O Problema dos Três Corpos

Cixin Liu · Capítulo 21 de 36

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O Problema dos Três Corpos

Parte III

O ocaso da hum anidade

21. REBELDES DA TERRA

 

Dessa vez apareceu m uito m ais gente do que no últim o encontro de j ogadores. O evento foi realizado no refeitório de um a antiga fábrica de produtos quím icos. A fábrica j á havia sido transferida, e o interior do edifício, prestes a ser dem olido, estava m eio acabado, em bora fosse espaçoso. Havia cerca de trezentas pessoas ali, e Wang Miao viu m uitos rostos conhecidos: celebridades e pessoas influentes de áreas diversas, cientistas fam osos, escritores, políticos, entre outros.

A prim eira coisa que cham ou a atenção de Wang foi o estranho dispositivo no m eio do refeitório. Três esferas prateadas, cada um a ligeiram ente m enor que um a bola de boliche, pairavam e giravam acim a de um a base de m etal. Wang im aginou que o dispositivo devia funcionar à base de levitação m agnética. A órbita das três esferas era com pletam ente aleatória: um a versão do problem a dos três corpos na vida real.

As outras pessoas não deram m uita atenção à representação artística do problem a dos três corpos. Estavam de olho em Pan Han, que tinha ficado de pé em cim a de um a m esa quebrada no m eio do refeitório.

— Ei, Pan, você m atou m esm o a cam arada Shen Yufei? — perguntou um hom em .

— Matei — respondeu Pan, com perfeita indiferença. — Pessoas com o ela, traidores da causa adventista, são responsáveis pela atual crise da organização.

— E desde quando você tinha o direito de m atar?

— Só m atei porque era m eu dever defender a organização.

— Seu dever? Para com isso, você sem pre teve um coração carregado de m aldade.

— O que você quer dizer com isso?

— O que você fez quando dirigiu a Seção Am biental? Você foi encarregado de criar problem as am bientais, ou explorar os j á existentes, para fazer a população detestar a ciência e a indústria m oderna. Mas a verdade é que só usou a tecnologia e as previsões do nosso Senhor para fazer fortuna e fam a!

— Você acha m esm o que fiquei fam oso por interesse pessoal? Para m im , a hum anidade inteira não passa de lixo. Estou m e lixando para o que as pessoas pensam . Agora, sem fam a, com o vou conseguir direcionar e canalizar o pensam ento delas?

— Você sem pre escolhe os trabalhos m ais fáceis. Am bientalistas inexpressivos poderiam ter feito o m esm o que você, talvez até m elhor, porque são m ais sinceros e dedicados. Com um pouco de orientação, seria fácil tirar proveito das ações desses ativistas. Sua Seção Am biental deveria ter criado e explorado desastres am bientais: contam inar reservatórios, provocar o vazam ento de resíduos tóxicos, coisas assim … Por acaso vocês fizeram algo parecido? Não, nem um a vez sequer!

— Elaboram os m uitos planos e incontáveis arm ações, m as o com ando vetou tudo. Bom , m as esses atos teriam sido um a idiotice, pelo m enos até agora. A Seção de Biologia e Medicina chegou a tentar criar um a catástrofe através do uso excessivo de antibióticos, porém a coisa foi descoberta cedo. E as ações im prudentes do Destacam ento Europeu quase colocaram os holofotes sobre nós.

— Olha quem está falando… você acabou de m atar um a pessoa!

— Escutem , cam aradas! Mais cedo ou m ais tarde isso acabaria acontecendo, era inevitável. Vocês provavelm ente j á sabem que todos os governos estão se preparando para a guerra. Na Europa e na Am érica do Norte, a organização j á está sendo atacada. Quando os ataques com eçarem por aqui, com certeza aqueles que acreditam na redenção vão ficar do lado do governo. Então nossa prioridade é elim inar os redentistas da organização.

— Você não tem autoridade para decidir isso.

— É claro que a palavra final é do com ando. Só que j á vou avisando, cam aradas: a com andante é adventista!

— Agora você está inventando coisas. Todo m undo sabe que a com andante tem m uito poder. Se ela fosse m esm o adventista, os redentistas j á teriam sido elim inados há m uito tem po.

— De repente ela sabe de algo que nós não sabem os. Talvez sej a esse o m otivo do encontro.

Depois disso, a atenção das pessoas se desviou de Pan Han. Um cientista fam oso, que tinha recebido o prêm io Turing, subiu na m esa e com eçou a falar.

— A hora de discutir j á passou. Cam aradas, qual deve ser o nosso próxim o passo?

— Com eçar um a rebelião global!

— Isso é pedir para m orrer.

— Vida longa ao espírito de Trissolaris! Vam os perseverar com o a vegetação im placável que volta a brotar depois de cada incêndio na floresta.

— Um a rebelião vai enfim revelar nossa existência para o m undo. Com um plano de ação adequado, com certeza podem os receber o apoio de m uita gente.

Esse últim o com entário partiu de Pan Han e foi aplaudido por m uitas pessoas.

— A com andante chegou! — gritou alguém .

A m ultidão abriu cam inho.

Wang olhou na m esm a direção que os dem ais e perdeu o chão. O m undo pareceu ficar preto e branco, e a única cor vinha da pessoa que acabara de aparecer.

Cercada por um grupo de guarda-costas j ovens, Ye Wenj ie, com andante-chefe dos rebeldes da Organização Terra-Trissolaris, cam inhava a passos firm es pela m ultidão.

Ye parou no m eio do espaço que haviam aberto para ela, levantou um punho m agro e, com um a determ inação e um a força que Wang tinha dificuldade de acreditar, disse:

— Elim inar a tirania hum ana!

A m ultidão reagiu de um j eito claram ente ensaiado inúm eras vezes antes:

— O m undo pertence a Trissolaris!

— Olá, cam aradas — disse Ye. A voz dela retom ou a delicadeza que Wang conhecia. Só nesse m om ento ele teve certeza de que era m esm o Ye. — Com o não tenho m e sentido m uito bem ultim am ente, não pude passar m uito tem po com vocês. Mas agora a situação é urgente, e sei que todos estão enfrentando m uita pressão, por isso vim .

— Com andante, cuide da sua saúde — disse um a voz na m ultidão. Wang percebeu que a preocupação era sincera.

— Antes de avançarm os para assuntos m ais im portantes — disse Ye —, vam os resolver um pequeno detalhe. Pan Han… — Ye não tirou os olhos da m ultidão ao pronunciar o nom e dele.

— Aqui, com andante. — Pan apareceu no m eio das pessoas. Ele tinha tentado dar um perdido, sem sucesso. Parecia calm o, m as era óbvio que estava horrorizado: a com andante não o cham ara de camarada, o que não era um bom sinal.

— Você com eteu um a violação grave das regras da organização. — Ye não olhou para Pan ao falar. Sua voz continuava gentil, com o se ela estivesse lidando com um a criança m alcriada.

— Com andante, a organização está em crise, lutam os pela sobrevivência! Chegou a hora de a gente adotar m edidas drásticas e elim inar os traidores e inim igos em nossas fileiras. Caso contrário, vam os perder tudo!

Ye olhou para Pan com um a expressão de piedade. Mas ele segurou a respiração por alguns segundos.

— O ideal da OTT é perder tudo. Tudo que hoj e pertence à raça hum ana, incluindo nossas próprias vidas. Esse é o obj etivo definitivo.

— Então a senhora deve ser adventista! Com andante, por favor, declare abertam ente suas filiações, isso é m uito im portante. Não tenho razão, cam aradas? Muito im portante! — gritou ele, sacudindo um braço e olhando para os lados. Mas a m ultidão perm aneceu calada.

— Não cabe a você fazer esse pedido. Você violou gravem ente nosso código de conduta. Se quiser fazer um apelo, agora é a hora. Caso contrário, deverá arcar com as consequências. — Ye falou devagar, articulando cada palavra, com o se por receio de que a criança que estava sendo educada tivesse dificuldade para entender.

— A m inha intenção era acabar com Wei Cheng, aquele geniozinho da m atem ática. A decisão foi tom ada pelo cam arada Evans e ratificada de m aneira unânim e pelo com itê. Se ele acabar conseguindo criar um m odelo m atem ático que forneça um a solução com pleta para o problem a dos três corpos, nosso Senhor não virá, e a grande investida de Trissolaris na Terra irá por água abaixo. Só atirei em Shen Yufei porque ela atirou em m im prim eiro. Eu agi em legítim a defesa.

Ye assentiu com a cabeça.

— Vam os acreditar nisso. Afinal, essa não é a questão m ais im portante. Espero que possam os continuar confiando em você. Agora, por favor, repita o pedido que você fez há pouco.

Pan ficou atordoado por um instante. Não parecia ter relaxado com o fato de que Ye havia m udado de assunto.

— Eu… pedi para a senhora declarar abertam ente que é adventista. Afinal, o plano de ação dos adventistas é o m esm o que o seu.

— E qual seria esse plano de ação?

— A sociedade hum ana j á não é capaz de resolver seus problem as nem de frear sua insanidade por conta própria. Por isso, pedim os para nosso Senhor vir a este m undo e, com seu poder, olhar por nós e nos transform ar à força para criar um a civilização hum ana nova e perfeita.

— Os adventistas acreditam fielm ente nesse plano?

— Claro! Com andante, por favor, não acredite nos falsos boatos.

— Não é um boato falso! — gritou um hom em , indo até a frente. — Meu nom e é Rafael e sou israelense. Três anos atrás, m eu filho de catorze anos m orreu em um acidente. Eu doei o rim dele para um a m enina palestina que sofria de falência renal, em um gesto de esperança de que os dois povos pudessem conviver em paz. Eu estava disposto a dar a m inha vida por esse ideal. Muitos, m uitos israelenses e palestinos tam bém se dedicavam com sinceridade a esse obj etivo. Mas foi tudo em vão. Continuam os presos em um atoleiro de ciclos de vingança.

“Com o tem po, perdi m inha fé na hum anidade e entrei para a OTT. O desespero m e fez deixar de ser pacifista e m e transform ar em extrem ista. Além disso, provavelm ente porque eu doei m uito dinheiro para a organização, passei a fazer parte do núcleo dos adventistas. E posso afirm ar: os adventistas têm interesses secretos.

“A linha de raciocínio é a seguinte: a hum anidade é m á, a civilização hum ana com eteu crim es im perdoáveis contra a Terra e precisa ser castigada. O obj etivo definitivo dos adventistas é pedir que nosso Senhor execute este castigo divino: a destruição de toda a hum anidade.”

— O verdadeiro proj eto dos adventistas j á não é m ais segredo para ninguém — gritou alguém .

— Pode até não ser, m as o que vocês não sabem é que esse proj eto não foi adotado aos poucos. Essa m eta foi estabelecida desde o com eço: é o grande sonho de Mike Evans, o idealizador dos adventistas. Ele m entiu para a organização e enganou todo m undo, inclusive a com andante! Evans vem perseguindo esse obj etivo desde o início. Ele transform ou os adventistas em um reino de terror povoado por am bientalistas extrem istas e loucos que odeiam a hum anidade.

— Só m uito m ais tarde fiquei sabendo das verdadeiras intenções de Evans — disse Ye. — Ainda assim , tentei resolver as diferenças para perm itir que a OTT perm anecesse unida. Só que atos com etidos recentem ente pelos adventistas inviabilizaram esse esforço.

— Com andante — disse Pan —, os adventistas são o núcleo da OTT. Sem nós, não existe nenhum a organização Terra-Trissolaris.

— Mas isso não é desculpa para m onopolizar todas as com unicações entre nosso Senhor e a organização.

— Com o nós construím os a Segunda Base Costa Verm elha, é claro que deveríam os operá-la.

— Os adventistas se aproveitaram disso para com eter um a traição im perdoável contra a organização: vocês interceptaram as m ensagens do nosso Senhor, m as repassaram apenas um a pequena parte para nós, e ainda por cim a com o conteúdo distorcido. Sem falar que, com a Segunda Base Costa Verm elha, vocês enviaram um a grande quantidade de inform ações ao nosso Senhor sem a aprovação da organização.

O silêncio se abateu sobre os presentes com o se fosse um a figura m onstruosa. Wang com eçou a sentir um arrepio na nuca.

Pan não respondeu. Ele assum iu um a expressão fria, com o se dissesse: Finalmente, chegou a hora!

— Existem m uitas provas da traição dos adventistas. A cam arada Shen Yufei era um a das testem unhas. Em bora ela fizesse parte do núcleo dos adventistas, no fundo continuava acreditando na redenção. Vocês só descobriram isso agora, quando ela j á sabia dem ais. Evans enviou você para aquela casa para m atar duas pessoas, não um a.

Pan olhou para os lados e pareceu reavaliar sua situação. O gesto não passou despercebido por Ye.

— Com o pode ver, a m aioria dos cam aradas deste encontro pertence à facção dos redentistas, e acredito que os poucos adventistas que vieram ficarão do lado da organização. De qualquer m aneira, hom ens com o Evans e você j á não têm salvação. Para proteger o program a e os ideais da OTT, devem os resolver de um a vez por todas o problem a dos adventistas.

O silêncio voltou a reinar. Alguns instantes depois, um dos guarda-costas, um a m ulher j ovem , sorriu. Ela saiu de perto de Ye e com eçou a andar casualm ente na direção de Pan.

A expressão no rosto de Pan m udou. Ele enfiou a m ão no paletó, m as a j ovem foi m ais rápida. Antes de qualquer reação, ela passou um dos braços m agros em volta do pescoço de Pan, colocou a outra m ão em cim a da cabeça dele e, com habilidade, aplicando um a força inesperada no ângulo certo, fez a cabeça de Pan girar cento e oitenta graus. O som das vértebras cervicais se quebrando ecoou em m eio ao silêncio com pleto.

As m ãos da j ovem se soltaram um segundo depois, com o se a cabeça de Pan estivesse quente dem ais. Pan desabou no chão, e a arm a que havia m atado Shen Yufei caiu debaixo da m esa. O corpo do adventista continuou tendo espasm os, os olhos perm aneceram abertos e a língua ficou para fora, m as a cabeça não se m exia m ais, com o se nunca tivesse feito parte do resto do corpo. Alguns hom ens apareceram para levá-lo em bora, e o sangue que escorria de sua boca deixou um rastro no chão.

— Ah, Xiao Wang, você tam bém veio. Com o tem passado? — Ye voltou o olhar para Wang Miao. Ela deu um sorriso gentil e fez um gesto afirm ativo com a cabeça. Depois, virou-se para os dem ais presentes. — Esse é o professor Wang, m em bro da Academ ia Chinesa de Ciências e m eu am igo. Ele realiza pesquisa com nanom ateriais, a prim eira tecnologia que nosso Senhor desej a que sej a elim inada da Terra.

Ninguém olhou para Wang, e ele não teve forças para falar. Para não cair, se segurou na m anga da cam isa da pessoa que estava ao lado, m as o hom em afastou a m ão com um gesto leve.

— Xiao Wang, que tal eu contar o resto da história da Costa Verm elha que com ecei no outro dia? Todos os cam aradas presentes podem ouvir tam bém . Não é perda de tem po. Este m om ento extraordinário é um a ótim a oportunidade para reviver a história de nossa organização.

— Costa Verm elha… você não tinha m e contado tudo? — perguntou Wang, com ingenuidade.

Ye se aproxim ou devagar do m odelo dos três corpos, aparentem ente concentrada no m ovim ento das esferas prateadas. A luz do poente entrava pelas j anelas quebradas até as esferas flutuantes do m odelo, que se refletia no corpo da com andante rebelde de m aneira interm itente, com o fagulhas de um a fogueira.

— Não. Era só o com eço — respondeu Ye, em voz baixa.