O Jogo

Elle Kennedy · Capítulo 18 de 39

Páginas do PDF

O Jogo

Capítulo 17

 

DEAN

 

“A gente foi até Boston, e só quando cheguei lá é que percebi que tinha deixado a carteira em casa. Aí a gente teve que voltar pra caminhonete e dirigir até aqui, e agora…”

Logan para tudo o que está fazendo feito um personagem de desenho animado. Fico surpreso que sua cabeça não gire no pescoço e seus olhos não saltem para fora.

“Hum.” Seu olhar quica de um canto a outro do banheiro feito uma bola de borracha.

Ele olha para o toalheiro, onde sua calça está pendurada.

Olha para a banheira, onde estou recostado feito uma Cleópatra.

Olha para as bolhas de sabão, cercando meu corpo numa nuvem branca e macia.

Então olha para Winston.

“Cara”, deixo escapar. “Não é o que parece.”

“Não, não, não, não quero saber!” Logan joga as mãos para cima e começa a recuar pela porta, como se tivesse acidentalmente entrado na cova dos leões. Ele para. Pega a calça do toalheiro. Continua recuando. Seus olhos se concentram mais uma vez no vibrador rosa a cinco centímetros da minha mão.

Tento de novo. “Eu juro que não…”

“Não quero saber.”

Logan pula para fora do cômodo e bate a porta. Ouço seus passos retumbando em direção à escada. E então voltando na direção do banheiro.

“Ei, escuta, vou passar a noite com Gracie hoje. Então você pode… hmm… terminar o que estiver… hmm… fazendo.”

Merda.

Espero ouvir o som da porta da frente se fechando antes de me voltar para Allie. “Você se escondeu atrás da porta? Sério?”

Ela dá um passo tímido para a frente. “Desculpa.”

“Pode guardar suas desculpas, gata. Você tem noção do que acabou de fazer, né?” Olho feio para ela. “Deixou o meu melhor amigo achar que gosto de enfiar vibrador na bunda.”

“Ah, não é verdade. No máximo isso vai abrir os olhos do Logan. A gente expandiu os horizontes dele para os prazeres da diversão anal.”

“Entra aqui”, ordeno.

Allie se abaixa depressa na água e se ajoelha na minha frente. “Desculpa, de verdade. Eu devia ter falado que estava aqui.” Ela passa uma mecha de cabelo molhado atrás da orelha. “É só que… gosto da ideia de manter isso em segredo. Você sabe o que vai acontecer se todo mundo descobrir que a gente está dormindo junto. Eles vão se meter e transformar esta história em algo maior do que é.”

Ela tem razão. Essa é a natureza do monstro social, e eu estava tentando evitar a mesma coisa. Mas, droga, Logan nunca mais vai me deixar em paz com isso. Tomar banho de espuma com um vibrador rosa? Allie me condenou a um sem-fim de zombaria e piadas.

“Deixa eu te recompensar”, implora ela. “Tenho certeza que a gente pode encontrar algum jeito de tirar Logan da sua cabeça…” Seus dedos ensaboados envolvem meu pau, que endurece rapidamente na sua mão. “Viu só? Você já tá esquecendo.”

Ela faz um movimento firme, e solto um gemido. “Não, ainda tô bravo com você.”

“O que faria você deixar de ficar bravo comigo?”

“Sua boca, para começar.”

Ela avalia a sugestão, o olhar acompanhando o movimento da própria mão debaixo d’água.

“Em geral, eu diria que sim, mas acho que não consigo prender a respiração por tanto tempo. E vou me afogar se tentar te chupar debaixo d’água.”

Rindo, fico de pé e espalmo a mão na parede de azulejos. A espuma escorre por meu peito e se agarra a minha pele molhada. “Que tal agora?”

“Agora sim.” Ela escorrega para a frente, e seu rosto fica a meros centímetros da minha ereção protuberante. Em seguida, lambe os lábios, e é a coisa mais sexy que já vi.

Não. Correção: esses lábios em torno de mim são a coisa mais sexy que já vi.

Ela chupa suavemente, a língua envolvendo a cabeça como se estivesse provando uma guloseima. Seu gemido baixo atravessa meu corpo, desencadeando uma onda de prazer.

Levo a mão ao seu rosto e acompanho com o dedo o “O” perfeito formado por seus lábios enquanto se apertam em volta de mim. “Você não tem ideia de como tá linda agora.”

Seus olhos azuis se fixam nos meus. Estremeço ao ver sua boca me recebendo, quente, úmida e ansiosa. A cada sugada lenta ela me engole mais e mais, até eu estar muito perto de tocar sua garganta. Nossa. Quero meter em sua boca, com força, mas sei que se aumentar o ritmo vou gozar rápido demais.

“Você…”, sua respiração faz cócegas na ponta inchada, “é tão…”, ela lambe a parte de baixo, e tremo de desejo “… bom de chupar.”

Uma risada me escapa. “E o que faz de mim ‘bom de chupar’?”

“Isto aqui.” Ela aperta meu membro. “Este pau lindo. Grande, mas não grande demais.” Seus dedos me envolvem de novo. “Grosso, mas não grosso demais. Perfeito.”

“E tem isso de pau ser demais de alguma coisa?”

Rindo com a voz rouca, ela me engole de novo, e não me lembro mais do que estávamos falando, porque Allie Hayes é muito boa nisso.

Ela segura o meu saco enquanto brinca com a boca, lambendo e chupando e simplesmente me deixando louco. Todos os centímetros quadrados da minha pele começam a se arrepiar. O prazer cada vez maior faz meus joelhos fraquejarem.

Mantendo uma das mãos na parede, enfio a outra no cabelo úmido de Allie até a palma estar segurando seu couro cabeludo. “Você vai me deixar gozar na sua boca, gata?”

Ela ainda não fez isso. O último boquete terminou com a mão dela me levando ao clímax. Mas estou morrendo de vontade de gozar nessa boca, sentir sua garganta engolindo cada gota.

Allie me espia sedutoramente. Meu saco se comprime contra o meu corpo, pesado de necessidade. Quando ela me oferece um leve aceno de cabeça, sou um caso perdido. O alívio vara meu corpo e jorra do meu pau. Um gemido rouco escapa, quando ela me chupa até o fim.

Preciso de quase um minuto inteiro para me recuperar. Assim que minha respiração se acalma e minha visão volta ao normal, entro na água de novo, empurrando-a para trás. Allie dá um gritinho quando a levanto e a coloco sentada na pequena borda de porcelana. Deve ter meio metro de largura, o que é espaço suficiente para ela sentar.

“Minha vez”, murmuro.

Abro suas pernas, e seus olhos queimam de desejo quando acaricio a parte interna das coxas. A pele ali é muito macia e sedosa sob meus dedos. Estou prestes a baixar a cabeça e me esbaldar, quando me lembro de uma coisa.

Com um sorriso malicioso, me inclino para trás na banheira e pego Winston.

A respiração de Allie falha.

“Vamos ver se você gosta tanto do Winston quanto do Míni Dean. O que você acha?” Levo a pontinha do brinquedo até o clitóris, rindo comigo mesmo ao vê-la afastar ainda mais as pernas. Amo essa desinibição, como ela topa qualquer coisa e não está nem aí para isso. Igualzinha a mim.

Provoco-a por um tempo, deslizando o brinquedo para cima e para baixo ao longo da abertura, até ela estar trazendo os quadris para a frente, visivelmente agitada. Excitada. Então abro-a com os dedos e enfio a pontinha do brinquedo de leve.

Nós dois ficamos observando enquanto empurro Winston para dentro dela. Estava tentando ir devagar, mas ela está tão molhada que o brinquedo entra inteirinho sem resistência. Tiro de novo, deixando só a pontinha, em seguida, enfio uma segunda vez.

Allie geme.

Eu também, porque mais uma vez descobri que havia me enganado. Ver aquele brinquedo entrar e sair dela é com certeza a coisa mais sexy que já vi.

“Como tá se sentindo?”, murmuro.

“Preenchida”, murmura ela de volta.

Com o brinquedo ainda dentro dela, abaixo a cabeça e aperto a língua contra seu clitóris. Dou uma lambida de leve e começo a mover a mão, o movimento preguiçoso da língua sincronizado com as investidas lentas do brinquedo. Allie agarra meu cabelo e se contorce na borda. Suas pernas agitadas espirram água em minha cara. Não ligo. Seguro seu clitóris entre os lábios e chupo, enquanto Winston continua a fazer seu trabalho lá embaixo.

Os ruídos que escapam de sua garganta ficam mais ofegantes e rápidos. Chupo mais e mudo o ângulo em que o brinquedo entra nela, e sou recompensado com um: “Ai, meu Deus”.

Sorrio contra sua pele quente, junto com seus espasmos. Adoro fazer esta menina gozar. Ela sempre reage como se tivesse acabado de receber um mimo inesperado, como se realmente não previsse esse presente enorme e maravilhoso, mas, caramba, com que vontade ela rasga a embalagem.

Seu corpo cede com um grito feliz, e depois suas pálpebras se abrem, pesadas. “Amo o Winston.”

Tiro o brinquedo com cuidado. Mas não tem nada de gentil na forma com que a encaro. “Você sabe que ele não é de verdade, não sabe?”

“Vai por mim, deixa eu enfiar ele em você só uma vezinha, e aposto que você vai mudar de opinião.”

Saímos da banheira, escorrendo água por todo o tapete e os azulejos. Quando me abaixo para abrir o ralo, Allie dá um tapa em minha bunda e diz: “Para de tentar o Winston”.

Rio e me viro para pegar uma toalha.

No meu quarto, Allie pousa o brinquedo na cômoda e começa a se secar. “Desculpa mesmo, de verdade.” Ela suspira. “Logan vai te encher o saco com isso, né?”

“Ah, se vai.” Diante da culpa em seu olhar, suspiro também. “Não esquenta, tá tudo bem. Vou dizer que tinha alguém escondida atrás da porta, com vergonha.”

Allie parece alarmada.

“Não vou dizer que era você.”

Em vez de acalmá-la, minha observação tem o efeito oposto. Seus olhos ficam frios de desagrado. “Então você vai dizer pra ele que estava com uma menina qualquer?”

“Você preferia que eu dissesse que era você?”

“Não. Mas…” Ela morde o lábio e fica quieta.

Já saí com muita mulher. Conheço as mulheres. Quando ficam quietas assim, não estão simplesmente remoendo uma coisa na cabeça. Não, estão construindo uma teia intricada de cenários e possibilidades, várias camadas se sobrepondo umas às outras, aumentando e se torcendo, até que, de repente, elas estão furiosas com uma coisa que você nem sequer imaginou.

Abafo outro suspiro. “Fala logo, Allie-Cat.”

“Você tá ficando com outra pessoa?”

Isso me pega desprevenido. “Não. Claro que não.” Mais uma vez, minha resposta entra por uma orelha e sai pela outra. Ela está ainda mais hostil agora. “Não tô”, digo, com firmeza.

Ela analisa meu rosto como se estivesse procurando Wally, só que está procurando uma mentira, e não um esquisitão de óculos e gorro. Em seguida, deixa escapar um suspiro. “A gente provavelmente deveria ter tido essa conversa antes de transar de novo. Todo esse papo de exclusividade.”

Acho que ela tem razão, embora não seja uma discussão que eu tenha com frequência. Todo mundo que se envolve comigo sabe que é uma relação aberta. De ambos os lados, porque elas também não têm que ser fiéis a mim. Transei com uma aluna bonita do segundo ano uns meses atrás que admitiu na minha cara que tinha acabado de chegar de um encontro com outro.

Com Allie, simplesmente presumi que fosse algo exclusivo. Jamais sonharia brincar com a melhor amiga da Wellsy.

“Somos exclusivos”, digo a ela.

“É sério que você não tá saindo com outra?” Ela nem tenta esconder a surpresa, e me pergunto se deveria ficar ofendido.

“Desde a primeira vez que dormimos juntos.”

Ela assente com a cabeça. “E por você, tudo bem?”

“Você topa?”

Outro aceno. “Quero que isso seja exclusivo. Quer dizer, sei que é só um caso, mas não ia me sentir confortável com a ideia de você dormindo com mais alguém. O mesmo vale para mim… também não vou fazer isso.”

“Beleza”, digo, sem problemas.

Allie permanece cética. “Você tá concordando depressa demais.”

“Prefere que eu faça birra e exija transar com outras pessoas?”

“Não, mas…” E lá vai ela, mordendo o lábio de novo. “Você tá dizendo que se sente perfeitamente satisfeito em ficar só comigo pelo tempo que isso durar? E se eu ficar ocupada de novo igual nesses últimos dois dias? Você não vai sair por aí atrás de um rala e rola com outra?”

Eu estava tranquilo com esta conversa até este momento. Agora estou irritado. “Qual o problema, acha que não sou capaz de me segurar por dois míseros dias?”

“A gente ficou três dias sem se ver, Dean, e você não parava de choramingar sobre o quão duro estava.”

“Só porque gosto de transar com regularidade não significa que gasto todos os segundos do meu dia indo de bar em bar, procurando um jeito de afogar o ganso.”

“Tá. Desculpa”, diz ela, arrependida. “Mas eu tinha que perguntar.” Allie brinca, inquieta, com a ponta da toalha. “Olha… me faz um favor? Se você sair e alguém der em cima de você e te deixar louco para levar ela pra cama, ou se você quiser, sei lá, arrumar outro caso… você pode me mandar uma mensagem dizendo ‘acabou’ ou algo assim?”

“Pode deixar”, prometo.

Mas, honestamente, não vejo isso acontecendo nunca. Não pensei em mais ninguém desde que Allie forçou seu caminho até a minha cama feito um trator, naquela primeira noite. O que é desconcertante. Achei que se a gente saísse vezes o suficiente, eu iria acabar enjoando dela, mas essa menina me excita demais da conta. Mesmo agora, no meio de uma conversa desconfortável sobre “arrumar outro caso”, meu corpo está pronto para uma segunda rodada.

Estou começando a me perguntar se algum dia vou enjoar dela.

 

ALLIE

 

Participei de minha primeira seleção de elenco aos doze anos. Fiquei empolgadíssima e, apesar de não ter conseguido o papel, me diverti horrores lendo para a diretora de elenco, que era a mulher mais gentil que conheci. Ela me deu um feedback valioso, e ainda me lembro até hoje de que me aconselhou a continuar tentando, porque viu “alguma coisa” em mim.

Não demorei muito para perceber que processos de seleção não são exatamente cor-de-rosa. Não importa se você está se candidatando para um comercial, um papel coadjuvante ou algo mais interessante — pelo menos uma vez na vida, você vai ter que enfrentar este obstáculo: contracenar com um ator difícil.

Pois é, toda seleção tem um. A pessoa que tenta te sabotar, embora vocês estejam se candidatando para papéis diferentes. Ou atuar melhor que você, só para aparecer. Ou é alguém que não tem o menor profissionalismo e esquece todas as falas, o que acaba pegando mal para você também. Ou, às vezes, eles são só uns babacas, e você prefere levar um banho de água fervendo do que estar no mesmo ambiente que eles, quanto mais contracenar.

Já tive que lidar com todo tipo de parceiro ao longo dos anos, e o melhor conselho que recebi sobre como lidar com a situação veio de Jack Emery, o professor de atuação do acampamento de teatro onde eu trabalhava como voluntária.

Ele me disse para usar a energia negativa.

Você não pode controlar como o outro ator vai se comportar. Não pode forçá-lo a lembrar suas falas, ou se obrigar a ser gentil com alguém que, francamente, não merece a energia de que você precisa para fingir um sorriso. Jack me instruiu a pegar essa energia negativa e canalizar para o meu próprio desempenho. Claro que o conselho não se aplica necessariamente a uma seleção para um comercial de cereal em que você tem que estar toda sorrisos enquanto engole uma pá de açúcar.

Mas ajuda se os seus personagens tiverem uma relação combativa. Nesse caso, é fácil usar a raiva ou a irritação e canalizá-la para a sua atuação.

Que é o que estou tentando desesperadamente fazer no ensaio de quinta à noite com a aluna do último ano que faz o papel de minha irmã.

Já estive na mesma turma que Mallory Richardson antes, mas esta é a primeira vez em que atuamos juntas no palco. Na semana passada, estávamos com o roteiro na mão, porque os ensaios ainda estavam começando.

Essa semana, nosso diretor, que também é aluno do curso de teatro, quer que a gente ensaie sem o roteiro. Não a peça inteira, mas pelo menos algumas cenas, para ajudar com o processo de memorização. Por mim, tudo bem, porque já decorei metade da peça.

Mas Mallory? Incapaz de encadear uma frase completa.

“Enfia isso na sua cabeça, Jeannette, você é uma fraca”, afirma Mallory, categórica. “Por que acha que Bobby foi embora? Porque não…” Ela para. “Fala”, grita para a primeira fileira de assentos na plateia, onde o diretor e dois alunos produtores estão sentados.

Não tem como não notar a frustração de Steven. Não o culpo. Durante a última hora, já ouvi Mallory gritar “Fala!” tantas vezes que a palavra perdeu todo o sentido.

“‘Porque não aguentava mais a sua choradeira’”, responde Steven, a voz de barítono atravessando o auditório cavernoso. “‘Você é patética. Você…’”

Mallory o interrompe. “Obrigada, eu sei o resto. Tropecei na parte da choradeira.”

Steven sinaliza para começarmos de novo.

“Enfia isso na sua cabeça, Jeannette, você é uma fraca. Por que acha que Bobby foi embora? Porque não aguentava mais a sua choradeira. Você é patética. Você se deixa abater… fala!”

Resisto ao impulso de correr até o outro lado do palco e derrubá-la no chão. Talvez se eu gritar as palavras no seu ouvido no último volume elas se fixem nessa cabecinha preguiçosa.

Steven recita a próxima linha.

Começamos de novo.

“Estou cansada de ter que ficar segurando a sua mão e enxugando as suas lágrimas e…”

“Bobby morreu!”, esbravejo, cambaleando na direção dela. “Tenho todo o direito de chorar se eu quiser! E ninguém pediu pra você segurar a minha mão. Não te chamei aqui, Caroline.”

“Eu vim porque…”

Fico esperando.

“Fala!”

E assim vai.

Fala.

Fala.

Fala.

Reservamos o auditório até as dez e meia, o que significa que ainda temos uma hora. Em geral, Steven faz uso de todos os segundos disponíveis. Hoje, o diretor obviamente perdeu toda a paciência. Ele levanta e anuncia que o ensaio terminou.

Estou surpresa que tenha aguentado por tanto tempo.

“Vamos nos reunir de novo amanhã”, diz ele. “O auditório está reservado do meio-dia às três, então a gente vai poder trabalhar bastante. Releia as cenas mais algumas vezes, Mal. Você está precisando memorizar suas falas.”

“Desculpa, Steve”, geme Mallory. Pelo menos tem a decência de parecer envergonhada. “Não tive tempo de estudar a cena ontem. Estava preparando um monólogo para a aula do Nigel.” Ela suspira alto. “Tô toda atolada agora.”

Minha vontade é dizer: Bem-vinda à faculdade, porque, qual é, ela acha que é a única cheia de trabalho aqui?

Estou fazendo um curso de roteiro que me obriga a escrever duas cenas por semana. Meu professor de teoria cinematográfica passa tanta coisa para a gente ler que meus olhos estão começando a envesgar. Na oficina de seleção de elenco, a gente prepara um monólogo por semana; o seminário foi projetado para ajudar alunos de atuação a se sentirem à vontade e ganharem autoconfiança para enfrentar processos de seleção, mas, aparentemente, seria “fácil” demais usar material já existente em seleções fictícias.

Não preciso nem dizer que estou tão atolada quanto ela, mas eu não saio por aí distribuindo desculpas. Não, ainda arrumo tempo para decorar essas míseras páginas de diálogo.

Mas estou feliz que o ensaio tenha terminado. Estou perto demais de estrangular Mallory, que nem se despede de mim ao sair do palco.

“Amanhã a gente vai se sair melhor”, garanto a Steven. Me sinto péssima por termos decepcionado nosso diretor hoje, porque sei o quanto ele leva a sério o seu trabalho.

Quando nos conhecemos, brinquei que ele deveria estar na frente das câmeras, e não atrás delas. Sério, o cara é lindo. Pele escura da cor de chocolate, feições perfeitas, olhos hipnotizantes. Ele me lembra um Idris Elba sem o sotaque britânico sensual. Mas Steven não está interessado em ser ator. Uma vez me disse que sua meta é ganhar um Oscar de Melhor Diretor antes dos quarenta.

“Não é você que tem que melhorar”, responde Steven. “Você está ótima.”

Guardo o elogio com carinho e saio do palco pelos bastidores, procurando o celular na bolsa enquanto caminho. Quando o encontro e vejo uma chamada perdida de Ira, meu coração tem um sobressalto. Liguei para ele ontem à noite para perguntar sobre a peça de Cavanaugh, para a qual estou louca para fazer um teste. Não sei nem se ela vai acontecer ou se são só boatos que correram a Broadway, então pedi para Ira investigar o assunto.

Confiro a hora. São nove e meia, o que significa seis e meia na Costa Oeste. Sei que ele ainda está em Los Angeles, porque mandou uma mensagem mais cedo dizendo que estava “almoçando” com o produtor do piloto da Fox. Não sei se estou feliz ou decepcionada que os produtores tenham me deixado mandar um teste filmado. Por sorte, provavelmente não vou ter notícia disso tão cedo, já que a seleção só começa em fevereiro.

“Alô, Ira”, digo, assim que ele atende. “É Allie. Queria saber se descobriu alguma coisa sobre a peça do Brett Cavanaugh.”

“Na verdade, descobri.”

Então por que não me ligou?

“A produção já começou. Conheço uma das produtoras, então falei com ela.” Ele faz uma pausa. “A notícia não é boa.”

Meu coração cai até a boca do estômago. “Ah. O que ela disse?”

“É um elenco totalmente masculino. Ousado, né?”

Muito ousado. Para não falar devastador. De repente, sinto vontade desesperada de ter um pênis.

“Infelizmente, isso significa que não tem lugar para você nela…” Não brinca. Não tenho um pênis! “Mas falei para Nancy que você está interessada em trabalhar com Brett de novo. Ela prometeu passar isso adiante, então, quem sabe? Talvez ele te ligue quando estiver produzindo outra coisa.”

Isso me anima. Um pouco. Ainda estou superchateada com a notícia.

Na saída do prédio, mando uma mensagem para Dean.

Eu: Dia horrível! Talvez queira desabafar c/ vc + tarde. Como foi o jogo?

Ele não responde. Tudo bem que só esperei três segundos, mas Dean em geral é bem rápido nas respostas.

Caminho cinco minutos na direção da Bristol House, e nada ainda. O jogo já deve ter terminado. Hannah falou que começou às seis. São quase dez.

Mais cinco minutos se passam. Estou quase no alojamento. Por que ele não responde?

Faz dez minutos, sua maluca. Relaxa.

Em vez de relaxar, fico ainda mais angustiada, porque acabei de me dar conta de algo preocupante.

Não entrei em contato com Dean porque queria sexo.

Queria desabafar sobre o meu dia com ele.

Ai, merda. Hannah tem toda razão — a palavra “casual” não existe no meu vocabulário. Tive uma porcaria de ensaio, e minha primeira reação foi escrever para o cara com quem estou ficando e contar tudo para ele. Na esperança de que ele fosse me ouvir, me confortar e me dizer que vai ficar tudo bem.

Repita para si mesma, Allison Jane. Ele. Não. É. Seu. Namorado.

“Ele não é meu namorado”, digo, com convicção.

“O quê?” Um cara alto vestindo uma parca diminui o passo e olha para mim.

Quase pulo de susto. “Ah, não estava falando com você.”

Ele se volta para a minha orelha, e percebo que está procurando um fone sem fio. Como não encontra nada, me olha de um jeito estranho e se afasta.

“Falar sozinho não faz de você um maluco”, grito para ele. Bem, a menos que você seja o mendigo que eu costumava ver no Brooklyn gritando sobre conspirações governamentais e sobre como os alienígenas estão roubando nossos neurônios pelo celular.

Até aí, quem pode dizer que Lou não é perfeitamente são? Talvez os alienígenas estejam fazendo isso. Não posso provar o contrário.

Me arrasto pelo restante do caminho até em casa e encontro o alojamento com as luzes apagadas. Hannah ainda não voltou. Sei que foi ao jogo de hóquei hoje, então ligo para saber onde está agora.

“Oi!” Onde quer que esteja, é um lugar barulhento. Ouço uma cacofonia de vozes ao fundo, e uma linha de baixo retumbando em meu ouvido. “Tô no bar. Quer vir pra cá?”

Uso uma voz casual. “Quem tá aí? O Garrett e os caras?” E Dean?

Consigo me conter antes de fazer a pergunta. Droga, estou dando uma de namorada de novo. Uma namorada incrivelmente irritante, diga-se de passagem, do tipo que fica controlando o homem quando ele não está com ela.

“É. O time tá quase todo aqui. Ganhamos hoje, então tá todo mundo comemorando.” A música transborda do outro lado da linha de novo. “O Garrett não para de me desafiar para uma competição de shot.”

“E os outros? Estão fazendo o quê?”, pergunto, com indiferença fingida. “Logan… Tuck… Dean…?”

Eu me odeio agora. Definitivamente, me odeio.

“Tuck não veio. Logan tá jogando sinuca. E tem uma menina tentando comer a cara do Dean.”

Meu corpo inteiro fica rígido.

Hum… como é que é?

“Bem, não tô te ouvindo direito”, continua Hannah. “Manda uma mensagem se você decidir vir.”

Minha mão treme ao desligar a chamada. Dean está no bar se pegando com outra?

Dois dias depois de conversarmos sobre exclusividade?

Isso não vai ficar assim, mas não vai mesmo.