O Jogo
Capítulo 7
DEAN
Apesar de toda aquela baboseira de “o que passou, passou”, está na cara que meu ex-treinador está determinado a tornar a minha vida um inferno. O primeiro treino com o novo coordenador defensivo atrasou uma hora — mas só para os defensores. Enquanto todos os outros iam para o vestiário para tomar banho, trocar de roupa e voltar para casa, O’Shea obrigou a defesa inteira a ficar para mais umas séries, isso depois de anunciar que somos os piores jogadores de hóquei que ele já viu.
Quando enfim nos dispensou, eu e meus colegas de time patinamos para fora do gelo, xingando e reclamando o tempo todo. No vestiário agora vazio, tiramos o equipamento, todos pingando de suor, a cabeça pegando fogo e o humor deplorável.
“Decente, é?”, pergunta Logan, cheio de sarcasmo, repetindo a descrição que fiz ontem.
“Ele só estava mostrando que tem o pau maior que o nosso”, murmuro. “Deve ser o jeito dele de impor respeito.”
Não, é o jeito dele de me punir por magoar sua filha, mas mantenho a informação para mim mesmo. Não porque O’Shea me mandou não discutir a questão com meus colegas de time, mas porque prefiro não ter que pensar na merda toda que aconteceu com Miranda.
Ironicamente, minha relação com Miranda O’Shea não só afetou minha vida escolar como também minha vida universitária. Ela é a razão pela qual hoje deixo bem claras todas as minhas intenções — ou a ausência delas — antes de qualquer envolvimento. Tudo bem que, na época, também achei que tinha deixado tudo às claras, mas é óbvio que não fui tão explícito quanto deveria ter sido. Hoje em dia, faço questão de que as mulheres saibam exatamente em que pé estamos antes que suas cabecinhas se encham de fantasias sobre finais felizes.
“Vai fazer alguma coisa no jantar?”, pergunta Logan quando chegamos ao vestiário. “Grace vai pegar comida chinesa na cidade e me encontrar lá em casa. Acho que vai levar comida pra todo mundo.”
“Ah, valeu pelo convite, mas vou sair com Maxwell. Não sei que horas chego em casa.”
A conversa termina assim que entramos em nossos respectivos boxes. Mal termino de ensaboar o saco, e Logan já desliga o seu chuveiro. Nossa. O cara tomou banho como se alguém tivesse apostado um milhão de dólares se ele era capaz de passar sabão e se enxaguar em menos de trinta segundos.
“Até mais”, diz, passando uma toalha pela cintura.
Sei que está ansioso para ver Grace, e, por algum motivo, isso provoca uma sensação estranha em meu peito. Não é bem ciúme. Nem ressentimento. Decepção, talvez?
Eu sei. Meus melhores amigos estão apaixonados. Preferem ficar abraçadinhos e dar beijinhos em suas mulheres do que sair com os meninos, e não fico chateado com eles por isso, nem um pouco. A questão é que parece o começo do fim para nós.
Depois que meu irmão mais velho se formou em Harvard, perdeu contato com os amigos de faculdade em poucos meses. Agora mal fala com os colegas de time que achou que levaria para a vida toda. E, com os amigos da faculdade de direito, troca e-mails no máximo uma vez por mês.
Entendo que amigos se afastam depois da faculdade. As pessoas se casam. Se mudam. Fazem novos amigos e desenvolvem outros interesses. Mas odeio a ideia de não ter Garrett ou Logan ou Tuck na minha vida. Também odeio a parte cínica do meu cérebro que aponta para a inevitabilidade disso.
Ano que vem, vou para a faculdade de direito. Não vou ter tempo nem de dormir, quanto mais de rever os amigos. Garrett provavelmente vai mudar de cidade e jogar para algum time da Liga Nacional de Hóquei. Logan também, se der certo com o Providence Bruins, a equipe de base que já declarou interesse em contratá-lo depois da formatura. É só uma questão de tempo até ele ser chamado para um time profissional e se afastar também. E quem sabe o que Tucker pretende fazer depois da formatura? Até onde sei, pode voltar para o Texas.
Merda. Por que estou tão filósofo hoje? Talvez porque tem três dias que não faço sexo. Infelizmente, isso é muito tempo para mim, e meu saco não gosta. Culpa da Allie, claro.
“Dean!”
Uma voz familiar me chama assim que deixo a arena. Vejo Kelly se pavoneando na minha direção, parecendo saída das páginas de um catálogo de roupas da Nova Inglaterra. Um cachecol vermelho e grosso envolve seu pescoço, e ela está de botas de couro marrom e um sobretudo cinza comprido. O cabelo louro está preso num coque bagunçado, com longas mechas emoldurando o rosto.
Está gostosa pra cacete, mas, sinceramente, não penso nela nem em Michelle desde que dormi com Allie. Ainda assim, não me sinto culpado de não ter ligado nem mandado uma mensagem, e Kelly não me censura por isso ao me cumprimentar com um abraço caloroso. Como disse, hoje em dia as mulheres sabem em que pé estou. E, ironicamente, quando Kelly e Michelle se aproximaram de mim no Malone’s, vieram com o discurso do “sem compromisso” antes mesmo que eu abrisse a boca. Me disseram na lata que só queriam o meu pau, e fiquei muito feliz em satisfazê-las.
“Como foi o fim de semana?”, pergunta.
Dou de ombros. “Poderia ter sido melhor.” Se um certo alguém não tivesse ficado me dispensando.
“Ah, isso não é bom.” Ela sorri. “Mas tenho algo pra te animar. Minha irmã tá na cidade. Contei pra ela de você, e ela ficou doida pra te conhecer. Vai ficar lá em casa, comigo e com a Michelle…”
Nem tem como não pescar a indireta. “Ah. Bem…” Não sei como responder.
“Falei que somos gêmeas?”
Puta merda.
“Ah, e a Michelle tá lá em casa também…” Kelly pisca para mim. “As pessoas sempre dizem que três é o número mágico, mas acho que quatro é melhor ainda.”
Espero meu pau reagir. Merda, mando ele reagir. Uma meia-bomba, uma coceirinha, uma contração que seja. Qualquer coisa, droga. Mas nada acontece ao sul do Equador. É como se meu equipamento tivesse parado de funcionar.
Vamos lá, Míni Dean, me ajuda, imploro, em silêncio. Estamos falando de sexo a quatro aqui.
Continua mole. Ao que parece, Míni Dean não vai cooperar a menos que eu lhe dê o que ele quer. E, infelizmente, o que ele quer não é Kelly, nem Michelle, nem a irmã gêmea de Kelly.
É Allie Hayes.
“A ideia parece… genial. Sério. Mas tenho que passar. Combinei de sair com um amigo hoje”, digo, triste.
“Alguém que eu conheço?”
“Hmm, talvez. Beau Maxwell. Ele é…”
“O quarterback do time de futebol americano”, completa ela. Um brilho sedutor ilumina seus olhos. “Chama ele também. Cinco pode ser tão divertido quanto quatro…”
Ai, caralho.
Quero ficar com tesão. Rezo para que aconteça. Mas Míni Dean não está nem aí.
Com a frustração formando um nó no meu intestino, murmuro uma desculpa, peço para deixar para a próxima e disparo em direção ao meu carro, xingando meu pau o tempo todo.
Chego ao Malone’s vinte minutos depois. “Desculpa a demora”, digo a Beau. “O treino atrasou uma hora.”
O quarterback titular da Briar encolhe os ombros imensos. “Relaxa. Acabei de chegar.” Para meu alívio, o copo de chope escuro na frente dele está quase intacto.
Tiro a jaqueta do time e jogo ao meu lado no banco, e uma garçonete morena bonita se aproxima para anotar meu pedido.
“Então, o que você tem feito?”, pergunta Beau, assim que ela se afasta. “Não vejo você desde o final das provas.”
“Eu sei, cara. Nossa rotina de treino tá brutal. Perdemos todos os amistosos da pré-temporada, e o treinador Jensen tá tocando o terror.”
“Porra, sei como é. Deluca também tá tocando o terror”, admite ele, referindo-se ao seu treinador. “A gente não tem a menor chance de chegar às finais. Que merda, não sei nem se a gente chega a passar para a segunda fase do campeonato.” Nunca o vi tão abatido, mas eu sequer posso contradizê-lo.
O time de futebol americano já está com três derrotas nas costas. Uma ou duas, e talvez eles dessem a volta por cima. Mas três derrotas praticamente eliminam as chances de classificação nesta temporada.
Os olhos azuis de Beau se escurecem à medida que ele dá um longo gole no chope e vira quase metade do copo. Entendo sua frustração. Sei o que é ser um jogador acima da média num time abaixo da média. Tudo bem que a temporada de hóquei acabou de começar e que os jogos da pré-temporada não contam para classificação, mas o nosso esquema ineficaz e os treinos desajeitados não prometem tempos bons.
Por outro lado, somos tricampeões nacionais, então, se a gente não chegar às finais este ano, não vou perder meu tempo chorando na cama o dia inteiro. Talvez a gente esteja destinado a uma temporada ruim. Pode ser o jeito de os deuses do hóquei nos manterem humildes.
Mas a situação de Beau é diferente. A Briar o recrutou depois do colégio, e o cara deixou todo mundo de boca aberta no primeiro ano. Os treinadores chegaram até a colocar o quarterback do último ano no banco e escalaram Beau como titular. Ele conseguiu uma campanha invicta para o time e os levou até a final. Eles perderam, claro, mas chegar à final depois de um jejum de mais de uma década foi uma grande conquista.
No ano seguinte, deu tudo errado. Quase todos os jogadores principais se formaram ou foram convocados mais cedo para o draft, e Beau ficou com uma linha ofensiva fraca e uma equipe de receptores ainda mais fraca. Desde então, o time só vem acumulando derrotas, o que é muito desanimador, mais ainda porque Beau é um baita de um quarterback. Infelizmente para ele, não tem as armas necessárias para vencer ao seu dispor.
“Você podia ter pedido transferência no segundo ano”, lembro a ele. “A Universidade do Estado da Louisiana praticamente chupou sua pica pra te convencer.”
Ele faz uma cara feia. “Tá, e abandonar meu time? Que tipo de babaca faz isso?”
Minha vontade é responder O tipo de babaca que quer jogar para a Liga Nacional de Futebol Americano, mas dispenso o comentário. Graças ao desempenho recente do time de futebol, as chances de Beau de pegar uma posição boa no draft — ou de sequer entrar para ele — são bem pequenas. Mas acho que sua lealdade à Briar é admirável. O que definitivamente diz muito sobre seu caráter.
“Vamos mudar de assunto”, exige Beau. “Agora, antes que eu comece a chorar na minha breja.”
Como se tivesse recebido uma deixa, a garçonete volta, trazendo a minha cerveja, uma Coors Light. Pedi uma long neck em vez de chope, e ela faz uma cena para abrir a tampinha e me passar a garrafa, curvando-se o bastante para eu ter uma visão perfeita do seu decote.
“Me avisem se precisarem de mais alguma coisa”, murmura ela. “Estou a um grito de distância.”
Ela se vira, e nós dois secamos sua bunda. Nem fico constrangido, porque, rebolando desse jeito, ela está praticamente convidando nossos olhares elogiosos. A saia preta curta me faz lembrar de outra bunda gostosa que vi este fim de semana. Uma que Beau, apesar das minhas mais veementes advertências, conhece muito bem.
“Vi Sabrina aqui na sexta-feira”, digo a ele.
Ele afasta o olhar da garçonete. “Ah, é?”
Faço que sim. “Ainda está saindo com ela?” E por “saindo” quero dizer fazendo sexo sem compromisso, porque Beau e eu somos almas gêmeas. Ele também não topa relacionamentos.
“Nada. Morreu”, confessa ele. “É ocupada demais.”
“Ocupada com o quê?” Até onde sei, Sabrina nem trabalha.
“Não tenho ideia. Mora em Boston, então acho que a viagem de casa para a faculdade atrapalha. Mas chegamos a um ponto em que ela só vinha me ver uma, duas vezes por mês. E aí desaparecia nos fins de semana. Simplesmente… puf, sumia totalmente.” Ele dá de ombros. “No começo achei que era jogo duro, mas agora não duvido nada que leve uma vida dupla.” Ele faz uma pausa. “Você acha que ela trabalha para a CIA?”
Avalio a hipótese. “Sem consciência, sem coração… é, faz sentido.”
Ele solta uma risada. “Ah, vai à merda. A garota é difícil de interpretar, mas é legal.”
“Se por legal você quer dizer ‘megera reclamona’, então tudo bem.” É a minha vez de mudar de assunto. “Ei, falei com o Justin na semana passada, e ele disse que tem um calouro no ataque que pode dar em alguma coisa.”
Beau concorda. “Johnson. É rápido, mas ainda tem problema no domínio de bola.”
Voltamos a conversar sobre nossos respectivos times por mais dez minutos. Posso ser do hóquei, enquanto Beau é o sr. Futebol Americano, mas somos fãs do esporte um do outro, então o papo flui sem problemas. Depois de uma segunda rodada de cerveja, o assunto retorna para as mulheres, quando comento com Beau, abatido, sobre o convite que Kelly me fez na arena.
“Que porra é essa, cara? Você recusou uma orgia? Uma orgia para a qual fui convidado?” Ele balança a cabeça para mim. “Tá doente ou alguma coisa assim?”
Corro os dedos pelo gargalo da garrafa. “Nada. Só não estava no clima.”
“Você não estava no clima de uma orgia… com gêmeas.” A descrença permeia seu tom. “Quem é você e o que você fez com o Dean?”
Solto um gemido. “Não sei. Tô na merda, cara. Peguei uma mulher na outra noite que agora não consigo tirar da cabeça.”
“Tá de brincadeira?”
“Não. A mais pura verdade.”
Beau continua a me encarar boquiaberto.
“Você acha que gosto disso?”, pergunto, na defensiva. “Vai por mim, não preciso dessa dor de cabeça na vida.” Dou um gole na cerveja. “Ei. Sabe Crepúsculo?”
Ele pisca. “Como é que é?”
“Crepúsculo. O livro de vampiros.”
Ele avalia meu rosto com olhos desconfiados. “O que é que tem?”
“Tá, então você sabe que o sangue da Bella é especial, né? Deixa o Edward cheio de tesão quando tá perto dela?”
“Você tá de sacanagem com a minha cara?”
Ignoro. “Você acha que isso acontece na vida real? Feromônios e tal. Acha que é só uma teoria que algum depravado inventou para justificar a atração pela mãe ou alguma coisa assim? Ou será que tem mesmo uma razão biológica para sermos atraídos por certas pessoas? Tipo no Crepúsculo. Edward quer a mina num nível biológico, né?”
“Você tá analisando Crepúsculo?”
Porra, estou. Foi a isso que Allie me reduziu. Um fracassado triste e patético que vai para o bar e obriga o amigo a participar de um clube do livro sobre Crepúsculo.
“Não sei se devo te zoar ou te mandar pra um psiquiatra”, pondera Beau, solene. “Não conheço nenhum homem que tenha lido esse livro.”
“Não li. Minha irmã ficou obcecada pela série quando saiu. Ficava me seguindo pela casa e contando uns trechos contra a minha vontade.”
“Aham. Claro. A culpa é da sua irmã.” Beau ri e fica sério novamente. “O.k., então você tá com tesão por essa garota. Por que não pega ela de novo?”
“Porque ela não quer”, respondo, com os dentes cerrados.
“Impossível. Todo mundo quer ficar com você.”
“Pois é!” Levo a garrafa aos lábios. “Então, o que eu faço?”
Beau encolhe os ombros. “Esquece. Parte pra outra.”
Só percebi a referência a Quanto mais idiota melhor porque Tucker e eu vimos o filme literalmente na semana passada, quando passou na TV. “Boa.” Sorrio para ele e acrescento: “Não tenho nem uma arma, quanto mais as muitas armas que ia precisar para encher uma estante inteira”.
E nós dois recitamos a próxima fala: “O que eu vou fazer… com uma estante de armas?”.
Como somos dois idiotas, desatamos a rir e a comemorar a piada, até que Beau aborda o tema em questão. “Mas falando sério.” Ele gesticula para o bar à nossa volta. “Este lugar tá cheio de mulher que daria tudo pra ir pra casa com você. É só escolher uma e transar até tirar essa outra da cabeça.”
“Meu pau não deixa”, murmuro.
Beau solta um risinho. “Como é que é?”
“Ele não tá contribuindo”, explico, irritado. “Tentei me masturbar com um pornô ontem, e, juro por Deus, o troço não levantou. Aí foi só pensar na All… nessa menina”, me corrijo, porque prometi a Allie não contar a ninguém sobre nossa noite juntos, “… e bum”, estalo os dedos, “duro como pedra.”
Beau me encara, pensativo. “Sabe o que eu acho? Isso não é um lance de sangue mágico da Bella, não.”
“Não?”
“Não. Acho que você sofreu uma ‘chave de boceta’.”
Ouço uma tosse contida atrás de mim e viro bem a tempo de ver a garçonete passando pela nossa mesa. Suas bochechas estão vermelhas, os lábios se contraindo como se estivesse contendo uma gargalhada.
Volto a olhar para Beau. “Como assim?”
“É o seguinte: você tá passando por um dilema igual ao Jacob. Você sofreu uma chave de boceta dessa mulher, e agora só pensa nela. Você existe única e exclusivamente por essa boceta. Que nem o Jacob e aquela bebê mutante esquisita.”
“Seu babaca. Certeza que você leu esses livros.”
“Cala a boca”, protesta Beau. E me lança um sorriso tímido. “Vi os filmes.”
Decido guardar a provocação para depois, porque tenho assuntos mais urgentes com que me preocupar. “Então, qual é a cura, dr. Maxwell? Sair transando a torto e a direito e torcer para a chave de boceta perder o efeito? Ou continuar jogando charme e torcer para ela mudar de ideia?”
Meu amigo bufa alto. “Como é que vou saber?” Ele levanta o copo de cerveja. “Tô bêbado, cara. Ninguém deveria me ouvir quando tô bêbado.” Ele vira o copo e pede outro chope para a garçonete. “Pra falar a verdade, ninguém deveria me ouvir quando tô sóbrio.”