O Jogo
Capítulo 35
DEAN
Abril
A formatura está chegando. Estou meio indiferente a ela, para ser sincero, mas vou usar beca e capelo e jogar o diploma para cima, porque sei que vai deixar meus pais felizes. Já eu, no geral, estou feliz pra cacete, porque estou apaixonado pela melhor mulher no mundo, e a melhor mulher no mundo está apaixonada por mim.
E mesmo que o time não tenha chegado às finais, isso não significa que não haja novidades no mundo do hóquei. Logan assinou com o Providence Bruins, a equipe de base do Boston Bruins, o que significa que, em um ano ou dois, pode ser chamado para jogar na liga profissional. Quanto a Garrett, seu agente está trabalhando duro nos bastidores. Aparentemente, vários times demonstraram interesse nele, e estou na torcida para que acabe num lugar bom.
Já sei para onde vou — Manhattan. Na semana passada, fiz uma entrevista para a vaga de professor na Parklane Academy. Ontem de manhã, o diretor me ligou para dizer que consegui o emprego. É um contrato de dois anos, sendo que o segundo ano depende da transferência do meu diploma para o curso de educação.
E acho que minha irmã não estava assim tão errada com sua teoria sobre o universo, porque, uma hora depois do telefonema com a Parklane Academy, o agente de Allie ligou com uma notícia que a fez gritar tão alto, que Garrett ouviu lá do chuveiro da suíte dele e entrou correndo no meu quarto, nuzinho em folha e armado com um taco de hóquei na mão.
Depois que explicamos que estava tudo bem — e elogiamos seu pinto —, Allie revelou que tinha recebido uma proposta para trabalhar num programa de TV desenvolvido pelo diretor estrelinha Brett Cavanaugh, com quem ela tinha feito uma peça no verão passado. Não ia ter nem teste — Cavanaugh tinha gostado tanto de trabalhar com Allie que ofereceu o papel direto para ela. A melhor parte? As filmagens vão acontecer em Nova York.
Allie diz que ainda quer fazer teatro também, quando o programa estiver em recesso ou se ele der errado, o que acho que não vai acontecer. Mas o mais importante para ela é que não foi escolhida como a loira burra. Este novo papel é sério e “substancial”, como ela gosta de dizer, e sei que está animada para encarar o desafio.
“E se eu tiver que mostrar os peitos?”
Sua voz irônica me desperta dos meus pensamentos. Estamos caminhando de mãos dadas, nos afastando do prédio de teatro, onde ela acabou de ter uma aula de monólogo. O ar ainda está frio, mas a paisagem está começando a ficar verde de novo, e a neve já derreteu, deixando uma camada de gelo enlameado no caminho de paralelepípedos.
“Ira disse isso?”
“Não, mas é para a HBO. O mais provável é que tenha nudez. No mínimo uma cena de topless.”
“Por você, tudo bem?”, pergunto, cuidadoso.
Ela dá de ombros. “Desde que não seja gratuito, então tudo bem, acho que pensaria no assunto.” Há uma pausa. “E por você, tudo bem?”
Lanço um sorriso diabólico na direção dela. “Gata, seus peitos são demais. Jamais privaria o mundo deles.”
“Fala sério. Você se importaria?”
Penso por um instante, então nego com a cabeça. “Por mim, tranquilo. É parte do seu trabalho, e se você estiver confortável em exibir um pouco de pele, eu não ligo.”
Ela se aproxima e me dá um beijo na bochecha. “Você é incrível. Sabia?”
“Claro que sei. Ouço isso no mínimo dez vezes por dia.”
Sua risada é interrompida quando uma figura familiar aparece na nossa frente. Meus ombros se enrijecem à medida que o ex-namorado de Allie se aproxima de nós, lentamente.
Sean olha para as nossas mãos dadas. Não preciso ver o rosto de Allie para saber o que está sentindo agora. Pela forma como seus dedos apertam os meus, sei que não está feliz em vê-lo. Que não esqueceu as grosserias insensíveis que ele falou para ela depois do feriado.
“Oi, Allie.” Sean parece arrasado, mas não tenho um pingo de simpatia por ele. “Pensei em te ligar.”
“Melhor não”, digo, bruscamente. “Melhor apagar o telefone dela.”
Allie me dá um aperto reconfortante. “Já falamos tudo o que tínhamos para falar”, diz para o ex. Seu tom é suave, mas firme.
Sean pigarreia. “Te devo desculpas.”
“É verdade, e você acabou de fazer isso, e eu aceito. Mas não somos amigos e não vamos ser.” Ela avança. Reluto em fazer o mesmo. Estou me coçando para enfiar um murro na cara do filho da mãe, mas Allie está me puxando para longe dele, os dedos entrelaçados aos meus com força. “Ele não é importante”, murmura para mim.
Ela tem razão. Sean não é importante.
Mal damos cinco passos, e detecto outro rosto familiar. Este pertence a uma loira gostosa que sorri e acena ao passar por nós. “Tá bonito hoje, hein, Di Laurentis.”
Não devolvo o elogio, porque gosto do meu saco, e Allie vai arrancá-lo fora se eu flertar com Michelle. Além do mais, não quero flertar. Allie matou esse desejo. É a única com quem tenho vontade de flertar. Além disso, gosto muito do meu saco.
Então só digo “Bom ver você” e sigo meu caminho.
“Acho que hoje é o dia dos ex-namorados, né?”, comenta Allie, secamente.
Reviro os olhos. “Michelle não é minha ex.”
“Certo. É só alguém com quem você fez sexo a três.”
“Com quem quase fiz sexo a três. Você me atrapalhou, lembra?”
“Lembro.” Ela parece satisfeita consigo mesma, e finjo fazer beicinho. “Rá. Não aja como se eu tivesse arruinado a sua única chance de fazer sexo a três. Tenho certeza de que não foi a primeira vez.”
Dou de ombros.
“Que merda. Quantas vezes você fez isso?”
Desta vez, dou uma piscadinha. “Algumas. E você?”
“Várias.”
Fico rígido. “Nomes e datas”, rosno. “Preciso fazer outra lista Kill Bill.”
Allie começa a rir. “Relaxa. Você estava em todas.”
Meus lábios se franzem. Hmm, acho que me lembraria se tivesse feito…
“Você, eu e Winston”, diz ela, feliz.
Solto um gemido, exasperado. “Isso não conta.”
“Claro que conta. Teve dupla penetração.”
Ah, se teve.
Uma hora depois, estamos de volta à minha casa. É a vez de Allie escolher o filme, o que significa que posso tomar um banho, porque ela sempre leva um tempo ridiculamente enorme para decidir o que quer ver. Dez minutos depois, entro na sala e a vejo aconchegada sob uma manta, mexendo no telefone.
Quando me vê, fica boquiaberta. “Ai, meu Deus, Dean. Por que você tá pelado?”
“Não gosto de camiseta.”
“E calças?”, exclama ela. “Tem alguma coisa contra elas também?”
Atravesso a sala e deixo minha bunda pelada cair no sofá, em seguida pego uma ponta da manta e cubro a parte inferior do meu corpo. Allie me observa, divertida.
“O quê?”, pergunto, na defensiva.
“Nunca conheci ninguém tão avesso a roupas. É tão estranho.”
Pego sua mão e trago para debaixo da manta. Coloco bem em cima do meu pau semirrígido. “Estranho ou impressionante?”
Ela esfrega o dedo ao redor da cabecinha, em seguida, suspira. “Impressionante”, corrige-se.
“E aí, o que você escolheu?” Aponto para a tela da TV, o tempo todo apreciando o movimento lento e preguiçoso sob a manta.
“Ah, você vai gostar desse!” Sua mão para, e Allie se vira para mim, um sorriso escancarado no rosto. “Ganhou um Oscar.”
Deixo escapar um gemido. “Não, gata. Não. Me recuso a assistir mais um dos seus ‘vencedores do Oscar’.”
Ela aperta um botão no controle remoto com a mão livre, e meus olhos se arregalam de delírio.
“O exorcista?!”, exclamo. “A porra do Exorcista?” Nem registro mais o carinho debaixo da manta. Estou empolgado demais que ela escolheu um filme de terror, e Míni Dean está pagando o preço por minha felicidade não baseada em sexo.
“Tá vendo que namorada boa eu sou? Faço tudo por você.” Ela sorri. “Esse relacionamento é demais.”
“Demais mesmo.” Beijo sua bochecha e, em seguida, prendo o fôlego diante do que acaba de me ocorrer.
“O que foi?”, pergunta ela, preocupada.
Fito Allie com olhos ainda mais esbugalhados. “Gata… viramos dois chatos?”
Minha namorada dá uma gargalhada. “Você acabou mesmo de perguntar isso?”
“Acabei!” Gesticulo com uma das mãos para a sala vazia. “Olha só pra gente. É sexta à noite, e estamos no sofá da sala, falando sobre como o nosso relacionamento é demais. É a coisa mais chata que a gente podia estar fazendo.” Suspiro alto. “Esta é a nossa vida agora? Condenados a ficar em casa abraçadinhos todas as noites? A emoção acabou?”
“A emoção não acabou”, me assegura ela.
“Tem certeza? Porque parece…”
“Oi.” A voz de Tucker me interrompe, e nós dois erguemos o rosto e o encontramos de pé, junto da porta.
“Oi.” Franzo a testa. “Achei que você ia sair com Hollis hoje.”
“Mudança de planos.” Ele entra na sala, assimilando a visão de nós dois sob a manta. “G. e Logan estão em casa?”
Nego com a cabeça. “No alojamento.”
“Merda.” Ele deixa a mão cair junto do seu corpo. Sua expressão tensa é alarmante. Assim como o jeito como fica mudando o peso do corpo de um pé para o outro, como se não conseguisse encontrar a posição certa.
“Tudo bem?”, pergunta Allie, sutil.
Tucker hesita. “Eu… Porra, estava torcendo pra que estivessem em casa, pra eu dar a notícia para todo mundo logo de uma vez.”
“Que notícia?” Minha inquietação aumenta.
“Eu… hmm…” Ele para, fecha a boca. Abre a boca. Para de novo. Então solta uma expiração que parece saída do fundo da sua alma. “Vou ter um filho.”
O silêncio cai sobre a sala.
De canto de olho, vejo a boca escancarada de Allie. Seu choque é tão palpável quanto o meu.
Como um idiota, fito a barriga de Tucker por uns bons dez segundos, antes de me lembrar que não vivemos num mundo em que Arnold Schwarzenegger pode carregar uma criança na barriga.
“Você vai ter um filho?” Minha mente continua a girar como um carrossel, o que dificulta muito falar sem gaguejar. “Com… com quem?”
Tucker fita meus olhos confusos e responde: “Sabrina James”.
E, ao meu lado, Allie começa a rir.
Viro a cabeça na direção dela, mas sua risada continua a lhe escapar, baixa e ofegante, até que enfim ela recupera o fôlego e me lança um sorriso irônico. “A emoção acabou, é?”
Eu que o diga.