O Problema dos Três Corpos
31. Operação Guzheng
— Não se preocupe — disse Shi Qiang para Wang, sentando-se ao lado dele na m esa de reuniões. — Não estou m ais radioativo. Nesses últim os dias fui lavado e revirado com o um saco de farinha. Eles acharam que você não precisava com parecer a esta reunião, m as eu insisti. Hehe, aposto que nós dois vam os ser im portantes agora.
Enquanto falava, Da Shi pegou um a ponta de charuto no cinzeiro, acendeu e deu um a longa tragada. Fez um gesto com a cabeça e, relaxado, soprou lentam ente a fum aça no rosto das pessoas que estavam do outro lado da m esa. Um a delas era o dono do charuto, o coronel Stanton, do Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos. Ele encarou Da Shi cheio de desprezo.
Havia m uito m ais oficiais m ilitares estrangeiros naquela reunião do que na anterior, todos fardados. Pela prim eira vez na história da hum anidade, todas as Forças Arm adas do m undo enfrentavam o m esm o inim igo.
— Cam aradas — disse o general Chang —, todos nesta reunião têm o m esm o conhecim ento básico da situação. Ou, com o Da Shi aqui diria, tem os paridade inform acional. A guerra entre os invasores alienígenas e a hum anidade j á com eçou. Nossos descendentes só enfrentarão os trissolarianos daqui a quatro séculos e m eio. Por enquanto, nossos oponentes ainda são hum anos. Agora, em essência, esses traidores da raça hum ana tam bém podem ser considerados inim igos que não fazem parte da nossa civilização. Nunca enfrentam os um inim igo assim . O próxim o obj etivo está m uito claro: precisam os capturar as m ensagens interceptadas de Trissolaris, que estão arm azenadas no Juízo Final. Essas m ensagens podem ter grande im portância para a nossa sobrevivência.
“Ainda não dem os nenhum passo capaz de levantar suspeitas na tripulação do Juízo Final. O navio continua navegando livrem ente pelo Atlântico e j á enviou à Autoridade do canal do Panam á seus planos para usar o canal daqui a quatro dias. É um a excelente oportunidade para nós e, dependendo do desenrolar da situação, pode ser que nunca tenham os outra. Neste instante, todos os Centros de Com ando em Batalha do m undo estão preparando planos operacionais, e a Central vai selecionar um daqui a dez horas e iniciar a im plem entação. O propósito desta reunião é discutir possíveis planos de operação e transm itir à Central até três de nossas m elhores sugestões. O tem po urge, e precisam os trabalhar com eficiência.
“Considerem que qualquer plano deve garantir um a coisa: a obtenção das m ensagens trissolarianas. O Juízo Final foi adaptado a partir de um petroleiro antigo, e tanto a superestrutura quanto o interior passaram por am plas reform as para abrigar estruturas com plexas, com o côm odos e corredores novos. É possível que até a tripulação precise de m apas para chegar a partes pouco usadas. Nós, evidentem ente, sabem os ainda m enos da estrutura do navio. Neste instante, não sabem os nem da localização do centro de com putação no Juízo Final, m uito m enos se as m ensagens trissolarianas estão arm azenadas em servidores no centro de com putação ou quantas cópias existem . Só conseguirem os alcançar nosso obj etivo se capturarm os e controlarm os com pletam ente o Juízo Final.
“A parte m ais difícil vai ser im pedir que o inim igo apague os dados de Trissolaris durante nossa ofensiva, o que seria bem fácil para eles. O inim igo não usaria nenhum m étodo convencional para apagar os dados durante o ataque, porque não é com plicado recuperar inform ações com tecnologias conhecidas. Agora, se eles esvaziarem um cartucho de m unição no disco rígido do servidor ou outra m ídia de arm azenam ento, algo que só levaria uns dez segundos, será o fim para nós. Por isso precisam os incapacitar todos os inim igos que estiverem perto do equipam ento até dez segundos após a operação ter sido detectada. Com o não sabem os a localização exata dos dados nem a quantidade de cópias, precisam os elim inar todos os inim igos no Juízo Final em m uito pouco tem po, antes que o alvo sej a alertado. Paralelam ente, não podem os causar danos excessivos às instalações internas, sobretudo aos com putadores. Resum indo: é um a tarefa m uito difícil e há quem considere im possível.”
— Acreditam os que a única chance de sucesso sej a a infiltração de espiões no Juízo Final — disse um oficial das Forças de Autodefesa do Japão. — Se eles descobrirem onde estão arm azenadas as inform ações de Trissolaris, podem controlar o perím etro ou transferir os equipam entos para outro lugar pouco antes de nossa operação.
— A função de reconhecim ento e m onitoração do Juízo Final sem pre foi responsabilidade da inteligência m ilitar da Otan e da CIA — disse alguém . — Tem os esses espiões?
— Não — respondeu o oficial da Otan.
— Então qualquer conversa aqui não passa de palhaçada — disse Da Shi.
As pessoas reagiram com olhares de irritação.
— Com o o obj etivo é elim inar todos os indivíduos dentro de um a estrutura fechada sem danificar os equipam entos — disse o coronel Stanton —, nossa prim eira ideia foi usar um a arm a de relâm pagos globulares.
Ding Yi balançou a cabeça.
— A existência desse tipo de arm a j á é de conhecim ento geral. Não sabem os se o navio foi equipado com blindagem m agnética, que daria proteção contra relâm pagos globulares. Mesm o se não tiver sido, um a arm a dessas pode até m atar todas as pessoas a bordo, m as não ao m esm o tem po. Além disso, depois que o relâm pago globular entrar no navio, pode flutuar no ar por algum tem po antes de liberar energia. Esse tem po de espera pode levar de doze segundos a até um m inuto ou m ais. Os tripulantes terão tem po de perceber o ataque e destruirão os dados.
— E um a bom ba de nêutrons? — perguntou o coronel Stanton.
— Coronel, o senhor deveria saber que isso não vai funcionar — disse um oficial russo. — A radiação de um a bom ba de nêutrons não m ata na hora. Após um ataque com um a bom ba de nêutrons, o inim igo terá bastante tem po para fazer um a reunião igual a esta nossa.
— Chegam os a cogitar gases neurotóxicos — disse um oficial da Otan. — Mas, com o o lançam ento e a dispersão pelo navio levariam tem po, tam bém é um m étodo que não atende aos requisitos do general Chang.
— Então as únicas opções que restam são bom bas de concussão e ondas infrassônicas — disse o coronel Stanton. Os outros esperaram ele concluir o raciocínio, m as o coronel não falou m ais nada.
— Eu uso bom bas de concussão com a polícia — disse Da Shi —, m as elas são brinquedos. Até conseguem apagar pessoas dentro de um edifício, m as só são úteis em um ou dois côm odos. Vocês têm algum a bom ba de concussão grande o bastante para atordoar um petroleiro todo cheio de gente?
Stanton balançou a cabeça.
— Não. Mesm o se tivéssem os, um explosivo desse tam anho com certeza danificaria os equipam entos dentro do navio.
— E arm as infrassônicas? — perguntou alguém .
— Ainda estão em fase experim ental e não podem ser usadas em situação de com bate real. Além do m ais, o navio é m uito grande. Com o nível de potência dos protótipos experim entais existentes, o m áxim o que um ataque total ao Juízo Final faria é deixar as pessoas a bordo enj oadas e tontas.
— Rá! — Da Shi apagou o charuto, que tinha ficado do tam anho de um am endoim . — Eu avisei que qualquer conversa aqui não passava de palhaçada. Já estam os discutindo isso há algum tem po. Vam os lem brar o que o general disse: ‘O tem po urge!’. — Ele lançou um sorrisinho para a intérprete, um a prim eiro-tenente que não parecia m uito feliz com o linguaj ar. — Não é fácil traduzir, né, cam arada? Pode passar só a ideia geral.
Mas Stanton pareceu entender o que ele tinha falado. Apontou para Shi Qiang com um charuto novo, que havia acabado de pegar.
— Quem é que esse policial pensa que é para falar conosco desse j eito?
— Quem você pensa que é? — perguntou Da Shi.
— O coronel Stanton tem m uita experiência com operações especiais — disse um oficial da Otan. — Ele participou de todas as grandes operações m ilitares desde a Guerra do Vietnã.
— Então m e deixem dizer quem eu sou. Há m ais de trinta anos, m eu grupo de reconhecim ento conseguiu se infiltrar por dezenas de quilôm etros de território vietcongue e capturar um a hidrelétrica m uito vigiada. Im pedim os o plano dos vietcongues de usar explosivos para dem olir a barragem , que teria inundado a rota de ataque do nosso Exército. É isso o que eu sou. Derrotei um inim igo que j á derrotou vocês.
— Já chega! — O general Chang bateu na m esa. — Não vam os ficar falando de questões irrelevantes. Se você tem um plano, diga qual é.
— Acho que não precisam os perder tem po com esse policial — disse o coronel Stanton, cheio de desprezo, acendendo o charuto.
Sem esperar a tradução, Da Shi se levantou de repente.
— “Po-li-si-au”… j á ouvi essa palavra duas vezes. Qual é? Por acaso você despreza a polícia? Se querem falar de j ogar um as bom bas e arrebentar aquele navio todo, sim , vocês m ilitares podem se considerar especialistas. Agora, se querem recuperar algum a coisa sem causar danos, vocês podem ter todas as estrelas do m undo nos om bros e nunca vão ser tão bons quanto um ladrão. Para esse tipo de coisa, vocês precisam de criatividade. CRI. A. TI. VI. DA. DE! Vocês nunca vão ser tão bons nisso quanto os bandidos, os m estres da criatividade.
“Sabem o quanto eles são bons? Um a vez lidei com um assalto em que os bandidos conseguiram roubar um vagão de um trem em m ovim ento. Os caras religaram os vagões que estavam antes e depois daquele que eles queriam , e aí o trem chegou ao destino sem que ninguém percebesse nada. E eles só usaram um pedaço de cabo de aço e alguns ganchos. Esses são os verdadeiros m estres das operações especiais. E alguém com o eu, um policial que brinca de gato e rato com esses especialistas há m ais de um a década, aprendeu e treinou m uito com eles.”
— Fale logo qual é o seu plano — disse o general Chang. — Caso contrário, cale a boca!
— Tem tanta gente im portante aqui que achei que eu não podia falar nada. E tam bém fiquei com m edo de que o senhor, general, dissesse que eu estava sendo grosseiro de novo.
— Você j á é a própria definição de grosseria. Chega! Fale qual é esse seu plano criativo.
Da Shi pegou um a caneta e traçou duas curvas paralelas na m esa.
— Este é o canal. — Ele colocou o cinzeiro entre as duas linhas. — Este é o Juízo Final. — Depois, ele esticou o braço por cim a da m esa e pegou o charuto recém -aceso da boca do coronel Stanton.
— Não aguento m ais esse idiota! — berrou o coronel, de pé.
— Da Shi, saia daqui! — disse o general Chang.
— Só um m inuto. Vou acabar logo. — Da Shi estendeu a m ão para o coronel Stanton.
— O que você quer? — perguntou o coronel, confuso.
— Preciso de outro.
Stanton hesitou por um segundo, pegou m ais um charuto de um belo estoj o de m adeira e entregou para Da Shi. Ele apoiou a ponta acesa do prim eiro charuto na m esa e o apertou para deixá-lo em pé na m argem do canal do Panam á que havia desenhado. Em seguida, achatou a ponta do outro charuto e o equilibrou no outro lado do canal.
— Montam os duas colunas nas m argens do canal e, entre elas, estendem os vários filam entos finos e paralelos, a intervalos de cerca de m eio m etro. Os filam entos devem ser feitos do nanom aterial cham ado lâm ina voadora, criado pelo professor Wang. É um nom e m uito adequado para este caso.
Quando acabou de falar, Da Shi se levantou e esperou alguns segundos. Depois, levantou as m ãos, disse “É isso” para um a plateia atordoada, deu as costas e saiu.
O ar parecia ter congelado. Todos os presentes ficaram im óveis com o estátuas. Até o zum bido dos com putadores ao redor parecia m ais cheio de cautela.
Depois de m uito tem po, alguém rom peu o silêncio, com tim idez.
— Professor Wang, a “lâm ina voadora” é m esm o um filam ento?
Wang confirm ou com a cabeça.
— Com a técnica de construção m olecular disponível atualm ente, só conseguim os produzir na form a de filam ento. Ela tem cerca de um centésim o da espessura de um fio de cabelo hum ano… O policial Shi confirm ou essa inform ação com igo antes da reunião.
— Você tem um a quantidade suficiente do m aterial?
— Qual é a largura do canal? E a altura do navio?
— O ponto m ais estreito do canal tem cento e cinquenta m etros de largura. O Juízo Final tem trinta m etros de altura, com um calado de cerca de oito m etros.
Wang olhou para os charutos na m esa e fez algum as contas de cabeça.
— Acho que tenho o bastante.
Outro longo silêncio. Todo m undo estava tentando se recuperar do baque.
— E se o equipam ento que estiver arm azenando os dados de Trissolaris, com o discos rígidos ou CDs, tam bém forem cortados?
— Acho im provável.
— Mesm o se o m aterial for cortado — disse um especialista em inform ática —, não tem problem a. Os filam entos são extrem am ente afiados, e a superfície dos cortes será m uito lisa. Considerando essa prem issa, quer sej am discos rígidos, CDs ou circuitos integrados, poderíam os recuperar a m aioria dos dados.
— Alguém tem um a ideia m elhor? — Chang olhou para todo m undo em volta da m esa. Ninguém disse nada. — Muito bem . Então vam os nos concentrar nisso e definir os detalhes.
O coronel Stanton, que ficou esse tem po todo quieto, se levantou.
— Vou pedir para o policial Shi voltar.
O general Chang fez um gesto para que ele se sentasse de novo e gritou:
— Da Shi!
Da Shi voltou, sorrindo para todo m undo, e pegou os charutos de cim a da m esa. O que tinha sido aceso ele colocou na boca e o outro foi para dentro do bolso.
— Quando o Juízo Final passar — perguntou alguém —, essas duas colunas vão aguentar a força aplicada contra os filam entos da lâm ina voadora? Talvez as colunas sej am cortadas antes.
— Isso é fácil de resolver — disse Wang. — Tem os um a pequena quantidade de m aterial da lâm ina voadora em form a de chapa. Podem os usá-la para reforçar as partes da coluna em que os filam entos estiverem am arrados.
Depois disso, a conversa ficou reservada sobretudo aos oficiais da Marinha e aos especialistas em navegação.
— O Juízo Final está no lim ite da tonelagem para poder passar pelo canal do Panam á. O calado é grande, então precisam os pensar em instalar filam entos abaixo da linha-d’água.
— Vai ser m uito difícil. Se não houver tem po suficiente, acho que não deveríam os nos preocupar com isso, até porque as partes do navio que ficam abaixo da linha-d’água costum am ser usadas para os m otores, o com bustível e o lastro, o que gera um a quantidade m uito grande de barulho, vibrações e interferência. Essas condições são ruins dem ais para centros de com putação e outras instalações sem elhantes. Agora, para as partes acim a da água, um a rede de nanofilam entos m ais densa vai render um resultado m elhor.
— Então é m elhor m ontar a arm adilha em um a das eclusas ao longo do canal. O Juízo Final foi construído de acordo com as especificações da Panam ax, o bastante para ocupar as eclusas de trinta e dois m etros. Então só precisaríam os de filam entos de lâm ina voadora com trinta e dois m etros de com prim ento. Assim tam bém vai ser m ais fácil instalar as colunas e passar os filam entos entre elas, em especial nas partes debaixo d’água.
— Não. A situação nas eclusas é im previsível dem ais. Além disso, um navio dentro da eclusa precisa ser puxado para a frente por quatro “m ulas”, locom otivas elétricas em trilhos. Elas avançam devagar, e o período nas eclusas tam bém vai ser um m om ento de alerta m áxim o da tripulação. É m ais provável que um a tentativa de cortar o navio nessa hora sej a descoberta.
— E a ponte das Am éricas, logo antes das eclusas de Miraflores? Os contrafortes nas duas extrem idades da ponte podem servir de coluna para os filam entos.
— Não. A distância entre os contrafortes é grande dem ais. Não tem os m aterial suficiente de lâm ina voadora.
— Então está decidido: a operação terá que ser feita no trecho m ais estreito no passo Culebra, com cento e cinquenta m etros de largura. Se incluirm os um a m argem para as colunas… digam os que são cento e setenta m etros.
— Se o plano é esse — disse Wang —, então a m enor distância entre os filam entos vai ter que ser de cinquenta centím etros. Não tenho m aterial suficiente para um a rede m ais densa.
— Em outras palavras, precisam os garantir que o navio passe durante o dia — com entou Da Shi, soltando m ais um a nuvem de fum aça.
— Por quê?
— À noite a tripulação vai estar dorm indo, ou sej a, todo m undo estará deitado. Cinquenta centím etros entre os filam entos é um espaço m uito grande. Só que, durante o dia, m esm o se os tripulantes estiverem sentados ou agachados, a distância será suficiente.
Soaram algum as risadas. Com tanto estresse, as pessoas ali relaxaram um pouco diante do cheiro de sangue.
— Você é m esm o um dem ônio — disse um a representante da ONU para Da Shi.
— Algum inocente vai se m achucar? — perguntou Wang, com a voz baixa.
— Quando os navios passam pelas eclusas — respondeu um oficial da Marinha —, m ais de um a dúzia de am arradores sobem a bordo, m as todos descem depois que o navio sai. O prático do canal do Panam á terá que acom panhar o navio por todo o traj eto de oitenta e dois quilôm etros, então ele precisará ser sacrificado.
— E parte da tripulação do Juízo Final talvez não saiba qual é o verdadeiro propósito do navio — disse um agente da CIA.
— Professor — disse o general Chang —, não se preocupe com isso. As inform ações que precisam os obter têm relação direta com a própria sobrevivência da hum anidade. Não tem os escolha.
Quando a reunião acabou, o coronel Stanton em purrou a bela caixa de charutos para Shi Qiang.
— Capitão, é o m elhor que Havana tem a oferecer. Todos seus.
Quatro dias depois, passo Culebra, canal do Panam á
Para Wang, nem dava para dizer que aquele era outro país. Ele sabia que, não m uito longe para o oeste, ficava o belo lago Gatún. No leste estavam a m agnífica ponte das Am éricas e a Cidade do Panam á. Mas ele não tinha conseguido visitar nenhum dos três.
Wang havia chegado dois dias antes, em um voo direto da China ao Aeroporto Internacional Tocum ent, perto da Cidade do Panam á, e pegou um helicóptero até ali. A paisagem era m uito com um : as obras de am pliação do canal fizeram com que a floresta tropical nas duas m argens se escasseasse bastante, revelando grandes trechos de terra am arela. Wang achou que a cor tinha algo de fam iliar. O canal não parecia nada de m ais, provavelm ente porque era m uito estreito naquele ponto, m as cem m il pessoas com enxadas haviam cavado aquela parte do canal no século anterior.
Wang e o coronel Stanton estavam sentados em espreguiçadeiras debaixo de um toldo no m eio da m argem . Com cam isa colorida folgada e um chapéu-panam á caído ao lado do corpo, os dois pareciam turistas.
Em cada um a das m argens do canal abaixo via-se um a coluna de aço de vinte e quatro m etros deitada no chão paralelam ente à água. Cinquenta filam entos ultrafortes, com cento e sessenta m etros de com prim ento, haviam sido estendidos entre as colunas. Na m argem leste, os filam entos estavam ligados a cabos de aço com um , para que fosse possível descê-los até o fundo do canal com a aj uda de pesos e perm itir que outros navios passassem em segurança. Por sorte, o tráfego do canal não era tão m ovim entado quanto Wang havia im aginado: em m édia, apenas quarenta navios grandes por dia.
O codinom e da operação era “Guzheng”, inspirado na sem elhança entre aquela estrutura e a antiga cítara chinesa que tinha esse nom e. Portanto, a rede de corte dos nanofilam entos foi cham ada de “cítara”.
O Juízo Final tinha entrado no passo Culebra havia um a hora, vindo do lago Gatún.
Stanton perguntou a Wang se ele j á havia visitado o Panam á. Wang disse que não.
— Eu vim aqui em 1989 — disse o coronel.
— Por causa daquela guerra?
— Sim , aquela foi um a das guerras que não m e m arcou. Só m e lem bro de estar na frente da em baixada do Vaticano enquanto tocavam “Nowhere to Run”, de Martha and the Vandellas, para Noriega, que estava entocado. Aquilo foi ideia m inha, aliás.
No canal, um cruzeiro francês navegava lentam ente. No convés de carpete verde, passageiros com roupas coloridas passeavam com tranquilidade.
— Relatório do Segundo Posto de Observação: não há m ais nenhum navio na frente do alvo — grunhiu o rádio de Stanton.
O coronel deu a ordem :
— Erguer a cítara.
Apareceram vários hom ens com capacete de segurança nas duas m argens, com o se fossem m em bros de um a equipe de m anutenção. Wang se levantou, m as o coronel o fez se sentar de novo.
— Professor, não se preocupe. Eles sabem o que fazem .
Wang viu os hom ens na m argem leste içarem depressa os cabos de aço e prenderem os nanofilam entos estirados à coluna. Depois, lentam ente, as duas colunas foram levantadas nas articulações m ecânicas. Para disfarçar, as duas colunas foram decoradas com alguns sinais de navegação e indicadores de profundidade. Os hom ens trabalharam com calm a, com o se estivessem fazendo apenas o m esm o trabalho tedioso de sem pre. Wang observou o espaço entre as colunas. Parecia não haver nada ali, m as a cítara m ortal j á estava posicionada.
— Alvo a quatro quilôm etros da cítara — disse a voz no rádio.
Stanton deixou o rádio na espreguiçadeira e continuou a conversa com Wang.
— Quando vim ao Panam á pela segunda vez, em 1999, foi para a cerim ônia de entrega do canal ao Panam á. Curiosam ente, quando chegam os à sede, a bandeira am ericana j á havia sum ido. Dizem que o governo dos Estados Unidos tinha pedido para abaixarem a bandeira um dia antes para evitar o constrangim ento de fazer isso na frente de um a m ultidão… Na época, eu achava que estava vendo a história acontecer. Mas agora tudo parece insignificante.
— Alvo a três quilôm etros da cítara.
— Sim , insignificante — m urm urou Wang. Ele não estava prestando nenhum a atenção em Stanton. O resto do m undo deixara de existir para ele. Seus olhos só viam o lugar onde o Juízo Final ia aparecer. O sol j á havia parado de subir no Atlântico e com eçava a descer na direção do Pacífico. O canal brilhava com um a lum inosidade dourada. A cítara m ortal aguardava em silêncio ali perto. As duas colunas de aço eram escuras e não refletiam a luz do sol; pareciam ainda m ais antigas que o canal no m eio.
— Alvo a dois quilôm etros da cítara.
Stanton parecia não ter escutado a voz no rádio.
— Depois que eu soube da frota alienígena vindo para a Terra, com ecei a ter am nésia — continuou o coronel. — É m uito estranho. Não consigo m e lem brar de m uitas coisas do passado. Não lem bro os detalhes das guerras que vivi. Com o eu disse, aquelas guerras todas parecem m uito insignificantes. Depois de descobrir essa verdade, todo m undo se torna um a nova pessoa em term os espirituais e enxerga o m undo com outros olhos. Tenho pensado: digam os que dois m il anos atrás, quem sabe até antes, a hum anidade tivesse descoberto que haveria um a frota alienígena invasora dali a alguns m ilhares de anos. Com o será que a civilização hum ana seria hoj e? Professor, você consegue im aginar?
— Ah, não… — respondeu Wang, distraído, com a cabeça em outro lugar.
— Alvo a um quilôm etro e m eio da cítara.
— Professor, acho que você vai ser o Gaillard desta nova era. Estam os esperando a construção de seu novo canal do Panam á. Sem dúvida, o elevador espacial é um canal: assim com o o canal do Panam á liga dois oceanos, o elevador espacial ligará a Terra ao espaço.
Wang sabia que o coronel estava falando sem parar para aj udá-lo a suportar aquele m om ento difícil. Estava grato pela consideração, m as o falatório não aj udava.
— Alvo a um quilôm etro da cítara.
O Juízo Final apareceu. Sob a luz do pôr do sol nas colinas a oeste, era um a silhueta escura sobre as ondas douradas do canal. O navio de sessenta m il toneladas era m uito m aior do que Wang havia im aginado. Foi com o se outro m orro tivesse sido inserido de repente no m eio da paisagem . Wang sabia que o canal era capaz de com portar navios de até setenta m il toneladas, m as era estranho ver um navio daquele tam anho em um a passagem tão estreita. Com aquele volum e todo, o canal parecia nem existir m ais. O navio era com o um a m ontanha que deslizasse pela terra sólida. Quando seus olhos se acostum aram à luz do sol, Wang percebeu que o casco do Juízo Final era totalm ente preto, e a superestrutura, pintada toda de branco. A gigantesca antena não estava visível. Dava para ouvir o rugido dos m otores do navio, bem com o o barulho de agitação das ondas que eram geradas pelo deslocam ento da proa redonda e batiam nas m argens do canal.
À m edida que a distância entre o Juízo Final e a cítara m ortal dim inuía, Wang foi sentindo o coração e a respiração dispararem . Ele tinha vontade de sair correndo, m as se sentia tão fraco que não conseguia m ais controlar o próprio corpo. De repente, foi dom inado por um ódio profundo por Shi Qiang. Como é que aquele miserável pensou numa ideia dessas? Foi o que a representante da ONU disse, ele é um demônio! Mas a sensação passou. Se Da Shi estivesse ali a seu lado, Wang provavelm ente se sentiria m elhor. O coronel Stanton havia convidado Shi Qiang, m as o general Chang não deu perm issão porque disse que Da Shi não podia sair de onde estava. Wang sentiu a m ão do coronel nas costas.
— Professor, tudo vai passar.
O Juízo Final j á estava diante deles, atravessando a cítara m ortal. Assim que a proa passou pelo espaço entre as duas colunas de aço, o espaço que parecia vazio, Wang ficou tenso. Mas não aconteceu nada. O casco im enso do navio continuou avançando lentam ente pelas duas colunas de aço. Quando m etade do navio j á estava do outro lado, Wang com eçou a achar que os nanofilam entos entre as colunas nem existiam .
Mas um pequeno sinal logo desfez sua dúvida. Ele percebeu um a antena fina bem no alto da superestrutura quebrar na base e cair.
Pouco depois, outro sinal indicou a presença dos nanofilam entos, um sinal que quase deixou Wang em estado de choque. No vasto convés do Juízo Final, só havia um hom em perto da popa, lavando com um a m angueira os cabeços do navio. De onde estava, Wang viu tudo com clareza. No m om ento em que aquela parte do navio passou entre as colunas, a m angueira se partiu em duas não m uito longe do hom em e a água vazou. O corpo do hom em ficou duro, e a pistola da m angueira caiu de sua m ão. Ele continuou em pé por alguns segundos e, depois, desabou. Quando atingiu o convés, o corpo se dividiu em duas m etades. A parte de cim a tentou se arrastar pela poça de sangue cada vez m aior, m as ele precisava usar dois braços que tinham virado cotocos ensanguentados. As m ãos tinham sido decepadas.
Depois que a popa do navio term inou de passar pelas colunas, o Juízo Final continuou avançando na m esm a velocidade, e tudo parecia norm al. Mas Wang ouviu o m otor com eçar a soar com um rangido estranho que depois virou um barulho caótico. Era com o se alguém tivesse j ogado um a chave de boca no rotor de um m otor grande — não, m uitas, m uitas chaves. Wang sabia que isso tinha acontecido porque as partes m óveis do m otor haviam sido cortadas. Após um estrondo agudo, um grande pedaço de m etal atravessou o casco e abriu um buraco na lateral da popa do Juízo Final. Um com ponente quebrado saiu pelo buraco e caiu, levantando grande quantidade de água. O obj eto caiu rápido, m as Wang reconheceu que era um pedaço do eixo de m anivelas do m otor.
Um a nuvem densa de fum aça saiu do buraco. O Juízo Final, que tinha vindo pela m argem da direita, com eçou a virar, deixando um rastro fum egante. Logo depois, ele atravessou o canal e bateu na m argem esquerda. Wang observou enquanto a proa gigantesca se deform ou ao colidir no barranco, rasgando a m argem com o se fosse água e lançando m ontes de terra para todos os lados. Ao m esm o tem po, o Juízo Final com eçou a se desfazer em m ais de quarenta fatias, cada um a com m eio m etro de espessura. As fatias m ais perto do topo se deslocavam m ais rápido que as da base, e o navio se espalhou com o um baralho. À m edida que as quarenta e poucas fatias deslizavam um as sobre as outras, o estrondo agudo parecia um a infinidade de unhas arranhando vidro.
Quando o barulho insuportável finalm ente acabou, o Juízo Final estava espalhado na m argem , e as fatias de cim a tinham deslizado m ais longe que as de baixo, com o um a pilha de pratos na bandej a de um garçom desaj eitado. As fatias pareciam suaves com o tecido e logo se desm ontaram em form as com plexas que ninguém j am ais diria que tinham feito parte de um navio.
Soldados saíram correndo pelo barranco até a m argem . Wang ficou surpreso de ver a quantidade de hom ens escondidos. Um a frota de helicópteros, com o rugido dos rotores, veio pelo canal, cruzou a superfície agora coberta com um a cam ada iridescente de óleo, ficou pairando por cim a dos destroços do Juízo Final e com eçou a despej ar um a grande quantidade de espum a e pó anti-incêndio. Em pouco tem po, o incêndio foi controlado e, de outros três helicópteros, pessoas com eçaram a descer em cabos para dentro dos destroços.
O coronel Stanton j á havia ido em bora. Wang pegou o binóculo que ele havia deixado em cim a do chapéu e, com as m ãos trêm ulas, observou o Juízo Final. A essa altura, os destroços j á estavam quase cobertos de espum a e pó anti-incêndio, m as as extrem idades de algum as das fatias continuavam visíveis. Wang reparou nas superfícies dos cortes, lisas com o espelhos, refletindo com perfeição a luz flam ej ante do entardecer. Viu tam bém um a m ancha verm elha na superfície espelhada. Não sabia dizer se era sangue.
Três dias depois
INVESTIGADOR: A senhora com preende a civilização trissolariana? YE WENJIE: Não. Só recebem os um a quantidade m uito lim itada de inform ação.
Fora Mike Evans e os principais adventistas que interceptaram as
m ensagens, ninguém conhece em detalhes a civilização trissolariana. INVESTIGADOR: Então por que vocês depositam tanta esperança, por que
acham que essa civilização é capaz de transform ar e aprim orar a
sociedade hum ana?
YE: Se eles são capazes de atravessar a distância entre as estrelas para chegar ao
nosso m undo, a ciência deve ter alcançado um nível m uito avançado. Um a
sociedade tão avançada cientificam ente tam bém deve ter conceitos
m orais superiores.
INVESTIGADOR: A senhora acha que essa sua conclusão é científica? YE: …
INVESTIGADOR: Vou supor o seguinte: seu pai foi extrem am ente influenciado
pela crença de seu avô de que apenas a ciência poderia salvar a China. E a
senhora foi extrem am ente influenciada por seu pai. YE (solta um leve suspiro): Não sei.
INVESTIGADOR: Já recuperam os todas as m ensagens de Trissolaris
interceptadas pelos adventistas.
YE: Ah… o que aconteceu com Evans?
INVESTIGADOR: Ele m orreu durante a operação realizada para capturar o
Juízo Final. A posição do corpo dele nos indicou os com putadores que
continham cópias das m ensagens trissolarianas. Felizm ente, estavam todas
criptografadas com a m esm a codificação autointerpretativa usada pela
Costa Verm elha.
YE: Havia m uita inform ação?
INVESTIGADOR: Sim , cerca de vinte e oito gigaby tes. YE: Im possível. A com unicação interestelar é m uito pouco eficiente. Com o pode
ter sido transm itida um a quantidade tão grande de dados? INVESTIGADOR: Tam bém acham os isso no início. Mas a realidade era
com pletam ente diferente do que tínham os im aginado — por m ais estranha
e fantástica que fosse nossa im aginação. O que acha disto? Por favor, leia
este trecho da análise prelim inar dos dados obtidos. A senhora verá a
verdadeira civilização trissolariana, em com paração com suas belas
fantasias.