O Jogo
Capítulo 28
DEAN
Fato n. 1: o departamento de polícia de Hastings tem uma equipe de cerca de oito policiais.
Fato n. 2: Acho que todos eles estão na minha casa agora.
“Quer dar queixa?” O chefe da equipe se aproxima de Allie numa postura protetora e exibindo um sorriso sarcástico, ao se virar na minha direção com olhos acusatórios.
Do meu canto no último degrau da escada, sustento seu olhar. O paramédico examinando minha têmpora faz um som de reprimenda quando viro a cabeça na outra direção, mas eu o ignoro. Porque o que está acontecendo agora é simplesmente ridículo.
“Se alguém tinha que dar queixa, sou eu”, exclamo, incrédulo.
O policial levanta a mão para me silenciar. “Estamos falando com a senhorita Hayes, senhor.”
Ah, sim. A srta. Hayes. A louca que por acaso é minha namorada. A mestre kung-fu que me nocauteou com um peso de papel do Wayne Gretzky.
Mas, vejam só, pelo menos as luzes estão acesas. Assim a rua inteira pode testemunhar a minha humilhação.
“Você tá falando com a pessoa errada”, murmuro entre dentes. “Fui eu que fui atacado.”
Uma das policiais femininas estreita os olhos para mim. “Pelo que podemos ver, senhor, as vítimas são as moças aqui.” Ela aponta para o chão. “Entramos aqui e encontramos você deitado numa poça de sangue…”
“Era sopa! Sopa de tomate!”
“… e gritando obscenidades para a senhorita Hayes e a senhorita Di Laurentis.”
“Porque elas me nocautearam.”
“Elas obviamente se sentiram ameaçadas e tomaram medidas para incapacitar você”, comenta outro policial, friamente. Ele franze os lábios, e seu bigode de predador sexual se contrai em seu rosto.
Ai, meu Deus. Vou matar as duas. No instante em que esses policiais saírem, vou matar as duas.
“Senhor, estamos fazendo um interrogatório”, interrompe o chefe da equipe. “Por favor, permaneça calado a menos que alguém faça alguma pergunta a você.”
Tucker, recostado na parede a alguns centímetros de distância, parece prestes a fazer xixi nas calças de tanto rir. Sua risada é do tipo silencioso, que faz seus ombros largos tremerem e seu rosto ficar completamente rubro.
Pelo menos Allie tem a decência de parecer envergonhada. Summer só parece entediada.
“Eu exagerei”, confessa Allie.
“Conte o que aconteceu”, pede a policial mulher, com gentileza.
Ranjo os dentes, e Allie inspira fundo. Enquanto isso, o paramédico ao meu lado tateia a minha nuca como se estivesse tentando me dar um orgasmo.
“Eu tinha acabado de esquentar uma tigela de sopa na cozinha. Bem, não muito quente, porque prefiro sopa morna, senão queima o céu da minha boca, e odeio quando isso acontece.” Ela suspira. “Desculpa, não vem ao caso. Enfim, estava voltando para a sala de estar. As luzes estavam todas apagadas, porque estávamos vendo um filme. Ouvi passos do lado de fora e, de repente, alguém entrou como se morasse aqui…”
“Eu moro aqui”, rosno.
Allie evita meu olhar furioso. “Pensei que fosse um ladrão.”
“Um ladrão que tinha a chave da casa?”, pergunto, sarcasticamente.
Os policiais me encaram de novo. Fecho a boca.
“Joguei a tigela na cabeça dele e peguei a primeira arma que encontrei.” Ela aponta para o peso de papel que usamos para impedir que as cartas na mesinha do corredor voem toda vez que alguém abre a porta da frente. Agora ele está no piso de madeira, do lado de uma enorme poça de sopa de tomate. Estou surpreso que os policiais não tenham colocado bandeirinhas de evidência do crime ao lado dele. “Não foi culpa do Dean”, insiste Allie. “Sério, foi tudo minha culpa. Me assustei por nada.” Ela enfim olha para mim. “Tá vendo? Por isso que não gosto de filme de terror! Você vê um filme de terror quando é criança, e, de repente, todo mundo que aparece na sua porta é um serial killer.”
“Você tá brincando comigo? Você topa assistir a um filme de terror com a minha irmã, mas não comigo? A gente tem que ver o filme do câncer?”
“Dicky”, me repreende Summer. “Deixa de ser rabugento.”
Encaro minha irmã com raiva suficiente para fazê-la estremecer. “Nem uma palavra sua”, exclamo. “E não vai achando que não senti você me dar um chute antes de eu desmaiar. Quem faz isso, Summer? Quem chuta um homem que já tá no chão?”
De canto de olho, vejo Tucker afundar no chão. Ele enterra o rosto nas mãos, tremendo de tanto rir.
O paramédico bloqueia minha visão agachando-se na minha frente. “Preciso examinar você para ver se tem alguma concussão.”
Ah, pelo amor de Deus.
Ele saca uma lanterna e me cega com ela. Allie aparece logo atrás, a preocupação marcando sua testa. “Ah, não. Será que ele tá com uma concussão?” Ela se ajoelha e toca meu braço. “Melhor ligar para o seu treinador?”
Sua pergunta chama a atenção do chefe de polícia. “Seu treinador? Merda. Você é um dos meninos do Jensen?”
Respondo com um aceno mal-humorado. Ainda quero esmurrar estes idiotas por me tratarem como suspeito em vez de vítima.
“Qual é o seu nome?”
“Dean Di Laurentis.”
“Ah, é, agora eu tô te reconhecendo.” Ele parece animado. “Que vitória no Frozen Four na última temporada, hein, filho! Você jogou muito.”
O policial do bigode se aproxima. “O time não anda muito bem esses dias. O que tá acontecendo?”
“Mas aquele tal de Davenport é rápido”, elogia outro policial. “Alguma chance de Jensen colocá-lo na linha com Graham?”
Pelos dez minutos seguintes, os policiais me atormentam sobre o time e nossas chances de ganhar outro título nacional, enquanto o paramédico me força a aguentar o seu protocolo desnecessário de concussão até enfim determinar que não preciso ir para o pronto-socorro. Ele reúne seu material de trabalho e sai de casa com os outros policiais. No momento em que passam pela porta, fico de pé.
Minhas meias molhadas fazem um barulhinho nojento a cada passo que dou. Meu torso está inteirinho manchado de vermelho, e meu cabelo pinga sopa de tomate à medida que avanço na direção das meninas. Bem, de Allie, a pessoa empunhando a arma que me nocauteou.
“Vou tomar um banho”, aviso. “E, quando sair, você e eu vamos ter uma conversinha sobre como você é louca.”
Suas bochechas coram. “Desculpa, tá legal? Já admiti que exagerei.”
“Jura?” Me equilibro num pé e depois no outro, arrancando as meias nojentas. “É sério. Ainda tô com raiva de você, então é melhor estar me esperando no meu quarto quando eu sair do chuveiro.”
“O que você vai fazer, bater em mim?”
Rosno. “Não me tente, sua engraçadinha.”
“Eca”, interrompe Summer. “Dá para não discutir o sexo sadomasoquista de vocês na frente da sua irmãzinha?”
Aponto o indicador para ela. “Nem. Mais. Uma. Palavra.” Olho para Tucker, o traidor que estava se divertindo tanto às minhas custas. “Por favor, escolte Summer até o quarto de Garrett e dê um jeito de trancá-la lá dentro.”
Tuck dá uma risadinha. Mas estende a mão para ela. “Vem, irmãzinha, vamos deixar o coitado em paz. Já apanhou o suficiente hoje.”
ALLIE
Não sou orgulhosa demais para admitir meus erros quando piso na bola.
E hoje pisei na bola totalmente. Não só ataquei meu namorado com um peso de papel, como depois chamei a polícia, porque, por um segundo, fiquei mesmo preocupada que pudesse tê-lo matado.
Me sinto péssima. Péssima o suficiente para estar disposta a deixar Dean gritar comigo pelo tempo que quiser, é por isso que estou sentada na beirada da cama, como ele mandou.
“Ora, vejam só… ela sabe obedecer”, zomba Dean ao entrar no quarto.
Ele deixa cair a toalha e caminha até a cômoda. Enquanto veste uma cueca preta, espero obedientemente por um sermão que não vem.
“Achei que você ia gritar comigo”, relembro-o.
Ele esfrega a lateral da testa, gemendo baixinho. “Mudei de ideia. Minha cabeça tá me matando.”
Fico nervosa na mesma hora. “Isso não é bom. Será que não é melhor ir para o pronto-socorro?”
“Que nada. Tô bem, Allie-Cat.” Ele massageia a têmpora, e a culpa continua a revirar minha barriga. “Faz anos que não levo uma pancada tão forte, e eu jogo hóquei”, resmunga ele. “Você é assustadoramente forte, sabia?”
“Sabia.” Ofereço um olhar envergonhado. “Eu te disse, meu pai teve o cuidado de me ensinar a me defender.”
“Bem, parabéns pro seu pai, por ter tido o cuidado de te ensinar a se proteger. E maldito seja ele, por ter te transformado numa arma mortal.” Ele geme de novo. “Nossa. Não acredito que você me apagou daquele jeito. Sorte a sua que eu te amo, gata. Se fosse qualquer outra garota…”
“Você me ama?!”, exclamo.
Dean para no meio da frase. Por um segundo, parece genuinamente confuso, como se não soubesse do que estou falando. Como se não tivesse percebido o que falou.
Mas eu ouvi. Em alto e bom som. E meu coração perde o compasso de suas batidas. Ele acabou de dizer que me ama.
“Você acabou de falar”, insisto, lutando contra o sorriso enorme que está ameaçando aparecer.
“Eu…” Ele limpa a garganta. “Pois é. Acho que falei.”
“É verdade?” Quando ele assente com a cabeça, meus lábios começam a se contrair descontroladamente. Deus, quero tanto sorrir agora. “Quero ouvir de novo”, peço.
Ele esfrega o queixo com o punho fechado, tão lindo e sem jeito. “Que merda, gata. Não me faz dizer de novo. Já basta eu ter dito primeiro. Isso nunca me aconteceu antes.”
Um sorriso irrompe em meu rosto. E se expande de orelha a orelha. Pulo da cama e me jogo em seus braços, atordoada demais para beijá-lo como uma adulta. Meus beijos são desleixados e excessivamente ansiosos, e Dean está rindo feito um louco enquanto o ataco com a boca.
Afasto-me, abruptamente. “Tem certeza que a sua cabeça não tá doendo?”
“Tá tudo bem”, insiste ele, e um ronco profundo de prazer sai de sua garganta, quando dou mais alguns beijos em seu rosto.
“Certo, ótimo, porque acho que a gente deveria transar agora.” Empurro-o para a cama e seguro-o pela cintura.
Ele está se divertindo imensamente. “Deveria, é? E por quê?”
“Porque você disse que me ama, e eu também te amo, e você sabe como fico tarada com toda essa coisa sentimental.” Já estou arrancando minha camisa. “Você não tem ideia de como tô molhada agora, gato.”
O humor em seus olhos dá lugar ao desejo. “Mostra pra mim”, ordena ele.
Baixo a calça de ginástica. A calcinha também. Chuto as duas para um canto e me aproximo. Então pego a mão de Dean e coloco entre minhas pernas. Ele me segura na mesma hora, e cubro sua mão com a minha, esfregando as duas contra meu corpo úmido.
Dean geme, e dessa vez não é de dor. Ou talvez seja um tipo diferente de dor. Sua ereção sobressai sob a cueca, uma demonstração longa e dura de excitação que estou louca para sentir dentro de mim.
“Allie…” Sua voz é rouca.
“Hmm?” Balanço os quadris contra as nossas mãos.
“Eu te amo.”
Essas três palavras enviam uma onda de calor até o meu âmago. Solto um gemido. Ele também. Sei que sentiu a forma como minhas coxas se fecharam e a umidade molhando sua mão.
“Nossa”, ofega ele. “Essa coisa de amor realmente te deixa doida.”
“Eu te disse.” Empurro-o novamente, e ele bate no colchão, caindo para trás e se apoiando nos cotovelos. “Vou gozar em você todinho. Orgasmos múltiplos do tipo que explodem os ovários.”
Dean pega uma camisinha numa gaveta, e, antes mesmo que ele tire a cueca, estou em cima dele. “Eu te amo”, sussurra, em seguida aperta a boca contra a minha.
O beijo é doce e suave, e faz meu corpo vibrar de prazer. A mão dele treme ao colocar o preservativo, e nossas bocas ainda estão unidas quando ele me gira na cama e coloca a cabecinha em mim.
Envolvo seus ombros com os braços e inclino os quadris, tentando levá-lo mais fundo. Isso funciona. Com um gemido, ele entra mais dois centímetros, e mais dois, até estar todo dentro de mim, me abrindo, me enchendo.
Quando começa a se mover, nossos olhos se encontram, nebulosos. Me sinto tão completa. É incrível. Dean afasta uma mecha de cabelo da minha testa e acaricia meu rosto, fazendo amor comigo num ritmo lento e maravilhoso, que me faz enroscar os dedos dos pés.
“Te amo”, diz de novo, e posso jurar que todo o meu corpo exclama de alegria.
Seguro-o mais forte contra mim, recebendo cada investida demorada. Ele desliza as mãos sob a minha bunda e me levanta, de forma que seu osso púbico pressiona o meu clitóris toda vez que ele entra. O movimento me faz ver estrelas. Me faz suspirar e gemer e me contorcer até todo o meu mundo girar em torno de Dean. Quando meu orgasmo inunda o meu corpo, estou com as palavras “Eu te amo” nos lábios.
Seus olhos verdes queimam de emoção. Ele deixa escapar um gemido rouco e desaba em cima de mim, entrando fundo uma última vez. Então diz “Também te amo”, tremendo com a sensação.