O Problema dos Três Corpos
26. Ninguém se arrepende
A m orte de Lei e Yang foi tratada com o acidente. Todo m undo na base sabia que Ye e Yang eram um casal feliz, e ninguém desconfiou dela.
A base recebeu um com issário novo, e a rotina retom ou a paz de sem pre. A vida m iúda crescia dentro de Ye a cada dia, e ela tam bém sentiu o m undo exterior m udar.
Certo dia, o com andante do pelotão de segurança pediu para Ye ir até o portão da entrada da base. Quando ela se aproxim ou da guarita, ficou surpresa ao ver três adolescentes: dois m eninos e um a m enina, com cerca de quinze ou dezesseis anos. Os três estavam com casacos velhos e gorros de chinchila. O guarda de plantão disse que eles tinham vindo da cidadezinha de Qij iatun. Tinham ouvido falar que as pessoas no pico do Radar eram inteligentes e queriam fazer algum as perguntas relacionadas aos estudos.
Ye estranhou o fato de os j ovens se atreverem a subir até o pico do Radar. Aquela era um a área m ilitar restrita, e os guardas tinham autorização para disparar sem aviso. O guarda viu a confusão de Ye e explicou que eles tinham acabado de receber ordens para reduzir o nível de segurança da Base Costa Verm elha. As pessoas da região agora tinham perm issão de subir ao pico do Radar, desde que não entrassem na base. Alguns cam poneses j á haviam aparecido no dia anterior para levar legum es.
Um dos adolescentes pegou um velho livro didático de física. Suas m ãos estavam suj as e pareciam grosseiras com o casca de árvore. Com um sotaque carregado do nordeste chinês, ele fez um a pergunta sim ples: o livro didático dizia que um corpo em queda livre sofre aceleração constante, m as sem pre acaba alcançando um a velocidade term inal. Eles tinham passado noites pensando naquilo e não conseguiam entender por quê.
— Vocês vieram até aqui só para m e perguntar isso? — quis saber Ye.
— Professora Ye, a senhora não sabe do exam e? — perguntou a m enina, em polgada.
— Exam e?
— O Exam e Nacional de Adm issão Universitária! Quem estudar m uito e tirar a m elhor nota vai poder ir para a faculdade! Com eçou há dois anos. A senhora não sabia?
— Não precisa m ais de recom endações?
— Não. Qualquer um pode fazer o exam e. Até os filhos das Cinco
Categorias Pretas da cidade.1
Ye ficou chocada. Essa m udança a deixou com sentim entos conflitantes. Dem orou um pouco até ela perceber que os adolescentes ainda estavam esperando, com os livros nas m ãos. Ela tratou de responder logo, explicando que o m otivo era o equilíbrio da resistência do ar com a força da gravidade. Em seguida, Ye prom eteu que eles podiam vir sem pre que quisessem aj uda dela com qualquer dificuldade nos estudos.
Três dias depois, sete adolescentes foram procurar Ye: além dos três daquela prim eira vez, outros quatro, que vinham de cidades ainda m ais distantes. Na terceira vez, o núm ero de adolescentes chegou a quinze, e até um professor de um a escola de ensino m édio de um a cidadezinha m arcou presença.
Com o havia escassez de professores, ele precisava dar aulas de física, m atem ática e quím ica e queria pedir a aj uda de Ye. O hom em tinha m ais de cinquenta anos, e seu rosto j á era m uito enrugado. Ele estava m uito nervoso ao encontrar Ye e derrubou livros para todos os lados. Depois que o grupo saiu da guarita, Ye o ouviu falar para os alunos:
— Crianças, aquela era um a cientista. Um a cientista de verdade!
A partir de então, ela passou a dar aulas para crianças e adolescentes com algum a frequência. Às vezes, eram tantos que a guarita não dava conta de abrigar todo m undo, então, com a perm issão dos oficiais responsáveis pela segurança da base, os guardas acom panhavam o grupo até o refeitório. Lá, Ye instalara um pequeno quadro-negro e ensinava crianças e adolescentes.
Já estava escuro quando Ye term inou seu turno na véspera do ano-novo chinês de 1980. A m aioria das pessoas na base j á havia saído do pico do Radar para o feriado de três dias, e o lugar estava todo em silêncio. Ye voltou para o quarto: antigam ente, tinha sido um lar para ela e Yang Weining, m as agora estava vazio. A única com panhia de Ye era o bebê em seu ventre. Do lado de fora, o vento frio da noite na cordilheira Grande Khingan uivava e trazia o som distante dos fogos de artifício que explodiam na cidade de Qij iatun. A solidão pesava sobre Ye com o um a m ão gigantesca, e ela se sentiu esm agada, com prim ida, pequena a ponto de desaparecer em um canto invisível do universo…
Até que alguém bateu à porta. Quando ela abriu, viu o guarda e, atrás dele, a luz de várias tochas feitas com galhos de pinheiro trem eluzindo no vento gelado. As tochas estavam nas m ãos de um a m ultidão de crianças e adolescentes, rostos verm elhos por causa do frio e cristais de gelo pendurados nos gorros. Quando entraram no côm odo, parecia que o ar frio tinha entrado j unto. Dois adolescentes, com pouco agasalho, tinham passado ainda m ais frio que os outros: o casaco grosso deles estava enrolado em algo que seguravam nos braços. Quando os casacos foram retirados, Ye viu um a grande panela, cheia de repolho ferm entado e bolos de carne de porco fum egantes de quente.
Naquele ano, oito m eses depois de enviar o sinal para o sol, Ye entrou em trabalho de parto. Com o o bebê estava em um a posição difícil e o corpo dela estava debilitado, a enferm aria da base não conseguiu fazer o parto e precisou m andá-la para o hospital da cidade m ais próxim a.
Esse foi um dos m om entos m ais difíceis da vida de Ye. Depois de sofrer m uita dor e perder um a grande quantidade de sangue, ela entrou em com a. Em m eio a um a névoa, ela só via três sóis quentes e ofuscantes girando ao seu redor, queim ando seu corpo sem piedade. Ela ficou nesse estado por algum tem po e pensou, confusa, que provavelm ente aquele era o fim . Não era o fim , m as o inferno: o fogo dos três sóis iria atorm entá-la e queim á-la para sem pre. Era o castigo por sua traição, um a traição que superava qualquer outra. Ela m ergulhou no pavor: não pela própria vida, m as pela do bebê ainda por nascer — a criança ainda estaria dentro dela? Ou j á havia nascido naquele inferno para sofrer por toda a eternidade j unto com ela?
Ye não fazia ideia de quanto tem po tinha se passado. Aos poucos, os três sóis se afastaram . Quando chegaram a determ inada distância, de repente se encolheram e viraram estrelas voadoras cristalinas. O ar em volta de Ye resfriou, e a dor dim inuiu. Enfim , ela acordou.
Ye ouviu alguém chorar perto dela. Ao virar a cabeça com m uito esforço, viu o rostinho rosado e m olhado da criança.
O m édico disse que Ye havia perdido m ais de dois litros de sangue. Dezenas de cam poneses de Qij iatun tinham ido até lá para doar sangue para ela. Muitos dos cam poneses eram pais de alunos de Ye, m as a m aioria não tinha nenhum a relação com ela, só havia ouvido falar dela pela boca das crianças e dos pais. Sem essas pessoas, Ye com certeza teria m orrido.
A situação de Ye virou um problem a após o nascim ento da filha. O parto difícil abalara sua saúde. Ela não tinha com o perm anecer na base sozinha com a bebê, e não havia nenhum parente para aj udar. Foi quando um casal de idosos em Qij iatun conversou com os líderes da base, para explicar que poderiam acolher Ye e a criança. O senhor fora caçador e tam bém colhia ervas para usar em m edicina tradicional. Mais tarde, quando a floresta da região foi com pletam ente derrubada pelo desm atam ento, o casal recorreu à agricultura, m as as pessoas continuavam acostum adas a cham á-lo de Caçador Qi. Eles tinham dois filhos e duas filhas. As filhas haviam se casado e saído de casa. Um dos filhos era soldado e estava longe, e o outro era casado e m orava com eles. A nora tam bém havia acabado de dar à luz.
Ye ainda não tinha sido reabilitada politicam ente, e a liderança da base não se sentia m uito confiante com a solução sugerida. Porém , no fim das contas, com o não havia alternativa, foi perm itido que o casal usasse um trenó para levar Ye e a criança do hospital para casa.
Ela passou m ais de seis m eses com essa fam ília de cam poneses na cordilheira Grande Khingan. Estava tão debilitada após o parto que não produziu leite, então a criança, Yang Dong, foi am am entada por todas as m ulheres da cidadezinha. A que m ais a am am entava era Feng, a nora do Caçador Qi. Feng tinha o porte robusto e vigoroso das m ulheres do nordeste chinês. Com ia sorgo todos os dias, e seus seios grandes eram cheios de leite, em bora tivesse que am am entar dois bebês ao m esm o tem po. Outras am as de leite de Qij iatun tam bém am am entavam Yang Dong. Elas gostavam da m enina, diziam que tinha o m esm o ar inteligente da m ãe.
Aos poucos, a casa do Caçador Qi se tornou um ponto de encontro para todas as m ulheres da cidade. Velhas e j ovens, todas gostavam de passar lá quando não tinham m ais nada para fazer. Eram curiosas e adm iravam Ye, que percebeu que podia conversar sobre m uitos assuntos com elas.
Por várias vezes, Ye pegou Yang Dong no colo e se sentou com as outras m ulheres da cidade no quintal, cercadas por troncos de bétulas. Perto do grupo, um cachorro preto preguiçoso cochilava e as crianças brincavam , aproveitando o sol quente. Ye prestava atenção principalm ente nas m ulheres que pitavam cachim bos de cobre, soprando a fum aça sem pressa. Preenchida pela luz do sol, a fum aça refletia um brilho prateado que se parecia m uito com o pelo fino dos braços e pernas rechonchudos delas. Certa vez, um a passou para Ye a piteira com prida do cachim bo de cobre e níquel, dizendo que aquilo a faria se sentir m elhor. Ye deu só duas tragadas e j á ficou se sentindo tonta, e as m ulheres riram da história por dias.
Com os hom ens, Ye não tinha m uito assunto. As questões que pareciam ocupá-los o dia inteiro tam bém pareciam além da com preensão dela. Ye percebeu que eles estavam interessados em plantar ginseng para vender, j á que o governo sinalizava um afrouxam ento nas m edidas políticas, m as ninguém chegou a criar coragem para tentar. Todos tratavam Ye com m uito respeito e educação. Ela não reparou m uito nisso, a princípio. No entanto, com o tem po, depois de observar aqueles hom ens espancando as esposas e flertando descaradam ente com as viúvas da cidade, dizendo coisas que deixariam qualquer um constrangido, ela enfim percebeu o valor do respeito deles. Vez ou outra, um deles pegava um a lebre ou um faisão e levava para a casa do Caçador Qi. Tam bém davam para Yang Dong brinquedos estranhos e curiosos, que tinham feito com as próprias m ãos.
Ye lem brava aqueles m eses com o se pertencessem a outra pessoa, com o se fossem um segm ento de outra existência que o vento levara para a vida dela com o um a pena. Esse período ficou gravado em sua m em ória com o um a série de pinturas clássicas — não pinturas chinesas, m as quadros a óleo europeus. Pinturas chinesas eram cheias de espaços em branco, m as a vida em Qij iatun não tinha nenhum espaço em branco. Era cheia de cores m arcantes, densas, sólidas com o as pinturas a óleo clássicas. Tudo era quente e intenso: as cam as kang aquecidas, forradas com cam adas grossas de j unco, o tabaco artesanal enfiado em cachim bos de cobre, a com ida pesada e m assuda à base de sorgo, o baijiu destilado a partir do sorgo com teor alcoólico de m ais de trinta por cento — tudo m esclado a um a vida tranquila e pacífica, com o o córrego no final da cidade.
A parte m ais m em orável para Ye eram as noites. Com o o filho do Caçador Qi tinha se m udado para a m etrópole para vender cogum elos — foi o prim eiro a sair da cidadezinha para ganhar dinheiro em outro lugar —, Ye dividia um quarto na casa com Feng. Naquela época, a cidade não tinha energia elétrica, então as duas passavam todas as noites encolhidas em volta de um a lam parina de querosene — Ye ficava lendo, e Feng tricotava. Sem perceber, Ye ia chegando cada vez m ais perto da lam parina, e com algum a frequência o cabelo acabava ficando cham uscado. Quando isso acontecia, as duas se olhavam e sorriam . Claro que isso nunca acontecia com Feng: ela enxergava m uito bem e conseguia trabalhar com detalhes m esm o na luz fraca do carvão aceso. Os dois bebês, com m enos de seis m eses, dorm iam j untos na kang perto delas. Ye adorava vê-los dorm ir, quando a respiração tranquila deles era o único som dentro do quarto.
A princípio, Ye não gostava de dorm ir na kang aquecida, e vivia adoecendo, m as com o tem po se acostum ou. Durante o sono, ela se im aginava um bebê dorm indo em algum colo quente. A pessoa que a segurava não era seu pai, nem sua m ãe, nem tam pouco o m arido. Ela não sabia quem era. A sensação parecia tão real que ela acordava com o rosto coberto de lágrim as.
Certa noite, Ye abaixou o livro e viu que Feng tinha parado de costurar o sapato de pano. Ela estava im óvel, segurando o sapato em cim a do j oelho e encarando a lam parina. Quando se deu conta de que Ye estava olhando para ela, Feng perguntou:
— Irm ã, por que você acha que as estrelas do céu não caem ?
Ye observou Feng. A lam parina de querosene era um a artista m aravilhosa e criava um a pintura com cores elegantes e traços fortes: Feng estava com o casaco pendurado nos om bros, deixando aparecer a cinta verm elha e o braço forte e gracioso. A luz da lam parina pintava sua silhueta com cores quentes e vívidas, enquanto o resto do côm odo se dissolvia em um a escuridão suave. Um olhar atento revelava um leve brilho averm elhado que não vinha da lam parina de querosene, e sim do carvão aceso no chão. O ar frio do lado de fora esculpia belas form as de gelo nos vidros da j anela com o ar quente e úm ido do côm odo.
— Você tem m edo que as estrelas caiam ? — perguntou Ye, em voz baixa.
Feng riu e balançou a cabeça.
— Para que ter m edo? Elas são pequenas.
Ye não respondeu com o um a astrofísica.
— Elas estão m uito, m uito longe — se lim itou a dizer. — Não têm com o cair.
Feng ficou satisfeita com a resposta e continuou costurando. Mas Ye não se sentia m ais em paz. Ela abaixou o livro, recostou-se na superfície quente da kang e fechou os olhos. Com a im aginação, viu o resto do universo em volta da cabana m inúscula desaparecer, com o as trevas do côm odo sendo cobertas pela lam parina de querosene. Ela substituiu o universo ingênuo do coração de Feng pelo verdadeiro. O céu noturno era um dom o preto que cobria o m undo inteiro. A superfície do dom o estava incrustada de estrelas infinitas, que brilhavam com um a luz prateada cristalina, e nenhum a era m aior do que o espelho em cim a da velha m esa de m adeira ao lado da cam a. O m undo era plano e ia m uito longe em todas as direções, m as por todos os lados havia um a beirada que encontrava o céu. A superfície plana estava coberta de cordilheiras com o a Grande Khingan, e de florestas cheias de cidadezinhas m inúsculas, exatam ente com o Qij iatun… Esse universo de brinquedo consolou Ye e, aos poucos, saiu de sua im aginação e entrou em seus sonhos.
Naquele povoado m inúsculo no m eio das m ontanhas da Grande Khingan, finalm ente algum a parte do coração de Ye Wenj ie se derreteu. Na gélida tundra de sua alm a, surgiu um lago m inúsculo e lím pido de água de degelo.
Com o tem po, Ye acabou voltando para a Base Costa Verm elha com Yang Dong. Passaram -se outros dois anos, com fases de ansiedade e de paz. Foi quando Ye recebeu um aviso: tanto ela com o o pai haviam sido reabilitados politicam ente. Pouco depois, chegou um a carta da Universidade Tsinghua, declarando que ela poderia voltar para as salas de aula quando quisesse. Junto com a carta veio um a quantia em dinheiro: o pagam ento retroativo devido ao pai dela após a reabilitação. Enfim , nas reuniões internas da base, os supervisores de Ye poderiam cham á-la de camarada.
Ye encarou todas essas m udanças com neutralidade, sem dem onstrar qualquer sinal de entusiasm o ou de alegria. Ela não tinha interesse algum pelo m undo exterior e só queria continuar no isolam ento tranquilo da Base Costa Verm elha. Mas, pensando na educação de Yang Dong, decidiu sair da base, onde havia im aginado que passaria o resto da vida, e voltou para a faculdade.
Quando desceu das m ontanhas, Ye teve a sensação de que era prim avera por todos os lados. O inverno gelado da Revolução Cultural realm ente tinha chegado ao fim , e tudo estava renascendo. Em bora a calam idade tivesse acabado pouco antes, estava tudo arruinado, e um a infinidade de hom ens e m ulheres ia se recuperando. Já estava em evidência o alvorecer de um a nova vida: estudantes com seus próprios filhos apareciam no cam pus das universidades; livrarias vendiam obras literárias fam osas; as fábricas com eçavam a priorizar a inovação tecnológica; pesquisadores científicos adquiriam um status prestigiado. A ciência e a tecnologia eram as únicas chaves para o futuro, e as pessoas buscavam a ciência com a fé e a sinceridade de crianças no prim ário. Ainda que os esforços fossem ingênuos, eram tam bém realistas. No I Congresso Nacional de Ciências, Guo Moruo, o presidente da Academ ia Chinesa de Ciências, declarou aberta a tem porada de renascim ento e renovação da prej udicada classe científica da China.
Seria esse o fim da loucura? A ciência e a racionalidade estavam voltando de verdade? Ye pensava nessas perguntas m uitas vezes.
Ela nunca voltou a receber um a com unicação de Trissolaris. Sabia que precisaria esperar pelo m enos oito anos até chegar a resposta daquele m undo e, ao sair da base, perdeu acesso a qualquer possibilidade de receber notícias extraterrestres.
Foi um a atitude m uito im portante, e no entanto Ye tom ara por conta própria. Parecia surreal. Com o passar do tem po, essa sensação de surrealidade ficou ainda m ais forte. O que havia acontecido parecia um a ilusão, um sonho. O sol era m esm o capaz de am plificar sinais de rádio? Ela havia m esm o usado o astro com o um a antena para enviar a m ensagem da civilização hum ana para o universo? Havia realm ente chegado um a m ensagem das estrelas? Aquela m anhã sangrenta em que Ye traiu toda a hum anidade havia acontecido de verdade? E aqueles assassinatos…?
Ye tentou m ergulhar de cabeça no trabalho para esquecer o passado… e quase conseguiu. Por um estranho instinto de autodefesa, ela parou de lem brar o passado, parou de pensar no contato estabelecido com outra civilização. A vida seguiu assim , dia a dia, em paz.
Depois de algum tem po na Universidade Tsinghua, Ye levou Dong Dong para conhecer a avó, Shao Lin. Pouco tem po após m orte do m arido, Shao se recuperou do colapso m ental e deu um j eito de sobreviver nas brechas m inúsculas da política. Seus esforços para navegar a favor dos ventos políticos e bradar os bordões certos com pensaram e, m ais tarde, durante a fase “Retornem
à escola, continuem a revolução”, ela voltou a dar aulas.2
Mas então Shao fez algo que ninguém esperava: ela se casou com um quadro perseguido do alto escalão do Ministério da Educação. Naquela época, o
quadro ainda m orava em um “estábulo” de reform a pelo trabalho.3 Isso fazia parte do plano de longo prazo de Shao: ela sabia que o caos na sociedade não ia durar m uito. Com o os j ovens rebeldes que atacavam tudo o que viam não tinham experiência algum a com a adm inistração de um país, m ais cedo ou m ais tarde os velhos quadros perseguidos e afastados voltariam ao poder.
A aposta dela deu certo. Antes m esm o do fim da Revolução Cultural, seu m arido foi restituído ao cargo antigo. Pouco depois da Terceira Plenária do 11º
Com itê Central do PCC,4 ele foi prom ovido a vice-m inistro. Nesse panoram a, Shao Lin tam bém teve um a ascensão rápida quando os intelectuais voltaram a ser prestigiados. Após ingressar para a Academ ia Chinesa de Ciências, ela teve a sensatez de sair da faculdade antiga e foi prom ovida a vice-reitora em outra universidade fam osa.
Para Ye Wenj ie, essa nova versão de sua m ãe era exatam ente o m odelo de m ulher culta que sabia tom ar conta de si m esm a. Não existia sinal algum da perseguição que ela havia enfrentado. Shao recebeu Ye e Dong Dong com entusiasm o, perguntou sobre aqueles anos da vida de Ye com um tom preocupado, ficou im pressionada com a beleza e a inteligência de Dong Dong e deu orientações m eticulosas à cozinheira para o preparo dos pratos preferidos da filha. Tudo foi feito com habilidade, tato e um a porção adequada de carinho. Mas Ye detectava com clareza um m uro invisível entre ela e a m ãe. As duas evitavam com cuidado tem as delicados e não tocaram nenhum a vez no nom e do pai de Ye.
Depois do j antar, Shao Lin e o m arido acom panharam Ye e Dong Dong até a rua para se despedir. Shao Lin entrou antes, e o vice-m inistro trocou um a palavrinha com Ye. Em um instante, o sorriso gentil dele se transform ou em gelo, com o se ele enfim tivesse tirado a m áscara.
— Vam os adorar receber a visita de vocês duas no futuro com um a condição: não tente cobrar dívidas históricas antigas. Sua m ãe não tem nenhum a responsabilidade pela m orte do seu pai. Ela tam bém foi um a vítim a. Seu pai se agarrou à própria fé de m aneira nociva e insistiu em seguir por um beco sem saída. Ele abandonou a responsabilidade que devia ter com a fam ília e só trouxe sofrim ento para você e sua m ãe.
— Você não tem o direito de falar do m eu pai — respondeu Ye, com a voz cheia de raiva. — Esse assunto eu resolvo com m inha m ãe. Não é da sua conta.
— Tem razão — disse o m arido de Shao Lin, com frieza. — Só estou repassando a m ensagem dela.
Ye olhou para o prédio residencial reservado para quadros do alto escalão. Shao Lin tinha puxado um canto da cortina para olhar para eles. Sem falar m ais nada, Ye se abaixou para pegar Dong Dong e foi em bora. E não voltou nunca m ais.
Por m uito tem po Ye procurou inform ações sobre as quatro guardas-verm elhas que m ataram seu pai e, por fim , conseguiu encontrar três delas. As três foram
enviadas para o cam po5 e depois voltaram à cidade, e todas estavam desem pregadas. Ye descobriu o endereço delas e m andou um a carta curta para cada um a, pedindo um encontro nos cam pos de exercício onde seu pai havia m orrido. Só para conversar.
Ye não tinha nenhum desej o de vingança. Naquela m anhã da transm issão na Base Costa Verm elha, ela j á havia se vingado de toda a raça hum ana, incluindo aquelas guardas-verm elhas. Ainda assim , queria ouvir o rem orso daquelas assassinas, queria ver um vestígio qualquer do retorno da hum anidade.
Naquela tarde, depois das aulas, Ye esperou as três nos cam pos de exercício. Ela não alim entava m uitas esperanças, e tinha quase certeza de que o trio não com pareceria. Mas, na hora m arcada, todas apareceram .
Ye reconheceu as três de longe, porque estavam usando as fardas verdes, j á raras. Quando se aproxim aram , Ye percebeu que as fardas provavelm ente eram as m esm as que elas haviam usado naquele fatídico dia. As roupas estavam desbotadas de tanto lavar, e havia rem endos por todas as partes. Além das fardas, nada naquelas três m ulheres de trinta e poucos anos lem brava as três j ovens guardas-verm elhas que haviam parecido tão valentes naquela sessão de luta. Elas não haviam perdido apenas a j uventude.
A prim eira im pressão de Ye foi a de que, em bora as três no passado parecessem cópia um a da outra, elas eram m uito diferentes entre si. Um a delas se tornara um a m ulher m uito m agra e baixa, e a farda ficava folgada nela. Mostrava sinais da idade, com as costas encurvadas e o tom am arelado no cabelo. Outra era tão corpulenta que os botões do paletó da farda nem fechavam . O cabelo estava bagunçado, e o rosto tinha um a expressão grave, com o se a vida difícil tivesse elim inado qualquer delicadeza e deixado apenas insensibilidade e truculência. A terceira m ulher ainda m ostrava resquícios da j uventude, m as um a das m angas da farda estava vazia e balançava livrem ente à m edida que ela andava.
As três antigas guardas-verm elhas pararam enfileiradas diante de Ye — a m esm a posição que haviam m antido diante de Ye Zhetai —, tentando retom ar a dignidade há m uito esquecida. Mas a energia espiritual dem oníaca que as im pulsionara naqueles tem pos não existia m ais. A m ulher m agra tinha cara de fuinha. O rosto da corpulenta parecia vazio. A m ulher sem um dos braços olhava para o céu.
— Você achou que a gente não teria coragem de vir? — perguntou a m ulher corpulenta, tentando soar provocativa.
— Só achei que devíam os nos ver. É preciso colocar algum tipo de ponto final no passado — disse Ye.
— O passado ficou para trás. Você devia saber. — A m ulher m agra falou com rispidez, com o se vivesse com m edo de algum a coisa.
— Estou m e refiro a um fim espiritual.
— Então você quer que a gente se arrependa? — perguntou a m ulher corpulenta.
— Vocês não acham que deveriam ?
— E aí quem é que vai se arrepender por nós? — perguntou a outra m ulher.
— De nós quatro — disse a corpulenta —, três tinham assinado o cartaz de caracteres grandes no colégio ligado à faculdade. Roteiros revolucionários, os grandes com ícios na Praça da Paz Celestial, as Guerras Civis da Guarda Verm elha, Prim eiro Quartel-General Verm elho, Segundo Quartel-General Verm elho, Terceiro Quartel-General Verm elho, Com itê de Ação Conj unta, Protestos Ocidentais, Protestos Orientais, Com una da Universidade de Beij ing, Grupo de Com bate Bandeira Verm elha, O Oriente É Verm elho… passam os por todos os m arcos da história da Guarda Verm elha, do nascim ento à m orte.
A m ulher que não tinha um dos braços tom ou a palavra.
— Durante a Guerra de Cem Dias em Tsinghua, duas de nós fizeram parte do Corpo da Montanha Jinggang, e duas da Facção Catorze de Abril. Eu peguei um a granada e ataquei um tanque im provisado da facção da m ontanha Jinggang. Meu braço foi esm agado pela lagarta do tanque. Meu sangue, m eus ossos e
m úsculos, tudo foi esm igalhado na lam a. Eu tinha apenas quinze anos.6
— Depois, fom os m andadas para o m eio do nada! — A m ulher corpulenta levantou os braços. — Duas foram para Shaanxi, e duas para Henan, dois lugares dos m ais rem otos e pobres. Quando fom os, ainda éram os idealistas, m as isso não durou m uito. Depois de um dia de trabalho nos cam pos, estávam os tão cansadas que não conseguíam os nem lavar a roupa. Deitávam os dentro de barracos de palha cheios de goteira e passávam os a noite ouvindo o uivo dos lobos, e com o tem po fom os acordando dos nossos sonhos. Estávam os perdidas naqueles vilarej os abandonados e ninguém dava a m ínim a para nós.
Um a delas ficou olhando para o chão, com um a expressão vaga.
— No período que passam os no cam po, de vez em quando eu esbarrava em outro cam arada ou inim igo da Guarda Verm elha, no m eio de um a trilha na terra vazia. A gente olhava um para o outro: as m esm as roupas esfarrapadas, a m esm a lam a, a m esm a suj eira de bosta de vaca. Ninguém tinha nada para falar.
A m ulher corpulenta olhou para Ye.
— Tang Hongj ing foi a m enina que deu o golpe fatal em seu pai. Ela m orreu afogada no rio Am arelo. Um a enchente levou algum as das ovelhas da equipe de produção, então o secretário do Partido gritou para os estudantes enviados: “Jovens revolucionários! É hora de testar sua fibra!”. Aí, Hongj ing e outros três estudantes m ergulharam no rio para salvar as ovelhas. Era o com eço da prim avera, e a superfície do rio ainda estava coberta por um a cam ada fina de gelo. Os quatro m orreram , ninguém sabe se de frio ou de afogam ento. Quando vi os corpos… eu… eu… não consigo m ais falar dessa m erda.
Ela cobriu os olhos e chorou.
A m ulher m agra suspirou, com os olhos m arej ados.
— Depois, m ais tarde, voltam os para a cidade. Mas e daí? Continuam os sem nada. Os j ovens que voltaram depois de terem sido enviados ao cam po não têm vida fácil. Não conseguim os nem os piores em pregos. Sem trabalho, sem dinheiro, sem futuro. Não tem os nada.
Ye continuou em silêncio.
— Teve um film e recente cham ado Bordo — disse a m ulher m aneta. — Não sei se você j á viu. No final, um adulto e um a criança param na frente do túm ulo de um guarda-verm elho m orto nas guerras civis entre as facções. A criança pergunta para o adulto: “Eram heróis?”. O adulto responde que não. A criança pergunta: “Eram inim igos?”. De novo, o adulto diz que não. A criança pergunta: “Então o que eram ?”. O adulto responde: “História”.
— Escutou bem ? — A m ulher corpulenta agitou um dos braços para Ye. — História! História! Agora estam os em um a nova era. Quem vai se lem brar de nós? Quem vai pensar em nós e em você? Todo m undo vai se esquecer com pletam ente disso!
As três guardas-verm elhas foram em bora, e Ye ficou sozinha nos cam pos de exercício. Mais de doze anos antes, em um a tarde chuvosa, ela tam bém havia perm anecido ali sozinha, olhando para o pai m orto. As últim as palavras da antiga guarda-verm elha ecoavam sem parar em seus ouvidos…
O pôr do sol criava um a som bra com prida com a silhueta esguia de Ye. O fiapo de esperança pela sociedade surgido em sua alm a tinha evaporado com o um a gota de orvalho sob o sol. A dúvida ínfim a a respeito de sua traição suprem a tam bém havia desaparecido sem deixar rastros.
Ye enfim descobriu seu ideal inabalável: trazer para o m undo hum ano um a civilização superior vinda de outro lugar do universo.
1. As Cinco Categorias Pretas, alvo da Revolução Cultural, eram as cinco identidades políticas usadas durante a revolução: proprietários de im óveis, fazendeiros ricos, contrarrevolucionários, “elem entos nocivos” e direitistas.
2. Durante a fase inicial da Revolução Cultural, todas as aulas foram interrom pidas nas instituições de ensino superior, m édio e fundam ental, e os alunos m ais velhos se tornaram guardas-verm elhos. Por fim , o caos resultante obrigou a liderança em Beij ing a pedir que os alunos voltassem às aulas no final de 1967 e continuassem com a revolução de m aneira m ais controlada.
3. “Estábulos” eram locais estabelecidos por unidades de trabalho (fábricas, escolas, cidades etc.) durante as prim eiras fases da Revolução Cultural, a fim de deter “m onstros e dem ônios” contrarrevolucionários (autoridades acadêm icas reacionárias, direitistas, as Cinco Categorias Pretas etc.).
4. Essa assem bleia m arcou o início da política de “Reform a e Abertura” e foi considerada o m om ento em que Deng Xiaoping se tornou o líder da China.
5. Nos anos que se seguiram à Revolução Cultural, m em bros da j uventude urbana, privilegiada e instruída, foram enviados para as regiões rurais pobres nas m ontanhas, a fim de viver e aprender com os agricultores. Muitos desses “j ovens rusticados”, com o foram cham ados, tinham sido guardas-verm elhos. Há quem diga que essa política foi introduzida pelo presidente Mao para rem over das cidades os rebeldes, que estavam descontrolados, e restabelecer a ordem .
6. A Guerra de Cem Dias na Universidade Tsinghua foi um a das guerras civis m ais violentas da Guarda Verm elha durante a Revolução Cultural. Disputada por duas facções da Guarda Verm elha, ela se estendeu de 23 de abril a 27 de j ulho de 1968 e envolveu o uso de arm as brancas, arm as de fogo, granadas, m inas, canhões etc. No final, foram dezoito m ortos e m ais de 1 100 feridos. Entre estes, m ais de trinta sofreram invalidez perm anente.