O Problema dos Três Corpos
8. Ye Wenjie
Wang tirou o traj e V e o capacete com visor panorâm ico. A cam isa estava em papada de suor, com o se ele tivesse acabado de acordar de um pesadelo. Ele saiu do Centro de Pesquisa, entrou no carro e dirigiu até o endereço passado por Ding Yi: a casa da m ãe de Yang Dong.
Era Caótica, Era Caótica, Era Caótica…
Wang ficou revirando a ideia na cabeça. Por que o percurso do sol no céu de Três Corpos seria desprovido de qualquer regularidade ou padrão? O movimento de um planeta em torno de seu sol precisa ser periódico, quer a órbita seja mais circular ou mais elíptica. Uma irregularidade absoluta do deslocamento planetário é impossível…
Wang ficou irritado consigo m esm o. Balançou a cabeça, tentando afastar esses pensam entos. É só um j ogo!
Mas eu perdi.
Era Caótica, Era Caótica, Era Caótica…
Droga! Chega! Por que estou pensando nisso? Por quê?
Wang não dem orou para descobrir a resposta. Fazia anos que ele não disputava nenhum j ogo on-line, e era nítido que os equipam entos tinham evoluído m uito nesse m eio-tem po. Na sua j uventude, quando era estudante, não havia efeitos com o realidades virtuais e respostas m ultissensoriais. Só que Wang tam bém sabia que a sensação de realism o em Três Corpos não tinha a ver com tecnologia de interface.
Ele se lem brava de um a aula de teoria da inform ação no terceiro ano da faculdade. O professor havia apresentado duas im agens: um a era a Qingming Shanghe Tu, a fam osa pintura da dinastia Song, cheia de detalhes delicados e refinados, que m ostrava o festival de Qingm ing; a outra era a foto de um céu ensolarado, cuj a vastidão azul era interrom pida apenas por um fiapo de nuvem que nem parecia estar ali. O professor perguntou à turm a qual das im agens continha m ais inform ação. A resposta foi que o conteúdo inform acional da fotografia — a entropia dela — excedia o da pintura em um a ou duas ordens de m agnitude.
O m esm o acontecia com Três Corpos. O im enso conteúdo inform acional estava bem oculto. Wang conseguia senti-lo, m as não expressá-lo. De repente, percebeu que os criadores do j ogo seguiram o extrem o oposto do princípio adotado por outros designers. Norm alm ente, os designers de j ogos tentavam exibir o m áxim o possível de inform ação para aum entar a sensação de realism o. Já os responsáveis por Três Corpos trataram de com prim ir o conteúdo inform acional para dissim ular um a realidade m ais com plexa, do m esm o j eito que a foto aparentem ente vazia do céu.
Wang deixou os pensam entos voltarem ao m undo de Três Corpos.
Estrelas voadoras! O segredo deve estar atrás das estrelas voadoras. Uma estrela voadora, duas estrelas voadoras, três estrelas voadoras… o que elas representavam?
Enquanto divagava sobre isso, chegou ao seu destino.
Na frente do edifício residencial, Wang viu um a m ulher grisalha e baixinha, com cerca de sessenta anos. Ela usava óculos e estava se esforçando para subir a escada com um cesto de com pras. Wang im aginou que aquela era a m ulher que ele tinha ido visitar.
Um a saudação rápida confirm ou o palpite. Era m esm o a m ãe de Yang Dong: Ye Wenj ie. Após ouvir o m otivo da visita de Wang Miao, ela se m ostrou grata e satisfeita. Wang estava acostum ado a intelectuais idosos com o ela: o acúm ulo dos anos havia desbastado toda rigidez e vivacidade de suas personalidades, deixando para trás apenas a delicadeza da água.
Wang subiu a escada com o cesto de com pras para ela. Quando os dois chegaram ao apartam ento, ele descobriu que não era tão calm o quanto havia im aginado: três crianças estavam brincando, sendo que a m ais velha devia ter uns cinco anos e a m ais nova ainda m al andava. Ye disse a Wang que eram todas filhas dos vizinhos.
— Elas gostam de brincar aqui. Com o hoj e é dom ingo e os pais precisam fazer hora extra, deixam as crianças com igo… Ah, Nan Nan, você term inou o desenho? Nossa, ficou ótim o! Vam os dar um título? “Patinhos no sol”? Parece ótim o. Deixe a vovó escrever para você. Tam bém vou anotar a data: “9 de j unho, por Nan Nan”. E o que você quer alm oçar? Yang Yang, quer beringela frita? Claro! Nan Nan, quer ervilha que nem ontem ? Não tem problem a. E você, Mi Mi? Quer carninha? Ah, não, sua m ãe m e disse que você não pode com er m uita carninha, é difícil digerir. Que tal então um peixinho? Olhe esse peixinho enorm e que a vovó com prou…
Wang observou Ye e as crianças, absorto na conversa que m antinham . Ela deve querer netos. Mas, mesmo se Yang Dong estivesse viva, será que teria tido filhos?
Ye levou as com pras para a cozinha.
— Xiao Wang — disse, quando voltou —, vou deixar os legum es um pouco de m olho. — Ela havia passado a tratá-lo sem constrangim ento por um dim inutivo carinhoso. — Hoj e em dia, usam tantos pesticidas que preciso deixar os legum es de m olho por pelo m enos duas horas antes de dar para as crianças… Não quer dar um a olhada no quarto de Dong Dong antes?
A sugestão, acrescentada ao final com o se fosse a coisa m ais natural do m undo, deixou Wang ansioso. Ela nitidam ente havia percebido o real obj etivo da visita. Ye se virou e voltou para a cozinha sem fitar Wang, para não ver o constrangim ento dele. Wang ficou grato pela consideração.
Ele passou pelas três crianças, que brincavam anim adas, e entrou no quarto indicado por Ye. Hesitou na frente da porta, tom ado por um a sensação estranha. Era com o se ele tivesse voltado à própria j uventude sonhadora. Das profundezas de sua m em ória, surgiu o form igam ento de um a tristeza frágil e pura com o o orvalho, com um a nota de esperança.
Com delicadeza, em purrou a porta. No côm odo, sentiu um a inesperada fragrância sutil, um cheiro de m ata. Parecia que havia entrado na cabana de um guarda-florestal: as paredes eram cobertas de tiras de cascas de árvore, as três banquetas eram pedaços de tronco sem decoração, a escrivaninha era form ada por três troncos m aiores agrupados. Já a cam a parecia forrada com o m esm o m aterial de j unco utilizado pelas pessoas do nordeste da China dentro dos sapatos, para m anter os pés aquecidos no clim a frio. Tudo era grosseiro e de aspecto descuidado, sem qualquer sinal de preocupação estética. O trabalho de Yang Dong havia lhe proporcionado um a renda alta, e ela podia ter com prado um apartam ento de luxo, m as preferiu m orar ali com a m ãe.
Wang foi até a m esa feita de troncos. Tinha um a decoração sim ples e nada que sugerisse qualquer indício de fem inilidade ou de atividade acadêm ica. Talvez obj etos dessa natureza tivessem sido rem ovidos, ou talvez nunca tivessem existido. Ele percebeu um a foto em preto e branco dentro de um porta-retratos de m adeira, a im agem de um a m ãe com a filha. Na foto, Yang Dong era pequena, e Ye Wenj ie estava agachada para que as duas ficassem da m esm a altura. Um vento forte bagunçava o cabelo com prido delas.
O fundo da fotografia era estranho: o céu parecia estar atrás de um a rede grande, estendida entre estruturas grossas de aço. Wang deduziu que era algum a antena parabólica tão grande que as beiradas não couberam no enquadram ento.
No retrato, os olhos da pequena Yang Dong transm itiam um m edo que com oveu Wang. Ela parecia apavorada com o m undo do lado de fora da foto.
Depois Wang reparou em um caderno espesso no canto da escrivaninha. Ficou espantado com o m aterial, até que viu um a linha escrita com letra infantil na capa: Caderno de casca de bétula de Yang Dong. A palavra “bétula” estava escrita com letras do alfabeto pinyin, em vez do caractere chinês. Os anos haviam dado à casca cinzenta um tom claro de am arelo. Fez m enção de encostar no caderno, hesitou e recolheu a m ão.
— Tudo bem — disse Ye, na porta. — São desenhos que Yang Dong fez quando era pequena.
Wang pegou o caderno de casca e folheou as páginas com cuidado. Ye datara cada desenho para a filha, tal com o tinha feito para Nan Nan agora há pouco, na sala.
Com base nas datas, Wang viu que Yang Dong tinha três anos quando fez os desenhos. Norm alm ente, crianças dessa idade são capazes de traçar pessoas e obj etos com form as definidas, m as os desenhos de Yang Dong ainda eram um a confusão de linhas em aranhadas. Parecia que representavam um a espécie de raiva e desespero intensos, resultantes de um desej o frustrado de expressar algo — não era um sentim ento que se esperaria de um a criança tão pequena.
Ye se sentou devagar na beira da cam a, com os olhos fixos no caderno, perdida em pensam entos. Sua filha havia m orrido ali m esm o, dando fim à própria vida durante o sono. Wang se sentou ao lado dela. Nunca havia sentido um a vontade tão intensa de partilhar o peso da dor de outra pessoa.
Ye pegou o caderno das m ãos dele e o abraçou.
— Eu não sabia ensinar de um j eito apropriado para a idade dela — disse, em voz baixa. — Expus Dong Dong cedo dem ais a alguns tem as m uito abstratos, m uito delicados. Quando ela dem onstrou pela prim eira vez um interesse por teorias abstratas, falei que a área não era fácil para as m ulheres. Ela perguntou: “E a m adam e Curie?”. Respondi que a m adam e Curie nunca foi aceita de verdade com o parte da área. O sucesso dela era encarado com o resultado de persistência e m uito esforço, m as, sem ela, outra pessoa teria feito o trabalho. Na
verdade, Wu Chien-Shiung foi ainda m ais longe que a m adam e Curie.* Mas não é m esm o um a área para m ulheres.
“Dong Dong não discutiu com igo, m as depois descobri que ela era m esm o diferente. Por exem plo, digam os que eu explicasse um a fórm ula para ela. Outras crianças diriam : ‘Uau, que fórm ula inteligente!’. Mas ela dizia: ‘Essa fórm ula é m uito elegante, m uito bela’. A expressão no rosto era igual à de quando ela via um a flor silvestre bonita.
“O pai deixou alguns discos. Ela ouviu todos e, no fim , quando decidiu que um de Bach era seu preferido, ouviu várias vezes seguidas. Esse tipo de m úsica não devia despertar o fascínio de um a criança. A princípio, achei que ela tivesse escolhido por capricho, m as quando perguntei o que sentia com a m úsica, Dong Dong respondeu que conseguia ver na m úsica um gigante construindo um a casa grande e com plexa. O gigante ia acrescentando um pedaço de cada vez à estrutura e, quando a m úsica acabava, a casa estava pronta…”
— A senhora foi um a excelente professora para sua filha — disse Wang.
— Não. Fracassei. Seu m undo era sim ples dem ais, e ela só contava com teorias im ateriais. Quando as teorias ruíram , Dong Dong não tinha nada em que se apoiar para continuar viva.
— Professora Ye, não posso dizer que concordo com a senhora. Neste m om ento estão acontecendo coisas além da nossa im aginação. Nossas teorias sobre o m undo enfrentam um desafio sem precedentes, e sua filha não foi a única cientista a escolher aquele cam inho.
— Mas ela era m ulher. Um a m ulher precisa ser com o a água, capaz de fluir por cim a e em volta de qualquer coisa.
Quando estava prestes a ir em bora, Wang se lem brou do outro m otivo da visita. Ele m encionou a Ye sua vontade de observar a radiação cósm ica de fundo em m icro-ondas.
— Ah, sim . Tem dois lugares na China que trabalham com isso. Um é o observatório em Ürüm qi. Acho que é um proj eto do Centro de Observação do Am biente e do Espaço, da Academ ia Chinesa de Ciências. O outro é bem perto daqui, um observatório de radioastronom ia na periferia de Beij ing, adm inistrado pela Academ ia Chinesa de Ciências e pelo Centro Conj unto de Astrofísica da Universidade de Beij ing. O de Ürüm qi faz observações a partir do solo, e o daqui só recebe dados de satélites, em bora esses dados sej am m ais apurados e com pletos. Com o um ex-aluno m eu trabalha lá, posso fazer um telefonem a e ver o que consigo para você.
Ye achou o núm ero e discou. A conversa que se seguiu pareceu correr bem .
— Tudo certo — disse Ye ao desligar. — Vou lhe passar o endereço. Você pode ir quando quiser. Meu aluno se cham a Sha Ruishan e vai estar no turno da noite am anhã… Acho que esta não é sua área de pesquisa, certo?
— Eu trabalho com nanotecnologia. Isto é para… outra coisa. — Wang tem ia que Ye fizesse m ais perguntas sobre o que o levou a buscar aquele tipo de inform ação, m as ela não fez.
— Xiao Wang, você parece um pouco pálido. Com o está sua saúde? — perguntou ela, com o rosto m uito preocupado.
— Não é nada. Por favor, não se preocupe.
— Espere um instante. — Ye pegou um a caixinha de m adeira de um arm ário. Wang viu na etiqueta que era ginseng. — Um velho am igo da base, um soldado, veio m e visitar há alguns dias e m e trouxe isto. Leve, leve! É desses plantados, não silvestre. Não é m uito caro. Tenho pressão alta e não posso usar m esm o. Você pode cortar em fatias finas e fazer chá. Você está com um aspecto tão pálido que com certeza isso vai fazer bem . Você ainda é j ovem , m as precisa tom ar cuidado com a saúde.
Wang aceitou a caixa, e seu peito se encheu de alegria. Sentiu os olhos ficarem m arej ados. Era com o se o coração, angustiado quase além do lim ite por causa dos últim os dias, tivesse sido acom odado em um m onte de plum as.
— Professora Ye, virei visitá-la m uitas vezes.
* Wu Chien-Shiung foi um a das físicas m ais im portantes da era m oderna, tendo realizado m uitas conquistas em física experim ental. Ela foi a prim eira a refutar com experim entos a hipótese da “lei de conservação de paridade” e, assim , fundam entar o trabalho dos físicos teóricos Tsung-Dao Lee e Chen-Ning Yang. (N. A.)