O Jogo
Capítulo 5
ALLIE
É com o coração aos pulos que desligo a chamada. Não esperava que ele dissesse isso. Nem um pouco.
“Quero transar com você de novo.”
Bem, é claro que ele quer. Sou incrível na cama.
Mas de jeito nenhum vou dormir com esse cara de novo, não depois de ter passado o dia me sentindo a própria Hester Prynne. Só que a autocrítica com que estou me atacando é bem mais contundente do que qualquer coisa que a pobre sofreu na mão dos puritanos.
Nossa, não fui feita para sexo casual. Me sinto… profanada. O que é ridículo, porque se alguém foi profanado ontem foi Dean. Não só o seduzi, como o amarrei e montei em cima dele como se fosse meu próprio parque de diversões.
Sou uma piranha.
Você não é uma piranha.
Tá, talvez eu não seja. Talvez seja só uma mulher de vinte e dois anos que se divertiu sem compromisso uma vez na vida.
O único problema é que gosto de compromisso. Sexo e relacionamento andam de mãos dadas para mim. Adoro ficar abraçadinha, ter piadas internas e ficar até tarde conversando. Sou membro de carteirinha do Clube do Namoro e, depois de ontem, posso dizer com sinceridade que o Clube do Sexo Casual é uma merda. A noite foi incrível, mas a vergonha não vale os orgasmos.
Suspirando, jogo o telefone na almofada do sofá e pego o roteiro que estava lendo antes de Dean me interromper. A peça escrita por outro aluno vai ser meu trabalho de conclusão de curso na Briar. Sou uma das duas protagonistas femininas e, embora o material seja um pouco melodramático para o meu gosto, estou ansiosa para os ensaios. Desde a minha estreia no teatro em Boston, neste verão, fiquei com comichão para atuar na frente de uma plateia ao vivo de novo.
O que é só mais um fator para contribuir com o meu estresse neste momento. Minha carreira está numa encruzilhada, e não tenho ideia de qual caminho seguir.
Quando entrei na faculdade, pedi ao meu agente para se concentrar em só encontrar projetos de verão para mim. Seria muita tentação largar a graduação caso aparecesse um papel atraente, e eu queria o meu diploma. Agora que estou perto de me formar, tudo pode acontecer. A temporada de projetos-piloto começa em janeiro, e Ira já me mandou um monte de roteiros de seriados e novelinhas ao estilo Glee, além de várias comédias românticas que em geral me fariam salivar.
Sempre achei que estava destinada a papéis cômicos. Comecei a atuar ainda no ensino médio, e todos os papéis que fiz foram leves e divertidos, destacando minha persona de garota comum e engraçada. Sonhava em ser uma queridinha das comédias românticas. A próxima Sandra Bullock ou Kate Hudson ou Emma Stone.
Até que, no último verão, saiu uma convocação para uma peça superséria, supertriste, dirigida por Brett Cavanaugh, vencedor do Oscar e lenda viva. Não sei como, mas meu agente conseguiu que eu fizesse um teste para Cavanaugh, e, para meu espanto completo, ganhei o papel — a irmã mais nova e viciada em heroína da atriz principal. O espetáculo durou só dois meses, mas foi um sucesso estrondoso. Desde então, recebi uma tonelada de ofertas para testes em papéis mais dramáticos, tanto para o teatro como para a TV.
E alguém me falou que Cavanaugh está num projeto novo para os palcos, dessa vez, num teatro pequeno de Nova York…
Merda. Por que estou tão tentada a desviar o curso que estabeleci para mim mesma? Cogitar papéis dramáticos é uma coisa, mas teatro?
Hollywood dá muito mais dinheiro. Mais reconhecimento. Oscar, Globo de Ouro, farras de compras na Rodeo Drive.
Encaro a pilha de roteiros na mesinha de centro. E se for chamada para um desses pilotos que o Ira mandou e o seriado deslanchar? Ou se conseguir um papel num desses filmes? Eu poderia estourar. Então por que estou fantasiando sobre teatro?
Ainda estou perdida em pensamentos quando o telefone toca. Dou uma olhada na tela e, por um segundo, acho que é Dean, até ler com mais cuidado e perceber que é um S, e não um D. Ai. Meu ex-namorado e meu caso de uma noite só estão literalmente a uma letra de distância. Será que isso significa alguma coisa?
Sean está te ligando, sua idiota.
É, talvez lidar com isso seja mais importante agora.
Meu peito se enche de ansiedade. Não deveria atender. Não mesmo.
Atendo.
“Você tá bem?” são as primeiras palavras que ouço.
Sean parece tão nervoso que decido tranquilizá-lo depressa. “Tô. Por que não estaria?”
“Passei no alojamento depois da aula ontem e você não estava. E mandei mensagens a noite toda.”
“Eu sei.” Engulo em seco. “Dormi na casa de uma amiga. Eu…” Engulo de novo. “Eu disse que não queria ver você.”
“Queria que você mudasse de ideia.” Não tem como não notar o tormento em sua voz. “Cacete, amor. Sinto sua falta. Sei que só faz dois dias, mas estou morrendo de saudade.”
Meu coração se parte em dois.
“Eu errei, tá legal? Já entendi tudo agora. Não devia ter dado um ultimato e definitivamente não devia ter dito que a sua carreira de atriz não vai dar em nada. Estava chateado e descontei em você, e você não merecia isso. Quando fui na sua estreia, em Boston, fiquei bobo. É sério. Você é muito talentosa, amor. Sou um imbecil de dizer aquelas merdas todas para você. Não quis dizer nada daquilo.”
Ele está praticamente implorando, e outro pedaço do meu coração se quebra.
“Sean…”
“Você é a pessoa mais importante da minha vida”, interrompe ele, a voz embargada pela emoção. “Você significa o mundo para mim, e quero me enforcar por ter afastado você de mim. Por favor, linda, me dá mais uma chance.”
“Sean…”
“Sei que posso consertar tudo. Só uma chance, e…”
“Sean!”
Ele para. “Amor?”, pergunta, incerto.
Minha garganta está incrivelmente apertada, quase como se estivesse tentando me impedir de dizer as próximas palavras. Mas a culpa está me ruindo por dentro. Não posso simplesmente sentar aqui e ficar ouvindo Sean implorar, não quando estou me sentindo desse jeito. Engulo de novo e forço minhas cordas vocais a funcionarem.
“Dormi com outra pessoa ontem à noite.”
A resposta é um silêncio ensurdecedor que parece se arrastar por toda a eternidade. A cada segundo que passa, meu estômago se revira mais.
“Você ouviu o que eu falei?”, sussurro.
Ouço um ruído abafado. “Ouvi.”
Nós dois ficamos quietos. A dor e a culpa continuam a apunhalar minhas entranhas. Involuntariamente, retorno ao dia em que conheci Sean. Foi durante a apresentação dos calouros, e lembro de ter pensado que ele era o garoto mais fofo que eu já tinha visto, com o cabelo castanho bagunçado, que hoje ele usa bem curto, olhos brilhantes cor de avelã e a bunda mais bonita do planeta. Sendo a linguaruda esquisita que sempre fui, comentei sobre a fofura da dita bunda, e as bochechas dele ficaram mais vermelhas que a camisa do Red Sox.
Naquela noite, jantamos juntos num dos refeitórios.
Uma semana depois, éramos um casal.
Mas agora, três anos depois, estamos separados, e acabo de confessar que dormi com outro. Onde foi que a gente errou?
“Com quem?”
O questionamento me assusta. “O quê?”
“Quero saber com quem foi”, repete Sean, categórico.
O desconforto aperta o meu peito. “Não importa. Não vai acontecer de novo. Foi…” Respiro fundo. “Foi um erro estúpido. Mas achei que você deveria saber.”
Ele não responde.
“Sean?”
A respiração irregular ecoa através da linha. “Obrigado por me contar”, resmunga.
Em seguida, desliga.
Levo um tempo para afastar o telefone do rosto. Corro os dedos pelo cabelo, e minha mão treme incontrolavelmente.
Nossa. Isso foi… brutal. Uma parte de mim se pergunta por que eu fui falar. Não pulei a cerca nem nada disso. Eu não tinha obrigação nenhuma de contar para ele. Na verdade, se tivesse ficado de boca fechada, podia ter poupado a dor que ele deve estar sentindo agora. Mas sempre fui honesta com Sean, e uma parte burra e culpada de mim insistiu que ele merecia saber.
Um gemido angustiado escapa da minha boca. Meu coração está doendo de novo. A culpa agora é ainda pior, um nó bem apertado esmagando meu estômago.
Em vez de voltar para o roteiro, pego o iPod e coloco os fones de ouvido. Então puxo o cobertor até o pescoço e ponho “Wrecking Ball”, da Miley Cyrus, no repeat, porque a música resume muito bem como estou me sentindo agora.
Destruída.
DEAN
“Ah, olha só pra ele, G., é tão bonitinho dormindo.”
“Como um anjo.”
“Um anjo bem pervertido.”
“Espera aí, anjo faz sexo? E se faz, orgasmos celestiais são um milhão de vezes melhores do que orgasmos terrestres? Aposto que são.”
“Dã. De onde você acha que vem o arco-íris? Sempre que você vê um arco-íris, significa que um anjo acabou de gozar.”
“Ah. Faz sentido. Tipo quando toca um sino, que significa que um anjo ganhou asas.”
“Isso aí.”
Abro um olho de leve e me volto para a porta. “Tô ouvindo, sabia?”
Minha voz irritada põe fim à conversa mais bizarra que já ouvi. “Ah, que bom, você tá acordado”, comenta Logan.
“Claro que tô”, resmungo, esfregando os olhos. “Como é que vou dormir com vocês dois idiotas tagarelando no meu ouvido sobre anjo gozando?”
Garrett dá uma risada. “Como se eu fosse o primeiro a pensar no assunto.”
“Vai por mim, você é. Quando vocês chegaram?”
Logan recosta o ombro imenso no batente da minha porta. “Faz uma hora. Gracie precisava voltar mais cedo porque tem que fazer um programa hoje.”
Faço que sim com a cabeça. A namorada de Logan trabalha como produtora na rádio universitária. O que me lembra… “Você vai ligar e professar o seu amor de novo?”, pergunto, ironicamente.
Ele suspira. “Você nunca vai me deixar esquecer isso, né?”
“Não.” Embora preferisse que alguém tivesse gravado o programa, para eu poder usar uns trechos como instrumento de tortura. Depois de estragar tudo e quase perder Grace no fim de semana passado, Logan a ganhou de volta ligando para o programa de conselhos amorosos que ela produz e dizendo as merdas mais piegas que se pode imaginar. Às vezes, me preocupo com ele.
Afasto as cobertas e pulo da cama como vim ao mundo. Meus colegas de república continuam a me espreitar da porta.
Pego uma cueca limpa e visto. “Juro por Deus, se vocês disserem que estão me olhando dormir há uma hora, vou chamar a polícia.”
“O treinador ligou”, anuncia Garrett. “Disse que passou a manhã ligando pro seu celular, mas que você não atendeu. Quer que você apareça na arena daqui a uma hora.”
“Por quê?”, pergunto, cauteloso.
Garrett dá de ombros. “E eu que sei? Talvez tenha descoberto que você encheu a cara esse fim de semana — imagino que foi isso que você fez, né? — e quer dar um esporro.”
“E como é que ele sabe? Que eu saiba ele não tem espiões.”
“Cara, o treinador é tipo o espião mestre do Game of Thrones. Suas fontes são infinitas.”
Merda. Espero que o treinador Jensen não esteja preparando um daqueles sermões infinitos sobre manter a linha. Estamos proibidos de beber ou usar drogas durante a temporada, o que não impede nenhum de nós de encher a cara ou de fumar um baseado de vez em quando. Mas nunca falhei num teste de urina nem manchei a fama do time com meus excessos, então não sei por que o treinador está constantemente no meu pé com isso.
“Hannah ainda tá aqui?”, pergunto a Garrett enquanto procuro pelas minhas calças.
“Não… foi pra casa. Vai ter um dia de mulherzinha com Allie.”
Ainda bem que estou de costas, porque, no momento em que ele diz o nome de Allie, meu pau vai a meio mastro. Maravilha. Fico com tesão só com o som do nome dela agora?
“Você não fez nada de idiota quando ela estava aqui, fez?” O tom de Garrett é permeado pela suspeita.
Transei com ela duas vezes. Então… fiz?
Mordo a língua e visto uma camiseta e um moletom azul-marinho da Briar. “Fui um perfeito cavalheiro.”
Logan ri com desdém. “Tem uma primeira vez pra tudo.”
“Vai se foder, tá legal? Acontece que sou especialista na arte da cavalheirice.”
“Isso não é uma arte. Não é nem uma palavra.” Logan revira os olhos e some do quarto, mas Garrett fica para trás.
Ele estuda meu rosto por tanto tempo que me deixa desconfortável. “O quê?”, murmuro.
“Nada”, responde, mas ainda está com uma expressão desconfiada ao deixar meu quarto.
Quando entro no banheiro para escovar os dentes, percebo que o chupão no meu pescoço ainda está muito, muito visível. Será que Garrett notou?
E daí se tiver notado? Qualquer uma poderia ter chupado o meu pescoço este fim de semana. Não tem nenhuma razão para ele suspeitar de Allie.
Maldita Allie. Contei que queria transar de novo, e ela desligou na minha cara. Isso não acontece comigo — nunca. Eu sou Dean Di Laurentis, caramba. Basta estalar os dedos, e uma dúzia de garotas aparece, implorando para subir no meu colo. Na última vez que fui à cafeteria do campus a barista gostosa me deu um café de graça e ainda ofereceu um boquete no estoque.
Então qual é o problema de Allie? Passei tempo demais na noite passada perguntando se ela está fazendo jogo duro. Quer dizer, não que ela não tenha gostado do sexo. Nunca ninguém elogiou tanto o meu pau.
“Ai, meu Deus, quero casar com o seu pau!”
“Melhor. Pau. Da. História.”
“Dean, você tá me fazendo gozar…”
Minha mente repassa os gritos guturais num looping que só aumenta o meu tesão, e me agarro ao porta-toalhas com uma das mãos, enquanto um gemido me escapa. A escova de dentes cai da minha boca. A ereção na minha calça cutuca a louça da pia, desesperada para fazer contato com alguma coisa, qualquer coisa.
Será que o treinador vai ficar muito bravo se eu me atrasar porque estava me masturbando?
Provavelmente.
Trinta minutos depois, passo minha carteirinha de estudante no leitor da arena de hóquei, bebendo o café que peguei no caminho. O corredor largo está deserto, e a sola do meu tênis faz um barulhinho contra o piso lustroso à medida que caminho até os fundos do edifício. Passo pelas salas de aula e de projeção, a cozinha e o salão de musculação, por fim atravesso o imenso salão de equipamentos.
A arena é de última geração. Chad Jensen podia ter escolhido entre meia dúzia de escritórios grandes e confortáveis, mas por algum motivo ele preferiu uma sala modesta e escondida perto da lavanderia.
Bato à porta e só abro depois de ouvir o treinador gritar: “Entra”. O último jogador que entrou sem bater levou uma bronca que deu para ouvir lá dos chuveiros. Gosto de pensar que o treinador usa seu escritório para bater punheta e que é por isso que insiste tanto em privacidade. Logan tem uma teoria de que ele abriga uma família secreta na sala que só pode sair nas altas horas da madrugada.
Logan é um idiota.
“Oi, treinador. Você queria me ver…” Paro assim que percebo que não estamos sozinhos.
Não costumo me surpreender com facilidade. Sou o tipo de cara que nada com a maré, o que significa que é preciso muito mesmo para me assustar.
Neste momento, a única maré com a qual estou nadando é a onda de ansiedade se espalhando pelo meu sangue e infiltrando meus ossos.
Frank O’Shea se levanta da cadeira de visitas e lança seu olhar gélido sobre mim. Desde o último ano do ensino médio que não o vejo, mas ele não mudou nada. O cabelo raspado e escuro, o corpo atarracado, a boca severa.
“Di Laurentis”, diz, com um breve aceno de cabeça.
Aceno de volta. “Treinador O’Shea.”
Jensen olha de mim para ele e vai direto ao que interessa. “Dean, Frank está entrando na equipe como nosso novo coordenador defensivo. Ele me repassou o histórico de vocês na Escola Preparatória Greenwich.” O treinador faz uma pausa. “Achei melhor vocês resolverem seus problemas antes do treino de amanhã.”
Nem imagino o que O’Shea tenha dito sobre o nosso “histórico”. O que quer que tenha sido, sei que, além de ser mentira, foi desfavorável para mim, porque a versão de O’Shea da história é tão distorcida que faz as matérias do National Enquirer parecerem trabalhos acadêmicos muito bem pesquisados.
O treinador Jensen caminha até a porta. “Fiquem à vontade.”
Droga, ele está deixando a gente sozinho? Seria bom ter uma testemunha caso O’Shea tente alguma coisa. Afinal, o cara deu um murro num dos próprios jogadores no estacionamento vazio de uma escola secundária. Eu tinha dezoito anos na época. Não denunciei, porque entendi os motivos dele, mas isso não significa que esqueci. Ou que perdoei.
O’Shea não fala nada até a porta se fechar atrás do treinador. “Então. Tem algum problema aqui?”
Ergo o queixo. “Me diz você.” E me forço para acrescentar: “Senhor”.
Os olhos escuros brilham. “Estou vendo que ainda é o mesmo espertinho insolente de quando treinava comigo.”
“Com todo o respeito, senhor, faz cinco segundos que entrei aqui. Não acho que o senhor possa fazer esse julgamento.” Meu tom é educado, mas, por dentro, estou fervendo. Odeio esse homem, o que é uma ironia e tanto, porque teve uma época em que eu o adorava.
“Problema nenhum do meu lado”, diz ele, como se eu não tivesse falado. “O que passou, passou. Estou disposto a começar do zero, se isso puder contribuir para um ambiente de treino mais propício.”
Quanta generosidade.
“Tudo o que peço é que você me trate com respeito e me escute quando estivermos no gelo. Não vou tolerar insubordinação.” Ele franze a boca numa careta. “E não vou tolerar palhaçada. Jensen disse que você tem fama de festeiro. O que não me surpreende…”, ele emite um barulho feio, “… mas, se quiser continuar no time, trate de se comportar. Nada de álcool, nada de drogas, nada de brigas. Entendido?”
Faço que sim com a cabeça.
“Quanto à nossa história, isso não está em discussão.” O’Shea me lança outro olhar gélido. “Nem entre nós, nem entre você e seus colegas de time. O que passou, passou”, repete ele.
Enfio as mãos nos bolsos. “Posso ir agora?”
“Ainda não.” Ele caminha até a mesa e pega uma pasta fina. Estou imaginando coisas ou os olhos dele exibem um brilho de soberba? “Mais duas coisas. E saiba que o treinador Jensen já concordou com isso.”
Uma inquietação pinica meu estômago.
“Primeiro, você vai passar para a segunda linha, com Brodowski…”
“O quê?”, protesto.
O’Shea levanta a mão. “Me deixa terminar.”
Fecho a boca, lutando para controlar a raiva crescente. Não estou mais fervendo. Estou enfurecido.
“Problema nenhum do lado dele” uma ova. Sempre joguei na primeira linha com Logan. Somos os dois melhores defensores do time. Uma dupla dinâmica, porra. Brodowski é um aluno do terceiro ano, e precisa de tanto treino que nem sei como ainda está no time.
“Jensen confia em mim para trabalhar a defesa e tomar as decisões que achar melhor”, meu velho treinador late para mim. “A segunda linha está fraca. Kelvin e Brodowski não estão se entendendo, e os dois vão se beneficiar de fazer parte de uma dupla com jogadores do seu calibre e do John Logan.”
“O treinador falou que já tentou isso nos amistosos?”, não consigo me conter, e meu sarcasmo é o suficiente para fazê-lo franzir a testa. “Fiz dupla com Kelvin no jogo contra o St. Anthony. Foi um desastre.”
“Bem, dessa vez você não vai estar com o Kelvin, não é?”, argumenta ele no mesmo tom. “Estou botando você com Brodowski. E minha decisão está tomada. É pelo bem do time.”
Mentira. Ele está fazendo isso para me punir, e nós dois sabemos disso.
“E qual é a segunda coisa?”
Ele pisca. “O quê?”
“Você disse que tinha duas coisas.” Preciso de todas as minhas forças para manter a voz calma. “Você tá mudando as linhas — é a primeira coisa. Qual é a segunda?”
Ele inclina a cabeça como se tentasse se decidir se estou sendo insolente de novo. O sujeito não tem ideia do quanto quero esmurrar a cara dele agora. Preciso de toda a força de vontade possível para me segurar.
O’Shea abre a pasta e tira uma folha de papel. O brilho de satisfação retorna aos seus olhos assim que a entrega para mim.
Dou uma lida por alto. É uma cópia do que parece ser uma rotina de treino e jogos, mas não é do nosso time. “O que é isso?”, murmuro.
“A partir desta semana, você vai ser voluntário no Hastings Hurricanes…”
“Onde?”
“Hastings Hurricanes. O time de hóquei da escola primária de Hastings. Liga juvenil, sétimo e oitavo anos. A Briar tem um programa de apoio à comunidade em que alunos atletas se voluntariam como treinadores ou assistentes técnicos de times locais. A aluna do último ano que trabalha com o Hurricanes — ala esquerda do time feminino da Briar — está com mononucleose, então a gente precisa substituí-la. Jensen e eu achamos que você seria o candidato perfeito.”
Tento esconder meu horror. Mas acho que não sou muito bem-sucedido, porque O’Shea está sorrindo abertamente para mim agora.
“São dois treinos à tarde por semana, e os jogos são nas sextas-feiras, às seis. Já dei uma olhada na sua grade de horários, e ela não interfere com a agenda do Hurricanes. Então está tudo certo.” Ele inclina a cabeça. “A menos que você tenha uma objeção…”
Claro que tenho. Não quero passar três dias por semana treinando um monte de garotos. É meu último ano de faculdade, cacete. Minha carga de estudo é enorme. E já passo seis dias por semana treinando com meu próprio time e jogando meus próprios jogos, o que não deixa muito tempo livre.
Mas, se eu me opuser, sem dúvida O’Shea vai tornar a minha vida um inferno. Igualzinho nos tempos de colégio.
“Não, parece divertido”, me obrigo a dizer, contendo a tentação de lhe mostrar o dedo médio.
Ele assente. “Olha só pra isso. Talvez você tenha mesmo mudado. O Dean Di Laurentis que eu conheci só se preocupava com uma pessoa — ele próprio.”
O golpe dói mais do que deveria. Claro que sou um idiota de um egoísta às vezes, mas não fiz nada de errado naquela época. Miranda e eu estávamos na mesma vibe… até que, de repente, não estávamos mais.
Mas acho que não importa quem estava errado, né? Porque está mais do que claro que Frank O’Shea nunca vai me perdoar pelo que aconteceu entre mim e a filha dele.