O Jogo
Capítulo 21
DEAN
O pai de Allie me odeia à primeira vista.
Tenho certeza que se falasse isso para Allie, ela dispensaria minhas preocupações e diria coisas como “ele é só rabugento” ou “ah, ele é assim com todo mundo”. Mas ela estaria errada.
Joe Hayes me odeia desde o instante em que abriu a porta e me viu de pé na entrada de sua casa. E, caramba, poucas vezes minha roupa pareceu tão inadequada para a situação. Allie me disse para vir “arrumadinho”, então escolhi uma camisa branca de botão da Tom Ford e calças cinza Armani. Sem paletó, mas o casaco preto da Ralph Lauren recebe uma olhadela de desdém do pai de Allie, que está de calça de moletom e camisa de flanela.
“Você é o amigo da faculdade da A.J.?”, ruge.
Franzo a testa. “A.J.?”
“Minha filha. Allison Jane?” O sr. Hayes parece irritado de ter que explicar.
“Ah, sim, senhor. Mas a conheço como Allie.”
“E não sabia o apelido dela?” Ele faz um som de escárnio. “Grande amigo, hein?” Então murmura um “Entra” e se vira, com rigidez. Digo rigidez no sentido literal, porque anda com visível dificuldade, sustentando-se numa bengala fina.
Allie tinha me avisado que o pai tem esclerose múltipla. Ela também me aconselhou a não tocar no assunto, explicando que ele não gosta de falar disso e provavelmente vai arrancar a minha cabeça se eu disser alguma coisa. Então fico na minha, mas está na cara, mesmo para mim, que não sou médico, que ele está sentindo dor.
Sigo o sr. Hayes pelo surpreendentemente grande piso principal da casa, com um piso de madeira bem cuidado, além de portas e uma decoração toda em madeira que parecem ser originais, da época em que a casa foi construída. Allie e o pai ocupam os dois andares inferiores da casa, que, conforme sou bruscamente informado, contêm quatro quartos e três banheiros. Ou a família comprou o lugar antes de o bairro do Brooklyn Heights se tornar supersofisticado, ou olheiros de hóquei profissional fazem bem mais dinheiro do que eu imaginava.
Ele me leva até uma sala com uma sacada com vista para um pátio e um jardim impecável. “Você gosta de trabalhar no jardim?”, pergunto, educadamente.
O pai de Allie fecha a cara para mim. “A mulher do andar de cima cuida do jardim.”
Certo.
“Dean. Prazer.”
Ah, graças a Deus. Allie aparece na sala, e fico aliviado de ver que está usando um vestido azul na altura do joelho. Nada muito chique, mas arrumado o suficiente para eu não me sentir como se tivesse vindo de smoking para um churrasco.
“Quer beber alguma coisa?”, pergunta ela, depois de me cumprimentar com um abraço.
Olho para o sofá de couro marrom em que o sr. Hayes está se sentando lentamente. Ele apoia a bengala na beirada do sofá e pega uma cerveja da mesinha de centro. Sua mão treme freneticamente ao levar a garrafa aos lábios. Quando me pega olhando, franze a testa de novo.
“Hmm…” Engulo em seco. “Uma cerveja seria bom.”
“Coors ou Bud?”
“Bud.”
Ela assente. “É pra já.”
Mais uma vez, sou deixado às garras do sr. Hayes, cujos olhos azuis agora estão colados no jogo do Lions na televisão. Devo ser uns treze centímetros mais alto e pesar quase quinze quilos mais que ele, mas o homem me aterroriza mesmo assim. Imagino que fosse violento no rinque. Tem o peito imenso e encorpado. E modos rabugentos.
“Tá esperando o quê, playboy? Senta de uma vez.”
Playboy?
Droga. Por que fui aparecer de Ford e Armani? O pai de Allie no mínimo deu uma olhada na minha roupa cara e decidiu que eu era um riquinho idiota.
Bem relutante, sento na outra ponta do sofá em L.
Hayes me olha de lado, brevemente. “A.J. disse que você joga hóquei.”
“Sim, senhor.”
“Atacante?”
“Defesa.”
“Quais as suas estatísticas até agora, nessa temporada?”
Faço uma pausa, incerto. Espera, ele quer mesmo que eu recite todos os meus números? Quantos gols, passes e minutos de penalidade? Acho que seria capaz, mas desfiar assim minhas próprias estatísticas parece arrogante.
“São decentes”, digo, vagamente. “O time teve um começo difícil. Mas ganhamos o Frozen Four na temporada passada.”
Ele assente. “Ganhei no terceiro ano de faculdade. Boston College.”
“Legal. Hmm. Parabéns.” Seu rosto não transmite a menor expressão, então não sei se isso é algum tipo de competição. Se fosse, eu provavelmente podia dizer que ganhei no ano anterior também. Mas fico de boca fechada. Felizmente, Allie volta com minha cerveja, e eu a seguro como se fosse um salva-vidas. “Obrigado, gata.”
No instante em que a palavra salta de minha boca, nós dois congelamos. Merda. Espero que o sr. Hayes não tenha ouvido isso.
Ele está sentado bem aqui. É claro que ouviu.
Abro a chapinha da garrafa e tomo um gole muito necessário de álcool.
“Então, o que eu perdi?”, pergunta Allie, a voz excessivamente alegre.
Seu pai zomba. “O playboy aqui estava me contando que ganhou o Frozen Four.”
Puta merda.
Vai ser uma longa noite de Ação de Graças.
O jantar é horrível. Bem, não a comida — para alguém que diz ser péssima na cozinha, Allie fez um bom trabalho com a refeição. É o ato de ingerir tal comida que acho insuportável. A conversa é esmagadora. Hayes parece fazer o possível para me contrariar. Sua frase preferida esta noite tem sido “Aham, claro”. Só que proferida num tom seco e condescendente que me faz desejar estar sozinho na casa de Hasting neste momento.
Quando Allie comenta que vou para a faculdade de direito no próximo outono, ele diz: “Aham, claro”.
Quando diz que minha família tem um apartamento em Manhattan, ele diz: “Aham, claro”.
Quando agradeço pelo jantar, ele diz: “Aham, claro”.
Simplesmente. Esmagador.
Não me levem a mal, estou fazendo um esforço genuíno para ser educado. Pergunto como era a vida de olheiro profissional, mas sua resposta é um murmúrio de uma frase. Elogio o apartamento, e ele resmunga um “Obrigado”.
Por fim, acabo desistindo, mas Allie não se importa em preencher o silêncio constrangedor. O sr. Hayes só parece voltar à vida quando ela conta ao pai sobre a peça em que está atuando, as aulas, os próximos processos de seleção e tudo mais que tem feito. É evidente que ele adora a filha — o sr. Hayes acompanha todas as palavras que ela diz como se contivessem os segredos para a vida eterna. Mas ele fecha a cara para ela em um determinado momento, depois que pergunta se Allie ainda mantém o contato com Sean, e ela admite que eles saíram para tomar um café.
“Nunca gostei do menino”, murmura Hayes. Pela primeira vez, ele e eu concordamos em alguma coisa.
Allie mastiga a última garfada de purê de batata com molho antes de protestar. “Ah, isso não é verdade. Vocês sempre se davam bem quando a gente vinha visitar.”
Seu pai ri. Olha, vejam só, ele tem senso de humor. Jamais teria imaginado.
“O garoto era seu namorado — eu não tinha outra escolha a não ser me dar bem com ele. Agora não é, então não tenho mais que fingir que gosto dele.”
Encubro uma risada com o guardanapo.
“Sujeito carente”, continua o sr. Hayes. “Não gostava da maneira como olhava para você.”
“Como é que ele olhava para mim?”, pergunta Allie, cautelosa.
“Como se você fosse o mundo inteiro.”
Ela franze a testa. “E isso é uma coisa ruim?”
“Péssima. Ninguém deveria ser o mundo inteiro de ninguém. Isso não é saudável, A.J. Se a sua vida inteira for centrada numa coisa — numa pessoa —, o que vai acontecer quando essa pessoa for embora? Absolutamente nada.” E reitera, bruscamente: “Não é saudável”.
Joe Hayes tem um jeito muito prático de pensar. Estou estranhamente impressionado.
“Bem, agora você tá só me fazendo sentir mal por Sean. Vamos mudar de assunto. Dean, conta para o meu pai do seu último jogo.”
Suspiro, pesaroso. “Sério? O que fui expulso?”
O pai dela grunhe: “Aham, claro”.
A conversa fica tensa novamente. Quando enfim chega a hora de limpar a mesa, fico aliviado e levanto, ansioso para ajudar Allie a recolher os pratos. Ainda tem metade de um peru numa travessa, que Hayes pega, cambaleando em suas pernas.
“Não, pai”, ordena Allie, com firmeza. “Vá ver o resto do jogo. Dean e eu damos conta aqui.”
“Não sou um inválido, A.J.”, resmunga ele. “Sou perfeitamente capaz de levar um prato para a cozinha.”
Tão logo as palavras saem de sua boca, a travessa balança na sua mão. Ou melhor, sua mão treme, e a travessa acompanha o movimento, escorregando de repente e se espatifando no piso de madeira.
O prato de louça se espatifa em pedaços, e o peru escorregadio desliza pelo chão. Baixo o meu prato na mesma hora e corro em volta da mesa. Allie faz o mesmo, e nossas cabeças se chocam, quando ambos tentam pegar o mesmo caco.
“Droga”, exclama o sr. Hayes. “Deixa que eu limpo.”
“Não.” O tom de Allie deixou de ser rigoroso — é uma ordem clara. Ela toma o caco de cerâmica da minha mão e diz: “Dean, você pode levar o meu pai para a sala e mantê-lo lá?”.
Seu pai me lança um olhar mortal capaz de fazer minhas bolas murcharem, mas de jeito nenhum vou enfrentar a ira de Allie agora. Abafando um suspiro, seguro-o de leve pelo braço e o conduzo para fora da pequena sala de jantar.
A carranca permanece fixa em seu rosto, mesmo depois que ele se acomoda no sofá. “Eu podia ter limpado sozinho”, me informa.
“Eu sei.” Dou de ombros. “Mas acho que acertamos ao sair de lá. Pra alguém tão pequena, sua filha sabe meter medo quando quer uma coisa.”
Seus lábios se curvam de leve. Puta merda, quase consegui fazê-lo sorrir?
Mas, seja qual for a graça do meu comentário, ela desaparece num piscar de olhos. O sr. Hayes baixa a voz para um tom mortal e pergunta: “O que você quer com A.J.?”.
Eu me ajeito no sofá, confuso. “Não entendi a pergunta.”
“Também vejo o jeito como você olha para ela.” Sua mandíbula começa a se contorcer, mas não sei se é de raiva ou por causa da doença. “Você gosta dela.”
“Claro que gosto”, respondo, sem jeito. “Somos amigos.”
“Não me venha com esse papo. Estou vivo há muito mais tempo que você, playboy. Acha que não sei quando um homem deseja outra pessoa?”
E eu tinha achado a conversa do jantar desconfortável.
“Eu sei do que estou falando. A.J. é um ótimo partido. É inteligente, bonita como a mãe. Dedicada — dedicada demais, às vezes”, admite ele. “Se te ama, vai sempre colocar suas necessidades à frente das dela.” E sei que agora ele está falando da sua própria relação com a filha. É evidente que, por causa da esclerose, Allie coloca as necessidades do pai em primeiro lugar, além de mimá-lo mais do que ele gostaria. “Ela precisa de um homem que cuide dela.” Sua voz se suaviza por um momento, mas logo depois volta a ficar gélida. “Você não é esse homem, garoto. Você é incapaz disso.”
O insulto faz meu pelo eriçar. Quem é ele para fazer esse tipo de julgamento?
O sr. Hayes percebe minha cara feia e dá uma risada. “Fui olheiro de hóquei por mais de vinte anos — você acha que é o primeiro filho da mãe metido que conheci na vida? Mais metido que a média, aliás, porque veio de uma família rica. Já tem aquele ar de importante que só vem depois que um jogador assina o primeiro contrato de sete dígitos.”
Faço força para evitar que minhas mãos se fechem em punhos. “Só porque minha família tem dinheiro não significa que sou uma pessoa ruim, senhor.”
“Não estou dizendo isso.” Ele dá de ombros. “Mas caras como você… você não sabe nada dos problemas do mundo real. Se a merda estoura, você joga um pouco de dinheiro no problema e puf — tudo resolvido.” Os olhos azuis, um tom mais escuros do que os de Allie, me esquadrinham da cabeça aos pés. “Você não é o que ela precisa, Dean. Na hora do vamos ver, você não daria conta do recado.” Uma pausa. “Não confio em você para cuidar da minha filha.”
Com essa observação final, ele se volta para o jogo de futebol americano.