você é um amigo da faculdade que não tinha pra onde ir. Não vai ser nada demais, prometo. Vocês vão falar de hóquei, eu vou fazer o jantar, vamos ver um pouco de futebol, e tem quarenta por cento de chance de todo mundo pegar uma intoxicação alimentar. Só um bom e velho Dia de Ação de Graças na casa dos Hayes.”
Deixo escapar uma risada. “Parece divertido.” Penso na ideia. “Tá, eu topo. Que horas você quer que eu apareça?”
“Lá pelas quatro, mas a gente só deve comer perto de cinco.”
Faço que sim com a cabeça.
“Certo. Beleza.” Ela sorri, desanimada. “Agora me ajuda a tirar a minha mala do carro, por favor? Tenho certeza de que vou quebrar as costas se tentar levantar aquela coisa sozinha.”