O Jogo

Elle Kennedy · Capítulo 34 de 39

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O Jogo

Capítulo 33

 

ALLIE

 

Três dias depois de sair correndo da casa de Dean dizendo que nosso namoro acabou, encontro-o na cafeteria do campus. Todas as meninas aqui dentro se viram para admirá-lo quando ele entra pela porta. Eu também, porque… nossa, ele parece o Dean por quem me apaixonei. Os olhos verdes brilhando animados quando pede um café no balcão, o cabelo louro contornando o rosto esculpido, as calças cargo abraçando a bunda perfeita.

Basta olhar para o seu rosto e sei que não bebeu hoje. Na verdade, talvez não beba há dias. Hannah me contou ontem que Dean falhou num teste de drogas e foi expulso do time. Não posso negar que meu coração se partiu quando soube disso, porque sei o quanto o hóquei é importante para ele, mas a notícia não me surpreendeu nem um pouco. Você não pode encher a cara e usar drogas sem enfrentar as consequências. No ritmo em que ele estava indo, um dia a farra ia cobrar seu preço.

Para minha surpresa, ele não parece chateado quando toco no assunto, que é a primeira coisa que abordamos quando ele se acomoda no assento à minha frente. Dean simplesmente dá de ombros. “Mereci.” Com uma expressão de dor, ele acrescenta: “Mas não vim aqui pra falar do time. Queria pedir desculpas.”

Faço que sim com a cabeça. Foi o que imaginei quando recebi sua mensagem me convidando a vir hoje, mas, santo déjà-vu, porque é a segunda vez em três meses que me vejo nesta posição. Na última vez, éramos eu e Sean. Sentados neste mesmo café, tendo esta mesma conversa. Mas, agora, a dor em meu coração é um milhão de vezes pior, porque ainda estou apaixonada por Dean. Irremediável e desesperadamente apaixonada por ele.

“Desculpa, gata. Estraguei tudo.” Seus dedos longos e graciosos envolvem a xícara de café. “Não soube lidar com a morte de Beau. Pra ser sincero, não sei se estou lidando bem com ela agora, mas pelo menos tô sóbrio.”

Concordo com a cabeça de novo.

“Desculpa por ter perdido a peça. E desculpa por ter colocado você numa posição em que teve que se desculpar por mim. Com o treinador Ellis e…”, sua voz falha, “… Dakota. Tô planejando implorar o perdão deles também. Mas queria ver você primeiro.”

Sei disso. Faz três dias que ele está me ligando e me mandando mensagens, mas só concordei em vê-lo hoje. Estava tudo muito recente ainda.

Dean dá um gole no café. Quando fala, sua voz soa tomada pela vergonha. “Tem lugar no seu coração pra me perdoar?”

No meu coração? Deus, meu coração está devastado agora. Parece que acabou de enfrentar um furacão. O furacão Dean. Ainda não posso apagar a noite de sexta da minha mente. De pé no palco, procurando na multidão e não vendo Dean. Chegando em casa e o encontrando completamente alterado.

Mas se posso perdoá-lo?

Poxa, claro que posso. Não guardo rancor. A vida é muito curta para isso.

“Claro que posso te perdoar.” A centelha de esperança em seus olhos não me passa despercebida, e me dói ter que extingui-la. “Mas isso não é uma questão de perdão.”

“É uma questão de quê, então?”

“Me diz você. Você veio aqui me pedir pra voltar pra você?”

Ele assente, lentamente. Seu rosto inteiro se suaviza. “Eu te amo”, diz, a voz rouca. “Não quero ficar longe de você.”

A dor se irradia dentro de mim. Também não quero ficar longe dele. Mas… acho que preciso disso.

“Não… não posso ficar com você”, sussurro.

Ele solta um som angustiado.

“Pelo menos não agora.” Agarro meu copo de isopor com ambas as mãos, precisando desesperadamente do seu calor. “Nunca fiquei sozinha, Dean. Nunca. Comigo sempre foi um relacionamento depois do outro. Nem sei se sei viver sozinha, e acho que pode ser uma boa hora pra descobrir. Você mesmo já falou — você ainda tá lidando com a sua perda. E ainda tem outras pessoas com quem fazer as pazes. Então, enquanto você estiver lidando com os seus problemas, eu lido com os meus.”

Ele cerra os dentes. Acho que vai se opor. Fico esperando ele rebater o meu pedido. Porque ele é Dean Heyward-Di Laurentis, o homem que sempre consegue o que quer. O homem que insiste e insiste até onde pode. Mas ele me surpreende. “Quanto tempo?”, pergunta, a voz rouca.

Mordo o lábio. “Não sei. Algumas semanas? Um mês? Não tenho um cronograma. Só sei que preciso ficar sozinha agora. Sem namorado. Só eu.”

Ele parece triste. “Tudo bem.”

Posso ver as perguntas em seus olhos. Vamos só dar um tempo ou estamos terminados? Estraguei tudo? Você ainda me ama? Mas ele não as expressa em voz alta. Apenas assente com a cabeça e murmura: “Leve o tempo que precisar, gata.”

 

DEAN

 

Achei que Allie fosse dizer uma coisa ou outra — Acabou de vez, Dean ou Te perdoo, Dean. Esperava um fim de namoro ou uma reconciliação chorosa, não esse estado angustiante de limbo.

Mas tudo bem. É só um pequeno contratempo, não? Se ela precisa ficar sozinha agora, então vou deixá-la em paz. Mas fico encorajado pelo fato de que ela me deixou beijá-la antes de seguirmos cada um o seu caminho. E, quando passei uma mecha do seu cabelo atrás da orelha, ela se inclinou para junto do meu toque e esfregou o rosto contra os meus dedos.

Allie ainda me ama. Guardo essa certeza reconfortante perto do coração pelos próximos dias. Preciso da convicção de que alguém ainda me ama, enquanto sigo num calvário de desculpas que me deixa exausto. Estou armado com uma lista Kill Bill de pessoas — quer dizer, pessoas a quem pedir desculpas, e não para assassinar com espadas de samurai. Cheguei até a escrever os nomes numa folha de papel, porque não ia ser capaz de decorar todos eles.

Os primeiros são fáceis de cortar.

Hannah ainda está furiosa comigo por ter machucado sua melhor amiga, mas ganho seu perdão após passar uma hora inteira recitando o que amo em Allie e tudo o que vou fazer se — não, quando —, quando ela estiver pronta para me ver de novo. Hannah cede.

 

WELLSY

 

Em seguida, me desculpo com meus colegas de time por tê-los decepcionado. Tecnicamente, não fui expulso, só suspenso até a próxima temporada. Mas como vou me formar na primavera, não tem próxima temporada para mim.

Os caras estão surpreendentemente tranquilos com a burrada que me tirou da comissão de hóquei. Para ser sincero, acho que desistiram da temporada. Garrett me garante que ainda estão dando duro no gelo, mas acho que está todo mundo pronto para colocar este ano desastroso para trás e começar do zero. Principalmente Hunter. É com ele que me desculpo mais intensamente, prometendo recompensá-lo por ter abandonado nossos treinos particulares.

 

TIME

Mas eles não são meu único time, e meu coração está pesado enquanto dirijo até a arena de Hastings. Mais uma vez, sou tomado de surpresa, porque não preciso me esforçar muito para fazer as pazes com o treinador Ellis. Antes que consiga começar o longo discurso que preparei, ele dá um tapa de leve em meu ombro e diz: “Guarda isso para os meninos. É bom ter você de volta”.

 

TREINADOR ELLIS

 

Os meninos? Também foi fácil reconquistá-los. Dessa vez, consigo chegar à metade do meu discurso, que inclui uma promessa de levá-los para comer uma pizza. Quando tento seguir em frente, Robbie me interrompe, gritando: “Cara, você ganhou a gente quando disse pizza!”.

 

HURRICANES

 

Fico e ajudo com o treino. Meu coração não está mais pesado. Está transbordando, porque Allie tinha razão, amo isso. Patinar com as crianças, dar dicas sobre como posicionar o corpo, quando fazer o lançamento. Depois do apito final, ajudo Ellis a arrumar o equipamento e passamos dez minutos discutindo opções que jamais imaginei que estivessem disponíveis para mim.

Minha ansiedade ressurge quando subo as arquibancadas.

Dakota está com o caderno cor-de-rosa no colo, o lápis equilibrado numa página em branco. Ela fica tensa quando me sento a seu lado. Não diz oi, e vejo a dor nítida em seus enormes olhos azuis.

“Então, o que a malvada da senhora Klein passou de dever de casa hoje?”, pergunto com a voz rouca.

Ela me ignora.

“Se você tiver que escrever uma redação sobre o seu herói, tenho certeza de que não vou aparecer. Mas se for uma descrição da pessoa que você mais odeia? Aposto que pode escrever fácil dez páginas sobre mim.”

Ela dá uma risadinha, então cobre a boca, horrorizada, como se estivesse tentando guardar o barulhinho agudo lá dentro.

“Dakota”, suspiro.

Ela enfim olha para mim. Com raiva. “Tô brava com você.”

“Eu sei, mocinha.” Engulo um caroço de vergonha. Sou um idiota. Abandonei nossas aulas de patinação, não apareci para explicar. Simplesmente sumi da sua vida.

Dakota e Robbie estão sendo criados por uma mãe solteira. Dakota fala muito dela e contou que, um dia, seu pai simplesmente saiu pela porta e nunca mais voltou. A ideia de que posso ter trazido à tona memórias tão dolorosas para ela faz meu estômago revirar.

“Meu amigo morreu…”, paro abruptamente, porque não consigo pensar em Beau sem experimentar uma dor dilacerante no coração. Droga, sinto tanta saudade daquele imenso idiota. Sinto falta de conversar com ele, de poder falar qualquer merda. Com quem mais posso discutir Crepúsculo e não me sentir julgado? “Não lidei com isso muito bem”, digo a Dakota. “Nunca perdi ninguém antes. Bem, só o vovô Kendrick, mas ele morreu quando eu tinha cinco anos. Talvez fosse mais forte quando era criança.”

Ela está me observando com cautela.

“Me desculpa, Koty. Sinto muito, muito mesmo por ter desaparecido sem dizer uma palavra. Se quiser, pode dar o soco mais forte que você conseguir na minha cara. Mas depressa, enquanto o treinador Ellis não tá olhando.”

Ela ri de novo. Então, provando que crianças são mesmo mais fortes, estica a mão e dá um tapinha no meu braço. “Para de palhaçada, Dean. Gosto de você de novo.”

Engulo uma risada. “Gosta?”

“Aham.” Ela sopra uma bolha com o chiclete, em seguida, aponta para o caderno. “Tenho que escrever uma página sobre meu filme preferido e por que gosto dele.”

“Entendi. Qual o seu filme preferido?”

“O diário da princesa.”

Claro.

“Certo.” Estalo os dedos como se estivesse me preparando para uma luta. “Vamos resolver isso.”

 

DAKOTA

 

Quando chego em casa, ligo para Joanna Maxwell e por sorte a pego no teatro, no intervalo do jantar. Peço desculpas por não ter ido ao velório. Ela me perdoa. Conversamos sobre Beau por quase uma hora, até ela me dizer, relutante, que precisa voltar para os ensaios. Prometemos manter contato, e desligo com uma pontada de dor no coração. Porém, não vou quebrar essa promessa. Beau era importante para mim. Joanna é sua irmã mais velha. Vou sempre manter contato.

 

JOANNA

 

Tenho mais uma ligação para fazer, e não estou ansioso por ela. Alguns dias atrás, pedi a Fitzy para rastrear Miranda O’Shea para mim. Fitz arruma video games piratas o tempo todo sem precisar comprar, então imagino que seja capaz de rastrear um número de telefone. E parece que imaginei certo. Não tenho ideia de como ele fez isso, e não planejo perguntar, porque prefiro não ir para a cadeia.

Digito o número e espero. Faz anos que não vejo nem falo com Miranda. Não sinto mais nada por ela, mas, ah, como temos questões não resolvidas entre nós. E tem uma coisa que nunca cheguei a lhe dizer. Espero mudar isso hoje.

Se ela atender a porcaria do telefone. Ele toca e toca, e, quando estou prestes a desligar, uma voz agitada surge do outro lado da linha.

“Alô?”

Respiro fundo. “Miranda?”

“Sou eu. Quem tá falando?”

“É… ah, o Dean.” Faço uma pausa. “Dean Di Laurentis.”

Um silêncio estupefato preenche a chamada.

“Sei que tô ligando completamente do nada…”

“Como você conseguiu o meu número?”, interrompe ela, mas sua voz é suave, e não irritada. “Meu pai?”

“Não. Um amigo meu arrumou para mim.”

Há uma pausa constrangedora de ambos os lados.

“Não vou demorar muito”, começo. “Só tinha uma coisa pra dizer. Uma coisa que nunca disse naquela época, porque seu pai tirou você da escola.” Expiro, tenso. “Me desculpa.”

Ela expira também, bruscamente.

“Desculpa por tudo o que aconteceu entre nós”, continuo. “Pelo meu papel no seu… hmm…”

“Colapso?”, completa ela, com ironia. “Não foi culpa sua, Dean. Eu já estava lidando com a depressão muito antes de namorar você.”

“Eu sei. Mas… a gente fez sexo… e depois…” Meu Deus, como isso é desconfortável. A conversa inteira parece… clínica. Como dois estranhos discutindo a vida sexual de outra pessoa, e não a própria.

“A gente fez sexo porque eu te seduzi quando você estava bêbado.” Ela soa profundamente envergonhada. “E depois eu tentei te forçar a ficar comigo, quando sabia que você não estava feliz. Você não tem ideia de como me senti culpada depois. Queria te ligar, mas estava morrendo de vergonha. E meu pai falou que ia me mandar para a Sibéria se eu falasse com você de novo. Então fiquei quieta. Achei que você ia acabar se esquecendo de mim.” Há uma pausa. “Obviamente não esqueceu.”

“Não, não esqueci.”

Outra pausa.

“Enfim.” Limpo a garganta. “Era isso que eu queria dizer. Me desculpa se fiz ou falei alguma coisa para contribuir com o que você estava passando, ou para agravar. Nunca quis machucar você.”

“Também nunca quis machucar você.”

Engulo em seco. “Então… você tá bem agora? Se formando na Duke, esta primavera, hein?”

“É!” A empolgação ecoa do outro lado da linha. “E vou para a faculdade de medicina!”

A notícia me assusta, porque ela sempre falou que queria ser assistente social, e não médica. Mas acho que as pessoas mudam. Eu mesmo mudei pra caramba. Passamos alguns minutos colocando o papo em dia, e fico aliviado quando a chamada termina. Miranda foi um capítulo importante na minha vida, mas é bom fechá-lo.

 

MIRANDA O’SHEA

 

Nem me dei o trabalho de colocar o pai de Miranda na lista. Pedido nenhum de perdão vai fazer aquele filho da mãe gostar de mim, e, verdade seja dita, não devo a ele mais desculpa nenhuma. O único crime de que sou culpado foi terminar com a filha dele. Não merecia o soco na cara nem ser tratado feito lixo por isso.

Frank pode resolver seus problemas sozinho.

Estou resolvendo os meus.

 

Mais uma semana se passa. Allie continua vivendo a sua vida. Eu continuo na minha. Já trocamos algumas mensagens, só uns “E aí? tudo bem?”, e não mais que isso. Estou morrendo de vontade de vê-la. Abraçá-la. Beijá-la. Fazer amor com ela. Mas prometi ser paciente, então mantenho distância.

No entanto, encho o saco de Hannah em busca de informações sempre que posso. Sei que Allie mandou superbem na disciplina de roteiro. Sei que fez as unhas no salão da cidade. Esmalte verde-claro, me contou Wellsy, e isso me fez sorrir.

Quando a importuno de novo por notícias, Hannah revela que Allie foi a Los Angeles. Meu coração vai parar no meu pé, porque acho que ela me largou de vez, mas Hannah não demora em me tranquilizar. Acontece que o pessoal da Fox quis que ela fosse até lá e fizesse um teste pessoalmente. Adoraram o vídeo, mas queriam experimentar a química com as duas outras atrizes com quem deve trabalhar.

Meu coração quase explode de orgulho quando ouço isso, e mando uma mensagem de parabéns. Sua resposta só chega várias horas depois. Ela me diz que está prestes a embarcar no voo de volta para casa e que vamos conversar em breve.

No sábado de manhã, embarco em meu próprio voo no aeroporto de Boston. Vou fazer uma viagem rápida a Nova York, porque tenho um item final que preciso riscar da lista.