O Jogo

Elle Kennedy · Capítulo 16 de 39

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O Jogo

Capítulo 15

 

DEAN

 

A partida de sábado à noite contra o Yale começa promissora.

Depois de um gol de Garrett logo no começo do jogo, conseguimos manter o Yale fora da nossa área a maior parte do primeiro período. Bem, menos quando Brodowski sai completamente de posição e dá uma abertura para o ala direita e um jogador de centro do Yale.

Graças a essa burrada, fico em desvantagem, e é pura sorte que o Yale não marque um gol — o disco bate na trave. Me jogo em direção a ele e dou um passe rápido para Hunter. Felizmente, nossos atacantes voam pela linha central e entram no campo do Yale, enquanto faço de tudo para não estrangular Brodowski no caminho do banco, para uma troca de linha.

Jogo água na cara pela grade do capacete e cuspo no chão. O suor me escorre do rosto pelo esforço que tenho feito para defender sozinho a área.

Ao meu lado, Brodowski está morrendo de vergonha. “Errei na cobertura”, murmura para mim.

Cerro os dentes e digo: “Acontece com os melhores”. Porque é isso que se diz quando se faz parte de um time. Aqui na Briar não ficamos procurando culpados para crucificar.

Mas, se alguém tem culpa da abertura, sem dúvida é Brodowski.

“O que aconteceu com seu lábio?”, pergunta ele, estudando o corte vermelho e fino que marca meu lábio inferior.

“Sexo”, resmungo, em resposta.

Do meu outro lado, Tucker ri. Ele me perguntou a mesma coisa hoje de manhã, e ofereci a mesma não resposta.

Do outro lado de Tucker, um de nossos alas do primeiro ano parece muito impressionado. “Você é meu ídolo, cara”, exclama.

A primeira linha continua no rinque até o final do período, e seguimos para o vestiário com uma vantagem de um a zero. Pela primeira vez em semanas, o moral do time está alto.

O segundo período começa exatamente igual ao primeiro. Outro gol logo no início, dessa vez cortesia de Fitzy. Estamos ganhando de dois a zero agora, e o time de Yale está sentindo a pressão. Como resultado, eles caem pra cima da gente, jogando de forma agressiva e fazendo um disparo atrás do outro para o gol. Patrick Corsen, nosso goleiro, está longe de ser tão talentoso quanto Simms, que se formou no ano passado. Também tem o péssimo hábito de se afastar muito do gol, então, quando o ala adversário rebate um passe vindo da defesa deles pelo meio, Corsen não consegue deter o disco.

Mas tudo bem. Ainda estamos ganhando. Por… mais uns trinta segundos. Estou entrando no rinque quando o mesmo ala que acabou de marcar o gol dá um drible impressionante em Corsen e dispara mais uma vez. O filho da mãe marca de novo. Dois gols em menos de um minuto, e, de uma hora para a outra, a liderança vira um empate.

O restante do segundo período corre sem gols.

No terceiro, nosso mundo desaba. Não sou capaz nem de contar todos os nossos erros — é uma burrada atrás da outra.

Logan leva uma penalidade de dois minutos por bater com o taco num adversário. Yale aproveita e marca mais um.

Dois a três.

Wilkes também é punido e vai parar no banco. Yale marca de novo.

Dois a quatro.

Corsen é driblado por um ala, que se move como se fosse bater baixo, mas acaba lançando o disco por cobertura. Ele enche a rede no cantinho esquerdo. Yale faz outro gol, e dessa vez nem estávamos em desvantagem numérica.

Dois a cinco.

Hunter acerta um lançamento de primeira.

Três a cinco.

Cometo um pênalti idiota. Yale marca de novo.

Três a seis.

Soa o apito final, e perdemos a terceira partida da temporada. Que maravilha.

 

* * *

 

Antes de entrar no ônibus, O’Shea me puxa de lado. Ele já gritou comigo e com Logan no vestiário pelos pênaltis imbecis que resultaram em dois gols para o outro time, e espero sinceramente que não venha com a mesma história de novo. Estou com um humor péssimo, e meus filtros verbais não estão trabalhando muito bem. Se O’Shea me encher o saco, não sei se vou conseguir me controlar.

“Sim, treinador?”, pergunto, o mais educadamente possível.

Seus olhos escuros piscam para mim, e ele então enfia a mão no bolso e pega um BlackBerry. O que me distrai momentaneamente, porque não lembro a última vez que vi um BlackBerry. Todo mundo usa iPhone hoje em dia, certo?

“Tem alguma coisa para me dizer?”, pergunta O’Shea, com frieza.

Não tenho a menor ideia do que ele está falando. “Hmm… sobre o quê?”

Ele faz um barulhinho com a língua. Sem dizer uma palavra, me dá o telefone.

Sinto um ligeiro mal-estar no intestino ao olhar para a tela. É uma conta de Instagram que nunca vi, mas a foto em questão tem um monte de rostos conhecidos, inclusive o meu. Não sei quem bateu, mas só pode ter sido uma menina no Malone’s, na quinta-feira, porque a legenda da imagem diz #GatosDoHóquei e #GostososDaBriar.

Vou ser sincero — não consigo entender qual é o problema. Na foto, eu e os caras estamos brindando com copinhos de shot. Tínhamos pedido uma rodada de tequila antes de mudar para cerveja. E, é verdade, estamos bebendo, mas é todo mundo maior de idade, e isso não é algo como mostrar a bunda para todo mundo. Estamos só numa mesa de bar, cacete.

“Continua não tendo nada a dizer?”

Ergo os olhos para O’Shea. “Isso foi na quinta à noite. Era aniversário do Fitzy.”

“Estou vendo. E até onde foi essa comemoração?”

“Se tá perguntando se a gente encheu a cara, a resposta é não.”

Isso não o satisfaz. “Você se lembra do que eu falei no escritório de Jensen, no outro dia? Nada de bebedeira, nada drogas e nada de brigas.”

“Não foi uma bebedeira, senhor. Foram só umas doses.”

“Você conhece a política da Briar sobre as restrições de drogas e álcool para alunos atletas? Se não, posso te dar uma cópia.”

“Ah, qual é, treinador, o senhor não pode esperar que a gente não beba uma gota. Estamos na faculdade, ca… ramba! E temos todos mais de vinte e um.”

“Cuidado com esse tom, Di Laurentis”, exclama ele. “E, sim, eu e os outros treinadores esperamos sim isso de vocês. Enquanto estiver jogando hóquei para esta faculdade, espera-se que você siga as regras estabelecidas pelos seus treinadores e pela NCAA e se comporte.”

“Senhor…” Respiro, tentando me acalmar. Mas não obtenho muito sucesso. Além de estar chateado com a derrota, não me sinto no clima de levar bronca por causa de uns goles à toa. “Meus colegas e eu nos comportamos muito bem na noite em questão. Então, com certeza, o senhor não tem nada com que se preocupar.”

“Não venha dar uma de espertinho para cima de mim, garoto. Temos um problema sério aqui…”

“Não, não temos”, eu o interrompo. “Acho que o senhor tá exagerando. Fomos a um bar e tomamos umas cervejas. É o que a gente faz, tá legal? Mas, ei, se o senhor estiver muito preocupado com isso, talvez devesse perguntar para o treinador Jensen o que ele acha.” Abro um sorriso de escárnio. “Ele é o treinador do time, não é? Deveria saber desse ‘problema sério’, não?”

Lamento as palavras no instante em que saem da minha boca, mas já estou de saco cheio desse cara.

É claro que O’Shea não gosta de ver sua autoridade desafiada. “Chad me deu carta branca para lidar com a defesa, e acho melhor você se lembrar disso”, esbraveja ele. “Quando se trata da defesa, quem lida com qualquer problema que aparecer sou eu. E isto, sr. Di Laurentis, é um problema. Não quero saber de ninguém no time mexendo com álcool e drogas, está me ouvindo?”

Pelo amor de Deus. Cansei desta merda.

“Entendido, treinador. Posso entrar no ônibus agora?”

O’Shea fica vermelho de raiva. “Quer se juntar aos seus colegas neste ônibus? Então é melhor se responsabilizar por suas ações. Reconheça que errou.”

Estou a segundos de perder a cabeça. Com os punhos cerrados, é um milagre que não enfie um soco na cara dele. “A título de curiosidade, você tá pensando em fazer o mesmo discurso para os outros jogadores na foto? Ou eu sou especial?”

“Vou falar com todo mundo, não se preocupe. Escolhi falar com você primeiro, porque já conheço seu histórico de abuso de álcool.” Ele ergue uma sobrancelha, e neste instante meu punho quase voa.

Meu histórico de abuso de álcool?

Porra nenhuma. Vai se foder.

O’Shea sabe muito bem que não tenho nenhum problema com álcool. Está só sendo um babaca rancoroso e tentando encontrar novos jeitos de me punir pelo que aconteceu com Miranda. Mas isso? Se referir à única vez em que bebi demais — quando era um adolescente — e usar isso para sugerir que sou alcoólatra?

Estou. De. Saco. Cheio. Desta. Merda.

“Obrigado pela preocupação”, digo, com gentileza. “É muito bem-vinda. De verdade.” Então o deixo de pé na calçada e sigo em direção ao ônibus.

Por sorte, ele não me impede.

Ainda estou lutando para recolher os cacos de minha dignidade ao sentar no lugar de sempre, ao lado de Tucker, que me lança um olhar interrogativo. “O que foi aquilo?”

“Absolutamente nada.” Tiro os fones de ouvido do bolso e enfio nas orelhas. Se Tuck acha que estou sendo mal-educado, não diz nada — apenas volta o olhar para o smartphone, e, em poucos minutos, estamos na estrada.

A faixa de rock que começa a tocar no meu iPod só me irrita ainda mais, então abro a seleção que Wellsy fez para mim no verão e tento me acalmar ao som do jazz suave e das melodias fáceis. Não. Também não está funcionando. Desligo o iPod e passo a ouvir o burburinho baixo dos meus colegas de time.

Logan e Fitzy estão falando de um jogo de tiro que Fitzy vai resenhar para o blog da faculdade. Hollis está tentando convencer alguém a se encontrar com ele em seu alojamento — “Vou fazer valer a pena, linda” —, o que significa que ou está no telefone, ou ele e o colega do lado acabaram de sair do armário para o time inteiro. Corsen e o cara ao lado dele estão discutindo quem é a mais gostosa em Game of Thrones: Daenerys ou Cersei.

“Nenhuma das duas”, Garrett se intromete. “Melisandre é a mais gostosa. De longe.”

“A bruxa vermelha? De jeito nenhum. Ela pariu uma sombra nojenta. Tá contaminada, cara.”

“Olha o spoiler!”, reclama Wilkes. “Ia começar a primeira temporada esse fim de semana!”

“Não perca seu tempo”, aconselha Fitzy. “O seriado é uma merda. Leia os livros.”

“Juro por Deus que se você falar mais uma vez para a gente ‘ler os livros’, não respondo por mim”, avisa Corsen. “Tô falando sério, Colin.”

Nosso nerd de carteirinha dá de ombros. “O que posso fazer se os livros são melhores?”

Não me intrometo; no entanto, secretamente concordo com Fitz. Os livros são melhores. Mas duvido que alguém vá acreditar em mim se eu disser que li todos. Tirando meus colegas de apartamento, a maioria dos jogadores não me leva a sério. Sei que acham que só vou para a faculdade de direito de Harvard porque meus pais compraram minha vaga. E, para ser sincero, não me importo. Acho engraçado quando as pessoas subestimam minha inteligência. Metade do tempo me faço de louro burro só por diversão.

O bate-papo continua, mas bloqueio as vozes à minha volta e pego meu celular. Não sei o que me leva a abrir o Facebook e a procurar o nome dela. Estou no piloto automático, minimamente consciente do que faço, até os resultados da pesquisa aparecerem.

Existem dezenas de Mirandas O’Sheas no Facebook, mas nenhuma delas é a que estou procurando.

Faço outra pesquisa, desta vez acrescentando “Universidade Duke”. Não tenho nem ideia se ela estuda lá, mas parece um bom lugar para começar. Quando estávamos namorando, Miranda só falava em quanto queria ir para a Duke.

Desta vez, seu perfil aparece.

Olho para a pequena foto ao lado do seu nome. Ela não mudou nada em quatro anos. O mesmo rosto redondo, os mesmos cabelos cacheados escuros e rebeldes, os mesmos olhos castanhos.

Para a minha decepção, seu perfil é privado. Não dá para ver nada além da foto de perfil e a de capa, que é uma paisagem de praia genérica. Fico olhando o pequeno botão verde no alto da página.

Adicionar aos amigos.

Não sei o que dá em mim para clicar nele. Mas é o que faço.

Com o pedido de amizade enviado, fecho o aplicativo e guardo o telefone. Tucker parou de olhar para o dele. Está com a cabeça recostada para trás no banco e os olhos fechados, e decido fazer como ele. Faltam duas horas para chegarmos a Boston, e mais uma hora até Hastings. Podia muito bem dormir um pouco e tentar esquecer o jogo desastroso de hoje.

O cochilo faz efeito. Acordo me sentindo focado e relaxado, e quando olho pela janela e espero a próxima placa aparecer descubro que estamos a meia hora do campus.

No assento ao meu lado, Tucker também está acordado, digitando no celular de novo.

Não consigo deixar de perguntar: “Cara, você tá namorando?”. Mal tenho visto Tucker ultimamente, e moramos na mesma casa.

“Não”, diz, simplesmente.

“Tem certeza?”

“Acho que eu saberia se estivesse.” Mas há algo de estranho em sua voz, e não consigo identificar exatamente o que é.

“Onde você tá se enfiando então? Não para mais em casa.”

Tucker dá de ombros. “Vou pra aula. Estudo na biblioteca. Fico no meu quarto.” Ele faz uma pausa. “Andei dormindo na casa de um amigo em Boston.”

“Que amigo?”

Antes que ele possa responder, meu celular toca, e juro que Tuck parece aliviado. Faço uma nota mental para interrogá-lo de novo mais tarde. Vai ser uma boa prática para a faculdade de direito.

Ao ver o nome de Beau, atendo do mesmo jeito de sempre. “Maxwell. Qual é a boa?”

“E aí? Como foi o jogo?” Tem uma música alta tocando ao fundo, mas posso ouvi-lo perfeitamente.

“Uma merda.”

“Eu sei. Li o resumo no blog de esportes da faculdade. Vocês levaram uma sova.”

“E por que você perguntou se já sabia a resposta?”

“Estava sendo educado.”

Tenho que rir.

“De qualquer forma, tá rolando uma festa na minha casa hoje. Sei que já é tarde, mas resolvi chamar. Vai que você está precisando de ajuda para esquecer a surra do Yale.”

Penso na ideia, mas só por um instante. “Acho que não. Obrigado, mas não tô muito a fim.” Deixo escapar um suspiro cansado. “A noite foi uma merda.”

“Mais um motivo para você vir. Tá cheio de mulher gostosa aqui. E sabe como é mulher, né… não resiste a um homem melancólico. É só falar que você tá triste porque perdeu o jogo, e elas vão implorar para te fazer se sentir melhor.” Ele faz uma pausa. “Espera. A menos que você ainda esteja lidando com… ah, mau funcionamento do equipamento?”

“Não. Tudo resolvido.”

“Boa! Quer dizer que a Bella finalmente te deu bola?”

“Bella?”, pergunto, sem entender.

“É, a garota que deu uma chave de boceta em você.”

Rio. “Ah. Pois é, finalmente.” Dou uma resposta vaga, porque Tucker está logo ali do lado, e ele não pode saber sobre mim e Allie. E… merda. Acho que isso significa que não posso encher o saco dele por estar sendo tão reservado ultimamente, é aquela história do sujo falando do mal lavado.

“Ótimo, o negócio voltou a funcionar. Então vem pra cá e faz bom uso dele.”

“Acho que não”, digo, de novo. “Não tô a fim mesmo.” Mas, na verdade, acho que tô a fim de outra coisa, porque, como de costume, só de pensar em Allie começo a ficar duro. “A gente se vê esta semana. Vamos tomar uma cerveja ou algo assim.”

“Beleza. Até mais, cara.”

No instante em que desligamos, começo a digitar uma mensagem nova. Vou chegar em casa quase uma da manhã. Minhas intenções vão ficar na cara, mas é sábado à noite, e Allie não tem aula amanhã, então acho que não tem problema.

Eu: vc + eu = sexo selvagem esta noite?

Ela responde imediatamente. Ótimo, ainda está acordada.

Ela: vc = tentador − eu = já na cama ÷ sono.

Eu: Pq o sinal d divisão??

Ela: Sei lá. Tava tentando responder c/ matemática. Resumindo: tô na cama.

Eu: Perfeito. É exatamente onde quero estar. Chego em 45 min.

Ela: Não dá. Hannah tá em casa.

Eu: A gente fica bem quietinho. Ela não vai nem saber q tô aí.

Há um pequeno intervalo, e, mesmo antes de a resposta chegar, sei que vai ser um não.

Ela: Não quero arriscar. Vamos esperar uma noite em q a gente possa ficar sozinho.

Eu: Vc não tem senso d aventura.

Ela: Vc não tem paciência.

Eu: Não quando se trata d vc.

Ela: A gente transou 3 vezes ontem! Tenho certeza d q isso pode t acalmar até a próxima.

Eu: E qdo vai ser a próxima?

Ela: Amanhã d noite, talvez? Eu aviso.

Eu: Tá.

Eu: Aliás, vou pensar em vc batendo uma hj.

Ela: Tudo bem. Acabei d enfiar o dedo e fingir q era vc.

Solto um gemido em voz alta.

Tucker gira a cabeça para mim. Ele olha para a minha cara, depois para o meu telefone, e por fim revira os olhos. “Sério, cara? Sexting do meu lado? Vê se arruma um quarto.”

Bem que eu queria. O quarto de Allie, para ser mais exato. Mas está na cara que isso hoje está fora de cogitação. E agora, graças à provocação, vou passar o restante da viagem de ônibus com a cueca apertada.