O Jogo

Elle Kennedy · Capítulo 7 de 39

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O Jogo

Capítulo 6

 

DEAN

 

A primeira coisa que faço assim que saio da arena é ligar para o meu irmão mais velho. É domingo, então tento o celular dele primeiro, embora haja uma boa chance de Nick estar no escritório. Ele trabalha muito, inclusive na maioria dos fins de semana. Acho que está tentando impressionar nosso pai com sua dedicação ao direito, e, cá entre nós, acho que tem dado certo.

No entanto, a voz animada que ouço do outro lado da linha não pertence a Nick.

“Dicky! Eba! Faz anos que não falo com você!”

Quando a gente era criança, o apelido não me incomodava, mas agora que viramos adultos é mortificante. Por mim, desde que a minha irmãzinha aprendeu a pronunciar Dean, nossos pais deveriam tê-la feito parar de me chamar de Dicky. Mas, verdade seja dita, dar uma ordem a Summer é o mesmo que garantir que ela faça exatamente o oposto. Minha irmã é uma teimosa mimada.

“Por que você tá atendendo o celular do Nick?”, pergunto, desconfiado.

“Porque vi seu nome e queria falar com você primeiro. Você não me liga mais.”

Posso até ver seu beicinho, o que me traz um sorriso aos lábios. “Você também não me liga mais”, argumento.

Summer fica em silêncio por um segundo. Então solta um suspiro colossal. “Tem razão. Não tenho ligado. Sou uma irmã terrível.”

“Relaxa, você provavelmente só tá tão ocupada quanto eu.” Sigo pelo caminho de paralelepípedos em direção ao estacionamento.

“É, tenho andado ocupada”, concorda ela.

Ouço uma gargalhada alta do outro lado. “O que foi isso?”, pergunto.

“Nada. Só o Nicky sendo um idiota. Passou o fim de semana todo me enlouquecendo. Ele sempre foi assim tão careta ou só depois que virou advogado?”

Ela fala “advogado” como se fosse um palavrão. E, para Summer, provavelmente é. Desde os doze anos que minha irmã declarou que direito é “um porre” e, oito anos depois, sua opinião continua a mesma. Ela só concordou em entrar para uma universidade da Ivy League para acalmar nossos pais, mas, na última vez que nos falamos, disse que cursaria design de interiores depois da formatura.

“Comparado a você, todo mundo é careta”, digo para minha irmã. “O que não quer dizer que aprovo todas as loucuras que você faz.” Summer é dois anos mais nova que eu, mas me deixa no chinelo quando se trata de curtir a vida, aproveitar o dia e por aí vai. Estou surpreso que nossos pais não a tenham deserdado ainda. E então algo me vem à cabeça. “O que você tá fazendo em Manhattan? Não deveria estar na faculdade?”

“Fiquei com saudade do meu irmão mais velho.”

Seu tom é inocente demais para o meu gosto. “Mentira.”

“Verdade”, protesta Summer. “Queria ver Nicky. E quero ver você também, então não se surpreenda se eu aparecer na sua porta em breve.” Ela faz uma pausa. “Na verdade, estou pensando em pedir transferência para a Briar.”

Um alarme dispara dentro de mim. “Por quê? Pensei que você estivesse satisfeita na Brown.”

“Eu tô. Mas… é… bem.” Summer suspira de novo. “Estou de sobreaviso.”

Paro no meio da passada. “O que você fez?”, exijo saber.

“Por que você acha que fiz alguma coisa?” Ela funga do outro lado da linha.

“Guarda essa ceninha de inocente para os nossos pais.” Deixo escapar um riso de escárnio. “Não que ainda funcione. Agora conta o que aconteceu.”

“Vamos dizer apenas que houve um incidente na casa da irmandade. Envolvendo togas.”

Engulo uma risada. “Você pode ser mais específica?”

“Não.”

Solto um gemido, exasperado. “Summer…”

“Quando a gente se encontrar eu conto”, cantarola ela. “Nicky quer falar com você agora.”

“Summer…”

Mas ela já foi. Um segundo depois, ouço a voz grave do meu irmão. “Alô”, diz ele.

“O que ela fez?”, pergunto.

Nick dá uma gargalhada. “Não vou estragar a surpresa. Só o que posso dizer é que foi a cara da Summer, sem tirar nem pôr.”

Merda. Nem sei mais se ainda quero saber. “Nossos pais sabem?”

“Sabem. Não estão muito felizes, mas ela não foi expulsa nem nada disso. São só dois meses de sobreaviso e vinte horas de serviço comunitário.”

A última parte me distrai dos problemas de Summer. “Falando em serviço comunitário…” E explico depressa a posição nova de O’Shea na Briar.

“Que droga”, diz Nick assim que termino. “Ele falou da Miranda?”

“Não, mas é óbvio que ainda me culpa pelo que aconteceu.” Uma amargura fecha minha garganta. “Parte de mim tá tentada a descobrir por onde ela anda. Aí tento ver se ela abre a cabeça e resolve conversar com o pai.”

“Ela não deu a mínima para isso na época”, observa Nick. “Por que faria isso agora?”

Bom ponto. “Eu sei, mas…” Chego ao meu carro e aperto com força o botão na chave para destravar a porta. Ainda estou irritado com a reaparição inesperada de O’Shea na minha vida e só quero sumir da arena. “De qualquer forma”, digo, sombrio, “acho que tô delirando de imaginar que Miranda me ajudaria em qualquer coisa. Sou o monstro que partiu o coração dela, né?”

“Quer um conselho? Mantenha a cabeça baixa. Vá aos treinos, faça o que O’Shea mandar e não se envolva em problemas. Logo a primavera tá aí, você vai se formar e nunca mais vai ter que ver aquele filho da mãe de novo.”

“Tem razão”, admito. “Não vale a pena se estressar com isso. Já estou quase saindo daqui, né?”

“É. Mas, se ele te criar mais algum problema, me avise, hein? Vou dar um jeito de colocar um processo judicial nas costas dele.”

Rio. “Você não é da área cível.”

“Por você, irmãozinho, abro uma exceção.”

Estou me sentindo muito melhor depois que desligamos. Meus amigos gostam de zombar de mim por ser o garoto rico de Connecticut. Tenho certeza que acham que meus pais são esnobes e que meus irmãos são mimados, mas, verdade seja dita, minha família é o máximo.

Tanto meu pai como minha mãe são advogados importantes, mas são as pessoas mais pé no chão que já conheci. Não me levem a mal, meus irmãos e eu definitivamente tivemos uma infância lotada de vantagens. Tínhamos babá e governanta. Estudamos em escolas particulares e ganhávamos uma mesada generosa. Mas também ajudávamos nas tarefas domésticas e tínhamos que fazer o dever de casa todo para ver um centavo que fosse dessa mesada. Se nossas notas caíssem, ficávamos de castigo na mesma hora. E se fizéssemos um showzinho do tipo “Me dá o que eu tô pedindo porque a gente tá nadando em dinheiro”, éramos devidamente punidos. Na única vez que exigi dinheiro do meu pai, ele doou toda a minha poupança de faculdade para uma instituição de caridade. E depois me colocou para trabalhar na recepção da empresa dele o verão inteiro para ganhar o dinheiro de volta.

“O que o treinador queria?”, pergunta Garrett quando apareço na sala de casa, quinze minutos depois.

“Me apresentar ao novo coordenador defensivo.” Eu me deixo cair na poltrona e olho para a televisão. G. e Logan estão disputando uma partida de Ice Pro, e, pelo placar na tela, Logan está levando uma surra.

“A gente tem um novo coordenador defensivo?” Na mesma hora Logan pausa o jogo. “E por que você precisa de uma apresentação particular?”

Escolho minhas palavras com cuidado. “O nome dele é Frank O’Shea. E foi meu treinador no ensino médio, então Jensen achou que talvez a gente quisesse botar o papo em dia, antes de O’Shea ser apresentado oficialmente pro time.”

Logan franze a testa. “Certo. Mas por que ele só chegou agora? A temporada já começou. Parece estranho trazer um coordenador depois que já jogamos a primeira partida.”

“E que já perdemos a primeira partida”, murmura Garrett.

“Foi só o primeiro jogo”, insiste Logan. “A gente não tá tão mal a ponto de precisar de um treinador novo para resolver as coisas. Parece desespero.” Franzindo a testa, ele se volta para mim de novo. “Como ele é? Gente fina?”

O próprio diabo. “É decente”, minto. Em seguida, mudo de assunto: “Cadê o Tuck?”.

“Não sei. Acho que não voltou pra casa ontem.” Logan continua o jogo e volta sua atenção para a tela.

Franzo a testa. Tucker também não passou a noite de sexta em casa. Será que está saindo com alguém novo? Porque em geral ele não dorme fora duas noites seguidas.

Como meus colegas de república estão distraídos com o video game, subo até meu quarto e me forço a retomar as leituras do curso que andam atrasadas. Passo o restante do dia me alternando entre ler e cochilar, só desço para roubar algumas fatias da pizza que Garrett e Logan pedem à noite. Não sei por que estou me sentindo tão antissocial. Talvez ainda esteja irritado com a aparição de O’Shea na Briar. Ou talvez seja porque todas as vezes que fechei os olhos hoje, imaginei a boca sexy de Allie envolvendo meu pau. As curvas macias e bronzeadas me apertando. Os seios enchendo minhas mãos.

Por que não consigo tirar essa menina da cabeça? Tá, o sexo foi fenomenal. Tá, ela é atraente. Mas sexo fenomenal e garotas atraentes não são exatamente uma raridade na minha vida.

Esquece isso, ordeno a meu pau, quando mais uma vez ele endurece só de pensar em Allie.

Ele se contrai em resposta. Está me provocando.

“Droga”, rosno. Pego meu celular na cama e busco o último registro de chamada de ontem à noite.

Allie atende depois do quarto toque, a voz cheia de suspeita soando em meu ouvido. “Oi. Tudo bem?”

Deixo escapar uma respiração irregular. “Quero transar com você de novo.”

“Isso vai virar rotina agora? Você vai me ligar todas as noites pra dizer isso?”

“Talvez.” Merda. Estou irritado, com tesão e tão confuso quanto ela. “Diz que sim, gata. Só diz que sim para acabar com o meu sofrimento.”

“Já falei, foi uma coisa de uma noite só. Não sou de fazer sexo casual. Foi divertido, claro, mas… Merda, tenho que ir. Liga pra uma das suas marias-patins, tenho certeza que elas vão cuidar de você, tá legal?”

Pela segunda vez em dois dias, Allie desliga na minha cara.

 

ALLIE

 

“Quem era?”

Pulo quase meio metro ao som da voz de Hannah. Desliguei a chamada assim que ouvi os passos dela no corredor, mas não achei que minha amiga fosse aparecer na porta do meu quarto tão depressa.

“Hmm, ninguém.” Brilhante resposta.

Ela arqueia uma das sobrancelhas escuras. “Ninguém?”

“Telemarketing”, corrijo. “Que é o mesmo que ninguém.”

Ela resmunga de irritação ao se aproximar da minha cama. “Como é que eles arrumam o número dos nossos celulares? Quando assinei o contrato com a minha operadora, o documento tinha uma seção inteira sobre como eles nunca, jamais repassam o seu telefone para outras empresas. Bem, para mim isso é balela, porque na real todo dia recebo ligação de companhias aéreas, lojas de roupa e um monte de empresas me contando das vendas impressionantes deles e dizendo que ganhei algum prêmio falso. Ai, meu Deus, e sabe qual foi a pior? Uma promoção idiota de um cruzeiro que começava com um apito ensurdecedor de navio! Horrível.”

Hannah reclama por vários minutos, e fico grata por isso, porque significa que está irritada demais para perceber que acabei de mentir. E está tão envolvida em sua ladainha que nem percebe quando verifico discretamente a mensagem de texto que aparece no meu celular.

Dean: Vc precisa parar d desligar na minha cara.

Eu: Vc precisa parar c/ essas propostas indecentes. Sei q sou boa d cama, mas tá na hr d partir pra outra.

Ele: Não consigo. Vai por mim, já tentei.

Eu: Tenta d novo.

Ele: Qual é, gata. Só mais 1 vez. Pensa em como vai ser bom…

Claro que vai ser bom. Ele é um deus do sexo. Mas isso não muda o fato de que não me sinto à vontade com sexo casual.

Eu: Me esquece. Tô botando o papo em dia c/ Hannah.

Ele: Me escreve qd terminarem e eu passo no seu alojamento. Wellsy nem vai saber q tô aí.

Fico surpresa ao sentir uma pontada entre as pernas. A ideia de Dean vindo aqui para transar enquanto Hannah dorme no quarto ao lado sem saber de nada me provoca um tesão inesperado.

Ignoro a reação não desejada e digito: Boa noite, Dean.

Então ergo o olhar para Hannah e pergunto: “Já terminamos de falar mal dos operadores de telemarketing? Porque este roteiro não vai se ler sozinho, amiga”.

“Desculpa. É mais forte que eu — ouço a palavra ‘telemarketing’ e viro bicho.” Ela senta de pernas cruzadas no meio da minha cama e pega o roteiro que lanço em sua direção.

Continuo de pé. A cena de abertura requer que minha personagem caminhe, e quero sentir como falar e andar de um lado para o outro vai afetar minha respiração.

Hannah folheia as páginas de abertura. “Certo. Quem sou eu? Jeannette ou Caroline?”

“Caroline. Suas características principais são egoísmo e insensibilidade.”

Minha melhor amiga abre um sorriso imenso. “Então sou a megera? Legal.”

Para ser sincera, eu queria ser a megera. Minha personagem é uma jovem viúva que perdeu o marido no Afeganistão, ou seja, o papel mais desgastante emocionalmente. E, depois do término com Sean, meu reservatório emocional está muito perto do fim, então tenho medo de não ser capaz de dar conta e fazer justiça ao roteiro.

Meu medo não é infundado. Cinco páginas depois, já estou exausta e peço uma pausa rápida.

“Uau”, exclama Hannah, folheando as cenas seguintes. “Que peça intensa. A plateia vai desidratar de tanto chorar.”

Desmorono ao seu lado e deito de costas. “Eu vou desidratar de tanto chorar.” Literalmente, porque minha personagem chora cena sim, cena não.

Hannah se recosta nos cotovelos, e um silêncio confortável cai sobre nós. Gosto disso, porque não é uma coisa que tenho com muitas pessoas. Mesmo com Megan e Stella, que considero amigas próximas, uma de nós está sempre tentando preencher o silêncio. Acho que é preciso um certo nível de confiança para ficar junto de alguém e não sentir o desejo premente de tagarelar.

Meu pai me disse uma vez que a forma como uma pessoa responde ao silêncio revela muito sobre ela. Sempre achei que ele estivesse viajando, porque meu pai tem o hábito de inventar frases bonitas e insistir que elas carregam muita sabedoria, quando metade do tempo sei que está só de palhaçada.

Mas, agora, acho que consigo ver a verdade das suas palavras. Quando penso nos silêncios que compartilhei com meus outros amigos, percebo que são mesmo incrivelmente reveladores.

Meg quebra o silêncio com piadas, fazendo o possível para preenchê-lo com risos. Desde que a conheço, sempre recorreu ao humor quando o assunto ficava sério demais para ela.

Stella enche você de perguntas sobre a sua vida. Desde que a conheço, ela foge de falar da própria vida sempre que pode evitar. Acho que foi por isso que fiquei surpresa quando ela começou a namorar Justin Kohl, o jogador de futebol por quem Hannah tinha uma queda antes de se apaixonar por Garrett. Stella já admitiu abertamente, mais de uma vez, que tem medo de intimidade.

A lembrança de Justin me leva de volta a Hannah. “Ei, Garrett já se desculpou com você por ter se enganado a respeito de Justin?”

Ela franze a testa. “De onde veio isso?”

Sorrio. “Desculpa. Pensei em Stella, aí lembrei de como Garrett estava convencido de que Justin tinha segundas intenções. Ele não insistiu que Justin era meio falso?”

“Pois é.” Ela senta na cama, rindo. “A gente conversou sobre isso um tempo atrás. Eu falei que era ciúme inconsciente.”

“Rá. Aposto que ele adorou isso.”

“Mas é a única coisa que explica. Justin é um dos caras mais legais que já conheci. Mas Garrett insiste que só interpretou o cara mal.”

“Bem, de qualquer forma, fico feliz que Justin tenha se revelado um cara gente boa. Stella merece ser feliz.” Ouço o tom de melancolia na minha voz e torço para que Hannah não tenha notado.

Ela notou. “Você também merece ser feliz. Sabe disso, né?”

“Sei.” Engulo o nó que surge em minha garganta.

Seus olhos verdes assumem um brilho hesitante. “Allie… Você se arrepende de ter terminado com Sean?”

O caroço aumenta, dificultando a respiração, principalmente quando me lembro da agonia na voz de Sean quando me perguntou com quem dormi.

“Não”, digo, por fim. “Sei que foi a decisão certa. Queríamos coisas completamente diferentes pro nosso futuro e ninguém se dispôs a ceder, não sem um ficar ressentido com o outro.”

Hannah parece pensativa. “Você acha que tá pronta pra começar a namorar de novo?”

Estremeço com um suspiro. “Não, nem perto.” Mas na verdade eu adoraria uma distração. Estou cansada de ficar triste. Cansada de me perguntar como Sean está e lutando contra a vontade de ligar pra ele. Posso não querer voltar para ele, mas odeio saber que machuquei alguém de quem gosto. Tenho esse hábito terrível de querer deixar todo mundo feliz, mesmo que isso signifique sacrificar minha própria felicidade. Meu pai insiste que é uma qualidade admirável, mas às vezes queria ser mais egoísta.

E acho que fui egoísta na noite de sexta. Meu sexo casual com Dean foi puramente uma questão de satisfazer meus próprios impulsos básicos, e, por mais culpada e envergonhada que tenha me sentido depois, não posso negar que foi mais que satisfatório.

Merda. Talvez Dean tenha razão. Talvez a gente devesse ficar de novo.

“Talvez eu esteja precisando de um casinho”, digo em voz alta, só para testar a ideia.

A resposta de Hannah é rápida e direta. “Você já tentou isso, lembra? Depois das primeiras vezes que terminou com Sean. Você odiou.”

É verdade. Odiei. “Mas não cheguei nem a dormir com ninguém”, pondero. “Tudo o que fiz foi ir a uns encontros medíocres e ficar com uns babacas. Talvez esse tenha sido o meu erro… marcar encontros. Quem sabe desta vez eu não deva pegar um cara bem gostoso e transar com ele por umas semanas até não aguentar mais. Só sexo, sem expectativas.”

Ela solta um riso irônico. “Boa sorte com isso. Nós duas sabemos que você é incapaz de beijar alguém sem pensar em namoro.”

Totalmente verdade.

E por que continuo a alimentar a ideia? Se é assim que Hannah reage à perspectiva de eu ter um casinho, não consigo nem imaginar o que diria se eu admitisse que esse cara pode ser Dean. Ele é um jogador típico. Além de não fazer o tipo namorado, duvido que se comprometeria com alguma coisa, mesmo que fosse casual. Não consigo imaginá-lo sendo fiel a mim, o que é absolutamente inegociável, porque de jeito nenhum dormiria com alguém que também estivesse dormindo com outras.

Pois é… Preciso cortar essa ideia de Dean pela raiz. Não sei por que ele está tão ansioso para ir para a cama comigo de novo, mas estou confiante de que vai acabar superando isso. Ele tem o poder de concentração de uma ameba e a efusividade de um filhotinho, e dedica sua devoção sexual a qualquer uma que estiver com ele no momento. E “uma”, na verdade, quer dizer “vagina”.

Recobro os sentidos e mudo de assunto. “Ei, o que você vai fazer no feriado de Ação de Graças?”

“Garrett e eu vamos para a casa dos meus tios, na Filadélfia. Meus pais vão nos encontrar lá.”

“Legal. Parece divertido.”

“Você vai para o Brooklyn, né?”

Faço que sim com a cabeça. Passo todos os feriados no Brooklyn, com meu pai. Sempre fico ansiosa para encontrá-lo, mas este ano estou um pouco preocupada, porque na última vez que nos falamos ele insistiu que queria fazer o jantar de Ação de Graças.

Em geral, eu ficaria exultante com o anúncio, porque meu pai é o melhor cozinheiro do planeta. Mas, desde que ele foi diagnosticado com esclerose múltipla, há cinco anos, tenho feito o possível para me certificar de que ele não está se esforçando demais. O único motivo que me fez recusar uma bolsa integral no programa de teatro da UCLA foi porque ficaria longe demais dele. Ele é um homem teimoso e insiste que não precisa de ajuda, que pode se virar sozinho, mas não me senti bem com a ideia de me mudar para a outra ponta do país logo quando seus intervalos de remissão se tornaram mais raros e distantes entre si.

Agora estou ainda mais aliviada de ter ficado na Costa Leste, porque a condição do meu pai piorou progressivamente no ano passado.

Como a maioria das pessoas que sofrem da doença, primeiro ele foi diagnosticado com esclerose múltipla recidivante remitente, mas agora passou para o tipo secundário-progressivo, o que significa que as recidivas são mais frequentes e mais graves do que costumavam ser. Quando o visitei no verão, fiquei chocada com a mudança. Do nada, estava com dificuldade para caminhar, e antes tinha só uma perda ocasional de equilíbrio e uma dormência leve nos membros. Teve dois ataques de vertigem enquanto eu estava lá e, quando o pressionei, admitiu que a dor estava piorando e que às vezes tinha problema de visão.

Como me sinto diante de tudo isso? Apavorada. Já perdi minha mãe para o câncer quando tinha treze anos. Meu pai é tudo o que me resta. Me recuso a perdê-lo também, mesmo que isso signifique amarrá-lo à cadeira do apartamento no Brooklyn e forçá-lo a ver futebol enquanto preparo o jantar.

“Certo, chega de descanso.” Mais uma vez, preciso de algo que me distraia dos meus pensamentos sombrios. Gemendo, sento e abro o roteiro na parte em que paramos. “Caroline está prestes a gritar com Jeannette mais uma vez.”

Hannah passa uma mecha do cabelo escuro por trás da orelha. “Que fique bem claro: se algum dia você perder o marido, nunca a chamaria de bebê chorona e falaria para ‘virar a página’.” Sua expressão se torna mais grave. “Em outras palavras, pode ficar borocoxô por causa do Sean o tempo que precisar. Prometo que não vou julgar você por isso.”

A emoção empoça em minha garganta, mas consigo espremer uma palavrinha para fora dela. “Obrigada.”