O Jogo
Capítulo 8
DEAN
O segundo jogo da temporada é um desastre absoluto. Não. Melhor dizendo, é um banho de sangue.
Seguimos em fila até o vestiário no mais absoluto silêncio, a humilhação da derrota nos seguindo feito uma nuvem negra. Foi o mesmo que baixar as calças, mostrar a bunda e pedir uma surra. Demos o jogo de bandeja para o outro time. Não, demos uma goleada de bandeja.
Tiro a camisa, repetindo mentalmente cada segundo do jogo. Os erros que cometemos esta noite estão todos gravados na minha mente. Perder é uma merda. Perder em casa é pior ainda.
Droga, vai ter muito torcedor chateado no Malone’s hoje. Não estou ansioso para ver ninguém, e sei que meus colegas de time estão no mesmo clima. Nenhum deles mais do que Hunter, que arranca o uniforme às pressas, como se estivesse coberto de formigas assassinas.
“Você fez bons disparos ao gol hoje”, digo a ele, e é verdade. Perdemos de zero, mas não foi por falta de tentativa. Jogamos duro. Só que o outro time jogou mais forte.
“Teria sido melhor se um deles tivesse entrado”, resmunga ele.
Abafo um suspiro. “O goleiro estava uma muralha hoje. Nem o G. conseguiu dobrar o cara.”
Nesse momento, Garrett se aproxima do armário e é rápido em tranquilizar o calouro de cara amarrada. “Não esquenta. Ainda falta muito hóquei para jogar nesta temporada. Vamos recuperar.”
“É. Claro.” Hunter não está convencido. Mas o nosso momento motivacional não dura muito, porque o treinador Jensen entra no vestiário a passos largos, seguido por Frank O’Shea.
O treinador não perde tempo em oferecer um dos seus breves discursos pós-jogo. Como de costume, é como se tivesse uma lista de itens a cumprir.
“Perdemos. É uma merda. Não deixem isso afetar vocês. Só significa que temos que trabalhar mais nos treinos e jogar com mais garra na próxima partida.” Ele acena para todos e vai embora.
Eu poderia até imaginar que está com raiva da gente, não fosse pelo fato de que seus discursos depois de uma vitória seguem praticamente a mesma linha: Ganhamos. É muito bom. Não deixem isso afetar vocês. Vamos continuar trabalhando pesado nos treinos e ganhar mais partidas. Se algum dos calouros estava esperando que ele fizesse discursos motivacionais épicos no estilo Kurt Russell em Desafio no gelo, vai ficar muito decepcionado.
O’Shea permanece no vestiário. Meus ombros se tensionam instintivamente quando o homem se arrasta na minha direção, mas ele me surpreende ao dizer: “Boa cobertura na zona defensiva hoje. Você foi uma parede no segundo período”.
“Obrigado.” Ainda estou desconfiado com o elogio inesperado, mas ele já seguiu em frente e foi elogiar Logan por ter controlado bem a desvantagem numérica do terceiro período.
Jogo meu equipamento numa das enormes caixas de lavanderia, então sigo para os chuveiros para expurgar o fedor de derrota do corpo. Odeio perder, mas não me permito chafurdar na questão por mais que dez minutos. Meu pai me ensinou o truque quando eu tinha oito anos, depois de uma derrota particularmente desmoralizante numa partida de lacrosse.
“Você tem dez minutos”, avisou ele. “Dez minutos para pensar no que fez de errado e em como está se sentindo agora. Pronto?”
Com um relógio na mão, ele apertou um botão e me cronometrou, e, por dez minutos, meditei e fiquei emburrado, remoendo a humilhação. Lembrei dos erros que cometi em campo e os corrigi na minha cabeça. Me imaginei socando cada um dos jogadores adversários na boca. E aí meu pai me disse que meu tempo tinha acabado.
“Pronto. Acabou”, anunciou ele. “Agora você vai olhar para a frente e descobrir como pode melhorar.”
Cara, amo meu pai.
Ao sair do chuveiro, a amargura da derrota já havia sumido, escondida num arquivo interno, numa pasta chamada “Coisas ruins”.
Acho que Garrett usa a mesma técnica, porque está praticamente saltitante quando nos encontramos com Hannah no estacionamento. Ele a puxa para os seus braços e lhe dá um beijo na boca. “Oi, gata.”
“Oi.” Ela se aconchega junto a ele. “Tá ficando tão frio! Aposto que pode começar a nevar a qualquer momento.”
Ela não falou nenhuma mentira. Está um gelo aqui fora, e cada respiração nossa sai numa nuvem branca.
“Vamos pro bar ou pra casa?”, pergunta Logan, se aproximando dos nossos carros.
“Bar”, anuncia Garrett. “Não tô no clima de convidar ninguém lá pra casa hoje. O que vocês acham?”
Depois de um jogo, a gente vai ou para o Malone’s ou chama os outros jogadores e os amigos lá para casa, mas é óbvio que ninguém está na vibe de uma festa hoje.
“Bar”, repete Logan, e concordo com a cabeça.
“Vamos esperar o Tucker?” Dou uma olhada ao redor, mas não vejo nosso colega de república em lugar nenhum. “E a Grace?”
“Tuck já saiu com Fitzy”, responde Logan. “E a Grace não vem hoje. Tá trabalhando na rádio.”
Fingindo indiferença, olho para Hannah. “E a sua cara-metade?”
“Tô bem aqui”, responde Garrett, presunçoso.
“Quero dizer a outra cara-metade.” Sorrio para Hannah. “A loirinha dramática que tá sempre com você.”
“Não quis sair hoje. Tá ocupada demais sofrendo.”
“Sofrendo com o quê?” Mas já sei a resposta. O ex-namorado, claro.
Hannah confirma meus pensamentos. “Sean. Ele ligou pra ela hoje de manhã, e não sei o que disse, mas ela ficou muito quieta depois e tá toda chorosa desde então. Eu teria ficado em casa hoje, mas não quis perder o jogo.”
Garrett se inclina para beijar sua bochecha avermelhada pelo frio. “Que bom que você veio. Agradecemos a torcida, amor.”
“Tô tão chateada que vocês perderam”, comenta ela, mas estou mais preocupado com a ideia de Allie sozinha no alojamento, deprimida. No mínimo está entupindo os ovários com sorvete e ouvindo Mumford & Sons.
“Tem certeza que você não deveria ir pra casa fazer tranças no cabelo dela ou algo assim?”, pergunto a Hannah. “É isso que as garotas fazem pra dar apoio moral, não é?”
“É, Dean. É exatamente isso. Penteamos o cabelo uma da outra, e depois fazemos uma guerra de travesseiro peladas e terminamos com treino de beijo.”
“Posso participar?”, Logan e eu deixamos escapar em uníssono.
“Vai sonhando. E não, não vou pra casa agora. Mandei uma mensagem pra Allie no terceiro período, e ela insistiu que tá tudo bem. Fez umas margaritas e tá vendo uma série horrível. Sério, horrível mesmo. Não voltaria pra lá agora nem por um decreto.”
“Que série?”, pergunta Garrett, curioso.
“A pior coisa que já aconteceu na história da televisão”, é tudo o que ela diz, e todos riem.
Logan dá um tapa no capô da minha BMW. “Vamos?”
Hesito. “Na verdade, você se incomoda de ir com o G. e a Wellsy? Preciso fazer umas coisas primeiro. Encontro vocês lá.”
“Claro”, responde ele, sem titubear. Então se afasta do meu carro e segue na direção do Jeep de Garrett.
Me ajeito atrás do volante e ligo o motor, mas espero até o Jeep desaparecer do estacionamento antes de tirar o carro da vaga. Só tenho uma coisa a fazer, e não quero que nenhum dos meus amigos saibam do que se trata.
ALLIE
Quando ouço a batida na porta, meu primeiro pensamento é que é o Sean. Então torço para que não seja, porque depois da conversa bizarra e perturbadora que tivemos hoje de manhã não estou pronta para vê-lo.
“Eu te perdoo.”
Ele jogou as três palavras para cima de mim no instante em que atendi o telefone. E eu tive que me conter para não cuspir algo desagradável em resposta, porque o perdão implica que cometi um erro ao dormir com outra pessoa, o que não foi o caso. Não o traí. Não menti para ele. Claro que não me orgulho de ter transado com Dean logo depois de terminar com Sean, mas não sou a primeira garota a tentar esquecer um relacionamento dormindo com outro, e sem dúvida não vou ser a última.
Ainda assim, apesar do ressentimento que o “perdão” provocou em mim, lá no fundo me deixou aliviada. Estou me sentindo superculpada pela noite com Dean, então talvez a absolvição seja exatamente o que eu procurava quando confessei meu pecado a Sean no outro dia.
O que não significa que eu esteja pronta para vê-lo cara a cara. Ele perguntou se a gente podia se encontrar para um café, alegando que tinha mais a dizer, mas que não queria fazer isso pelo telefone. Falei que ia pensar no assunto. Agora, depois da segunda batida na porta, espero mesmo que ele não tenha decidido forçar a barra.
Eu me preparo para um confronto e abro a porta. Mas não é Sean. É Dean.
“E aí, gata?” Ele me oferece um sorriso e abre caminho para dentro da sala. “A Wellsy disse que você estava de mau humor, então resolvi dar uma passada aqui e colocar um sorriso nesse rostinho.”
“Não tô de mau humor”, resmungo.
“Melhor ainda. Me poupa o trabalho.” Ele abre a jaqueta e joga no braço do sofá. Então tira a camiseta, o que o deixa com nada além da calça jeans desbotada.
Olho para ele, incrédula. “Você tem mesmo que tirar a camiseta?”
“Tenho. Não gosto de camisetas.”
Ele não gosta de camisetas.
Esse cara… droga, não sei o que pensar.
Ele se vira para o sofá, e o movimento da bunda musculosa na calça justa me faz lembrar de como era forte quando a apertei. Em seguida, ele se acomoda nas almofadas, o que faz com que o jeans estique na parte da frente, e agora estou lembrando do jeito como minha boca salivou quando o pau de Dean estava dentro dela.
“Isso, gata. Chupa com vontade.”
A ordem rouca ecoou na minha mente. Meus lábios começam a formigar, porque, nossa, eu chupei mesmo. Como se fosse um pirulito, um sorvete de casquinha e todas as outras gostosuras imagináveis, todas num só pau duro.
Merda, acho que posso estar corando, o que confirmo no instante em que Dean pisca para mim. Será que sabe que estou pensando em fazer um boquete nele?
Onde estou com a cabeça? Claro que ele sabe. Um cara como Dean provavelmente acha que todo mundo está o tempo inteiro pensando em fazer um boquete nele.
Ele estende um braço ao longo do encosto do sofá e me chama com o outro. “E aí, não vai sentar?”
“Estou bem em pé, obrigada.”
“Ah, sério? Eu não mordo.”
“Morde sim.”
Seus olhos verdes se iluminam. “Tem razão. Mordo sim.”
Ele parece confortável demais no meu sofá. Um Adônis louro com o peito bronzeado, os músculos esculpidos e o rosto perfeitamente desenhado. Se esse negócio de hóquei não der certo, ele deveria considerar a carreira de modelo. Dean Di Laurentis exala sexualidade. Esse rosto numa marca de laxante faria todas as mulheres do mundo rezarem por uma constipação só para terem uma desculpa para comprar o remédio.
“Sério, Allie-Cat, senta logo. Assim parece que eu não sou bem-vindo.”
“Você não é bem-vindo”, exclamo. “Eu estava tendo uma noite perfeitamente agradável até você aparecer.”
Ele parece magoado, mas não sei se é genuíno ou se está fazendo cena. Suspeito que seja o segundo caso. “Você não gosta mesmo de mim, né?”
Sinto uma pontada de culpa. Droga. Talvez seja genuíno. “Não é isso. Gosto de você. Mas não estava brincando quando disse que não gosto de sexo casual, tá legal? Toda vez que penso no que a gente fez no fim de semana, me sinto…”
“Com tesão?”, sugere ele.
É. “Uma piranha.”
Não esperava a irritação que vejo em seus olhos. “Quer um conselho, gata? Apaga essa palavra do seu vocabulário.”
De repente, me sinto culpada de novo, mas não sei por quê. Com muita relutância, sento ao seu lado no sofá, mantendo uma distância entre nós.
“Falando sério”, continua ele. “Para com essa história de ficar se culpando por causa do sexo. E foda-se a palavra ‘piranha’. As pessoas têm o direito de transar quando bem entenderem, com quem elas quiserem e com quantas pessoas tiverem vontade. Ninguém tem que carregar na testa essa merda de rótulo de piranha.”
Ele tem razão, mas… “O rótulo tá aí, quer a gente queira, quer não”, argumento.
“Sim, e foi criado por uma gente careta, que gosta de falar mal dos outros e fica se remoendo de inveja por dentro porque não transa com ninguém.” Dean balança a cabeça. “Você precisa parar de achar que tem alguma coisa de errado no que a gente fez. A gente se divertiu. Fizemos sexo seguro. Ninguém se machucou. O que você ou qualquer pessoa faz dentro de quatro paredes não é da conta de ninguém, entendeu?”
Curiosamente, suas palavras suavizam um pouco da vergonha entalada dentro de mim desde sexta-feira. Mas não por completo. “Contei para o Sean”, confesso.
Dean faz uma careta.
“Não de você”, acrescento, às pressas. “Só falei que dormi com outra pessoa.”
“Por que você fez isso?”
“Não sei.” Solto um gemido. “Achei que devia a ele dizer a verdade, o que é uma maluquice, né? Quer dizer, a gente não tá mais junto.” Outro gemido desliza para fora da minha boca, desta vez, mais angustiado do que o primeiro. “Mas passamos tanto tempo juntos. Tô tão acostumada a contar tudo pra ele.”
Dean acaricia distraidamente a almofada atrás da minha cabeça. O movimento me chama a atenção para o seu bíceps, o flexionar delicioso de músculos tonalizados por anos de atividade física. “Fala a verdade”, diz, por fim. “Você quer voltar com ele?”
Nego com a cabeça em um gesto lento.
“Tem certeza disso?”
“Tenho.” Penso nas brigas infinitas que tivemos desde o verão e me sinto ainda mais segura da decisão de acabar com tudo. Todos os comentários maldosos que ele jogou na minha cara… a forma como zombou dos meus sonhos… os ultimatos sobre o futuro…
Sean pode ter me perdoado pelo que fiz depois da nossa separação, mas, para falar a verdade, não tenho certeza se o perdoei pelo que ele fez antes dela.
“A gente não era mais bom um para o outro.” Engulo a dor na garganta. “Se fosse possível ficar na faculdade para sempre, então sim, Sean e eu provavelmente estaríamos juntos. Mas tá na hora de crescer, e queremos coisas completamente diferentes para o futuro. Ou pelo menos é o que acho. Essa separação tá dando um nó na minha cabeça. Nem sei mais o que pensar.”
“Esse é o seu problema. Você pensa demais.”
Não consigo conter o riso. “Puxa, esse é o seu conselho? Parar de pensar?”
“Parar de se obcecar.” Dean dá de ombros. “Você terminou com o cara por um motivo — um motivo muito bom, se quer saber a minha opinião —, e agora tem que seguir em frente com essa decisão. Parar de falar com o sujeito e de duvidar de si mesma.”
“Tem razão”, digo, a contragosto.
“Claro que tenho. Eu sempre tenho razão.” Com um sorriso arrogante, ele se aproxima e descansa a mão no meu joelho. “Certo, o plano pra hoje é o seguinte: primeiro, a gente dá umazinha, para diminuir a tensão. Depois, pede uma pizza e recupera as energias, e aí começamos a segunda rodada. O que você acha?”
A exasperação cresce dentro de mim. Toda vez que acho que Dean é mais do que um pervertido obcecado por sexo, ele vai e prova que estou errada. Ou melhor, prova que estou certa.
“Já pensou em falar com um psiquiatra sobre esses delírios?”, pergunto, com educação. “Porque, cá entre nós, gatinho, não tem a menor chance de a gente transar hoje.”
“Certo. E que tal se a gente só fizesse um pouco de oral?”
“Que tal se você fosse embora?”
“Contraproposta: eu fico, e a gente dá uns amassos.”
Nossa, o cara é incorrigível. “Contraproposta: você fica, mas não tem permissão pra falar.”
Ele rebate com: “Eu fico, você me deixa falar, mas não dou em cima de você”.
Penso por um instante. “Você fica, não dá em cima de mim e ainda tem que assistir à minha série sem reclamar.”
Um largo sorriso se abre, ocupando todo o seu rosto. “Aceito os seus termos, senhora.”