O Jogo

Elle Kennedy · Capítulo 27 de 39

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O Jogo

Capítulo 26

 

ALLIE

 

Na semana seguinte, sigo o conselho de Hannah e tento desligar o cérebro. Dean e eu começamos a sair como um casal. Não dizemos nada explicitamente. Não tatuamos na testa, mas nossa interação torna tudo muito claro.

Quando saímos, ele me toca o tempo todo, mas não de uma forma que me faz achar que está tentando marcar território ou se mostrar. Ele é só muito físico. Se estou perto dele, sua mão está em algum lugar do meu corpo. Em geral, sua palma está colada na base da minha coluna, mas às vezes ele joga meu cabelo para trás e brinca com o dedo no meu ombro. E beija minha têmpora e a bochecha. Nem por um momento me sinto como se ele estivesse me prendendo.

Dos nossos amigos, Garrett é o mais preocupado. Hannah quer que eu seja feliz e, contanto que eu esteja sorrindo, está satisfeita. Garrett, por outro lado, se divide entre a preocupação e a aceitação cautelosa. Está convencido de que Dean vai me magoar, o que vai acabar criando um problema entre a sua namorada e um de seus melhores amigos.

Já tentei tranquilizá-lo de que sou adulta e que posso lidar com uma separação, mas a conversa acaba voltando para Sean, que só quero esquecer. Dean torna isso muito fácil.

Quando não está em aula ou no gelo, está comigo. Às vezes, lê um livro enquanto ensaio minhas falas, às vezes me ajuda, lendo a parte da outra personagem. Sua voz aguda feminina me faz morrer de rir, então geralmente precisamos repetir várias vezes até conseguir terminar uma cena, e, quando conseguimos, ele está com tesão. Por causa do meu riso, diz ele. Embora eu tenha a impressão de que eu poderia fazer qualquer coisa, e Dean estaria pronto para outra.

A coisa mais importante é que estamos felizes — eu, por exemplo, bem mais feliz do que estive em muito tempo. Isso é maravilhoso. Se alguém tivesse me dito há seis semanas que Dean Di Laurentis e eu estaríamos não só namorando, mas felizes, eu teria rido até me estourar.

“O que você vai fazer depois do ensaio hoje?”, pergunta Dean, da cama. Está recostado contra os travesseiros, o cabelo despenteado, parecendo o deus do sexo que é. Afasto a atenção dele, tentando me concentrar no espelho e em não me machucar com a haste do rímel.

“Nada. Talvez jantar num dos refeitórios. Por quê? O que você vai fazer?”

“Tenho que resolver uma coisa e, depois, marquei um tempo de gelo com o Hurricanes.”

Meu estômago revira de leve. Não vou vê-lo esta noite? Tento não demonstrar a decepção. Só porque estamos juntos não significa que precisamos viver grudados.

“Quer jantar depois?”, acrescenta ele.

Meu coração vibra. “Claro.”

“Legal. Pode me encontrar na arena? Tem um restaurante lá perto que acho que você vai gostar. É italiano, mas tem uma decoração toda de filme antigo.” Sua mão desliza sob os lençóis, que o cobrem até a cintura.

Espeto o olho. “Quer parar de se tocar?” Pouso o rímel na mesa e pego um lenço de papel para limpar a mancha preta que fiz no canto interno da pálpebra, porque não consigo tirar os olhos de Dean.

“Qual o problema, gata? Tá com ciúmes? Estava pensando em como você tá gostosa.” Ele gira de lado. “Toda vez que você passa maquiagem no olho, faz um pequeno círculo com a boca. Tá praticamente implorando pra eu enfiar o pau nela.”

Não, meu relacionamento com esse cara não tem nada de meloso e sentimental. Lanço um olhar incrédulo para ele. “Acabamos de fazer sexo”, eu o lembro. E faço duas linhas rápidas com o rímel, antes que a mão de Dean sob os lençóis possa causar mais danos.

“Isso já tem meia hora. Você já tomou banho, já exibiu esses peitos e essa bunda pelados na minha frente enquanto se vestia e depois ficou fazendo boca de boquete. Então, sim, tô com tesão de novo. Me processe.”

Visto o casaco e me apoio com um dos joelhos na cama para um beijo de despedida. “Você vai ter que bater uma então, porque tenho aula e não quero me atrasar.”

Ele se ergue e beija primeiro o meu pescoço, depois os meus lábios. “Vou dar uma agora para durar mais de noite.”

Droga. Agora eu estou com tesão.

 

Dean está no gelo quando chego à pequena arena da escola de Hastings. Sempre imaginei que os treinadores ficassem na lateral, dando ordens, mas ele está no meio do rinque, a atenção fixa numa figurinha de patins cor-de-rosa. Cor-de-rosa? Achava que o Hurricanes era da liga dos meninos.

“Você tá levantando muito o tronco. Abaixa o corpo para distribuir melhor seu peso.” Ele se agacha até a própria cabeça estar pouco mais alta que a da minijogadora e sua bunda estar roçando o gelo.

Maravilhada, observo-o patinar alguns metros antes de esticar a perna e fazer a volta. Sua leveza no gelo é surpreendente.

“Vamos. Tenta de novo.”

A patinadora se desequilibra para a frente.

“Lembre-se, quando você tá perfeitamente reta, tá, na verdade, de pé na parte de dentro e de fora da lâmina. O meio da lâmina é curvo.” Dean desenha um U de cabeça para baixo com o dedo. “A ideia é usar as extremidades para impedir suas pernas de se abrirem demais. No começo é estranho, mas prometo que você vai pegar o jeito.”

Um pé de patim cor-de-rosa desliza para a frente, incerto, seguido pelo outro, e o movimento todo é repetido até a figura passar por Dean, agachado.

“Tá certo assim?”, pergunta a menina. “Tô fazendo direito?”

“Certíssimo.” Ele observa atentamente a menina deslizar no gelo. “Você tem o dom, Koty.”

“Quem é Koty?”, pergunta ela.

“Você é Koty. Ou, espera, talvez… Dakota-y? Todo mundo precisa de um apelido.”

“Qual é o seu?” Dakota pousa os pequenos punhos nos quadris inexistentes.

“O maioral. Eu sou o maioral.” Ele pisca para ela e então segura suas mãos, e os dois patinam juntos. Ou devo dizer, Dean patina para trás, e Dakota se agarra a ele. Seus olhos estão fixos no rosto dele, dois pontinhos devotos saboreando cada movimento de Dean.

Apesar do ar frio na arena, me sinto completamente aquecida. A paciência de Dean com essa menina está fazendo meus ovários explodirem. É um lado dele que nunca vi antes e com o qual nunca pensei que fosse me preocupar.

A fofura se espalha dentro de mim, preenchendo vazios que eu nem sabia que existiam e me pegando completamente de surpresa.

“Tá apaixonada por ele?”

“Não. Não sinto aquela moleza…”

Penso na minha conversa com Hannah e… merda. O que estou sentindo, então? Por que é que tudo o que ele faz provoca um sorriso bobo em mim? Por que recorri a ele primeiro quando estava desesperadamente triste? Por que…

Um apito estridente interrompe meus pensamentos tolos, e fico grata pela distração. A arena é tomada pelo som do que parece ser uma centena de tacos batendo contra o gelo. Vejo uma linha de jogadores de hóquei em miniatura do outro lado do rinque.

Dean os chama na sua direção, e todos eles disparam, levantando uma parede de gelo raspado ao frearem na linha central.

“Enquanto Dakota pratica sua patinação, quero que vocês se dividam em dois grupos. O primeiro grupo vai levar o disco, seguir até a linha azul e voltar. O segundo grupo fica no meio do gelo. Sem se mexer, marcar ou tentar roubar o disco. É só ficar parado. Quando o primeiro grupo voltar para a linha azul, vocês trocam. A parte mais importante do exercício é manter a cabeça erguida.”

Dean arruma os alunos que vão servir de obstáculo em diferentes pontos ao longo do rinque e então fica no meio da ação, enquanto o time se divide em dois e começa a patinar de um lado para o outro no gelo, desviando cuidadosamente dos colegas.

“Ele tá fazendo um ótimo trabalho com eles”, me diz uma voz masculina grave. Viro-me e vejo um homem mais velho se juntando a mim na arquibancada.

“Dean?”, pergunto. O homem assente com a cabeça. “É, parece que está se divertindo.”

“Está. Sou Doug Ellis.”

Apertamos as mãos. “Allie Hayes. Amiga do Dean. Ele estava se gabando de como o Hurricanes está indo bem este ano. Melhor que o time dele.”

Ellis ri com ironia. “A Briar não vai conseguir chegar à final do Frozen Four este ano, o que é muito ruim. Como o Dean está encarando isso?”

“Tudo bem, acho. Quer ganhar, mas… Não acho que o hóquei seja a sua vida. Ele tá planejando ir pra faculdade de direito no ano que vem.” Dean nunca falou em virar jogador profissional, não do jeito que Garrett faz. Pelo que posso perceber, ama o esporte, mas o hóquei não o define, o que vejo como uma coisa boa. Às vezes, Garrett fica muito cansativo com todo aquele papo de hóquei. Não sei como Hannah aguenta, mas acho que quando se está apaixonada você ignora coisas assim.

Ao meu lado, Ellis suspira. “Um desperdício esse negócio de faculdade de direito. Tá escrito ‘professor’ na testa dele.”

Observamos os jogadores executarem o treino, enquanto Dean conversa com alguns alunos que não são tão rápidos ou leves como os colegas. Ele não levanta a voz, mas as crianças o ouvem com atenção. Ele dá um tapinha na cabeça ou nas costas de cada um deles antes de liberá-los.

“Você é pai de um deles?” Aponto o rinque com a cabeça.

“Não mais. Tenho um filho que jogou no Hurricanes, mas agora está no ensino médio. Um dos outros professores de educação física se ofereceu para assumir minha posição depois que Wyatt passou de ano, mas não abriria mão disso por nada. Crianças dessa idade são especiais. Estão com fome de aprender, ainda acham que a figura de autoridade está lá para ajudar, e não para atrapalhar, e ameaçar funciona tão bem quanto punir.”

“Depois dessa idade, então, é só ladeira abaixo?”

“Você não tem ideia.” Ele balança a cabeça em desolação fingida. “Quanto mais velhos ficam, mais pensam que sabem tudo. Mas o Dean tem um dom. Tem uns alunos mais velhos que ficam no rinque só para ouvi-lo falar com o Hurricanes. E não são só os meninos que são loucos por ele.” Ellis aponta para Dakota. “Aquela garotinha olha para o Dean como se ele tivesse inventado a Lua, e isso foi antes de ele comprar os patins cor-de-rosa. Ele é paciente e fala com as crianças como se elas fossem importantes. Não é todo aluno universitário que é assim. Cara, é difícil encontrar um adulto que seja assim.” Ellis dá de ombros. “Seria ótimo para Dean se ele se interessasse em dar aulas, mas acho que passar os dias com crianças não é um trabalho tão glamoroso quanto ser advogado.”

“Dean não escolheu o direito por causa do glamour”, contraponho, sentindo a necessidade de defendê-lo mais uma vez.

“Então você deveria conversar com ele sobre dar aulas ou virar treinador, qualquer coisa que lhe permitisse trabalhar com crianças. Ele nasceu para isso.” Ellis começa a se levantar, mas eu o interrompo.

“Por que tá me dizendo isso?”

“Porque você também olha para ele como se ele tivesse inventado a Lua. E tenho a sensação de que ele sente o mesmo por você.” Ellis baixa a cabeça num cumprimento e vai embora, patinando na direção de Dean e dos meninos.

 

DEAN

 

“O que você e Doug estavam conversando tão sérios?”, provoco, entrelaçando os dedos nos de Allie, enquanto atravessamos o estacionamento na direção do meu carro. Aperto o botão no chaveiro. “Por favor, não me diga que ele estava dando em cima de você.”

Ela empalidece. “Ai, Deus, não. Na frente das crianças? Seria tão impróprio.”

Não posso deixar de rir. Para alguém tão desavergonhada na cama, sua obsessão com decoro e rótulos é meio ridícula. “Então, o que ele queria?”

Entramos no carro. Allie ainda não respondeu à pergunta, o que me faz franzir os lábios. O.k., agora estou começando a pensar que ela mentiu para mim e que o treinador Ellis deu em cima dela. Mas Allie abre a boca e me assusta, dizendo: “Ele acha que você deveria ser professor”.

Arregalo os olhos. “Ele falou isso?”

Ela confirma com a cabeça. “Professor, treinador ou qualquer trabalho com crianças. Palavras dele. Pessoalmente, acho que você deveria pensar em ser professor de educação física. Aí poderia usar um apito e shorts minúsculos de ginástica. Sua bunda ia ficar linda.” Um leve sorriso curva sua boca. “De qualquer forma, acho que Ellis viu alguma coisa em você.”

“Alguma coisa?”

“Foi o que aconteceu comigo quando eu tinha doze anos”, explica ela. “Participei da minha primeira seleção, e a diretora de elenco disse que viu alguma coisa em mim. Foi o que me convenceu a continuar fazendo testes e tentando virar atriz.”

Dou uma risada. “É, gata, mas, pra começo de conversa, você era talentosa. Eu só dei umas aulas de patinação e passei uns exercícios pros meninos.”

O que foi muito divertido, não posso negar. Mas a ideia de fazer carreira correndo de um lado para o outro num ginásio e apitando para crianças é… uma loucura. Uma loucura, não é?

“Não sei…”, provoca Allie. “Talvez jogar queimada seja o seu destino. Ou virar treinador, pelo menos. Você seria ótimo. Adora trabalhar com esses meninos.”

Verdade. Mas… ai, pelo amor de Deus, por que estamos discutindo isso? Vou para a escola de direito no outono que vem.

Ligo o carro e saio da vaga de ré, mudando de assunto antes que Allie me provoque de novo. “Como foi o ensaio?”

“Até que foi bom. Mallory decorou o último ato, então Steven tá feliz. Mas ainda tô um pouco preocupada.”

“Por quê?”

“Porque vamos ficar três semanas sem ensaiar por causa das festas de fim de ano. E se ela entrar num coma induzido por peru de Natal e esquecer todas as falas?”

Rio. “Vai dar tudo certo. Quando é a estreia?”

“Primeira semana de fevereiro.” Ela faz uma pausa. “Até lá, provavelmente já vou saber também se passei no piloto da Fox.”

Não ouço entusiasmo em sua voz e me viro para ela, franzindo a testa. Allie me contou que tinha mandado um vídeo com um teste para os produtores em Los Angeles, mas não falou nada sobre o papel, e não acho que esteja ligando para o agente para pedir notícias.

Mas ela deve estar doida por notícias, não? Não entendo muito de show business, mas um piloto na Fox parece importante.

“Você quer o papel?”, pergunto, lentamente.

Sua hesitação é mais reveladora do que qualquer coisa que ela poderia ter dito.

Piso no freio ao nos aproximarmos de um sinal vermelho. “Fala comigo, gata. O que tá te incomodando nesse projeto?”

Allie dá de ombros. “Só não caí de amores pelo papel. E… bem, ultimamente tenho pensado que talvez queira me afastar das comédias e pegar papéis mais dramáticos. Ou quem sabe fazer teatro. Talvez em Nova York.”

A confissão me assusta, mas quando penso um pouco percebo de onde veio a ideia. “Você quer ficar perto do seu pai.”

Ela se vira para mim com olhos azuis tristes. “Isso me influencia muito. Ele tá piorando, e viver do outro lado do país não tá me parecendo uma boa ideia. E se acontecer alguma coisa e ele precisar de mim? Vou ter que assinar um contrato — não posso simplesmente chegar para os produtores e dizer, desculpa, tenho que ir a Nova York por algumas semanas. Vai filmando aí sem mim.”

“E contratar uma enfermeira?”, sugiro.

“Nossa, não. Ele jamais toparia. Na verdade, levantei a bola no ano passado. Ele ainda não estava precisando — só estávamos discutindo opções pro futuro —, mas ele ficou louco. Disse que podia cuidar de si mesmo, muito obrigado.”

Luto contra um sorriso, porque quase posso ouvir a voz enfezada de Joe Hayes proferindo as palavras em minha cabeça.

Ela morde o lábio. “É verdade, ele ainda pode cuidar de si mesmo. Mas a dormência nas pernas tá muito pior do que no ano passado. A visão também. Agora ele tá usando a bengala, mas e se acabar precisando de uma cadeira de rodas? E se ele ficar paralítico? Cego? Se isso acontecer, ele vai precisar de alguém. Talvez não vinte e quatro horas por dia, mas não gosto da ideia de deixar ele sozinho no Brooklyn.”

Estico a mão por cima do câmbio e aperto a sua. Está fria. Trêmula. Percebo que Allie está com medo. Medo de perder o pai, como já perdeu a mãe. Não sei o que dizer para fazê-la se sentir melhor, porque a verdade é que ela tem todo o direito de ter medo.

Tanto meu pai como minha mãe são saudáveis e ativos, então não passo muito tempo me preocupando com a morte deles. Quando estou com os dois, não vejo uma nuvem de desgraça pairando sobre suas cabeças.

Mas o sr. Hayes está sofrendo de uma doença que consome o seu sistema nervoso lentamente. Há anos que lida com ela, enquanto a filha, impotente, a vê avançar.

Nossa. De repente, fico chocado com a força dela. Não tinha entendido, não até este momento, como deve ser difícil para Allie.

“Vamos mudar de assunto. Isso tá me deixando deprimida.” Sua voz fraqueja, mas em seguida volta a se firmar. “Me conta mais desse restaurante a que você tá me levando.”

 

Depois do jantar, dirigimos até a minha casa. Ontem, dormi com Allie no alojamento, então hoje é a vez de ela vir para cá. Temos um combinado bom e justo, exceto quando Allie dá a cartada da vagina, e aí o combinado vira faça o que a sua namorada quer.

Minha namorada. Quem diria. Ainda me espanto. Mas não estou reclamando. Allie e eu nos divertimos muito. Também fazemos sexo selvagem e suado regularmente. Então tento me concentrar nisso e não pensar muito no resto.

Pena que meus amigos não podem fazer o mesmo. Garrett está convencido de que vou fazer alguma besteira e estragar a relação, e que ela vai acabar numa enorme bola de fogo explodindo bem nas nossas caras. Às vezes, queria que ele me desse mais crédito.

Diz o homem que quase levou alguém ao suicídio.

A memória dolorosa aperta meu coração, evocando a imagem de Miranda e suas lágrimas, e o angustiante telefonema tarde da noite em que ela ameaçou se matar e me acusou de arruinar sua vida.

Cristo. Toda vez que penso nisso, fico mal, então afasto a memória indesejável. Lembro que ela nunca aceitou meu pedido de amizade no Facebook. Acho que isso não chega a ser uma surpresa.

Allie e eu entramos pelo corredor apertado de casa, que cheira quase tão bem quanto o restaurante de onde viemos. Tucker deve estar em casa.

“Tuck? Cadê você?”

“Na cozinha”, responde, ao longe.

Tiro a jaqueta e penduro num dos ganchos da parede. Allie faz o mesmo antes de se abaixar para abrir as botas de couro. Dou um tapa na bunda dela, então sorrio diante da sua cara de reprovação. “O que você tá fazendo?”, grito para Tucker.

“Sopa”, grita ele de volta. “E assando pão.”

Suspiro. “Às vezes me preocupo com ele”, digo para Allie. “Quanto mais doméstico fica, maior o risco do seu pau cair.”

Ela estala a língua, em desaprovação. “Seu babaca machista.”

“Acho que você quis dizer babaca sexy”, digo, solícito.

“Não, fico com a primeira opção.”

Caminhamos em direção à sala de estar, e a porta da rua se abre atrás de nós. Viro o corpo e tenho literalmente um segundo para reagir ao furacão louro que voa na minha direção e se joga em cima de mim.

“Surpresa!”, grita o tornado, jogando os braços em volta do meu pescoço. “Adivinha quem veio passar o fim de semana?”

Estou tão confuso e surpreso que retribuo o abraço no instinto. De canto de olho, vejo Allie fechar a cara. Merda. Sei a que conclusão acabou de chegar e preciso desfazer o mal-entendido logo.

Quando Allie limpa a garganta forçosamente, a intrusa gira a cabeça e diz: “Ah. Oi. E você é…?”.

“A namorada do Dean”, responde Allie com firmeza. “E você?”

Em vez de responder, Summer se volta para mim de novo. “Você tem uma namorada? Que merda, Dicky! Por que sou sempre a última a saber dessas coisas?”

Allie faz um barulho. Acho que pode ser um rosnado. “Você acabou de chamar meu namorado de Dicky?”

“Chamei, e daí?”, desafia Summer.

Intervenho depressa, antes que dê briga. Quer dizer, briga de mulher em geral é um tesão, mas não quando sou parente de uma delas. “Summer, esta é Allie. Allie, Summer.” Suspiro. “Minha irmã mais nova.”