O Jogo
Capítulo 19
ALLIE
De acordo com o mendigo Lou, do Brooklyn, um déjà-vu é só uma falha que acontece quando os alienígenas tentam acessar suas memórias. Acho que é isso que os homenzinhos verdes estão tentando fazer agora, porque, minha nossa, virei a rainha do déjà-vu.
A noite de sexta-feira começa da mesma forma que há duas semanas. Saio da academia com a bolsa de ginástica numa das mãos e o telefone na outra. Tem três mensagens não lidas de Sean esperando por mim.
Eu leio e solto um gemido. Ele precisa muito, muito mesmo, falar comigo. Droga.
Consegui, de alguma forma, evitá-lo por duas semanas. O sexo com Dean tem servido como uma bela distração, mas, essa noite, não vou ter esse luxo. Dean ainda está no rinque, no jogo do Hurricanes, e depois tem planos com Beau.
Preciso decidir o que fazer com Sean. Quero falar com ele? Adianta? Estou começando a achar que as separações anteriores não vingaram porque tentamos continuar amigos. É uma péssima ideia. Não dá para ser amiga de um ex, pelo menos não de cara. Megan insiste que é preciso no mínimo um período de seis meses sem contato nenhum até você poder sequer considerar a possibilidade.
Não que Megan seja uma especialista em relacionamentos. Na última vez em que falei com ela, ainda estava saindo com o médico de trinta e sete anos, mas continuava inventando desculpas para não conhecer a filha dele. Se ela não consegue se abrir com ele sobre seus medos e preocupações, como isso pode ser uma receita para uma relação saudável?
Mas eu deveria estar preocupada com a minha própria vida amorosa agora. Bem, minha ex vida amorosa, porque não amo mais Sean McCall. É assustador como meus sentimentos se extinguiram depressa.
Minha mãe costumava dizer que o tempo cura todas as feridas. Isso definitivamente é verdade. No ano seguinte ao da morte dela, bastava imaginar seu rosto para desencadear uma onda de dor angustiante. Agora, quando penso nela, ainda dói, mas de um jeito mais contido e nostálgico. Sinto sua falta, mas não tenho vontade de me enrolar em posição fetal e chorar o dia inteiro.
Mas isso é o luto. Acho que o amor demoraria mais tempo para desaparecer, o que me faz pensar se talvez o processo não começou muito antes de Sean e eu terminarmos. Talvez eu tenha deixado de amá-lo antes e não percebi.
E talvez tomar um café não seja uma ideia terrível. Acho que é possível usar a ocasião como uma oportunidade para avaliar como meu coração responde diante dele.
Subo as escadas do alojamento ainda considerando a questão. A Bristol House só tem quatro andares, por isso não tem elevador, são só quatro lances de escada carregando minha bolsa de ginástica.
Chego ao nosso corredor e fico paralisada ao ver Sean sentado diante da minha porta.
Mais uma vez, ele decidiu por mim.
Está com o pescoço curvado, o rosto colado ao telefone, mas ergue a cabeça ao ouvir meus passos. Em seguida, está de pé, andando na minha direção.
Meu coração responde, mas não da maneira como eu esperava. Sean não mudou nada — o cabelo escuro saindo pela lateral do boné do Red Sox com a aba para trás, os olhos castanhos profundos, a barba feita. Ver esse menino com quem passei três anos da minha vida não deveria fazer meu coração doer?
Mas tudo o que sinto é irritação.
“Não fica brava comigo”, implora, em vez de dizer “oi”. Sem dúvida notou meu desagrado. “Sei que não devia ter vindo sem avisar.”
“Então por que veio?”
“Porque você não tá respondendo as minhas mensagens.” Ele balança a cabeça com raiva. “Passamos quase quatro anos juntos, Allie. Você não tem cinco minutos pra falar comigo?”
“Não tenho nada a dizer.” Abro a porta e jogo a bolsa no corredor. Quando Sean tenta me seguir para dentro do alojamento, fecho a cara e seguro a porta para impedi-lo.
Ele faz uma cara feia. “O quê? Tô proibido de entrar agora?”
“Não tem razão nenhuma pra você entrar. Desembucha, Sean.”
“Não vou fazer isso no corredor, com o andar inteiro me ouvindo.”
Inspiro fundo. Não sei por que estou sendo tão dura agora. Talvez porque vê-lo me faça lembrar da briga que levou à nossa separação. Todas as palavras injustas, insensíveis e cruéis que ele jogou na minha cara.
Eu me obrigo a expirar. Provavelmente estou sendo extremamente grossa porque o ensaio de hoje foi outra porcaria. A sessão de esteira a um ritmo alucinante também não ajudou.
“Olha, preciso desesperadamente de um banho, então por que a gente não se encontra na cafeteria em meia hora? Lá a gente conversa.”
Ele continua chateado por não poder entrar, mas concorda. “Tá bom. Acho que tô precisando de um pouco de cafeína.”
Faço que sim com a cabeça. “Daqui a pouco eu tô lá.” Em seguida, fecho a porta e me recosto contra ela por alguns segundos. Merda, acho que não quero ter essa conversa, seja ela qual for.
Queria que Hannah estivesse aqui para me dar um conselho sobre como lidar com isso, mas ela está no ensaio. Com o festival chegando, duvido que a veja com frequência antes de sua apresentação.
No chuveiro, me lembro que terminei com Sean por uma razão. Bem, muitas razões. Queríamos coisas diferentes do futuro. Eu não estava feliz. Ele vivia com raiva.
Resumindo, era muito sofrimento e pouca gratificação. Gosto de imaginar que minha mãe concordaria comigo nisso. Sim, ela me encorajou a sempre tentar salvar meus relacionamentos, e sim, relacionamentos exigem esforço, mas eles não têm que ser hostis, né?
Não consigo imaginar uma coisa que Sean possa me dizer que me faça mudar de ideia.
Sean pegou para nós uma mesa nos fundos da cafeteria movimentada, meio escondida atrás de um vaso grande de cerâmica com uma espaçosa samambaia falsa. Não entendo muito bem a decoração deste lugar. Tem plantas demais — é uma temática de selva? Mas não estou nem aí. Adoro o cheiro de café moído na hora, e fico grata pela privacidade.
Sean desliza um copo alto de isopor na minha direção. “Pedi um café pra você.” Sorri, com uma expressão amarga. “Café com leite sabor baunilha e uma dose extra de expresso.”
Desta vez, meu coração reage de acordo, batendo apertado. Claro que ele sabe o que costumo pedir. Sean sabe tudo ao meu respeito, e vice-versa. Não preciso conferir o copo dele para saber que está bebendo um expresso de torra média, com creme, sem açúcar. E que a embalagem de papel sobre a mesa contém um muffin de mirtilo, que é o único tipo de muffin que ele come. Quando estávamos juntos, eu o obriguei a experimentar todos os muffins e tortas do balcão, mas ele insistiu que mirtilo é o único sabor que “encanta” as suas papilas gustativas.
Merda. Agora estou só triste.
“Tudo bem com você?”, pergunta ele, em voz baixa.
Ai, não, vamos começar trocando amenidades? Seguro meu copo com ambas as mãos para não ficar remexendo os dedos. “Tudo certo. E você?”
“Já estive melhor, mas…” Ele dá de ombros.
Percebo que parece cansado. Será que não está dormindo bem? Engulo a pergunta antes que ela me escape aos lábios. Não estamos mais juntos. Se ele dorme ou não bem não é mais da minha conta.
“Sinto sua falta”, murmura ele.
Dou um gole no café. Não respondo que também sinto, porque a verdade é que… não sinto falta dele. Assim que terminamos, claro que sentia. Mas, depois, estava com outras coisas na cabeça. A peça. Dean…
Diante da minha falta de resposta, ele segue em frente, o olhar abatido. “Andei pensando muito desde que você terminou comigo. Fiz um longo exame de consciência.”
Finalmente encontro minha voz. “Isso é bom. Fico feliz.”
“Estava pensando nos últimos seis meses e percebi o quanto estraguei tudo. Fui horrível com você, Allie.” Sua expressão é séria. “Mas agora sei por quê.”
Minha garganta se aperta. “Por quê?”
“Porque estava com medo.”
Ah, merda. Vejo a vulnerabilidade boiando em seus olhos. Luto contra o impulso irresistível de estender o braço e apertar sua mão.
Não é mais meu trabalho cuidar dele.
“Você tem o futuro todo planejado desde que tinha doze anos. Sabia exatamente o que queria fazer, e isso é muito raro. Não é todo mundo que pode dizer isso.” Seu tom torna-se triste. “Eu com certeza não posso. Não cresci sonhando em trabalhar para a companhia de seguros do meu pai. Mas é um trabalho garantido, e não é todo mundo que tem isso, principalmente logo depois de sair da faculdade, mas eu não estou exatamente contando os minutos até a hora de voltar pra Vermont.”
“Você sem dúvida fez soar como se fosse”, saliento.
“Porque é a única opção que tenho.” Ele soa frustrado. “Estava tentando ficar animado com ela. E… sinceramente, imaginar você lá comigo tornava a ideia de voltar para casa mais suportável. Um remédio mais fácil de engolir, acho. Mas não foi justo com você. Não tinha o direito de insistir que você sacrificasse o futuro que quer só para eu me sentir melhor com o futuro ao qual estou preso.”
Fico estupefata. Sean não dera qualquer indicação de que não queria ir para Vermont, mas acho que esse é só mais um sinal da falha de comunicação entre nós.
“No nosso primeiro encontro, você me avisou que planejava se mudar para Los Angeles depois da formatura. Você continuou me dizendo isso até o momento em que terminamos.” Ele balança a cabeça, envergonhado. “Mas, neste verão, decidi não ouvir mais. Eu me convenci de que eu era a coisa mais importante da sua vida e que você iria para onde quer que tivesse que ir para ficar comigo.”
“Não é justo ter essa expectativa de ninguém”, digo, suavemente. “Você não pode mandar alguém colocar a felicidade em segundo plano em favor da sua própria.”
“Eu sei, e errei em dar um ultimato. Como já disse, andei pensando muito.” Ele respira. “E cheguei a algumas conclusões.”
Ele enfia a mão no bolso do casaco, e meu coração sobe até a boca. Ai, meu Deus. Por favor, não deixe ele tirar uma caixinha de joias de veludo do bolso.
É maluquice o fato de que eu quase desejo que ele saque uma arma? Que planeje fazer todo mundo de refém até eu concordar em voltar para ele? Por alguma razão muito deturpada, acho que estou mais bem equipada para lidar com isso do que com um pedido de casamento.
Mas sua mão volta com um envelope fino. Ele o coloca sobre a mesa.
“O que é isso?” Fico olhando para o envelope como se contivesse Anthrax.
“Abra”, insiste ele.
Puta merda.
“Por favor.”
A sinceridade em sua voz me faz obedecer. Pego o envelope. Está lacrado, mas a aba está dobrada para dentro, então uso a unha para abri-la. Espreito o conteúdo e vejo uma única folha de papel, que retiro e desdobro, lutando contra a apreensão crescente.
Primeiro me vem o espanto. Depois a suspeita. Seguidos de uma angústia profunda, porque… o que vou dizer diante disto?
Estou segurando um recibo de confirmação da compra de duas passagens de avião para Los Angeles, Califórnia. O voo sai no dia seguinte à formatura.
Mordo o lábio e olho para Sean.
“Você e eu, linda”, diz, fervoroso. “Era o que eu deveria ter feito desde o início. Foi idiota tentar forçar você a se mudar para Vermont. O que eu precisava fazer era engolir o meu orgulho e ir para Los Angeles. Com você.”
Ai, Deus. Por que insisti em encontrar com ele em público? Em público é ruim. Em público significa que todo mundo está prestes a testemunhar a agonia e a humilhação de Sean quando eu disser…
“Não.”
Uma incerteza perpassa seu rosto. “O quê?”
“Você não vai para Los Angeles comigo.”
Sean abre a boca. Em seguida, fecha. E abre novamente. Dou um momento para digerir o que acabei de dizer. Infelizmente, é o mesmo momento em que meu telefone vibra. Vasculho a bolsa e… ótimo, uma mensagem de Dean.
Ele: O jogo acabou. Hurricanes deu um show. Beau só vai poder sair mais tarde. Rapidinha?
Nossa, como eu queria.
Eu: Não posso. No meio d algo foda aqui.
“Por que não?”, Sean enfim pergunta.
“Porque…” Estou distraída.
Ele: Td bem?
Eu: Td. Tomando café c/ Sean.
Há uma pausa interminável.
Sean ainda está esperando minha resposta. Eu estou esperando a resposta de Dean. Percebo que provavelmente não deveria ter falado para Dean, mas estava digitando no piloto automático.
Ele volta com:
Q merda.
Eu: Eu sei. *suspiro* Dps eu explico, tá?
Não há mais resposta depois disso, e Sean está cada vez mais irritado. “Pra quem você tá escrevendo?”, exige saber.
“Hannah”, minto.
A pior parte de namorar alguém por tanto tempo quanto namorei Sean? A outra pessoa sempre sabe quando você está mentindo.
“Mentira.” A raiva infunde seus olhos, escuros e ferozes. “É aquele cara? Com quem você dormiu?”
“Não, não é.” Desta vez, nem me importo se ele perceber que é mentira. “E mesmo que fosse, não é da sua conta. Estamos separados.” Inspiro. “E é por isso que você não pode ir para Los Angeles comigo.”
A boca de Sean se achata. Seu rosto e pescoço adquirem um tom profundo de vermelho. Até as pontas das suas orelhas estão rubras. “Você não está falando sério.”
“Quis. Sinto muito. Só acho que… chegou a hora de nós dois seguirmos em frente.”
“Você quer dizer seguir em frente ou sair com outras pessoas?” A soberba de seu tom me faz eriçar os pelos. “Tipo esse cara que você não quer me dizer quem é?”
Eu poderia ser bem idiota e cuspir outro “não é da sua conta” na cara dele. Ou poderia dar uma de filósofa e usar o papo furado de que “se você ama alguém, deixe-o livre”.
Não faço nenhum dos dois. Simplesmente deslizo as passagens de volta para ele e digo: “Sinto muito. Espero que você consiga um reembolso para isso. E torço muito para você descobrir a sua paixão, seja trabalhar para o seu pai ou fazer outra coisa.” Droga, estou engasgando. “Desejo o melhor para você, Sean, de verdade. Quero que você seja feliz.”
Ele não responde. Apenas fica ali. Petrificado.
Arrasto a cadeira para trás. Minhas mãos tremem ao vestir o casaco. Não perco tempo dizendo que ainda podemos ser amigos, porque sei que ele não quer ouvir isso agora. Além do mais, não vou fazer promessas que talvez não consiga cumprir.
“Tchau, Sean”, digo, baixinho.
Vinte e quatro horas depois do doloroso encontro com meu ex-namorado, está na cara que Dean está me dando um gelo.
Mandei uma mensagem para ele depois que saí do café, perguntando se ainda queria me encontrar.
Nenhuma resposta.
Mandei outra mais tarde, perguntando se ele saiu com Beau.
Nenhuma resposta.
Mandei uma para dizer boa-noite.
Nenhuma resposta.
Mandei uma para dizer bom-dia.
Nenhuma resposta.
Agora, sentada sozinha na minha cama num sábado à noite, estou achando difícil dar uma folga a Dean. Na noite passada, estava totalmente disposta a assumir a responsabilidade. Claro que, quando descobriu que eu estava com Sean, Dean presumiu o pior, e não o culpo por ficar chateado com isso. Algumas horas de mau humor é uma reação perfeitamente razoável para alguém que achou que eu poderia ter reatado com meu ex.
Mas vinte e quatro horas? Aí já é palhaçada. Se Dean está com raiva de mim, tudo bem, que fique com raiva. Se cansou de mim, tudo bem, o que posso fazer? Mas que pelo menos tenha a coragem de dizer para mim. Ignorar alguém até a pessoa entender o recado é francamente um insulto, e não tenho paciência para isso.
Pego o laptop na mesa de cabeceira, porque preciso desesperadamente de uma distração, e não tem nada melhor para isso do que assistir a vídeos fofinhos no YouTube. Com alguma sorte, vai ter um bebê girafa por aí que desatou a tossir, ou um bebê hipopótamo que resolveu pular numa lagoa.
De alguma forma, acabo no Twitter. E ora, vejam só. Dean está vivo. Agora, não pode usar “tinha morrido” como desculpa para estar me desprezando, porque tem um aluno da Briar tuitando ao vivo o jogo em casa de hoje, e ele acabou de mencionar um gol de “Di Laurentis”.
Fecho o navegador e pulo da cama. Talvez seja masoquista, mas ver o nome de Dean me faz querer ver Dean. Quero respostas, droga. Quero que ele me olhe nos olhos e me diga se este caso acabou.
Levo quase trinta minutos para caminhar até a arena, que fica na ponta oposta do enorme campus da Briar. Na bilheteria, apresento minha carteirinha de estudante para poder comprar com desconto. A aluna e vendedora diz: “Só tem lugar em pé”, e desliza um bilhete sob o vidro.
Um minuto depois, estou na área reservada para quem veio assistir à partida de pé. O segundo período acabou de começar.
Olho o rinque, tentando lembrar o número da camisa de Dean. Não tenho a menor ideia, então começo a ler os nomes nas costas das camisas pretas e prata. O sobrenome de Dean é tão grande que deve ser fácil de achar, mas não, não o vejo no gelo. Talvez sua linha não esteja jogando agora? Mas ele também não parece estar no banco do time da casa.
Estranho.
Num impulso, abro o Twitter no celular e procuro o perfil que estava acompanhando antes. Talvez @BriarBryan38 tenha tuitado mais alguma coisa quando eu estava vindo para cá. Repasso seus últimos posts, até um me chamar a atenção.
Meu coração sobe até a boca.
Dean foi expulso.