O Jogo

Elle Kennedy · Capítulo 24 de 39

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O Jogo

Capítulo 23

 

ALLIE

 

Estava tensa com a reação de Beau Maxwell quando me visse chegando com Dean, mas não precisava ter me preocupado. Beau nem sequer pisca quando Dean me apresenta como “melhor amiga e colega de alojamento da namorada do G.”. Talvez ele tenha se perdido no meio da longa explicação. De qualquer maneira, ele simplesmente parece muito feliz de que tenhamos vindo à boate.

A irmã de Beau, Joanna, é igualmente animada, e joga os braços em volta de Dean. “Di Laurentis! Ainda bem que você veio. Tô muito perto de matar esse idiota do meu irmão, você não tem nem ideia.”

“Que nada, você não quer me matar”, comenta Beau, com um largo sorriso. “Você ama o seu irmãozinho e sabe disso.”

Joanna mostra o dedo médio para ele, mas também está sorrindo. É tão atraente quanto Beau, alta e escultural, com olhos azuis reluzentes e cabelo escuro na altura do queixo. Dean me contou que tem um papel secundário num musical da Broadway, o que é a primeira coisa que pergunto a ela quando entramos na boate, depois de passar pela fila. Digo, depois de simplesmente ignorar a fila, pois Dean sussurra uma palavra na orelha do segurança, e a corda de veludo se levanta para nós como que por mágica.

Lá dentro, as luzes estroboscópicas estão a toda e a música é ensurdecedora. Joanna e eu precisamos berrar para continuar a conversa. Dean e Beau, andando à nossa frente, são imediatamente engolidos pela multidão frenética.

“Perdemos os meninos”, grito no ouvido de Joanna.

Ela nega com a cabeça e aponta para a escada em espiral à esquerda. Lá estão eles, subindo os degraus de metal. Dean olha para trás por cima do ombro, nos vê no meio da multidão e gesticula para os acompanharmos.

Descubro que a escada leva à área VIP. Chegamos ao topo a tempo de ouvir Dean abordar o segurança imenso na entrada. “Dean Heyward”, grita ele. “Tony me conhece.”

O segurança toca o pequeno Bluetooth em seu ouvido. Seus lábios se movem, mas não consigo identificar o que está dizendo. Um segundo depois, nosso pequeno grupo passa por mais uma corda de veludo.

Felizmente, a música aqui em cima não é tão alta, então não preciso mais gritar feito uma louca. “Dean Heyward?”, provoco. “Não estamos mais usando o Di Laurentis?”

Ele passa o braço a minha volta, e o cheiro forte de sua loção pós-barba infunde meus sentidos, me fazendo tremer. “Di Laurentis funciona melhor em country clubs ou eventos de caridade. Heyward abre mais portas em Manhattan.”

Sem dúvida. Não só temos acesso ao salão VIP como somos levados a uma mesa grande junto da varanda de ferro que dá para a pista de dança. Pego o telefone e vejo que Dillon mandou uma mensagem. Ela e o namorado daqui a pouco vão estar aqui. Respondo avisando para os dois subirem quando chegarem, então tento acompanhar a conversa à minha volta.

Joanna está provocando o irmão sobre alguém chamada Sabrina, mas ele está insistindo que a relação acabou, o que parece perturbar a irmã.

“Deixa de ser burro! Sério, Beau, você precisava de alguém como ela, para manter você na linha.”

Como Dean ainda está com o braço à minha volta, posso senti-lo ficando tenso. Fito seu perfil emburrado, e aperto sua coxa de leve. “Tudo bem?”

“Ah, não liga pra ele, não, gata”, comenta Beau, com uma risada. “Dean sempre fica assim quando o assunto Sabrina vem à tona. Acho que ainda tá de mau humor porque ela traçou o meu amigo aqui e depois jogou fora.”

Não fico surpresa em ouvir que Dean já dormiu com essa menina, quem quer que seja. O que me surpreende é a minha completa falta de ciúme.

O mesmo aconteceu durante a viagem de carro. Ouvir Dean falar sobre “mulheres que gozam em silêncio” e casos passados não me deixou chateada como na noite em que vi Penelope se jogando em cima dele no Malone’s. Mas não me senti ameaçada nesse caso. Talvez porque elas fossem obviamente memórias para ele, e não fantasmas no nosso presente capazes de interferir com o que temos aqui. Não sei muito bem qual é o motivo, mas gosto dessa confiança estranha e inesperada que sinto nele.

Na cadeira a meu lado, Dean revira os olhos em resposta à provocação de Beau. “Vai por mim, fico feliz de ter sido desprezado.”

Espero pela continuação. Mas o fato de que ele fica quieto aumenta a minha curiosidade, então dou um cutucão na lateral de seu corpo e digo: “Bota pra fora, lindinho. Quero ouvir mais sobre esse cabo de guerra que tá rolando aqui”. Como Hannah seria capaz de atestar, sou curiosa demais para o meu próprio bem.

“Eu também”, concorda Beau.

Dean dispensa o assunto com um gesto de mão. “Foi uma bobeira no segundo ano. Nada demais.”

“Ah, claro, se ainda te incomoda, dois anos depois”, ressalto.

Ele franze a testa. “Resumindo? Eu estava com dificuldade numa disciplina, mas, toda vez que achava que tinha ido mal na prova ou escrito um artigo de merda, ganhava uma nota alta. Burro que sou, não associei isso ao fato de que estava comendo a professora assistente.”

Beau dá uma gargalhada. “Demais!”

Solto um suspiro. “Ah, não.”

“Pois é, maior burrada”, diz Dean, penitente. “De qualquer forma, Sabrina e eu fizemos dupla no projeto final. Cada um de nós fez metade do trabalho e recebeu notas separadas. A minha parte merecia, no máximo, cinco, e nós dois sabíamos disso, só que quando as nossas notas voltaram eu tirei nove. E Sabrina, sete.” Sua mandíbula se enrijece. “Ela ficou furiosa. Foi fazer queixa com o professor, e ele acabou relendo todos os trabalhos e provas que fiz na disciplina — todos avaliados pela assistente que eu estava pegando. No final das contas, eu tinha que ser reprovado. Mas estava só tirando nota alta.”

Dean soa tão revoltado que me assusta. Antes de ficar com ele, achava que era o tipo de cara que levava a vida se dando bem por causa da aparência e do dinheiro. A história que está contando corrobora isso. Mas a raiva em sua voz revela algo mais — ele não quer o caminho do privilégio.

“Fiquei revoltado”, admite, confirmando minhas suspeitas. “Falei pro professor me reprovar. Podia muito bem repetir a disciplina no verão. Mas o filho da mãe não aceitou.”

“Por que não?”, pergunta Joanna, ao mesmo tempo indignada e perplexa.

“Conhecia o meu pai”, murmura Dean. “Os dois fizeram direito juntos, e ele me disse que ia fazer vista grossa como um favor ao meu pai. Respondi que não concordava com aquilo de jeito nenhum. Discutimos por um tempo, até que ele enfim aceitou diminuir a minha nota para oito. Foi ‘o melhor que podia fazer’.”

A expressão de Dean é mais sombria que uma nuvem de tempestade.

“Eu devia ter reprovado a porcaria da matéria, mas o nome Di Laurentis me comprou uma nota, e Sabrina nunca me deixa esquecer isso. Acha que sou um babaca rico que consegue o que quer.” Seu tom volta a ficar desdenhoso. “Tanto faz. Ela pode achar o que quiser. O que importa é o que eu acho, certo?”

Posso ver além do sorriso descontraído que abre. Dean se incomoda que as pessoas pensem que ele é um playboy rico que recebe tudo numa bandeja de prata. E sim, reconheço esse lado dele — A Vida de Dean é uma delícia —, mas também já vi outras facetas de sua personalidade ao longo desse mês.

Ele é obstinado. Sério, o cara não desiste nunca quando quer uma coisa.

Ele se preocupa com os amigos e os colegas do time. Nesta semana, não nos vimos na segunda nem na terça, porque ele tinha pedido tempo extra de gelo para ajudar um cara chamado Hunter a treinar suas habilidades.

Ele tem mais livros que a biblioteca pública do Brooklyn, e, pelo desgaste dos exemplares, sei que de fato leu todos eles.

Ele…

“Sua bolsa.”

Ergo a cabeça. “O que tem?”

Dean aponta para a bolsa preta de festa no banco entre nós. “Está vibrando.”

Desperto da lista bizarra que estava compondo de Por que Dean é o máximo e abro a bolsa para encontrar meu telefone zumbido.

Coloco a cuba libre na mesa. “Meus amigos chegaram. Vem buscá-los comigo? Talvez você precise falar com o segurança de novo.”

Ele solta um suspiro exagerado. “Sabia. Você só tá me usando por causa das minhas conexões.”

“É isso aí”, respondo, alegremente.

Voltamos até a escada, e dou um gritinho quando identifico um rosto familiar atrás da corda.

“Eles estão com a gente”, diz Dean ao segurança.

Um minuto depois, tem uma morena baixinha igualmente histérica se atirando nos meus braços.

“Meu Deus! Que bom ver você!”, grita minha melhor amiga da escola. “Você não me liga mais!”

Sorrio e digo: “Nem você”. E então estamos nos abraçando animadas de novo, até que reparo na sombra ameaçadora sobre nós.

Dillon se solta do meu abraço e apresenta o namorado. “Este é Roy.”

Na última vez que nos falamos por telefone, ela comentou que estava namorando um jogador de futebol americano. Mesmo que ela não tivesse me dito isso, eu teria imaginado, porque Roy é um monstro. Deve ter pelo menos dois metros de altura, os braços grossos feito troncos de árvores e as coxas maiores que o meu torso. E talvez eu esteja imaginando coisas, mas ele é igualzinho ao…

“Cara, alguém já te falou que você é igual ao Samuel L. Jackson jovem?”, pergunta Dean, roubando as palavras da minha boca.

Roy estufa o peito gigante. “Ah, entendi, porque nós negões somos todos iguais, é isso?”

Me viro, alarmada, para Dillon, porque o olhar ameaçador distorcendo as feições de Roy é absolutamente aterrorizante. E sua voz é mais grave que a linha de baixo ressoando na boate.

“E o que mais?”, rosna Roy. “Vai dizer que não posso sair com uma menina branca elegante? É isso?”

Dean está imperturbável. “Pois é, cara, você me pegou. Sou um grande racista.” Incrédulo, ele balança a cabeça e continua a olhar para Roy. “É impressionante. Vocês são iguaizinhos.”

Estou a segundos de tapar a boca de Dean com a mão, antes que esse monstro quebre ele ao meio, mas, para minha surpresa, a expressão sinistra de Roy se suaviza.

“Tô brincando com você, cara. Ouço isso o tempo todo.” Roy abre um imenso sorriso. “Ganhei dez mil dólares no verão passado num concurso de imitações de celebridades — meu Sam Jackson ficou em primeiro lugar. Fiz o discurso de Do fundo do mar pouco antes de ser engolido pelo tubarão.”

“Muito bom.” Dean abre um sorriso travesso. “P.S.: Mais um pouco de racismo vindo na sua direção — você tem a voz do James Earl Jones.”

Roy joga a cabeça para trás e solta uma gargalhada retumbante. Então dá um tapa no braço de Dean e diz: “Até que você não é mal, branquelo”.

E, simples assim, os dois são melhores amigos, conversando animadamente enquanto seguem adiante.

Dillon suspira e passa o braço no meu. “Roy gosta de assustar as pessoas”, se desculpa.

Solto um risinho. “Não se preocupe, Dean não se assusta facilmente.”

“Dean, é?” Seus olhos se acendem. “Por que você não me disse que tinha um namorado novo?”

“Porque não tenho. Estamos só nos divertindo. Nada sério.”

“Rá! Até parece, A.J. Com você é sempre sério.”

Tenho vontade de dizer que não dessa vez, mas, assim que chegamos à mesa, as vozes dos homens abafam a nossa conversa. Beau e Roy já estão falando de futebol, e, como o namorado da minha amiga é um gigante, ocupa o espaço de pelo menos três pessoas no banco. Dillon se acomoda ao lado dele, o que deixa zero espaço para mim.

Sorrindo, Dean me puxa em seu colo e passa um braço forte em volta da minha cintura. “Pode sentar aqui, gata.”

“Ah, obrigada, docinho.”

Nós seis formamos um grupo tão improvável que, de repente, me vejo em Clube dos cinco. Beau, o quarterback da Costa Leste. Dean, o jogador de hóquei. Roy, o linebacker de Louisiana. Joanna, a atriz da Broadway. Dillon, a universitária de finanças. E eu, a futura atriz de comédias românticas.

Apesar disso, a conversa mantém-se sempre animada. Dillon e eu colocamos o papo em dia sobre o que andamos fazendo nos últimos meses. Depois que entrei para a faculdade, perdi contato com a maioria dos meus amigos da escola, mas a amizade de Dillon é uma que eu estava determinada a preservar.

Enquanto converso com ela, estou muito ciente de Dean me tocando. O tempo todo. Acariciando meu ombro. Deslizando a mão em minha coxa. Cheirando meu pescoço. Num determinado momento, ele chega a roçar os lábios em minha bochecha, o que provoca um assobio alto de Beau.

“Nossa, Bella”, se maravilha ele. Quando meus olhos encontram os seus, vejo que está se divertindo enormemente. “Que feitiço você lançou no meu Dean? Nunca o vi assim com uma garota antes.”

“Meu nome é Allie”, corrijo.

Isso o faz rir ainda mais.

Dean suspira, em seguida, se aproxima e pergunta, baixinho: “Quer dançar?”.

“Depende… Você dança bem?”

“Todo homem dança bem.”

Dou uma risada. “O dedo do pé que quebrei na escola não concorda com isso.”

“Desculpa, o que devia ter dito é — todo homem é capaz de dançar bem.” Suas mãos me seguram pela cintura, e ele me coloca de pé. “Homens só precisam saber um passo para mandar bem numa pista de dança.”

“Ah, é? Qual?”, pergunto, curiosa.

Dean entrelaça os dedos nos meus, enquanto descemos a escada. “CJS”, grita ele, porque a música está mais alta aqui em baixo.

Fico na ponta dos pés para levar a boca até junto do seu ouvido. “O que é isso?”

“A única das siglas malucas de Logan que incorporei em minha vida — CJS.” Sua boca se abre num amplo sorriso. “Chegar junto e sarrar.”

O riso brota em bolhas de minha boca, transformando-se num grito de prazer quando Dean me levanta em seus braços. Passo as pernas em volta de sua cintura e me seguro firme, enquanto ele me leva para a pista. Então me coloca de pé, pressiona o corpo delicioso no meu e me prova que o CJS é de fato o único movimento que importa.

Com a batida sensual e pulsante se espalhando em meu sangue, jogo o cabelo para o lado, movo os quadris e corro as mãos para cima e para baixo no peito musculoso de Dean. A luz estroboscópica pisca na boate escura, oferecendo vislumbres tentadores das feições esculpidas de Dean, os olhos verdes hipnóticos, a curva sexy da boca.

Dançamos por horas. Ou, pelo menos, é o que parece. Os outros se juntam a nós na pista, e não me lembro da última vez em que me diverti tanto. Danço com Beau, que agarra minha bunda toda vez que tem uma chance. Danço com Roy, que tem movimentos alucinantes para um homem tão grande. Danço entre Dillon e Joanna. Danço com Dean, e o abraço erótico de seus quadris me deixa excitada, sedenta e feliz.

Dillon e eu viramos dois shots no bar, mas não estou bêbada, só deliciosamente alegre. Dean também parece estar pegando leve, mas os outros estão a meio caminho de um pileque. Principalmente Beau, que está com as bochechas vermelhas, os olhos brilhando e quase comendo em pé uma ruiva maravilhosa na pista de dança.

Joanna vai embora lá pelas onze e meia, dizendo que tem ensaio cedinho na manhã seguinte. Dillon e Roy vão logo depois; no instante em que Dillon começa a enrolar a língua, Roy se prova não apenas um adulto responsável, como um namorado cuidadoso, e a leva prontamente para casa. Por volta de meia-noite, depois que Beau ressurge parecendo mais embriagado do que nunca, Dean decide que é hora de irmos também.

“Cadê sua amiga?”, pergunto a Beau, olhando por sobre o seu ombro, em busca da ruiva.

“Foi pra casa, atrás do marido.”

Contenho uma gargalhada. Dean, que a esta altura é praticamente a única coisa mantendo Beau de pé, ri alto.

Saímos da boate e entramos no ar da noite fria. Beau está se apoiando em mim agora, porque Dean está junto do meio-fio, chamando um táxi. Como Joanna já foi, fico preocupada se Beau vai chegar em casa com segurança, por isso insisto que pegue um táxi com a gente.

“Melhor você levar Beau lá em cima”, digo a Dean. “Ter certeza de que ele chegou em casa direito.”

Um táxi aparece como que por milagre. Entro primeiro, seguida por Beau, que geme, fecha os olhos e desmaia com a cabeça no meu ombro. Dean entra por último e passa o endereço de Beau para o taxista. Ele olha para o amigo dormindo, em seguida, encontra meu olhar por sobre a cabeça dele.

“Os pais dele estão em casa, né?”, pergunto, lentamente. “Será que vão ter um troço se virem o filho assim?”

“Talvez.” Dean suspira. “Beau diz que são meio rigorosos. Estudou em colégio católico a vida toda.”

Mordo o lábio. “Então talvez a gente não devesse levá-lo pra casa.”

“Provavelmente não.” Dean se inclina para a frente e bate no assento do motorista. “Esqueça o primeiro endereço. Leva a gente para o Heyward Plaza, por favor.” Ele olha para mim. “Ele pode dormir na cobertura até passar a bebedeira.”

Quinze minutos depois, estamos no elevador do hotel. É estranho, mas, poucas horas numa boate, e, de alguma forma, já esqueci que Dean mora numa porcaria de um palácio. Mais uma vez sou surpreendida pelo luxo ao meu redor, e Beau também, arregalando os olhos azuis ao tropeçar para fora do elevador.

Ele fica boquiaberto, encarando o janelão interminável com vista para as luzes da cidade. “Puta merda. Me sinto um príncipe.”

“Pois é, eu também!”, digo a ele.

Ainda balançando a cabeça de espanto, ele cambaleia em direção à enorme poltrona perto do sofá de couro em forma de C e desaba sobre ele. Em poucos segundos, está roncando.

Dean me abraça por trás e beija meu pescoço. “Hora de dormir?”, pergunta.

Viro para ele. “Não tô cansada”, confesso. “Topa ver um filme?”

“Na verdade, tenho uma coisa melhor.” Ele arqueia as sobrancelhas, provocante. “Vai botar uma roupa mais confortável. Vou preparar aqui.”

Preparar o quê? E espero que “confortável” signifique confortável mesmo, e não que ele esteja esperando que eu apareça de lingerie de renda e cinta-liga.

Deixei a mochila com minhas coisas no quarto de Dean, então subo depressa as escadas até o terceiro andar — ainda não acredito que este lugar tem três andares — e coloco um short de algodão e uma camiseta. Quando volto à sala de estar, encontro Dean deitado no sofá com o controle remoto na mão. Está sem camisa. Que novidade. Mas as calças de cós baixo exibem o V sensual de seus quadris, e minha língua formiga com o desejo de lamber todo esse corpo delicioso.

Umedeço os lábios repentinamente secos e caminho na direção dele. “O que vamos ver?”

“Veja você mesma.” Ele clica no controle remoto, e levo um susto quando os créditos da abertura de Solange aparecem na maior tela que já vi fora de uma sala de cinema.

“Como assim? Você roubou os DVDs do meu alojamento?”

“Não. Liguei com antecedência antes de sairmos da Briar e pedi ao pessoal da portaria para arrumar a segunda temporada para a gente.”

Estou pasma. Quando encontrei por acaso essa série navegando no YouTube, paguei uma menina do meu alojamento para baixar todos os episódios e gravar em DVD para mim. Solange é um sucesso na França, mas ninguém aqui nunca ouviu falar, o que significa que é quase impossível encontrar na internet, e encomendar os DVDs na Amazon não adianta, porque eles só funcionam em aparelhos europeus.

“Você deu um telefonema e conseguiu todos os episódios de uma série francesa obscura?” Olho para ele, embasbacada. “Caramba. A Vida de Dean é mesmo o máximo.”

“Eu te disse.” Deitando-se de costas, ele estende a mão e me convida para se juntar a ele.

Não perco tempo em me aconchegar a seu lado, descansando a cabeça em seu ombro. Seu peito nu é quente e robusto, e seu cheiro é divino. Nem me importo de perguntar que loção pós-barba ele usa, porque, no mínimo, nunca vou ter ouvido falar nela e custa mil dólares a gota.

Ficamos deitados, assistindo à série, que agora tem todo um elenco de novos personagens causando problemas para Solange.

“Sabe”, comenta Dean, “se Marc fosse minimamente inteligente, largava Christine e ficava com Monique.”

“Gosto de Christine”, protesto. “Ela é fofa.”

“Ela tá enganando ele, querida. Ninguém é tão fofa o tempo todo.”

“Eu sou.”

A risada de Dean vibra contra a minha bochecha. “Tá bom. Você deve ser fofa uns vinte por cento do tempo. No máximo.”

Finjo estar magoada. “Você acha mesmo isso?”, pergunto, baixinho.

Ele acaricia minhas costas suavemente. “Que nada”, diz, a voz rouca. “Não se preocupe. Você é cem por cento fofa.”

“Rá. Não estava preocupada. Só queria ouvir você dizer isso.”

Ele ri e me aperta um pouco mais. O episódio vai se desenrolando, e ficamos mais absortos na história, caindo em silêncio. Dean está me acariciando distraído, os longos dedos roçando a lateral do meu seio a cada movimento lento da mão. Acho que não está nem percebendo, mas isto está me deixando… bem, está me deixando excitada.

“Escuta o que tô falando, ela tá tramando alguma coisa.” Os olhos verdes de Dean estão focados na televisão, mas sua mão continua me acariciando.

Na tela, Christine está sentada a uma mesa de um bistrô ao ar livre, sussurrando em seu celular. A conversa parece bastante agradável. Mas, até aí, é toda em francês, então quem pode saber?

“Aposto que tá contratando um matador.” A unha de seu polegar roça o meu mamilo.

Agora estou completamente distraída.

Ele continua falando. “A gente precisa encontrar uma versão disso com legenda em inglês.”

Seu polegar se afasta do meu mamilo, então volta mais uma vez.

“Sei que você tá tentando aprender a língua, gata, mas não saber o que tá acontecendo me deixa louco…”

“Dean.”

“Hmm?”

“Para com isso.”

“Isso o quê?”

“Você tá tocando o meu peito.”

“Ah. Tô?”

Me ergo em meu cotovelo para ver seu rosto. Sua expressão travessa me diz que ele não estava tão indiferente quanto eu imaginava.

“Você sabia exatamente o que estava fazendo”, repreendo. “E agora tem que parar.”

Ele lambe os lábios. “Por quê? Tá te deixando toda animadinha?”

“Tá.”

Dean responde com uma risada grave e nos gira no sofá, até estarmos deitados de lado, um de frente para o outro. Ele segura meu peito esquerdo e aperta suavemente. Desta vez, quando as pontas dos dedos encontram meu mamilo, é com determinação absoluta. Ele esfrega a pontinha cada vez mais rígida. Em seguida, solta o meu peito e desliza a mão para dentro do meu short.

Lanço um olhar assustado na direção de Beau. Não está mais roncando, mas seus olhos continuam fechados.

“Beau tá logo ali”, sussurro para Dean.

“Tá dormindo.” Seus dedos levantam o elástico da minha calcinha e deslizam para dentro dela. Quando seu polegar pressiona o meu clitóris, tenho que morder o lábio para não gemer.

“Dean”, murmuro, nervosa.

“Allie”, murmura ele de volta.

A ponta do polegar circula meu clitóris de leve, enviando um arrepio quente por minha coluna. Ele esfrega e me provoca até eu estar inchada, dolorida e meus quadris moverem-se involuntariamente para a frente, buscando um contato mais profundo. Ele ri de novo.

“Dean…” É um aviso.

“Allie.” É uma provocação.

Sua mão desce mais um pouco, a palma calejada raspando minha boceta em seu caminho. Um dedo hábil desliza para dentro de mim. Um misto de gemido e suspiro escapa dos meus lábios, mas é interrompido na mesma hora, quando Dean pressiona os lábios nos meus.

Beijo-o avidamente, incapaz de resistir a ele. Dean Di Laurentis está no meu sangue agora. Não esperava essa química intensa entre nós, mas ela existe e é viciante, e não sei se um dia vou conseguir ignorá-la. Ele esfrega a palma da mão contra o meu clitóris, e a pressão deliciosa faz minhas coxas se apertarem. O prazer se acumula entre minhas pernas, fazendo todo o meu corpo tremer.

Estou muito consciente dos sons que estamos fazendo. A respiração pesada. O dedo úmido dentro de mim. Peço a Deus que Beau não tenha o sono leve.

“Sempre sei quando você tá chegando perto”, sussurra Dean.

“Como?” As investidas metódicas do seu dedo são perturbadoras. Começo a me contorcer, os músculos internos apertando-o com o prazer que se intensifica e se espalha por minha carne aquecida.

“Suas bochechas ficam vermelhas, e seus olhos… eles reviram.” Seus lábios quentes descem até o meu queixo e seguem para o meu pescoço. “Seu sangue lateja… bem aqui…”, ele lambe o centro do meu pescoço, “… e sua boceta me aperta com força, como se estivesse tentando prender meu dedo dentro dela.”

Minha respiração fica ofegante. Minha mente, nebulosa. A voz grave e a mão mágica são tudo em que consigo me concentrar, mas quando ele curva o dedo e começa a se mover mais depressa, meu cérebro desliga por completo.

“Isso aí”, pede Dean, a voz rouca. “Goza pra mim, gostosa.”

Fecho os olhos e deixo as sensações assumirem, ofegando baixinho quando a pressão por fim se desfaz, e flutuo numa nuvem de felicidade. Suspirando, descanso a bochecha contra seu peitoral, enquanto uma última torrente de prazer percorre meu corpo.

“Vocês sabem que tô acordado, não sabem?”

A voz irônica de Beau desencadeia uma onda de horror misturado com o calor da vergonha. Enterro o rosto contra o peito de Dean, mortificada demais para olhar para a poltrona.

“E agora tô duro feito pedra”, acrescenta Beau, a voz alegre. “Então, vou só perguntar… Alguma chance de vocês deixarem eu me juntar?”

Ergo a cabeça indignada, mas não posso deixar de rir quando vejo o brilho intrigado nos olhos de Dean.

“Nem pense nisso”, ordeno, enfiando um dedo em seu peito. Sento no sofá para encarar Beau com o mesmo olhar severo. “Pode ir tirando o cavalinho da chuva, Maxwell. Porque não vai acontecer.”

Seu sorriso é puro descaramento. “Hoje ou nunca?”

“Nunca.”

“Me dê um bom motivo”, desafia Beau.

“Porque a) não quero, e b) imagina a cena: Dez anos se passaram. Sou uma estrela de Hollywood, vencedora de três Oscars, a atriz mais cobiçada do cinema… e a última edição da revista People chega às bancas. E sabe qual é a manchete?” Desenho um arco no ar com as mãos, imaginando as palavras impressas. Celebridade tem passado tórrido revelado: Allie Hayes, rainha universitária do sexo a três.”

Beau cria a própria manchete. “Nas palavras do campeão do Super Bowl, Beau Maxwell: ‘Melhor noite da minha vida’.”

Suspiro e me volto para Dean, que está obviamente tentando não rir. “E agora é hora de dormir. Dê boa-noite para o seu amigo, meu bem.”

“Boa noite, Beau”, cumprimenta Dean, obediente.