O Jogo

Elle Kennedy · Capítulo 28 de 39

Páginas do PDF

O Jogo

Capítulo 27

 

ALLIE

 

Estou brava comigo mesma por não ter percebido mais cedo. Claro que a menina vibrante e linda é irmã de Dean. Agora que minhas garras se retraíram, posso ver claramente a semelhança: o cabelo de Summer é do mesmo tom de louro e seus olhos têm o mesmo verde vívido. É bem mais baixa que Dean, mas muito mais alta que eu. Pelo menos um metro e setenta e cinco, se eu tivesse que chutar.

“O que você tá fazendo aqui?”, Dean dirige a pergunta à irmã, que não se deixa perturbar.

“Eu falei que vinha te visitar, lembra?”

“Não, você falou que queria me visitar.” Ele faz um barulho irritado. “Você não pode simplesmente aparecer na casa das pessoas sem avisar, Summer. E se eu não estivesse aqui?”

“Mas você tá.” Ela sorri. “E agora eu também. Tá vendo? O universo sempre conspira a favor.”

Ele arqueia a sobrancelha. “E o universo por acaso avisou que tenho um jogo fora amanhã? E que o ônibus sai às oito da manhã? E que provavelmente não vou voltar antes da meia-noite?”

A decepção invade os olhos de Summer. “Droga. Vou embora cedo no domingo.” Ela fica em silêncio por um momento, em seguida sua expressão se ilumina. “Não tem problema. Só significa que precisamos colocar o papo em dia hoje. Onde ponho a minha mala?”

Aperto as costas da mão contra a boca, para abafar uma risada. Tenho a impressão de que não há nada neste mundo capaz de abater Summer Di Laurentis. Ela parece o tipo de garota que dorme sorrindo.

Dean responde numa voz tensa, como se encarasse a visita surpresa da irmã como uma grande inconveniência. “Eu meio que tinha planos pra hoje, sua pentelha.”

Pentelha?

“Mudança de planos”, diz ela, animada. “Eles agora me incluem.” Seus olhos verdes viram-se na minha direção. “Tudo bem eu ficar com você e Dicky hoje, namorada?”

A risada que estava tentando conter me escapa. Na verdade, é mais um uivo, porque, ai, meu Deus, por que ela chama o irmão de Dicky?

“Por mim, tudo bem”, asseguro. Encontro o olhar irritado de Dean e acrescento: “Você vai explicar o apelido ou devo criar minha própria interpretação?”.

Summer sorri para mim. “Na verdade, a história não tem a menor graça. Quando era pequena, não sabia falar o nome dele. E chamava Nick, o nosso irmão mais velho, de Nicky, então só substitui a primeira letra e voilà… Dicky.” Ela me lança uma piscadela conspiratória. “Ele odeia.”

Não o culpo. Posso bem imaginar uma garota atrevida como Summer se divertindo horrores por atormentar o irmão mais velho com um apelido constrangedor desses.

“E aí, o que a gente vai fazer hoje?”, pergunta Summer, ansiosa. Ela joga o cabelo louro e comprido para trás do ombro e dá uma voltinha. Minha nossa. A menina é energia pura. “Tem alguma boate por aqui? Um bar? Trouxe minha identidade falsa, então…”

“Então é melhor passar pra cá”, interrompe Dean. “Porque de jeito nenhum vou aliciar uma menor.”

Sua irmã bufa. “Para de palhaçada. Com treze anos você já enchia a cara.”

“Eu era muito maduro pra minha idade.”

“Você não é maduro pra sua idade hoje.”

“Pelo menos não fui expulso da Brown por tacar fogo em togas.”

“Não fui expulsa da Brown e não taquei fogo em nada.”

“Como é que vou saber? Nem sei por que você foi expulsa, ninguém nessa merda de família me explica.”

“Não fui expulsa!”

Minha cabeça se move de um lado para o outro. Todos os irmãos são assim? Se forem, ainda bem que sou filha única. Essa provocação toda parece desgastante.

“E se você parar de gritar comigo”, resmunga Summer, “então talvez a gente possa sentar feito dois adultos, e eu te explico por que tô de sobreaviso.” Ela ergue uma das mãos, exibindo as unhas feitas. “Mas vamos deixar isso pra depois. Tô em clima de festa. Vai ter alguma coisa numa das fraternidades hoje? Espera, o que eu tô falando? Claro que alguma república vai dar uma festa. É o único jeito de aqueles tarados conseguirem transar com alguém, não é?”

Engasgo com outra risada.

Nunca vi Dean tão irritado, os punhos fechados junto do corpo, como se estivesse tentando não estrangular a irmã. “Não vamos a uma festa hoje. Já falei, tenho que acordar cedo pra pegar o ônibus. O que significa que vamos ficar em casa. Uma noite calma e tranquila”, diz ele, firmemente.

Claro que, assim que termina de falar, a porta da frente se abre de novo e quatro jogadores de hóquei entram. Ou talvez três e um aluno que não é atleta, porque, embora eu conheça Logan, Fitzy e Hollis, não identifico o quarto sujeito. Tem o cabelo escuro espetado e parece pequeno demais para jogar hóquei.

“Oi.” Logan nos cumprimenta e tira o casaco. O corredor não é grande o suficiente para acomodar tantas pessoas, e me vejo esmagada contra a parede à medida que os rapazes abrem caminho.

“Essa é a minha irmã”, diz Dean, num tom resignado que me faz esconder um sorriso.

Eles assentem e dizem oi, mas estão com muita pressa para chegar à sala de estar. Logan olha para nós por cima do ombro. “Morris arrumou uma versão demo do último Mob Boss. Não foi nem lançado ainda. Provavelmente vamos ficar acordados até tarde.”

Ao meu lado, Summer irrompe num largo sorriso.

“Pega leve. O ônibus sai amanhã às oito”, Dean lembra seu colega de república.

Logan dá de ombros. “Vou dormir no ônibus.” Então desaparece na sala de estar.

Summer está praticamente vibrando de empolgação agora. Ela se aproxima de mim e sussurra: “Quem era aquele?”.

Franzo a testa. “Você quer dizer Logan? Ele mora aqui. Mas não adianta se empolgar. Tem namorada.”

“Não, ele não.” Ela o dispensa com um gesto desdenhoso da mão. “O cara grande, cheio de tatuagens. Não gravei o nome dele.”

“Ah. Fitzy. Colin Fitzgerald”, explico. “Colega de time do seu irmão.”

Seus olhos verdes cintilam. Ela joga o cabelo para o lado de novo e anuncia: “Quero ele”.

“Summer!”, exclama Dean, exasperado, enquanto tento desesperadamente não rir.

“O quê? Só tô sendo sincera.” Sua irmã pisca, inocente. “‘Seja honesto, não seja um babaca’ — foi você que me ensinou isso quando eu tinha doze anos, lembra? Depois que roubei sua camiseta preferida e deixei cair sem querer no esgoto?”

“Como você deixou uma camiseta cair sem querer no esgoto?”, interrogo.

“Eu não estava vestida com ela. Caiu da minha mochila.” Ela sorri para Dean. “Aí eu menti sobre o que aconteceu, e você me fez um discurso sobre honestidade, lembra? Bem, parabéns, Dicky. Sou super-honesta agora.” Ela aponta o dedo para a sala de estar. “Aquele é o cara mais gostoso que já vi. E quero ele.”

“Um dia ainda vou te matar dormindo”, Dean avisa a irmã. “Juro por Deus.”

Seu sorriso é o epítome da doçura. “Ah, Dicky, você jamais faria isso. Quer saber por quê?”

“Por quê?”, resmunga ele.

“Porque você me ama.”

Honestamente? Acho que eu também.

 

DEAN

 

Estou apavorado do que vou encontrar quando chegar em casa hoje à noite. Fiquei fora só por dezesseis horas, mas Summer Heyward-Di Laurentis é capaz de causar danos estratosféricos em dezesseis minutos.

Quando ela tinha treze anos, Nick e eu ficamos sozinhos com ela em casa. Foi só virarmos as costas para ela uns vinte minutos no máximo e, quando entramos na sala de estar, o armário de bebidas estava caído no chão, tinha vidro quebrado por toda parte, e Summer sorriu para nós e disse: “Ops”.

Ela explicou que queria provar um pouquinho de álcool para ver qual era a graça. E destruiu milhares de dólares em bebida alcoólica no processo.

Tudo bem que minha irmã já tem vinte anos agora. Mas acham que eu confio nela? De jeito nenhum. Só estou torcendo para que Allie encontre um jeito de controlá-la. Sim, contratei minha namorada para ficar de babá da minha irmã hoje. Jamais iria deixar Summer solta no campus sem um acompanhante.

Nas cinco horas de ônibus até Scranton, Allie vai me contando sobre como está indo o dia, enquanto repete como a minha irmã é engraçada e me enche de “kkkkk” toda vez que Summer revela um detalhe constrangedor da minha infância.

Tomando café da manhã na lanchonete.

Kkkkkk, sua primeira palavra foi “peito”? Por que isso não me surpreende???

Indo pro salão. Summer quer fazer a unha.

Vc tem medo d agulha d tatuagem??? Summer acabou d dizer q vc qse fez uma c/ 18 anos, mas desistiu pq tava c/ medo. Huahuahuahua.

Odeio a minha irmã.

Durante o jogo, meu telefone permanece no vestiário do time visitante, e nem os olhares gélidos de O’Shea e suas críticas rosnadas podem me abater hoje, porque saímos do rinque depois do terceiro período com uma vitória nas costas.

Meu bom humor me acompanha na saída da arena e no caminho até o ônibus, e me acomodo para a longa viagem, aliviado pela última sequência de mensagens que encontro.

No carro, indo almoçar em Boston. Summer quer fazer compras.

Delícia d almoço. Voltando p/ casa.

Aaahhh, tá nevando! Summer e eu saímos p/ caminhar.

Em casa. Relaxando e batendo papo. Fala pro Tuck q a sopa de tomate dele tá ótima.

Vi no twitter q vcs ganharam! PARABÉNS!

Maratona d filmes. Vou botar o cel no mudo. Até +.

A última mensagem chegou lá pelas oito horas. Ótimo. Espero que isso signifique que Allie e Summer estão no sofá da sala, debaixo de um cobertor, assistindo a um filme, e não por aí, causando problemas.

Hmm. E Allie estava certa. Está nevando. Depois que o ônibus cruza a fronteira do estado de Massachusetts, vejo de repente uns flocos brancos dançando lá fora. Amo o inverno, então aprovo inteiramente a visão.

Chegamos à nossa arena quase meia-noite. Entro na BMW com Tuck, enquanto Garrett e Logan seguem para os alojamentos, para passar a noite com as namoradas.

Dez minutos depois, estaciono diante da nossa casa. Todas as janelas estão apagadas, mas noto a luz da televisão piscando atrás da cortina da sala.

Entramos em casa, e o corredor está um breu total. Caminho à frente de Tucker, tirando os sapatos enquanto procuro pelo interruptor na parede.

Não chego a acendê-lo, porque, de repente, um grito de gelar o sangue corta o silêncio.

Antes que possa reagir, levo um banho da cabeça aos pés com o que parece uma tempestade de líquido morno. Outro grito arrebenta meus tímpanos, e ainda estou lutando para entender o que está acontecendo, quando algo acerta com força a minha têmpora esquerda.

Crack.

A dor invade minha cabeça, e bato no chão feito um saco de batatas.