O Problema dos Três Corpos

Cixin Liu · Capítulo 19 de 36

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O Problema dos Três Corpos

19. Três corpos: Einstein, o monumento do pêndulo e o grande rasgo

19. TRÊS CORPOS: EINSTEIN, O

MONUMENTO DO PÊNDULO

E O GRANDE RASGO

 

Na quinta vez em que Wang Miao entrou em Três Corpos, era m anhã com o sem pre, m as o m undo parecia irreconhecível.

A grande pirâm ide das prim eiras quatro vezes fora destruída na sizígia trissolar. No lugar dela havia um edifício alto e m oderno, e Wang se lem brou da fachada cinza-escura: a sede da Organização das Nações Unidas.

Ao longe, havia m uitos outros edifícios daquele tam anho, aparentem ente desidratórios. Todos apresentavam superfícies com pletam ente espelhadas. À luz do am anhecer, pareciam plantas de cristal gigantes brotando da terra.

Wang ouviu um violino tocando algum a m elodia de Mozart. O m úsico não parecia m uito habilidoso, m as passava um encanto especial, com o se dissesse: Eu toco só para mim. O violinista era um m endigo idoso sentado na escada em frente à sede da ONU, e seu cabelo branco bagunçado esvoaçava no vento. Havia um chapéu velho com alguns trocados a seus pés.

De repente, Wang reparou no sol. Mas ele estava nascendo no lado contrário da luz da alvorada, e o céu ao redor continuava im erso em escuridão total.

O sol era m uito grande, e o disco parcialm ente visível ocupava um terço do horizonte. Wang sentiu o coração bater m ais acelerado: um sol daquele tam anho só podia ser o prenúncio de m ais um a grande catástrofe. Porém , quando Wang se virou, o m endigo continuava tocando com o se não houvesse nada de estranho. Seu cabelo branco reluzia ao sol, com o se estivesse em cham as.

O sol era branco, com o o cabelo do velho, e lançava um a luz fraca, m as Wang não sentia calor algum . Ele olhou para o astro, que j á estava alto no céu. No gigantesco disco branco, ele enxergou linhas que pareciam veios de m adeira: cordilheiras.

Wang percebeu que o disco não em itia luz, apenas refletia a luz do sol de verdade, que estava abaixo do horizonte, no outro lado do céu. O que havia nascido não era nenhum sol, e sim um a lua gigante, que subia depressa pelo céu a um a velocidade perceptível a olho nu. No processo, ela passou gradualm ente da fase cheia para a m inguante.

A m elodia tranquilizante do violino do m endigo se espalhava pela brisa fria da m anhã, e a im agem m aj estosa do universo parecia a m aterialização da m úsica. Wang se sentia inebriado.

A gigantesca lua m inguante com eçou a se pôr sob a luz da alvorada e ficou m uito m ais lum inosa. Quando restavam apenas duas pontas brilhantes acim a do horizonte, Wang im aginou que fossem os chifres de algum touro titânico que investia contra o sol.

— Honrado Copérnico, descanse seus pés cansados aqui um pouco — disse o velho, depois que a lua gigante se pôs. — Aí, quando você tiver desfrutado um pouco de Mozart, talvez eu possa com er algum a coisa.

— Se não m e engano… — Wang olhou para o rosto todo enrugado. As rugas eram grandes e faziam curvas suaves, com o se tentassem criar algum a form a de harm onia.

— Não se engana. Eu sou Einstein, um hom em m iserável cheio de fé em Deus, m as que Ele abandonou.

— O que é aquela lua gigante? Nunca vi aquilo nas outras vezes que j oguei.

— Ela j á esfriou.

— O quê?

— A grande lua. Quando eu era pequeno, ela ainda estava quente e, sem pre que subia até o m eio do céu, dava para ver o brilho verm elho na planície central. Só que agora j á esfriou… Você não ouviu falar do grande rasgo?

— Não. O que é isso?

Einstein suspirou e balançou a cabeça.

— Melhor não falar a respeito. Vam os esquecer o passado. O m eu passado, o passado da civilização, o passado do universo… dói m uito lem brar tudo isso.

— Com o é que você ficou assim ?

Wang enfiou a m ão no bolso até achar alguns trocados, se inclinou e colocou as m oedas no chapéu.

— Obrigado, sr. Copérnico. Espero que Deus não o abandone, m as não tenho m uita fé nisso. Acho que o m odelo que você, Newton e os dem ais criaram no Oriente com a aj uda da form ação hum ana de com putador chegou m uito perto de acertar. Mas o errinho que sobrou foi um abism o intransponível para Newton e os outros.

“Eu sem pre acreditei que, se não tivesse descoberto a relatividade restrita, outras pessoas acabariam descobrindo. Mas a relatividade geral é diferente. Newton não considerou o efeito que a curvatura gravitacional do espaço-tem po exercia na órbita planetária conform e a relatividade geral. Em bora o erro causado por isso fosse pequeno, o im pacto nos resultados da com putação foi fatal. Acrescentar às equações clássicas o fator de correção para a perturbação da curvatura do espaço-tem po resultaria no m odelo m atem ático certo. O volum e de poder de com putação necessário excede em m uito o que vocês realizaram no Oriente, m as pode ser proporcionado com facilidade por com putadores m odernos.”

— Os resultados da com putação foram confirm ados por observação astronôm ica?

— Se tivessem sido, você acha que eu estaria aqui? Mas, pela perspectiva da estética, eu devo estar certo e o universo deve estar errado. Deus m e abandonou, então outros tam bém m e abandonaram . Ninguém quer saber de m im . Princeton m e dem itiu do corpo docente. A Unesco não m e aceitou nem com o consultor científico. Antes, eu não teria ido nem se eles tivessem im plorado de j oelhos. Eu até pensei em ir para Israel ser presidente, m as eles m udaram de ideia e disseram que eu era um a fraude…

Einstein com eçou a tocar de novo, retom ando a m úsica do m esm o ponto em que tinha parado. Depois de passar um tem po escutando, Wang cam inhou até o prédio da ONU.

— Não tem ninguém ali dentro — disse Einstein, sem parar de tocar. — Todo m undo da sessão da Assem bleia Geral está atrás do prédio, na Cerim ônia de Iniciação do Pêndulo.

Wang contornou o prédio e se viu diante de algo de tirar o fôlego: um pêndulo colossal, que parecia se estender entre o céu e a terra. Na verdade, Wang j á havia visto aquilo se insinuando por trás do prédio, m as não sabia o que estava olhando.

O pêndulo lem brava aqueles construídos por Fu Xi para hipnotizar o deus sol durante o Período dos Reinos Com batentes, na prim eira vez em que Wang entrou em Três Corpos. No entanto, o pêndulo que estava ali fora com pletam ente m odernizado. Os dois pilares de sustentação eram de m etal e m ais altos que a torre Eiffel. O peso tam bém era de m etal, aerodinâm ico, com um a superfície lisa, espelhada e galvanizada. O fio do pêndulo, feito de algum m aterial ultraforte, era tão fino que parecia quase invisível, e o peso parecia flutuar no espaço entre as duas torres.

Debaixo do pêndulo havia m uitas pessoas de terno, provavelm ente os líderes dos diversos países que m arcavam presença nessa sessão da Assem bleia Geral. Eles estavam distribuídos em grupos pequenos e conversavam entre si em voz baixa, com o se esperassem algo.

— Ah, Copérnico, o hom em que atravessou cinco eras! — gritou alguém . Os outros o cum prim entaram .

— Você é um dos que viu os pêndulos do Período dos Reinos Com batentes com seus próprios olhos! — Um hom em sim pático segurou e apertou a m ão de Wang. Alguém o apresentou com o o secretário-geral da ONU, da África.

— Sim , eu vi — disse Wang. — Mas por que estam os construindo outro agora?

— É um m onum ento para Trissolaris e tam bém um a lápide. — O secretário-geral olhou para o pêndulo. Visto dali de baixo, ele parecia grande com o um subm arino.

— Um a lápide? Para quem ?

— Para um a aspiração, um anseio que durou quase duzentas civilizações: o esforço para resolver o problem a dos três corpos, para descobrir o padrão dos m ovim entos solares.

— O esforço acabou?

— Sim . A partir de agora, acabou de vez.

Wang hesitou um pouco antes de pegar um m aço de papéis, o m odelo m atem ático de três corpos de Wei Cheng.

— Eu… eu vim aqui por causa disto. Trouxe um m odelo m atem ático que resolve o problem a dos três corpos. Tenho m otivos para acreditar que ele deve funcionar.

Assim que Wang disse isso, as pessoas ao redor perderam o interesse. Elas voltaram a seus grupinhos e continuaram conversando. Wang percebeu que alguns até balançaram a cabeça e deram risada ao virar as costas para ele. O secretário-geral pegou o docum ento e, sem nem olhar para os papéis, entregou a um hom em m agro de óculos do lado dele.

— Em respeito à sua grande reputação, pedirei para m eu consultor científico dar um a olhada. Na verdade, todos aqui dem onstraram respeito por você. Se qualquer outra pessoa tivesse dito o que você acabou de falar, eles estariam rindo.

O consultor científico folheou o docum ento.

— Algoritm o evolucionário? Copérnico, você é um gênio. Qualquer pessoa capaz de pensar um algoritm o assim é um gênio. Isso exige não apenas um dom ínio superior da m atem ática, m as tam bém im aginação.

— Você parece sugerir que alguém j á criou um m odelo m atem ático parecido.

— Sim . Existem dezenas de m odelos m atem áticos com o este. Mais da m etade é m ais avançado que o seu. Todos foram im plem entados e executados em com putadores. Ao longo dos últim os dois séculos, esse volum e im enso de com putação foi a principal atividade deste m undo. Todo m undo esperava os resultados com o se estivesse aguardando o Dia do Juízo Final.

— E?

— Provam os definitivam ente que o problem a dos três corpos não tem solução.

Wang olhou para o pêndulo gigantesco acim a de sua cabeça. Na luz da m anhã, ele parecia brilhar. A superfície espelhada retorcida refletia tudo com o se fosse o olho do m undo. Naquele lugar, em um a era distante, separada do aqui e do agora por m uitas civilizações, ele e o rei Wen atravessaram um a floresta de pêndulos gigantes a cam inho do palácio do rei Zhou. De um a hora para a outra, a história havia com pletado um grande círculo e voltado ao ponto de partida.

— É exatam ente com o havíam os im aginado m uito tem po atrás — disse o consultor científico. — O sistem a de três corpos é um sistem a caótico. Perturbações ínfim as podem ser am plificadas eternam ente. Na prática, os padrões de m ovim ento não podem ser previstos pela m atem ática.

Wang sentiu que todo o seu conhecim ento científico e seu m étodo de raciocínio se tornaram um borrão em um instante. Tudo foi substituído por um a confusão que nunca havia experim entado.

— Se até m esm o um a disposição extrem am ente sim ples com o o sistem a de três corpos é um caos im previsível, que esperança tem os de descobrir as leis do com plicado universo?

— Deus é um velho sem vergonha que fica fazendo apostas. Ele nos abandonou! — O dono daquela voz era Einstein, que brandia o violino. Wang não sabia quando ele havia chegado.

O secretário-geral fez um gesto lento com a cabeça.

— Sim , Deus gosta de apostar. A única esperança da civilização trissolariana é fazer o m esm o.

A essa altura, a lua gigante estava se erguendo de novo no lado escuro do horizonte. A im ensa e prateada im agem aparecia refletida na superfície do peso do pêndulo. A luz estrem ecia de um j eito curioso, com o se o peso e a lua tivessem desenvolvido um a sintonia m isteriosa.

— Esta civilização parece ter se desenvolvido até um estado m uito avançado — disse Wang.

— Sim . Conquistam os a energia do átom o e chegam os à Era da Inform ação. — O secretário-geral não parecia m uito satisfeito com as próprias palavras.

— Então existe esperança: ainda que sej a im possível prever o padrão dos m ovim entos solares, a civilização pode continuar se desenvolvendo até atingir um nível em que sej a capaz de se proteger e de escapar sã e salva das catástrofes devastadoras das Eras Caóticas.

— Antigam ente as pessoas pensavam com o você. Essa crença era um a das forças que im pulsionava a civilização trissolariana a insistir incessantem ente. Mas a lua nos fez perceber com o essa ideia é ingênua. — O secretário-geral apontou para a lua gigante que subia no céu. — Você provavelm ente está vendo a lua pela prim eira vez. Na verdade, com o ela tem cerca de um quarto do tam anho de nosso planeta, não é m ais um a lua, e sim a com panheira de nosso m undo em um sistem a de planetas duplos. Ela foi o resultado do grande rasgo.

— Grande rasgo?

— O desastre que dizim ou a últim a civilização. Em com paração com as civilizações anteriores, eles tiveram bastante tem po para prever o desastre. Com base em docum entos preservados, os astrônom os da civilização 191 detectaram um a estrela voadora paralisada m uito antes.

Wang sentiu um aperto no coração ao ouvir a últim a frase. Um a estrela voadora paralisada era um presságio terrível para Trissolaris. Quando um a estrela voadora, ou um sol distante, parece ficar com pletam ente im óvel no fundo estrelado, significa que os vetores de m ovim ento do sol e do planeta estão alinhados. O fenôm eno adm ite três possíveis interpretações: o sol e o planeta estão se m ovendo na m esm a direção com a m esm a velocidade; o sol e o planeta estão se afastando um do outro; e o sol e o planeta estão se aproxim ando. Antes da civilização 191, essa últim a possibilidade era apenas teórica, um desastre que nunca havia acontecido. Porém , o m edo e a desconfiança do povo não perderam força, a tal ponto que “estrela voadora paralisada” se tornou um a expressão que significava azar extrem o em m uitas civilizações trissolarianas. Um a única estrela voadora que ficasse im óvel j á bastava para deixar todo m undo apavorado.

— E aí as três estrelas voadoras pararam ao m esm o tem po. As pessoas da civilização 191 ficaram olhando, im potentes, as três estrelas voadoras paralisadas, os três sóis que caíam bem em direção ao m undo. Alguns dias depois, um dos sóis se deslocou para um a distância que perm itiu que sua cam ada gasosa externa ficasse visível. No m eio de um a noite tranquila, a estrela de repente se transform ou em um sol ardente. A intervalos de m ais ou m enos trinta horas, os outros dois sóis tam bém apareceram em um a sequência rápida. Não era um dia trissolar norm al. Quando a últim a estrela voadora se transform ou em um sol, o prim eiro sol j á havia passado pelo planeta a um a distância extrem am ente curta. Logo depois, os outros dois sóis passaram por Trissolaris a

distâncias ainda m ais curtas, bem dentro do lim ite de Roche* do planeta, de tal form a que as forças de m aré im postas a Trissolaris pelos três sóis excederam a força autogravitacional do planeta. O prim eiro sol abalou a estrutura geológica m ais profunda do planeta; o segundo abriu um a grande fenda que chegou até o núcleo; e o terceiro rasgou o planeta em dois.

O secretário-geral apontou para a lua gigante no céu.

— Aquele é o pedaço m enor. Ainda existem ruínas da civilização 191 lá, m as é um m undo sem vida. Foi o desastre m ais terrível de toda a história de Trissolaris. Depois que o planeta foi destroçado, os dois pedaços irregulares voltaram a ter um a form a esférica graças à autogravitação. O denso m aterial abrasador do núcleo do planeta j orrou na superfície, e os oceanos ferveram na lava. Os continentes boiaram no m agm a com o icebergs. Quando eles se colidiam , a rocha ficava m acia com o os m ares. Cordilheiras gigantescas de dezenas de m ilhares de m etros de altura se erguiam e desapareciam de um a hora para outra.

“Por um tem po, os dois pedaços destroçados perm aneceram ligados por tiras de lava derretida que se aglutinaram em um rio espacial. A lava por fim resfriou e form ou anéis em torno dos planetas, m as, devido às perturbações dos planetas, os anéis eram instáveis. As rochas que com punham esses anéis caíram de volta na superfície em um a chuva de pedregulhos gigantes que durou séculos… Dá para im aginar o inferno que era? A destruição ecológica causada por essa catástrofe foi a m ais severa de todos os tem pos. Toda a vida no segundo planeta se extinguiu, e por pouco o planeta-m ãe não virou um deserto sem vida tam bém . Apesar disso, no final, as sem entes da vida conseguiram germ inar aqui, e quando a geologia do planeta-m ãe se estabilizou, a evolução com eçou seus passos hesitantes em oceanos novos e em continentes novos, até que a civilização surgisse pela 192ª vez. O processo inteiro levou noventa m ilhões de anos.

“A situação de Trissolaris no universo é ainda m ais catastrófica do que havíam os im aginado. O que vai acontecer na próxim a vez em que aparecerem estrelas voadoras paralisadas? É m uito provável que nosso planeta não passe apenas de raspão no sol, e sim que m ergulhe no m ar de fogo do próprio astro. Com o tem po, essa possibilidade vai se transform ar em certeza.

“A princípio, isso era só um a especulação trágica, m as um a descoberta astronôm ica recente fez com que perdêssem os todas as esperanças no destino de Trissolaris. Os pesquisadores estavam tentando restabelecer a história da form ação das estrelas e dos planetas com base em sinais neste sistem a estelar. Mas acabaram descobrindo que, em um passado rem oto, o sistem a estelar trissolariano tinha doze planetas. E agora só restou este.

“Só existe um a explicação: os outros onze planetas foram todos consum idos pelos três sóis! Nosso m undo é apenas o últim o sobrevivente de um a Grande Caçada. O fato de que a civilização tenha reencarnado cento e noventa e duas vezes não passou de sorte. Além disso, após m ais análises, descobrim os o fenôm eno de ‘respiração’ das três estrelas.”

— As estrelas respiram ?

— É só um a m etáfora. Você descobriu a cam ada gasosa externa dos sóis, m as não sabia que essa cam ada gasosa se expande e se contrai em um ciclo extrem am ente longo, com o se fosse um a respiração. Quando a cam ada gasosa se expande, pode ficar dezenas de vezes m ais espessa, o que aum enta em m uito o diâm etro do sol, com o se fosse um a luva gigantesca que consegue pegar planetas com m ais facilidade. Quando um planeta passa perto de um sol, ele entra nessa cam ada gasosa. Com a fricção, perde velocidade, e no fim , com o se fosse um m eteoro, cai no m ar flam ej ante do sol, lançando um a grande cauda de cham as.

“Os resultados do estudo dem onstram que, na longa história do sistem a estelar trissolariano, sem pre que as cam adas gasosas dos sóis se expandiam , um ou dois planetas eram consum idos. Todos os outros onze planetas caíram em um m ar de fogo quando as cam adas gasosas estavam com o tam anho m áxim o. Por enquanto, as cam adas gasosas dos três sóis estão em um estágio contraído; caso contrário, nosso planeta j á teria caído em um deles na últim a vez em que os três passaram perto de nós. Mas os astrônom os preveem que a próxim a expansão vai acontecer daqui a m il anos.”

— Não podem os m ais continuar neste lugar horrível — disse Einstein, agachado no chão com o se fosse um m endigo velho.

O secretário-geral assentiu com a cabeça.

— Não podem os m ais ficar aqui. A única opção que resta à civilização trissolariana é fazer um a aposta com o universo.

— Com o? — perguntou Wang.

— Precisam os sair do sistem a estelar trissolariano e voar para o grande m ar aberto de estrelas. Precisam os m igrar para um m undo novo na galáxia.

Wang ouviu um rangido. Ele viu que o peso gigante do pêndulo estava sendo erguido por um cabo fino, preso pela outra extrem idade a um guincho elevado. Enquanto o peso subia até a altura m áxim a, um a lua m inguante im ensa descia lentam ente no céu atrás dele.

O secretário-geral anunciou, solene:

— Com eçar o pêndulo.

O guincho soltou o cabo preso ao pêndulo, e o peso desceu silenciosam ente por um arco am plo. A princípio, desceu devagar, m as acelerou até alcançar a velocidade m áxim a na base do arco. Conform e ele cortava o ar, o vento ecoava um som grave e retum bante. Quando o barulho parou, o pêndulo j á havia seguido o arco até o ponto m ais alto do outro lado e, após um instante, com eçado a descer de novo.

Wang sentiu a grande força gerada pelo m ovim ento do pêndulo, com o se o chão fosse sacudido pelos arcos. Ao contrário de um pêndulo no m undo real, o período daquele pêndulo gigante não era estável: ele variava constantem ente, em decorrência das diversas m udanças de atração gravitacional da lua gigante. Quando a lua estava de um lado do planeta, sua gravidade anulava parcialm ente a do planeta, fazendo com que o pêndulo ficasse m enos pesado. Quando estava do outro lado do m undo, a gravidade dela se som ava à do planeta, aum entando o peso do pêndulo, quase até o m esm o nível que ele teria antes do grande rasgo.

Enquanto observava o balanço espantoso do Monum ento do Pêndulo trissolariano, Wang se perguntou: Será que ele representa o desejo de se ter ordem ou a rendição ao caos? Ele tam bém pensou no pêndulo com o um gigantesco punho m etálico, agitando-se eternam ente contra o universo insensível, berrando em silêncio o grito de guerra indom ável da civilização trissolariana…

Quando as lágrim as turvaram seus olhos, Wang viu um a linha de texto aparecer na frente do pêndulo oscilante:

Quatrocentos e cinquenta e um anos depois, a civilização núm ero 192 foi destruída pelas cham as de dois sóis que apareceram sim ultaneam ente. Essa civilização havia avançado até a Era Atôm ica e a Era da Inform ação.

A civilização núm ero 192 foi um m arco da

civilização trissolariana. Ela enfim provou que o problem a dos três corpos não tinha solução, desistiu do esforço inútil que havia se estendido cento e noventa e um ciclos e determ inou o cam inho das civilizações futuras. Desse m odo, o obj etivo de Três Corpos m udou.

O novo obj etivo é: rum ar para as estrelas e encontrar

um novo lar.

Convidam os você a entrar novam ente.

Após sair de Três Corpos, Wang se sentia exausto, assim com o em todas as sessões anteriores. No entanto, dessa vez, ele só descansou por m eia hora e se conectou de novo.

Agora, diante de um fundo com pletam ente preto, apareceu um a linha de texto inesperada:

URGENTE. Os servidores de Três Corpos estão prestes a ser desativados. Por favor, conecte-se à vontade no tem po que resta. Três Corpos passará diretam ente à últim a cena.

 

* O astrônom o francês Édouard Roche foi o prim eiro a calcular a distância teórica m ínim a para que um corpo celestial fosse destroçado pelas forças de m aré de outro corpo m aior. O lim ite de Roche costum a ser explicado com o a razão entre a densidade dos corpos e o raio equatorial do corpo m aior. (N. A.)