O Jogo

Elle Kennedy · Capítulo 3 de 39

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O Jogo

Capítulo 2

 

ALLIE

 

Meu autocontrole está nas mãos de Dean Heyward-Di Laurentis, um homem conhecido por ter zero autocontrole. Ou seja, estou ferrada. Muito ferrada.

Mas não vou fazer isso. Não vou ligar para Sean. Não importa que, vinte minutos atrás, ele tenha me mandado uma foto da nossa viagem para o México, no ano passado. Ele usou um daqueles aplicativos de moldura para desenhar um coração vermelho em volta dos nossos rostos.

Foi uma viagem tão boa…

Afasto a memória e pego o controle remoto da mesinha de centro. “Você tem Netflix?” Olho para Dean, que ainda parece irritado com a minha presença.

E, ou estou vendo coisas, ou ele está com uma ereção. Mas sou gentil o suficiente para não o provocar com o assunto, porque, em sua defesa, ele estava a cinco segundos de transar com duas mulheres antes de eu chegar.

Meu olhar viaja por seu peito nu. Não tenho como mentir — o peitoral é absolutamente espetacular. O cara é sarado. Alto e esguio, com músculos divinamente esculpidos. E está com a barba por fazer — pelos grossos e louros que sombreiam com sensualidade a mandíbula esculpida à perfeição. É mesmo um desperdício. Deveria ser proibido um cara tão babaca ser tão bonito.

“Tenho. Pode ligar e escolher alguma coisa”, responde ele. “Vou só dar um pulo lá em cima para bater uma e já venho.”

“Tá, acho que tô a fim de ver um… Espera aí, o quê?”

Mas Dean já sumiu, me deixando de boca aberta para o corredor vazio. Ele vai só dar um pulo lá em cima para fazer o quê? Era brincadeira, né?

Contrariando meu bom senso, imagino a cena. Dean no seu quarto. Uma das mãos em volta do pau, a outra… segurando o saco? Torcendo o lençol? Ou talvez esteja de pé, agarrando a lateral da escrivaninha, as feições marcadas, enquanto morde o lábio inferior…

E por que estou tentando resolver o mistério de como o cara se masturba?

Afastando a imagem, vou clicando no controle remoto até encontrar a Netflix; em seguida, começo a repassar a lista dos últimos lançamentos.

Menos de cinco minutos depois, Dean aparece de novo na sala. Felizmente, vestiu uma calça de moletom. Só que a usa tão baixo na cintura que sei que só pode estar sem cueca, pois quase posso ver… lugares que não tenho interesse nenhum em ver.

Ainda está de peito nu e exibe um leve rubor nas bochechas.

“Você acabou mesmo de bater uma?”, pergunto.

Dean faz que sim com a cabeça, como se não fosse nada demais. “Por quê, você acha que eu ia conseguir passar um filme inteiro com as bolas doendo?”

Eu o encaro, embasbacada. “Então você não pode transar com ninguém enquanto estou em casa, mas pode subir e fazer isso?”

Seus lábios se torcem num sorriso malicioso. “Eu podia ter feito aqui embaixo, mas aí você ia ficar tentada a tomar as rédeas. Estava tentando ser legal.”

É difícil não revirar os olhos. Então, nem tento me conter. “Vai por mim, eu teria ficado na minha.”

“Com meu pau aqui pra fora? De jeito nenhum. Você não ia aguentar.” Ele arqueia uma das sobrancelhas para mim. “Tenho um pau e tanto.”

“Aham. Tenho certeza que sim.”

“Duvida? Posso mostrar uma foto.” Ele pega o celular na mesa de centro. Em seguida, para e segura o cós da calça. “Na verdade, posso te mostrar ao vivo e a cores, se quiser.”

“Não quero. Nem um pouco.” Faço um gesto para a televisão. “Escolhi esse. Já viu?”

Dean faz uma careta para o pôster do filme na tela. “Pelo amor de Deus, foi isso que você escolheu? Deve ter uns três filmes de terror novos que a gente pode ver. Ou toda a filmografia do Jason Statham.”

“Filme de terror não!”, digo com firmeza. “Não gosto de sentir medo.”

“Tudo bem. Então um filme de ação.”

“Não gosto de violência.”

Ele chupa as bochechas de tanta frustração. “Gata, não vou ver um filme sobre…”, então aperta os olhos para a tela, “‘uma mulher que embarca numa jornada de redescoberta depois de ser diagnosticada com uma doença terminal’. De jeito nenhum.”

“Mas parece que é muito bom”, reclamo. “Ganhou um Oscar!”

“Sabe o que mais ganhou um Oscar? O silêncio dos inocentes. Tubarão. O exorcista”, cita, presunçoso. “Tudo filme de terror.”

“A gente pode passar a noite inteira discutindo, mas não vou ver nada com sangue, tubarão nem explosão. Pode ir se acostumando com a ideia.”

Dean cerra os dentes visivelmente. Em seguida, relaxa a mandíbula e solta um suspiro pesado.

“Certo. Mas, se tenho que aguentar essa porcaria de filme, vou fumar um baseado antes.”

“Como quiser, lindinho.”

Ele caminha em direção à porta, resmungando algo em voz baixa.

“Espera”, chamo, tirando depressa o celular do bolso do casaco. “Pode levar isso com você? Se ficar sozinha com meu celular, posso acabar caindo na tentação de mandar uma mensagem.”

Ele me lança um olhar desconfiado. “Pra quem você tá tentando não mandar mensagem?”

“Meu ex. Terminamos ontem, e ele não para de me escrever.”

Faz-se um silêncio. “Sabe de uma coisa? Você vem comigo.”

Mal tenho tempo de piscar, e Dean já atravessou a sala e está me tirando da cadeira. Quando meus pés encontram o piso de madeira, perco o equilíbrio e tropeço direto em seu peito gigante, o nariz achatado contra um peitoral definido.

Recobro o equilíbrio depressa e me armo com um olhar mordaz. “Eu já tinha me acomodado toda, seu estúpido.”

Dean me ignora e meio que me conduz, quase me arrastando até a cozinha. Como nem me deixou pegar o casaco, começo a tremer no instante em que passo pela porta dos fundos.

Seu peito nu brilha sob a luz do quintal. Não parece incomodado com o frio, mas seus mamilos franzem um pouco com o ar gelado da noite.

“Que merda. Até seus mamilos são perfeitos”, reclamo.

Seus lábios se contorcem. “Quer tocar?”

“Eca. Nunca. Só estou comentando como eles são perfeitos. Totalmente proporcionais para o seu peito.”

Ele examina os próprios peitorais e pensa por um instante. “Pois é. Sou mesmo perfeito. Preciso me lembrar disso com mais frequência.”

Deixo escapar um riso de desdém. “Claro. Porque você já não é vaidoso o suficiente.”

“Sou autoconfiante”, corrige ele.

“Convencido.”

“Autoconfiante.” Ele abre a caixinha de lata que pegou na cozinha, e faço uma cara feia ao vê-lo extrair um baseado perfeitamente enrolado e um isqueiro Zippo.

“Por que estou aqui?”, resmungo. “Não quero fumar.”

“Claro que quer.” Ele acende, dá uma tragada profunda e fala por entre a nuvem de fumaça. “Você tá toda nervosa e estranha. Vai por mim, precisa disso.”

“Isso é pressão, sabia?”

Ele estende o baseado, uma das sobrancelhas arqueadas, e me persuade, de brincadeira. “Anda logo, gata. Só um trago. Todo mundo fuma.”

Não posso deixar de rir. “Vai à merda.”

“Você quem sabe.” Ele exala de novo, e o cheiro de maconha me rodeia.

Não me lembro da última vez em que curti uma brisa. Não faço isso com frequência, mas, cá entre nós, se eu fosse escolher uma ocasião que pediria um pouco da serenidade que um baseado proporciona, seria esta noite.

“Tá bom. Passa pra cá.” Estendo a mão antes que possa mudar de ideia.

Dean obedece, radiante. “Assim que eu gosto. Mas não conta pra Wellsy. Ela vai acabar com a minha raça se achar que estou corrompendo sua melhor amiga.”

Levo o baseado aos lábios e trago a fumaça até os pulmões, tentando não rir da apreensão genuína no rosto de Dean. Ele provavelmente tem razão de ter medo de Hannah. Minha amiga é dona de uma língua afiada e não tem medo de usá-la. Por isso que eu a adoro.

Por dois minutos, passamos o baseado de um para o outro em silêncio, feito dois hooligans se escondendo nos fundos de um posto de gasolina. É a primeira vez que fico sozinha com ele, e a sensação de estar no quintal com um Dean Di Laurentis de peito nu é estranha. Falando sério, nunca soube o que achar dele. Sei que é arrogante, atrevido…

Fútil.

Eu me sinto uma idiota por pensar isso, mas não posso negar que é o que me vem à mente sempre que vejo Dean. Hannah me disse que ele é podre de rico, e dá pra perceber. Não que saia por aí esbanjando dinheiro, mas pela forma como desfila pelo campus como se tivesse o mundo aos seus pés. Acho que nunca passou por uma dificuldade na vida. Só de olhar, você sabe que o cara consegue o que quer, quando quer.

Hmm. Aparentemente maconha me deixa filosófica e crítica.

“Então quer dizer que você levou um fora?”, pergunta ele, por fim, me observando dar outro trago.

Sopro a fumaça na cara dele. “Não. Fui eu que terminei.”

“O mesmo cara de sempre? Da fraternidade? Stan?”

“Sean. E, sim, estamos indo e vindo desde o primeiro ano de faculdade.”

“Minha nossa. É tempo demais para ficar com a mesma pessoa. O sexo era sem graça?”

“Por que pra você tudo tem sempre que girar em torno de sexo?” Passo o baseado de volta. “E, para a sua informação, o sexo era bom.”

“Bom?” Ele dá uma risada de escárnio. “Uau, isso é que é elogio.”

Já estou sentindo os efeitos da maconha, a cabeça leve e o corpo relaxado, e esse deve ser o único motivo que me faz continuar falando. Em condições normais, jamais me abriria com esse cara.

“Acho que, no final, já não era mais o melhor do mundo”, admito. “Mas deve ser porque a gente estava brigando muito desde o verão.”

“Mas não é a primeira vez que vocês terminam, né? Por que você sempre volta para ele?”

“Porque amo aquele cara.” Então me corrijo: “Amava”. Ai, nem sei mais. “Nas duas primeiras vezes em que terminamos, não foi porque um de nós tinha feito besteira. Só achei que a coisa estava ficando muito séria, muito rápido. Era o primeiro ano, e eu tinha impressão de que a gente devia estar curtindo a vida, fazendo loucuras de solteiro e por aí vai.”

“Loucura de solteiro é bom”, concorda ele, solene. “Uma vez saí com uma gostosa, e ela fez uma refeição inteira em cima do meu pau.”

“Eca.” Reviro os olhos. “E o pior é que a vida de solteira foi bem chata. Saí com uns caras, todos eles uns canalhas completos. E isso me fez perceber como era bom o que eu tinha com o Sean.”

Dean sopra outra nuvem de fumaça. “Certo. Mas aí vocês terminaram de novo.”

“Terminamos.” A memória evoca uma onda de irritação. “Dessa vez foi porque ele ficou controlador demais. Um dos colegas de fraternidade dele deu em cima de mim numa festa, e o Sean decidiu que ninguém mais podia olhar pra mim. Ele começou a me dizer como me vestir e a me mandar mensagens o tempo todo, perguntando onde eu estava e com quem. Era sufocante.”

Dessa vez é Dean quem revira os olhos. “Diz a garota que voltou para ele de novo.”

“Ele me prometeu que seria diferente. E foi. Desgrudou do meu pé e foi tão bom para mim depois disso.”

Dean não parece convencido, mas não me importo. Não me arrependo de ter voltado para Sean. Depois de dois anos e meio com o cara, sabia que precisávamos lutar pelo nosso relacionamento.

“O que nos traz ao rompimento número quatro.” Dean inclina a cabeça, curioso. “O que aconteceu?”

Sinto o desconforto apertar meu peito. “Já falei. A gente tava brigando muito.”

“Por quê?”

As palavras me saem antes que eu possa evitar. Droga. Ele injetou soro da verdade nesse baseado ou algo assim? “Em geral, por causa da formatura e do que a gente vai fazer depois da faculdade. Meus planos sempre foram mudar para Los Angeles e me concentrar na carreira de atriz.”

Ou Nova York… Mas não comento isso com Dean. Ainda não me decidi, e ele é a última pessoa com quem quero discutir decisões profissionais profundas. O sujeito tem a profundidade de uma poça de chuva.

“Quando começamos a namorar, Sean não tinha nenhum problema com isso, mas neste verão, de repente, decidiu que não quer que eu vire atriz. Na verdade, não quer que eu tenha um emprego e ponto.” Franzo a testa. “Ele meteu na cabeça que vai trabalhar na empresa de seguros do pai, em Vermont, e que vou ser a dona de casa feliz que prepara o jantar para o marido antes de ele chegar em casa.”

Dean dá de ombros. “Nada de errado em ser dona de casa.”

“Claro que não, mas não quero ser dona de casa”, retruco, frustrada. “Passei quase quatro anos dando duro para me formar nessa faculdade de teatro. E quero usar o meu diploma. Quero ser atriz, e não posso continuar com um cara que não me apoia. Ele…”, me interrompo, mordendo o lábio.

“Ele o quê?”

“Nada. Esquece.” Tomo o baseado da sua mão e inspiro fundo. Fundo demais, porque começo a tossir feito louca ao expirar. Meus olhos se enchem d’água por um momento, e, quando minha visão se normaliza, me deparo com olhos verdes sérios me observando com atenção.

“O que ele fez?”, Dean exige saber, em voz baixa. “E qual o tamanho da surra que ele merece? Eu e Garrett damos conta de uma briga sozinhos, mas se você quiser quebrar uns ossos, a gente pode soltar o Logan em cima dele.”

“Ninguém vai quebrar os ossos de ninguém, seu idiota. Sean não fez nada demais, e não preciso que você dê uma surra nele. A única coisa que quero que você faça é esconder essa merda desse celular.” Enfio o celular nas mãos de Dean. “Mantenha bem longe de mim este fim de semana, tá legal? Só me devolva se meu pai me ligar. Ou a Hannah e a Stella. E a Meg e… quer saber? Eu confiro quem ligou algumas vezes por dia, sob sua supervisão. Assim, você pode me dar um tapa se eu tentar escrever para o Sean.”

Dean parece intrigado. “Então, eu sou… o quê, seu vigia de relacionamento? O responsável por te manter na linha?”

“Isso mesmo. Parabéns, finalmente você vai poder fazer alguma coisa de útil com o seu tempo”, respondo, sarcástica.

Ele inclina um pouco a cabeça. “E o que eu ganho em troca?”

“A satisfação de saber que tá ajudando alguém além de si próprio?”

“É pouco. Que tal um boquete? Eu topo por um boquete.”

Mostro o dedo do meio. “Vai sonhando.”

“Tudo bem, um carinho no meu pau então.”

“Deixa de ser babaca. Por favor. Não tenho nenhum autocontrole quando se trata de Sean.”

Como se tivesse recebido uma deixa, o smartphone vibra na mão de Dean, e meu primeiro instinto é tentar tomá-lo de volta. Ele dá um passo depressa para trás e olha para a tela. “É Sean.” Sua boca treme, prendendo o riso. “Está com saudade do sabor dos seus lábios.”

Meu coração se comprime, dolorido. “Outra regra: você não pode me dizer o que ele escreveu.”

“Você tá me dando responsabilidades demais, gata. Não gosto de responsabilidade.”

Que surpresa. “Você é capaz, gato. Tenho fé em você.”

Dean dá uma última tragada no baseado, em seguida o esmaga no cinzeiro e se dirige para a porta de vidro de correr. Nossa, até seu jeito de andar é arrogante. E ele é uma delícia andando assim. Meu olhar repousa inadvertidamente em sua bunda firme e na forma como o moletom se ajusta a ela. Isso mesmo, estou conferindo a bunda de Dean. Quer dizer, é uma bunda espetacular, e sou uma mulher — o que posso fazer?

“Você tá lidando com isso da maneira errada, sabia? O melhor jeito de esquecer alguém é ficando com outra pessoa. E logo.”

As palavras me despertam da apreciação da sua bunda. “Ainda não estou pronta para ficar com outra pessoa.”

“Claro que está. Sério, arruma logo alguém pra te ajudar a esquecer.” Dean ergue o braço. “Eu me voluntario.”

Uma risada me escapa. “Sonhar não custa nada.”

Mas, lá no fundo, até considero a sugestão. Na verdade, sexo casual para esquecer não é uma ideia de todo má. É tipo cair do cavalo — as pessoas sempre aconselham a subir de volta na mesma hora, não é? Talvez eu devesse fazer exatamente isso, subir de novo na sela. No mínimo vai ser uma boa distração para a minha dor de cotovelo.

Mas definitivamente não vai ser com Dean. Não, prefiro encontrar uma sela que não tenha sido cavalgada por todas as alunas da Briar.

“Vamos dar logo um basta nisso”, decide ele.

“Se por um basta você tá querendo dizer esquecer essa ideia idiota, então, sim, vamos dar logo um basta nisso.”

Dean para junto à porta e se vira para mim, os olhos verdes me avaliando de forma sedutora da cabeça aos pés. “Na verdade, quanto mais penso nisso, mais gosto da ideia de te ajudar a esquecer.” Seu olhar se demora em meus peitos. “Gosto bastante.”

Abafo um gemido. “O Garrett me prometeu que você não ia dar em cima de mim este fim de semana.”

“G. não tem nada que fazer promessas em meu nome”, responde Dean com um sorriso. Então me chama com um gesto. “E aí, a gente vai ou não vai ver esse filme?”

Sigo-o para dentro de casa. Minha mente está nublada pela maconha, mas de um jeito bom, e quando Dean para no corredor para ajeitar a calça que está prestes a cair, por algum motivo começo a rir como se fosse a coisa mais engraçada do mundo.

Minha alegria desaparece assim que nos acomodamos no sofá, porque Dean senta do meu lado, passa um braço musculoso em volta dos meus ombros e me puxa para junto de si. Como se fosse totalmente normal.

Franzo a testa para ele. “O que seu braço tá fazendo em volta de mim?”

Sua expressão é a mais inocente. “É assim que assisto a filmes.”

“Sério? Então você passa o braço em volta do Garrett quando vê um filme com ele?”

“Claro. E, se ele for legal comigo, às vezes enfio a mão na calça dele.” Sua outra mão desliza até o cós da minha calça legging. “Basta ser legal comigo, e prometo que vou ser ainda mais legal em troca.”

“Rá. Nem morta.” Afasto sua mão, mas não antes de sentir uma centelha de calor entre as pernas. Seu peito nu é glorioso, e Dean está me provocando, implorando por meus dedos em seus músculos rijos. E ele cheira tão bem. Um cheirinho de mar. Não, de coco. Estou aérea demais para identificar o aroma, mas não o suficiente para não notar como estou formigando lá embaixo.

Ah, pelo amor de Deus. Minha vida sexual deve ter ido mesmo pelo ralo, se basta a presença de Dean Di Laurentis para eu ficar toda animada.

“O que mais a gente tem pra fazer?”, argumenta ele.

Aponto para a TV. “Ver um filme.”

“Preferiria ver você.” Ele levanta as sobrancelhas, numa provocação. “Gritando meu nome enquanto faço você gozar.”

Desta vez, não sinto arrepios. Só um riso que me escapa aos montes em ondas incontroláveis.

“Nossa. Você acaba com o ego de qualquer um.” Ele parece insultado.

Inspiro fundo por entre as gargalhadas. Pois é, estou chapada, relaxada e perdi todos os filtros, o que significa que posso provocar Dean o quanto quiser e depois culpar o baseado.

“Desculpa, mas você às vezes é demais.” Não consigo parar de rir. “As meninas realmente caem nessas cantadas?”

Ele solta um suspiro de reprovação. “Coloca logo essa porcaria de filme.”

“É pra já.” Aperto o controle remoto e sento na outra ponta do sofá, deixando um metro de distância entre nós.

Em sua defesa, Dean permanece em silêncio por quase trinta minutos. Ele mantém os olhos fixos na tela, mas, de canto de olho, não deixo de notar sua inquietação. Ele batuca os dedos compridos nas coxas. Passa uma das mãos pelo cabelo. Suspira, enquanto a personagem principal prepara um omelete em tempo real.

Quando ela senta à bancada e começa a comer o omelete — em tempo real —, Dean explode feito um vulcão adormecido.

“Este filme é horrível!” Então geme. Alto. “Pronto. Falei. Que merda de filme horrível.”

“Eu estou gostando.” Mentira. Assistir a este filme é o mesmo que ver tinta secar. Nem a maconha que acabamos de fumar é capaz de tornar a experiência minimamente agradável, mas não quero admitir que fiz a escolha errada. Não se pode dar o braço a torcer para um cara como Dean. Nunca. Ele vai esfregar isso na minha cara até o fim dos tempos.

“Você não pode estar gostando deste filme”, desafia ele.

“Estou”, insisto.

Ele me encara fixamente por uns bons segundos, mas minhas habilidades teatrais vêm bem a calhar, e consigo transmitir a mais pura inocência.

“Pois eu não. Este filme passou de todos os limites.”

Ofereço uma sugestão útil. “Por que você não vai lá em cima bater outra?”

Merda. Coisa errada para se dizer. Na mesma hora, seus olhos verdes assumem um brilho sedutor.

Com um sorriso preguiçoso, ele se aproxima e pergunta, arrastando a voz: “Que tal você fazer isso por mim?”.

O sujeito é incorrigível. “Esse assunto de novo? Você não aceita ‘não’ como resposta?”

“Não estou familiarizado com a palavra. Ninguém nunca me falou isso antes.” Ele se aproxima de novo, descansando a mão sobre a almofada entre nós e fazendo um carinho lento no tecido. “Vamos lá, que tal tornar esta festinha mais interessante? Estamos sozinhos em casa… somos os dois bonitos…”

Deixo escapar um riso de desdém.

“Vai ser divertido. Sexo é sempre divertido.”

“Passo.”

“Tudo bem, nada de sexo. Que tal só oral?”

Finjo pensar na questão. “E eu vou dar ou receber?”

“Receber. E depois dar. Porque é assim que as coisas funcionam.” Ele abre um sorriso imenso. “Sabe como é, o ciclo da vida e tudo mais.”

Não posso deixar de rir. Podem falar o que quiserem desse cara, mas pelo menos ele é divertido. “Passo”, digo de novo.

“Quer dar uns amassos?”, pergunta, esperançoso.

“Não.”

“Eu beijo bem…” Ele deixa a frase no ar, como que para me seduzir.

“Rá. Depois dessa, tenho certeza que não. Toda vez que um cara diz que beija bem, ele é péssimo.”

“Ah, é? Você tem alguma evidência empírica para sustentar isso?”

“Claro.” Na verdade, não. E Dean sabe o que é empírico? Uau, talvez haja mais do que ar dentro dessa cabecinha bonita.

Ele parece pronto para argumentar, mas somos interrompidos por uma música alta vinda de seu celular. Faço uma careta ao reconhecer a melodia.

Homens. Incapazes de tirar um segundo do seu dia para baixar o assento do vaso, mas têm tempo de programar a música da ESPN como toque de celular?

Dean abre um sorriso ao ver quem está ligando e atende na mesma hora. “Maxwell! Qual é a boa?” Ele escuta, então me lança um olhar esperançoso. “Quer ir a uma festa?”

Faço que não com a cabeça.

A pessoa do outro lado da linha é forçada a suportar o suspiro excessivamente dramático de Dean. “Foi mal, cara. Não posso. Eu tô de babá…”

Dou um tapa em seu braço.

“… e ela não quer ir”, termina ele, me lançando um olhar afiado. Então faz mais uma pausa. “Não, já é bem grandinha.”

O quê?

“Tô de babá de uma adulta, cara. Amiga da namorada do G.” Dean continua como se eu nem estivesse na sala. “A gente tá vendo um filme aqui sobre uma mulher com câncer que é uma merda… é verdade, câncer em geral é uma merda. Quer dizer, todo o meu respeito por quem tem câncer, mas o filme é horrível. É… não, o jogo é na terça… verdade… beleza, claro. A gente se vê no Malone’s. Até mais, cara.”

Ele desliga e me olha de cara feia. “Eu podia estar numa festa agora.”

“Ninguém tá forçando você a ficar comigo”, ressalto.

“Tô tentando ser legal com você, por causa dessa história de coração partido e tudo mais. Demonstrar um pouquinho de gratidão que é bom? Não. Você não me dá nem um beijinho.”

Dou um tapinha em seu ombro. “Ah, gatinho. Tenho certeza que qualquer garota na agenda do seu telefone ficaria feliz em vir e enfiar a língua na sua boca. Eu, por outro lado, tenho critérios.”

“Ah, então eu não sou bom o bastante para você?” Ele arregala os olhos. “Pois fique sabendo que a sua amiga Wellsy adorou me beijar.”

Perco o ar de tanto rir. “Ah, você tá falando do beijinho que ela te deu para o Garrett não saber o quanto ela tinha gostado do beijo dele? Pois é, lindinho, conheço a história. Ela te beijou por desespero.” Ainda me dá um nó na cabeça pensar que Hannah tenha beijado esse cara. Dean está tão longe de ser o tipo dela.

Verdade seja dita, também nunca imaginei que o astro do hóquei Garrett Graham fosse seu tipo, e olha só para os dois agora. Almas gêmeas.

“Não foi por desespero”, reclama Dean.

“Aham. Continue pensando assim.”

Ele olha para a televisão. A personagem principal está fazendo comida de novo. Agora é o jantar, e a câmera faz muitos closes desnecessários nas batatas sendo descascadas. Ela come muito nesse filme.

“Alguém me mata, por favor.” Ele se recosta no sofá e passa ambas as mãos pela cabeça até estar todo descabelado. “Não vou aguentar mais nem um segundo disso.”

Nem eu, mas amarrei meu burro nesse poste e não posso abandoná-lo.

“Quer saber?”, anuncia ele. “Que maconha, o quê! Só tem uma coisa capaz de tornar essa porcaria tolerável.”

“E o que é?”

Em vez de responder, ele pula do sofá e desaparece na cozinha. Temerosa, escuto armários se abrindo e se fechando e copos tilintando. Logo em seguida ele está de volta, segurando uma garrafa numa das mãos e dois copinhos de shot na outra.

Dean abre um sorriso e anuncia: “Tequila”.