O Jogo
Capítulo 29
ALLIE
O restante de dezembro passa voando. De uma hora para a outra, as festas de fim de ano chegaram, e vou ser recompensada com três semanas de folga, tempo em casa e um monte de guloseimas para cair de cabeça.
Vou ficar com meu pai durante as férias, mas combinei de passar os dois primeiros dias em Connecticut, com Dean. A família dele vai passar duas semanas em St. Bart, então é a minha única chance de vê-lo até ele voltar, quando vamos nos encontrar em Nova York para nossos últimos três dias de liberdade.
Dean me chamou para ir para a ilha com ele, mas, por mais que odeie recusar uma viagem gratuita para o paraíso, preferi ficar no Brooklyn. Quem sabe onde vou acabar depois da formatura — preciso aproveitar todos os meus segundos livres com meu pai.
Ainda assim, nem consigo explicar como estou triste de ter que ir embora de Connecticut. Embora Dean tenha me dito que seus pais eram muito tranquilos e descontraídos, uma parte de mim estava na dúvida. Quer dizer, eles são dois advogados podres de ricos que possuem três casas. Talvez mais que três. Dean não é do tipo que tira vantagem, então a família dele deve ter, sei lá, uma casa em cada país do mundo.
Mas você jamais perceberia isso só de olhar para eles. A mãe de Dean ficou de calça jeans e camisa de flanela o tempo todo em que passei em Greenwich e confessou para mim que a melhor coisa do feriado era deixar de lado os terninhos que usa na empresa. Ela se chama Lori e, aparentemente, manteve o nome de solteira e assina como Lori Heyward.
O pai de Dean, Peter, é tão descontraído quanto a esposa. Trabalhava toda manhã no seu escritório, mas passou a maior parte do tempo com os filhos, indo esquiar com Summer e jogando hóquei dois-contra-um com os filhos no rinque que eles têm ao ar livre, nos fundos da mansão. Pois é, eles têm a própria pista de patinação.
O irmão de Dean, Nick, é um dos homens mais gentis que já conheci. Trouxe a namorada nova, uma advogada de outra empresa, e, embora ela parecesse contida no início, era amável quando você a conhecia melhor.
E Summer… bem, ela é apenas Summer. Sem filtros, maior que a vida, o riso contagiante. Às vezes acho que amo a irmã de Dean mais do que o amo.
Por mais triste que esteja de me despedir dos Heyward-Di Laurentis, estou animada para ver meu pai. Decido me dar um presente e vou de táxi de Greenwich ao Brooklyn. No final da tarde, apareço com minha mala gigante de rodinha na entrada de casa e grito por meu pai.
Eu o encontro na sala de estar, de moletom, lendo um livro chamado A física do hóquei. Ele me cumprimenta com um sorriso afetuoso, então resmunga e reclama, enquanto o beijo no rosto e começo a perturbá-lo com perguntas sobre como está se sentindo. Ele enfim me interrompe para perguntar sobre a minha visita a Connecticut. Quando digo como foi incrível, meu pai parece um pouco decepcionado, o que me faz franzir o cenho.
Nós conversamos por telefone duas vezes por semana, então ele já sabe que estou namorando Dean, mas estou surpresa que ele tenha ficado de boca fechada sobre o assunto. Depois que contei a ele, meu pai simplesmente deu um grunhido e desde então não comentou nada sobre a relação.
Até agora.
“Ele não é para longo prazo, A.J.”, diz, com um suspiro cansado. “Espero que você saiba disso.”
As palavras contundentes me doem. Quer dizer, não que Dean e eu estivéssemos planejando mandar os convites de casamento na semana que vem, mas não vejo a gente terminando tão cedo. Temos vinte e dois anos. Estamos apaixonados. O futuro pode ser difícil, comigo em Los Angeles ou Nova York e Dean em Harvard pelos próximos dois anos, mas tenho certeza de que podemos dar um jeito, se nos dedicarmos. E quando Dean sair da faculdade de direito vai poder trabalhar onde quiser. Onde eu estiver. Não discutimos isso ainda, mas Dean não me deu qualquer indicação de que quer terminar depois da formatura.
“Pode ser”, digo, baixinho. “Quer dizer, para longo prazo.”
Meu pai nega com a cabeça, resoluto. “Não é.” Sua voz perde um pouco da rigidez. “Sabe a coisa mais importante que aprendi depois de dezoito anos com a sua mãe?”
Sento no sofá ao seu lado e espero que ele continue.
“Relacionamento às vezes é um pé no saco.”
Tenho que rir. “Mamãe disse a mesma coisa.” Lembrar da última conversa que tive com minha mãe traz uma dor ao meu coração. “Ela me contou que vocês tiveram problemas no casamento num determinado momento”, confesso. Nunca discuti isso com ele antes. Mas mamãe sempre foi muito aberta sobre seus problemas. Não em detalhes, mas deixou bem claro o quanto eles trabalharam para salvar o casamento.
“Tivemos”, confirma ele, com uma voz triste. “Eram as viagens. Eva abandonou a carreira de modelo depois que você nasceu, então estava sempre em casa. E eu estava sempre na estrada.” Ele me lança um olhar feroz. “Nunca toquei em outra mulher, A.J. Nossos problemas não tinham nada a ver com isso.”
“Eu sei.”
“Foi muito difícil. Tanto tempo longe. Os telefonemas curtos. Eu chegava em casa e me sentia um estranho, a gente tinha que se acostumar um com o outro de novo. Foi preciso muita dedicação para contornar isso.” Vejo a agonia transparecer em seus olhos. “E aí ela ficou doente, e foi ainda mais difícil.”
Um nó se forma em minha garganta. Eu tinha doze anos quando ela foi diagnosticada com câncer de pulmão. Lembro de implorar para ir com eles sempre que meu pai a levava para a quimioterapia. Eles nunca deixavam, e nos dias em que os efeitos colaterais eram muito debilitantes, quando sua pele ficava mais cinzenta que cinza de carvão e ela vomitava tão violentamente que chegou a quebrar uma costela, eles me mandavam para a casa da minha tia, no Queens. Não queriam que eu a visse daquele jeito. Mas vi muita coisa.
“O Dean…” Meu pai limpa a garganta, retornando ao assunto original. “Conheço homens como ele. Não estão preparados para lidar com problemas de verdade. Com os contratempos da vida. E se você — Deus me livre — ficar doente? Ou se machucar? Ou se o país cair numa recessão e o império do seu homem falir?” Ouço o desdém em seu tom. “Ele vai desmoronar feito uma barraca barata.”
“Não é verdade”, protesto. “O Dean é um homem bom. E é bom comigo. Bom pra mim.”
“Você está se enganando, A.J. Sim, ele é bom com você… agora. Ele vive uma vida perfeita. Paga os outros para limpar a bagunça que faz. E enquanto isso der certo vai ser a melhor coisa que já aconteceu com você. Mas se a merda estourar? Ele não vai segurar a onda. Não vai ficar do seu lado, porque isso implicaria sair da sua bolha perfeita, deixar a parte feia entrar. Esse menino não gosta da parte feia.”
“Você tá errado”, sussurro.
Ele solta um palavrão. “Odeio dizer isso, querida. Você acha que gosto de ver essa carinha triste? Fico arrasado, A.J. Mas quero que você esteja preparada para quando acontecer.” Meu pai deixa escapar um suspiro resignado. “Guarde minhas palavras. Você não vai poder contar com ele. Melhor enxergar isso agora, antes que seja tarde demais.”
Não deixo o aviso de meu pai — ou melhor, sua opinião completamente injustificada a respeito de Dean — arruinar nosso feriado. Eu entendo. Ele está preocupado. Não quer me ver triste de novo depois de outra separação. E não posso nem ficar chateada com sua franqueza, porque ele sempre foi assim.
Mas ele está errado. Dean ficaria ao meu lado se eu precisasse. Ele já faz isso, como quando correu para o meu alojamento na noite em que o ataque verbal de Sean me deixou em frangalhos. Então decidi não ter dúvidas sobre um relacionamento que me deixa tão feliz e me forcei a aproveitar o restante das férias.
Passo a véspera de Natal, que também é o meu aniversário, em casa, com meu pai. Como sempre, assistimos a A felicidade não se compra, e, como sempre, choro até não me aguentar mais. Depois bebemos chocolate quente, e ele me dá o mesmo presente de sempre — trezentos dólares, com um bilhete rabiscado me dizendo para comprar uma coisa bonita. Meu pai é péssimo em dar presentes. Não me importo, porque já tenho o único presente que quero: meu pai, tão saudável quanto pode estar neste momento, vivo e aqui comigo.
Alguns dias depois, Dean volta de St. Bart e me pega de carro em casa, bronzeado e com uma cara boa de quem descansou bastante. Estou surpresa que tenha escolhido dirigir, já que teria sido mais fácil eu pegar o metrô e encontrá-lo no centro, mas, quando pergunto por quê, ele apenas sorri e diz: “Não vamos para Manhattan. Tenho uma surpresa de aniversário para você”.
“Você já me deu uma surpresa de aniversário”, lembro a ele. E é verdade — uma ligação de St. Bart e o sexo por telefone mais quente que já tive na vida. Fiz tanto barulho que devo agradecer à minha estrela da sorte por meu pai ter sono pesado.
“Essa é melhor ainda”, promete Dean, em seguida me dá um beijo rápido nos lábios e começa a dirigir. “Senti saudade.”
Não consigo conter meu sorriso bobo. “Eu também.”
Com uma piscadinha, ele pega a minha mão e coloca em sua virilha. Que está obviamente sofrendo uma transformação. “Míni Dean também.”
“Tô vendo.”
Esfrego a protuberância cada vez maior, e ele geme. “Continue fazendo isso, e vou gozar nas calças”, adverte.
Meu sorriso se alarga. “É um desafio?”
Abro seu zíper e deslizo a mão para dentro da sua cueca, envolvendo seu membro pulsante com os dedos. Nossa, ele não estava brincando. Menos de um minuto de carinhos, e ele geme de novo, apertando o volante com força enquanto arfa uma palavra. “Quase.”
Não o deixo estragar as calças, porque no mínimo são mais caras que a minha mensalidade da faculdade. Em vez disso, abaixo a cabeça e engulo seu gozo, gemendo quando o líquido salgado e masculino toca a minha língua.
“Minha nossa”, murmura ele, e estende a mão para fazer um carinho gentil no meu rosto. “Amo você, gata.”
“Que nada, você só ama ganhar boquete no carro.”
“Você.” Ele balança a cabeça, determinado. “Amo você.”
Estaria mentindo se dissesse que meu coração não dispara pelos ares. Me ajeito no banco do carona, olhando pela janela enquanto atravessamos a ponte em direção a Nova Jersey. Não sei aonde ele está me levando, mas fico feliz em deixá-lo me guiar. Seguiria Dean Di Laurentis até os confins da terra. Para as entranhas de um vulcão, se ele me pedisse para ser a Meg Ryan do seu Tom Hanks. Para Mordor, se ele me pedisse para ser o Sam do seu Frodo. Para…
“Chegamos”, anuncia ele.
Desperto do raciocínio mais ridículo que já formulei. Dean estacionou a BMW na frente de um pequeno prédio no que parece ser uma área industrial em Newark. Espio pelo para-brisa para ler o letreiro. Então perco o fôlego.
Minha cabeça se vira de volta para ele. Está sorrindo.
“Meu Deus. Sério?!”
“Sério.” Ele salta do carro e contorna o para-choque dianteiro para abrir a porta para mim. Pego a mão que ele me oferece e sigo praticamente aos pulos até as portas duplas de vidro. A empolgação borbulha dentro de mim. Meu peito está quente e aconchegado, e a espessa camada de emoção que se agarra à minha garganta dificulta formar frases.
Na entrada do estúdio de dança, olho ao redor até encontrar os olhos cintilantes de Dean. “Achei que você tinha dito que não queria dançar salsa. E Dean Di Laurentis só faz o que quer, lembra?”
Ele dá de ombros. “Tô fazendo o que quero.”
Ergo as sobrancelhas, esperando sua explicação.
“Tô fazendo você feliz.”
Squish. É o barulho do meu coração explodindo. Porque está tão cheio de amor que não consegue mais se conter.
DEAN
A vida real está pedindo licença. Quero dispensá-la e mandar voltar outra hora, mas não é assim que o mundo funciona. Por mais que tenha adorado ficar de bobeira na praia com meus pais, matar a saudade dos meus irmãos e depois colocar um sorriso no rosto da minha namorada ao surpreendê-la com aulas de dança, está na hora de sair do modo férias e entrar no modo rotina.
Minha primeira semana de volta à faculdade é mais cheia do que nunca, com os treinos, as aulas e o Hurricanes tomando a maior parte do meu tempo. Por sorte, Allie está ocupada com os ensaios de novo, então não se queixa de que a nossa vida sexual tenha se resumido a uma série de rapidinhas esta semana.
No sábado, o time perde outro jogo em casa. Ninguém está nem falando mais em “finais”, porque já sabemos que não vai acontecer. Apesar disso, continuo trabalhando mano a mano com Hunter. Não importa o que acontecer nesta temporada (alerta de spoiler: nada vai acontecer), Hunter ainda vai jogar para a Briar no ano que vem, e, com sorte, como capitão.
O treinador O’Shea, que tem sido surpreendentemente agradável ultimamente, libera uma hora extra de gelo para nós na noite de domingo, e Hunter e eu fazemos bom uso dela. Nossos exercícios correm bem, e volto para casa de bom humor. Como não tenho treino amanhã cedo, Allie vai dormir lá em casa, e mal posso esperar para transar com a minha namorada. Transar de verdade. Estou falando de três horas seguidas de paraíso, e não as rapidinhas que fizemos durante a semana.
Entro na cozinha de cabeça baixa. Estou tão focado em ver se Allie me escreveu, que levo um segundo para notar que meus colegas de república estão sentados em volta da mesa. Até Tucker, que anda desaparecido desde que o semestre começou. Nem provoco mais o cara. É óbvio que tem uma namorada. Ou talvez um namorado? Que merda, ele tem sido tão reservado esses dias que nada me surpreenderia.
“O que foi?”, pergunto, distraído.
Ninguém diz uma palavra.
Enfio o telefone no bolso e olho ao redor da mesa. Os rostos assolados fazem meu coração bater mais rápido.
A umidade que vejo nos olhos de Logan me faz parar por completo.
“O que tá acontecendo?”, insisto.
O estranho silêncio se arrasta. Logan esfrega os olhos com o punho fechado.
Merda. Agora estou preocupado. Não, agora estou com medo.
“Sério, se alguém não me disser o que tá acontecendo nesse segundo…”
“O treinador ligou”, interrompe Garrett. Sua voz é baixa. Sombria.
Espero ele terminar. Minhas mãos parecem dois blocos de gelo. E agora elas estão começando a tremer.
“Ele acabou de falar com Patrick Deluca, e, hmm…”
Certo, isso está seguindo num caminho diferente do que eu esperava. Pat Deluca é o treinador do time de futebol americano. O que ele teria para dizer para Jensen?
Garrett vê a minha confusão e continua. “Acho que Deluca ligou, porque sabe que somos amigos de Beau…”
Beau? “É sobre Maxwell?” Interrompo. “O que aconteceu com ele?”
Logan desvia o rosto.
Tucker também.
O único com colhões para sustentar meu olhar é Garrett, que exala um suspiro lento e entrecortado, antes de falar.
“Ele… ah… morreu.”