O Jogo

Elle Kennedy · Capítulo 11 de 39

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O Jogo

Capítulo 10

 

DEAN

 

No dia seguinte, tenho a infelicidade de sair da aula de relações internacionais junto com Sabrina. Enrijeço as costas, esperando a provocação inevitável.

“Você parecia meio perdido na aula, Richie. O professor Burke estava falando rápido demais?”

Exatamente como previsto.

Reviro os olhos. “É, porque sou burro, né? Boa.” Nem perco tempo pedindo para não me chamar de Richie. Obrigá-la a me chamar pelo nome é tão impossível quanto fazer Summer abandonar meu apelido de infância. Sabrina decidiu que eu era um riquinho mimado e burro no instante em que nos conhecemos.

Claro que isso não a impediu de ir para a cama comigo, não foi?

“Então, que pobre caloura vai escrever seu trabalho de fim de curso?”, pergunta ela, docemente. “Você tem um monte delas na agenda do celular, né? Imagino que uma delas tenha feito também a sua prova de admissão para a faculdade de direito.”

Paro no degrau mais alto da entrada do prédio. Tolero seus insultos porque acho que não vale a pena ficar me defendendo, mas, de vez em quando, tenho que botar um limite. “Você tá se mordendo porque fiquei dois pontos na sua frente, né?” Vejo suas narinas se expandindo, e sei que acertei em cheio.

Ela se recupera depressa. “De novo, você pode ter pagado alguém pra fazer a prova por você.”

“Pode continuar pensando assim, meu bem. Se te ajuda a dormir melhor à noite, né?”

Sabrina joga o cabelo escuro por cima do ombro. “Durmo muito bem, obrigada. Saber que mereço minhas notas me dá uma tranquilidade imensa. Você devia tentar um pouco também.”

Desta vez ela acerta em cheio. Fecho a cara, mas não mordo a isca, porque é exatamente isso que ela quer que eu faça. Ela bate na mesma tecla desde o segundo ano, e já estou de saco cheio.

“Um bom dia pra você, Sabrina.” Dando de ombros com indiferença, desço os degraus e me pergunto se ela planeja continuar com essa rixa no ano que vem, na faculdade de direito. Cara, espero que não. Essa hostilidade está ficando velha, para não dizer irritante.

Falando em irritante, tenho que estar na escola primária de Hastings em vinte minutos para o primeiro treino com o time infantil. Dá-lhe Hurricanes.

No trajeto de dez minutos de carro até a cidade, xingo O’Shea por me obrigar a trabalhar como voluntário e começo a questionar a legitimidade de bonecos de vodu. Acabo concluindo que não importa se eles funcionam ou não. Ia ser divertido enfiar agulhas numa versão em miniatura de Frank O’Shea. Quando o boneco começasse a se despedaçar, eu poderia usar a cabeça como bola antiestresse.

Parado no sinal vermelho, digito uma mensagem rápida para Fitzy, meu colega de time: Ei, sabe fazer boneco de vodu?

Sua resposta só aparece quando já estou chegando à pequena arena do outro lado da rua em relação à escola.

Ele: Acho q vc tá me zoando, mas a pergunta é tão idiota q parece verdadeira. Não faço ideia d como fazer um boneco de vodu. Acho q vc pode usa qq boneco velho, sei lá. O foda vai ser encontrar uma bruxa de vodu pra ligar o boneco ao alvo.

Eu: Faz sentido.

Ele: Faz???

Eu: Vodu precisa d magia, feitiço etc. Acho q não dá p usar qq boneco. Senão toda boneca seria um boneco de vodu, né?

Ele: É.

Eu: Mas vlw. Achei q vc soubesse.

Ele: E por que *eu* saberia?

Eu: Vc curte esses negócios d RPG. Entende d mágica.

Ele: Não sou o Harry Potter, cacete.

Eu: HP é um nerd. Vc é um nerd. Então vc é bruxo.

Ele me manda um emoji de dedo médio e depois avisa: Cerveja d niver hj no Malone’s. Tá dentro?

Eu: Tô.

Ele: Flw

Enfio o telefone no bolso do casaco e salto do carro. Pelo menos tenho alguma coisa para me motivar. Uma cerveja para comemorar o aniversário de vinte e um anos de Fitzy vai ser a minha recompensa por passar a tarde treinando crianças contra a vontade.

Entro pelas portas duplas e vejo que o rinque está vazio. O ar frio me recebe como um velho amigo e inspiro fundo, passando a mochila para o outro ombro e caminhando na direção do banco do time da casa, onde um homem alto de moletom vermelho e patins de hóquei pretos gastos analisa uma prancheta. O apito em seu pescoço me diz que é o treinador do Hurricanes.

“Di Laurentis?” Faço que sim, e ele estende a mão. “Doug Ellis. Prazer em conhecê-lo, filho. Assisti à final do Frozen Four pela TV, em abril. Você jogou bem.”

“Obrigado.” Aponto para o gelo vazio. Cheguei dez minutos mais cedo, exatamente como O’Shea mandou. “Cadê as crianças?”

“No vestiário. Daqui a pouco estão aí.” Ele pousa a prancheta na prateleira que se estende ao longo do banco. “Chad explicou o que se espera de você?”

“Não.” Apesar do que O’Shea falou, não acho que o treinador Jensen tenha a menor ideia de que fui recrutado para trabalhar com o Hurricanes.

“Bem, não é tão complicado. Começamos todos os treinos com trinta minutos de exercícios, depois fazemos um jogo de trinta minutos dividido em três períodos de dez. Os meninos são o sangue. São bons, todos eles. Talentosos, inteligentes, ansiosos para melhorar.”

“Bom saber.”

“Adoravam a Kayla…” Diante da minha expressão neutra, ele explica: “Sua predecessora.” Ah, a garota que pegou mononucleose. “De qualquer forma, ela se concentrava principalmente no ataque. Fez um ótimo trabalho, mas, cá entre nós, estou feliz de ter um cara de defesa conosco. Alguns dos meninos têm problemas em fechar a defesa. Queria que você trabalhasse isso.”

Conversamos por alguns minutos sobre minhas obrigações, e então ele me avisa sobre não falar palavrão perto dos meninos nem ser muito bruto fisicamente com eles.

“Beleza… Nada de boca suja e não tocar nos alunos. Mais alguma coisa?”, pergunto.

“Acho que não. Você vai pegando com o tempo.”

De forma geral, Ellis parece um bom sujeito, e, quando as crianças surgem correndo do vestiário e o saúdam como se fosse o próprio Cristo encarnado, minha opinião sobre ele se eleva ainda mais. Ele me falou que é o professor de ginástica da escola, mas que, mesmo que perdesse o emprego, nunca abandonaria esse time. Nem o time de vôlei feminino do oitavo ano, do qual aparentemente também é treinador.

Sento no banco e tiro depressa as botas Timberland, trocando-as pelos patins Bauer que coloquei na mochila. Então pulo a grade e patino na direção de Ellis e das crianças. Metade está de uniforme de treino vermelho, e a outra metade está de preto. Ellis me apresenta aos meninos, que soltam muitos suspiros admirados quando ele fala das minhas múltiplas vitórias no Frozen Four. Assim que delineamos a primeira série do treino, todas as crianças no rinque estão implorando pela minha atenção individual.

Não vou mentir — me divirto desde o primeiro segundo. A paixão dos meninos pelo jogo me lembra de quando eu era criança, a empolgação de calçar um par de patins e rasgar o gelo. O entusiasmo deles é absolutamente contagiante.

Quando Ellis apita para sinalizar que está na hora do jogo, acho até que estou lamentando o fim do treino. Na última sequência de disparos, estava dando umas dicas para um aluno do sétimo ano chamado Robbie, e ele encobriu o goleiro lindamente. Queria ver o garoto repetir, mas está na hora de os meninos colocarem as habilidades que acabaram de aprender em prática.

Ellis e eu servimos tanto como juízes quanto como treinadores, marcando penalidades e oferecendo conselhos quando necessário. O jogo de trinta minutos termina rápido demais para o meu gosto. Por mim, poderia ficar aqui para sempre, mas Ellis sinaliza o fim da partida e chama os alunos para junto de si.

Sinto um aperto estranho no peito à medida que ele fala com os meninos, um de cada vez, e ressalta uma coisa que eles acertaram no treino hoje. Rosto após rosto vai se iluminando com seus elogios, e, quando Ellis termina, penso que posso estar apaixonado pelo cara.

Nossa, que treinador.

Por fim, seguimos as crianças até o vestiário e as ajudamos a arrumar os equipamentos nos lugares adequados. É uma turma barulhenta e bagunceira, que ri, brinca e grita uns com os outros enquanto troca de roupa. O corredor lá fora está repleto de máquinas automáticas de comida e pais que esperam os filhos. Robbie, no entanto, fica para trás. Já tirou o uniforme de treino, mas fico preocupado ao vê-lo calçando os patins de novo e colocando a calça jeans para dentro deles.

“O que tá fazendo, cara?”

Robbie parece surpreso ao me encontrar ali de pé. “Ah.” Ele cora. “Tenho mais trinta minutos para patinar”, explica, meio na defensiva. “O treinador sabe.”

Como sei bem que não dá para confiar em tudo que um menino de treze anos diz, vou atrás de Ellis, que está na sala de equipamentos guardando tacos de hóquei na prateleira junto à parede.

“Que história é essa de o Robbie ter mais tempo para patinar?”

Ellis se volta na direção da porta. “Ah. É isso mesmo. Já vou lá ficar de olho nele. Diz que é para não pisar no gelo até eu chegar.”

Não consigo disfarçar a testa franzida. “Por que ele tem tempo extra de gelo?”

“Nas terças e quintas, a mãe dele só sai do trabalho às quatro e meia, e a família mora em Munsen, então o ônibus escolar não é uma opção.” Ellis emite um som de irritação. “Alguma palhaçada sobre a fronteira da cidade e os ônibus de Hastings não poderem ‘servir’ outros municípios. A mãe do Robbie conseguiu inscrever o filho aqui porque ele é um trunfo para o nosso programa de hóquei, mas aparentemente a administração escolar não acha importante fornecer transporte seguro para crianças que moram fora do distrito.”

“Então o Robbie fica na arena até a mãe chegar?”

Ellis faz que sim. “Combinei isso com a Julia no início da temporada. Eu fico por aqui depois do treino e dou uma olhada nele e na irmã até ela chegar.”

Já falei o quanto amo esse homem?

“Vou ficar também”, ofereço. “Estava ensinando Robbie a arte dos disparos por cobertura antes do fim do treino. Não me incomodo de continuar.”

Sua expressão é um misto de surpresa e respeito. “Aposto que ele iria adorar. Obrigado, filho.”

Quando volto para o rinque, Robbie está patinando círculos preguiçosos junto do vidro de proteção. O cabelo louro escuro balança ao vento atrás dele, e decido que ele também pode estar precisando de uma aula sobre cabelos — algo na linha de “corta essa merda antes que vire um mullet, ou esqueça suas chances com as garotas”.

Estou caminhando pelo corredor de concreto quando uma voz estridente me faz parar de susto.

“Quem é você?”

Viro e vejo uma criaturinha élfica sentada na fileira do meio da arquibancada. Quer dizer, é uma menina, mas podia muito bem ser uma personagem de um filme da Pixar. Olhos azuis enormes ocupam todo o seu rosto, o cabelo é tão claro que é quase branco, e a boca é um pequeno botão de flor cor-de-rosa.

“Quem é você?”, pergunto de volta, uma das sobrancelhas arqueadas.

“Perguntei primeiro.”

Lutando contra um sorriso, subo os degraus até chegar à fileira dela. Um olhar para a pista revela que Robbie está se divertindo ao patinar a esmo. Ellis está no banco, de olho nele, então sento na arquibancada ao lado da fadinha de desenho animado e digo: “Sou Dean. O novo assistente técnico do Hurricanes”.

Seus olhos grandes avaliam meu rosto, como se ela estivesse tentando decidir se estou mentindo. “Sou Dakota”, diz, enfim. E aponta um dedo magro para o gelo. “Aquele é meu irmão.”

“Ah. Então você é a irmã mais nova de Robbie.”

“Quem disse que sou mais nova?”, desafia ela. “Posso ser mais velha.”

“Mocinha, eu ficaria surpreso se você não usasse mais fralda.”

“Não uso fralda!” Suas bochechas ficam coradas. “Já tenho dez anos”, diz, com altivez.

Arquejo. “Por… poxa. Você é praticamente uma velha senhora então.”

Isso a faz dar um risinho. “Sou nada. Quantos anos você tem?”

“Vinte e dois.”

Dakota fica boquiaberta. “Isso é ser velho.”

“Eu que o diga! Acho melhor começar a planejar meu funeral. Pra quem você acha que eu devo deixar a minha fortuna no meu testamento, a garota dos Jogos vorazes ou a do Divergente?”

“Elas não existem”, comenta ela, francamente.

Finjo inocência. “Tem certeza? Juro que vi a Katniss andando na rua outro dia.”

“Mentira.”

“É, você me pegou.” Aponto para o caderno de espiral cor-de-rosa em seu colo. “O que tá fazendo?”

Ela faz um beicinho. “Dever de casa. A sra. Klein mandou a gente escrever uma página inteira sobre coisas pelas quais devo agradecer neste Dia de Ação de Graças.”

“A sra. Klein parece um monstro.”

Dakota ri. “Não, ela é legal. Teve uma vez que pediu pizza para a turma toda. Foi depois que a gente tirou as notas mais altas na prova de didático.”

“Ditado”, corrijo.

Ela me dispensa com um gesto da mão. “Tanto faz.”

Um amplo sorriso toma conta do meu rosto. “Tá legal, então chega de perder tempo.” Abro seu caderno numa página em branco. “Hora de pensar no que você tem pra agradecer.”

Seu rosto se ilumina de felicidade. “Você vai me ajudar com meu dever de casa?”

“Claro, por que não? Faltam vinte minutos até a sua mãe chegar. Que mais a gente tem pra fazer?”

 

ALLIE

 

Estou no banco do carona, no carro de Megan, quando Dean me escreve. Não fico surpresa em ver seu nome na tela do telefone. Passei o dia esperando por outro “Quero transar com você”, então era só uma questão de tempo até acontecer de novo. Mas, dessa vez, ele me pega de surpresa.

Ele: Tô c/ uma galera no Malone’s, niver do Fitzy. Se quiser, apareça.

Megan me olha do banco do motorista. “Quem tá mandando mensagem? E, por favor, diga que não é o Sean.”

“Não, não é o Sean. É um dos amigos do Garrett”, respondo, vagamente. “Tem uma galera do hóquei no Malone’s, comemorando o aniversário de alguém. Ele tá chamando a gente.”

“A Hannah vai?”

Faço que não com a cabeça. “Tem ensaio hoje.” Assim como eu, Hannah também está ocupada com os projetos de conclusão de curso. Ela é aluna de música, então tem que apresentar uma canção original para o festival de inverno do departamento.

Imagino que Megan não ache estranho que eu esteja sendo convidada para sair com a galera do hóquei sem Hannah, porque ela não comenta sobre o assunto. Em vez disso, diz apenas: “Por mim, fechou”.

“Sério?” Depois de mais de trinta minutos debatendo uma dúzia de opções para a nossa noite juntas, tínhamos finalmente decidido comer alguma coisa na lanchonete de Hastings. O Malone’s é o único bar da cidade, então é óbvio que a ideia surgiu logo no início da conversa, mas foi a própria Meg quem a rejeitou. “Achei que você não quisesse balada hoje.”

Ela afasta a franja ruiva dos olhos. “Mudei de ideia. Acho que tô com vontade de ficar rodeada de meninos bonitos.”

“Jura?”, pergunto, surpresa. “E o namorado novo? Já acabou o encanto?” Megan tem sido muito cautelosa sobre o cara que está namorando, mas presumi que eles estivessem indo bem. Em geral, ela é uma tagarela quando se trata da vida amorosa, mas não dessa vez. Tudo o que sei é que ele mora em Boston e que os dois só se veem nos fins de semana.

“Não, a gente tá bem.” Ela faz uma pausa. “Bem, na verdade, não.” Outra pausa. “É complicado.”

“Sabe, se você me dissesse alguma coisa sobre ele, em vez de ficar pagando de discreta, talvez eu pudesse ajudar…”

Seus olhos verdes mantêm o foco na estrada. Mesmo que não estivesse dirigindo, sei que estaria evitando meu olhar.

“Fala logo. Qual o problema dele?”

“Problema nenhum.”

“Mentira. Tem que ter, senão você não estaria escondendo o cara de todo mundo. Então, o que é? Ele gosta de tacar fogo em celeiro pra se divertir? Mata esquilinhos pra fazer chapéu de pele? Ele tem um sinal esquisito que ocupa a cara inteira? Tem…”

“Trinta e sete”, interrompe ela. “Ele tem trinta e sete anos.”

Arregalo os olhos. “Ah. Uau. Isso é…”

Velho, tenho vontade de dizer, mas sempre fui da filosofia de que idade não passa de um número. Ou pelo menos quero ser esse tipo de pessoa mente aberta. Quer dizer, acho bem nojento um homem de sessenta anos namorando uma menina de dezoito. Mas trinta e sete não chega a ser senil. São só quinze anos a mais que a nossa idade.

“Tá vendo? Foi por isso que não contei pra vocês.” Seu tom beira a acusação. “Sabia que ia ficar todo mundo julgando.”

Ergo as mãos em sinal de rendição. “Não tô julgando. Só levei um susto.”

Suas feições bonitas relaxam.

“Conta mais sobre o Trintão”, peço. “Prometo não julgar.”

Ela me fornece mais alguns detalhes a contragosto. “O nome dele é Trevor. É cirurgião pediátrico no hospital de Boston.”

Tudo bem, estou impressionada.

“É divorciado e tem uma filha de cinco anos.”

Hmm. Nem tão impressionada assim. “E você lida bem com isso?”, pergunto, com delicadeza. “Você só tem vinte e dois, amiga. Tá pronta pra ser madrasta de alguém?”

“Aí é que tá o problema”, geme ela. “Eu nem tinha pensado nisso ainda. A gente se conheceu pela internet. Passamos setembro inteirinho trocando mensagens, mas só nos encontramos pessoalmente há um mês. Ele é gentil. Inteligente, lindo, bom de papo. Mas o namoro tá muito no começo ainda, sabe? Mais casual do que sério.” Ela tamborila as unhas feitas contra o volante. “No fim de semana passado, ele me falou que queria me apresentar para a filha.”

Nossa.

“Nossa”, digo em voz alta.

“Pois é! Então agora tô analisando o relacionamento todo. Conhecer a filha dele é um passo gigante. E se ela me odiar? Ou pior, e se ela me amar, e depois eu e o pai dela terminarmos, e a pobre menina acabar traumatizada?”

“Ela não vai se apaixonar por você no primeiro encontro”, asseguro. “Mas concordo que seja um passo enorme.”

Meg para o pequeno Toyota vermelho no cruzamento a um quarteirão do centro de Hastings.

“Não sei… Eu falei pra ele que, na sexta, quando a gente se encontrasse, eu responderia, mas tô muito confusa. Não tenho ideia do que fazer.” Ela fica em silêncio por um segundo e, em seguida, solta uma longa expiração. “Se a gente for para o Malone’s, você pode dirigir na volta? Acho que preciso de algo mais forte que refrigerante.”

“Claro.” Não estava mesmo pensando em beber hoje. Tenho ensaio às sete da manhã, e uma ressaca vai dificultar muito chorar em cena. Só na abertura da peça minha personagem berra feito um recém-nascido três vezes. “Mas será que você não prefere ir pra outro bar?”, pergunto, esperançosa. “Talvez o de Munsen?”

“Por quê?”

Dou de ombros. “A galera do hóquei às vezes é meio barulhenta.”

“Acho que tô precisando de um pouco de barulho”, admite ela. “Trevor é ótimo, mas não tá mais em clima de festa. Vai dormir às dez, todo dia. Até nos fins de semana.” Ela faz um biquinho. “Talvez esse seja mais um motivo para eu terminar tudo, né?”

“Olha, jamais diria o que você deve fazer”, afirmo, com carinho. “E não vou falar que você tem que terminar com o cara só porque ele deixou as noitadas para trás. Mas você tá no último ano da faculdade, amiga. Não deveria estar indo dormir às dez da noite se não quisesse. Deveria estar curtindo este último ano de liberdade, nesse momento estranho em que se é adulto sem ser adulto, entende? Deixa esse negócio de dormir cedo pro ano que vem, quando você tiver entrado no mundo real.”

Uma expressão pensativa marca seu rosto. Sei que está absorvendo meu conselho, e espero que chegue a uma decisão que a faça feliz. Eu também tenho lidado com decisões difíceis ultimamente. Terminar com Sean. Descobrir o que quero para a minha carreira de atriz.

Ir a um bar para encontrar, por vontade própria, o cara com quem fiz sexo casual…

Merda, por que estou indo a esse bar? Ver Dean de novo não vai ser nada bom. No pior cenário possível, ele vai deixar escapar alguma coisa sem querer, e todo mundo vai saber que a gente dormiu junto. Na melhor das hipóteses, vai flertar descaradamente comigo e ser irritante como sempre.

Como o Malone’s é o único lugar da cidade que vende álcool, é o ponto de encontro obrigatório dos moradores locais e dos alunos da Briar em qualquer dia da semana. Se você aparecer depois das nove, não vai mais encontrar lugar para sentar. Meg e eu chegamos às dez e meia, e é como entrar numa sauna cheia de corpos suados. O salão principal está lotado. Mal posso ver o balcão do bar, de tanta gente que tem na frente dele, e todas as mesas dos setores laterais estão ocupadas.

“Vou pegar uma bebida!”, grita Megan, por cima da música.

Os alto-falantes estão berrando um rock que não consigo reconhecer. Se Garrett Graham estivesse aqui, provavelmente me diria o nome da música, quem está cantando e em que ano ela foi lançada. O namorado de Hannah é louco por rock clássico. Não ficaria surpresa se descobrisse que ele pede para Hannah se fantasiar na cama de alguma coisa inspirada em Lynyrd Skynyrd.

Estamos prestes a nos dirigir para o bar quando uma voz familiar se eleva acima da música. “Allie-Cat! Aqui!”

Viro a cabeça e vejo Dean acenando para mim de uma mesa grande à minha direita. Não sei como ele me achou nessa multidão. Nem escrevi avisando que vinha, então ou ele tem um Sentido Aranha excepcional ou estava vigiando a porta feito um maníaco.

Megan e eu damos os braços para evitar sermos separadas e abrimos caminho em meio ao mar de corpos. Inspiro uma rajada de perfume de uma loura platinada de saia curta. Resisto ao ataque do cheiro forte apenas para tomar fôlego em meio a uma nuvem de algo ainda mais potente, vindo do cara ao lado dela. Meus olhos começam a lacrimejar, e quase me viro para avisá-lo para pegar leve no Axe, antes que ele mate alguém.

“Olha, Fitzy, mulheres!”, anuncia Dean quando Megan e eu os alcançamos. No mesmo instante, ele se dirige aos outros. “Rápido, abram espaço pra elas, antes que sumam.”

O grupo ri, e noto que a maioria dos jogadores está sorrindo para um cara em particular, que já vi antes em algumas das festas da galera do hóquei para as quais Hannah me arrastou. Acho que seu nome é Colin, mas sempre ouço ser chamado de Fitz ou Fitzy. É um cara grande, de cabelo castanho despenteado, uma barba rala escura e o que parece ser uma tatuagem se insinuando sob a gola da camisa. Acho que é uma tatuagem no peito, porque já o vi de camiseta e lembro que seus braços são inteirinhos cobertos.

Os meninos se ajeitam na mesa para nos acomodar. Megan senta do lado de um cara de cabeça raspada. Ele se apresenta como Hollis. Eu me espremo entre Tucker, que está concentrado no telefone, e Pierre, um dos franco-canadenses do time. Ele me cumprimenta com um sorriso e um par de covinhas lindas. Fechando o grupo, há mais dois jogadores que eu não conhecia. Em seu sotaque pesado, Pierre os apresenta como Wilkes e Ekberg.

Dean, na minha frente, do outro lado de Hollis, pisca para mim quando nossos olhos se encontram. “Você veio. Não achei que viria.”

“Estávamos aqui perto”, digo, casualmente.

“Ainda bem, porque isso aqui estava virando uma festa da salsicha. Sério, o aniversariante não chamou nenhuma mulher.”

“Ele é alérgico”, explica Hollis, solícito.

O aniversariante — que, diga-se de passagem, não tem nada de garoto — revira os olhos. “Não sabia que querer comemorar o aniversário com os amigos era um crime.”

“E em algum momento você pensou nas consequências?”, devolve Dean. “E o tradicional boquete de aniversário, hein? Tá esperando que a gente faça as honras?”

“Tenho certeza de que o Pierre topa”, sugere Hollis. Quando o franco-canadense responde mostrando o dedo médio, ele sorri, fingindo inocência. “Ué, achei que era o que vocês faziam em Quebec, não? Chupar os amigos sussurrando palavras de amor em francês?”

Pierre bufa uma risada. “Você é de San Francisco. Capital mundial dos chupadores de pica.”

O papo continua animado até ser interrompido por uma garçonete sobrecarregada que aparece para anotar nossos pedidos. Meg pede uma vodca com cranberry. Já eu, só um copo d’água.

“Água?”, Dean zomba de mim, assim que a moça se afasta apressada. “Tem certeza de que não quer nada mais interessante, gata? Quem sabe… hmm… um shot de tequila? Sempre achei que você tinha cara de quem gosta de tequila.”

Estreito os olhos para ele. Por sorte, ninguém dá muita bola para o comentário. Por que daria? Ninguém ali sabia que foi por causa da tequila que acabei na cama com Dean. A única pessoa que sabe disso é o próprio Dean, que se comprometeu a manter a boca fechada sobre o assunto.

Mas… o sorriso maroto em seu rosto está me deixando inquieta.

Por que tenho a sensação de que ele está prestes a dar com a língua nos dentes?