O Problema dos Três Corpos

Cixin Liu · Capítulo 30 de 36

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O Problema dos Três Corpos

30. Dois prótons

 

INVESTIGADOR: Agora vam os com eçar a investigação de hoj e. Esperam os

que a senhora volte a cooperar, assim com o na outra vez. YE WENJIE: Vocês j á sabem tudo o que eu sei. Na verdade, agora tem m uita

coisa que eu gostaria de perguntar para vocês. INVESTIGADOR: Acho que a senhora não contou tudo. Em prim eiro lugar,

gostaríam os de saber o seguinte: qual era o conteúdo das m ensagens que

Trissolaris enviou à Terra que foram interceptadas e retidas pelos

adventistas?

YE: Não sei dizer. A facção deles é m uito fechada. Só sei que eles não passaram

todas as m ensagens.

INVESTIGADOR: Mudando de assunto. Depois que os adventistas

m onopolizaram as com unicações com Trissolaris, a senhora construiu um a

terceira Base Costa Verm elha?

YE: Era um plano m eu. Mas só construím os um receptor, e aí a construção foi

interrom pida. O equipam ento e a base foram desm ontados. INVESTIGADOR: Por quê?

YE: Porque não havia m ais nenhum a m ensagem de Alfa Centauro. Não havia

nada em nenhum a frequência. Acho que vocês j á confirm aram isso. INVESTIGADOR: Já. Em outras palavras, pelo m enos nos últim os quatro anos,

Trissolaris decidiu interrom per toda com unicação com a Terra, o que torna

as m ensagens interceptadas pelos adventistas ainda m ais im portantes. YE: É verdade. Mas realm ente não sei m ais nada sobre isso. INVESTIGADOR (hesita por alguns segundos): Então vam os passar para um

assunto que a senhora conhece m elhor. Mike Evans m entiu para a senhora,

não foi?

YE: Dá para dizer que sim . Ele nunca m e revelou seus anseios m ais profundos,

só sua noção de dever para com as outras espécies deste planeta. Eu não

percebi que essa noção de dever havia exacerbado o ódio dele pela

civilização hum ana a tal ponto que tivesse com o obj etivo final a destruição

de toda a hum anidade.

INVESTIGADOR: Vam os dar um a olhada na com posição atual da OTT. Os

adventistas querem destruir a hum anidade com a aj uda de um a potência

alienígena; os redentistas idolatram a civilização alienígena com o se fosse INVESTIGADOR: Quase?

um a divindade; os sobreviventes querem trair outros seres hum anos para

garantir a própria sobrevivência. Nada disso condiz com sua ideia original

de usar a civilização alienígena para reform ar a hum anidade. YE: Eu com ecei o incêndio, m as não consegui controlar as cham as. INVESTIGADOR: A senhora pretendia elim inar os adventistas da OTT e até

com eçou a im plem entar o plano. Mas o Juízo Final é a base principal e o

centro de com ando dos adventistas, e Mike Evans e outros líderes da

facção vivem lá. Por que vocês não atacam o navio de um a vez? Afinal, a

m aioria das forças param ilitares redentistas é leal à senhora, e vocês

devem ter poder de fogo suficiente para afundar ou capturar o navio. YE: Por causa das m ensagens que eles interceptaram do Senhor. Essas

m ensagens estão arm azenadas na Segunda Base Costa Verm elha, em

algum com putador a bordo do Juízo Final. Se atacássem os o navio, os

adventistas apagariam todas as m ensagens assim que percebessem a

im inência da derrota. Com o essas m ensagens são im portantes dem ais, não

podem os correr o risco de perdê-las. Para os redentistas, perder essas

m ensagens seria o m esm o que os cristãos perderem a Bíblia ou os

m uçulm anos perderem o Alcorão. Acho que vocês estão com o m esm o

problem a. Os adventistas estão usando as m ensagens do Senhor com o um

m ecanism o de defesa, um verdadeiro refém , e é por isso que o Juízo Final

ainda não foi atacado.

INVESTIGADOR: A senhora tem algum conselho para nos dar? YE: Não.

INVESTIGADOR: A senhora tam bém cham a Trissolaris de “Senhor”. Isso

significa que, assim com o os redentistas, a senhora tam bém nutre um

sentim ento religioso por Trissolaris? A senhora se tornou seguidora da fé

trissolariana?

YE: Nem um pouco. É só por costum e… Eu não quero m ais falar nisso. INVESTIGADOR: Vam os voltar para aquelas m ensagens interceptadas. Talvez a

senhora não saiba o conteúdo exato, m as deve ter escutado boatos sobre

alguns detalhes.

YE: Boatos que provavelm ente não têm nenhum fundam ento. INVESTIGADOR: Com o por exem plo?

YE: …

INVESTIGADOR: A senhora acha que Trissolaris transferiu algum a tecnologia

para os adventistas, um a tecnologia m ais avançada do que o nível atual da

hum anidade?

YE: É im provável, porque essa tecnologia poderia cair na m ão de vocês. INVESTIGADOR: Só m ais um a pergunta, e tam bém a m ais im portante: até

agora, Trissolaris enviou apenas ondas de rádio para a Terra? YE: Isso é quase verdade.

YE: A civilização trissolariana atual é capaz de viaj ar no espaço a um décim o da

velocidade da luz. Esse salto tecnológico aconteceu há algum as décadas, se

usarm os a escala de anos terrestres. Antes disso, a velocidade m áxim a que

alcançavam girava em torno de um m ilésim o da velocidade da luz. As

sondas m inúsculas que eles enviaram para a Terra ainda não com pletaram

nem um centésim o do percurso até aqui.

INVESTIGADOR: Então tenho um a pergunta. Se a Frota Trissolariana que foi

lançada é capaz de viaj ar a um décim o da velocidade da luz, ela deve

levar apenas quarenta anos para chegar ao sistem a solar. Nesse caso, por

que a senhora diz que eles vão levar m ais de quatrocentos anos? YE: A questão é que a Frota Interestelar Trissolariana é com posta de naves

espaciais incrivelm ente im ensas. A aceleração é um processo lento. Um

décim o da velocidade da luz é só a velocidade m áxim a, m as eles não

podem viaj ar a essa velocidade por m uito tem po antes de desacelerar para

chegar à Terra. Além do m ais, a propulsão das naves trissolarianas é feita

por aniquilação de m atéria e antim atéria. Na frente de cada nave tem um

grande cam po m agnético, em form a de funil, que coleta partículas de

antim atéria do espaço. Com o é um processo lento, só depois de m uito

tem po é que se reúne antim atéria suficiente para perm itir que a nave sej a

acelerada por um período curto. Desse m odo, a aceleração da frota

acontece aos saltos, entrem eados com longos intervalos de inércia para

coletar com bustível. É por isso que, para chegar ao sistem a solar, a Frota

Trissolariana vai levar dez vezes m ais tem po do que um a sonda pequena. INVESTIGADOR: Então o que a senhora quis dizer com “quase” agora há

pouco?

YE: Estam os falando de velocidades de viagem espacial em determ inado

contexto. Fora desse contexto, até os atrasados seres hum anos são capazes

de acelerar obj etos a velocidades próxim as à da luz. INVESTIGADOR (uma pausa): Por “contexto”, a senhora se refere à escala

m acro? Na escala m icro, os hum anos j á conseguem usar aceleradores de

partículas de alta energia para im pulsionar partículas subatôm icas quase

até a velocidade da luz. Essas partículas são os “obj etos” a que a senhora

se refere, correto?

YE: Você é m uito inteligente.

INVESTIGADOR (aponta para o ponto no ouvido): Os m aiores cientistas do

m undo estão j unto com igo.

YE: Sim , eu m e referia às partículas subatôm icas. Seis anos atrás, no distante

sistem a estelar de Trissolaris, os trissolarianos aceleraram dois núcleos de

hidrogênio até quase a velocidade da luz e os dispararam para o sistem a

solar. Esses dois núcleos de hidrogênio, ou prótons, chegaram ao sistem a

solar há dois anos, e depois à Terra.

INVESTIGADOR: Dois prótons? Eles só m andaram dois prótons? Isso não é

quase nada.

YE (ri): Você disse “quase”. Esse é o lim ite do poder de Trissolaris. Eles só

conseguem acelerar algo do tam anho de um próton até um a velocidade

próxim a à da luz. Então, a quatro anos-luz de distância daqui, eles só

conseguem enviar dois prótons.

INVESTIGADOR: Em um a escala m acroscópica, dois prótons não são nada. Até

um cílio em um a bactéria contém bilhões de prótons. De que adianta esses

dois prótons?

YE: São um a trava.

INVESTIGADOR: Um a trava? O que eles travam ? YE: Eles estão bloqueando o progresso da ciência hum ana. Graças à existência

desses dois prótons, a hum anidade será incapaz de produzir qualquer

descoberta científica relevante nos próxim os quatro séculos e m eio, até a

chegada da Frota Trissolariana. Certa vez, Evans disse que o dia da

chegada desses dois prótons foi tam bém o dia do fim da ciência hum ana. INVESTIGADOR: Isso… é fantástico dem ais. Com o é possível? YE: Não sei. Realm ente não sei. Pela perspectiva da civilização trissolariana,

provavelm ente som os apenas uns selvagens prim itivos. Talvez sej am os

m eros insetos.

Já era quase m eia-noite quando Wang Miao e Ding Yi saíram do Centro de Com ando em Batalha. Graças à participação de Wang no caso e a ligação de Ding Yi com a filha de Ye, os dois haviam sido convidados a ouvir o interrogatório.

— Você acredita no que Ye Wenj ie disse? — perguntou Wang.

— E você?

— É verdade que aconteceram m uitas coisas incríveis ultim am ente. Agora, dois prótons capazes de bloquear o progresso da ciência hum ana? Parece…

— Vam os nos concentrar em um a questão de cada vez. Os trissolarianos conseguiram disparar dois prótons na direção da Terra a quatro anos-luz de distância, e os dois acertaram o alvo! A precisão é incrível! Existem vários obstáculos no cam inho até aqui. Poeira interestelar, só para citar um exem plo. Sem falar que tanto o sistem a solar quanto a Terra estão em m ovim ento. A precisão teria que ser m aior do que se quiséssem os atirar daqui e acertar um m osquito em Plutão. É difícil im aginar um franco-atirador assim .

Wang sentiu um frio na barriga ao ouvir a palavra “franco-atirador”.

— O que você acha que isso significa?

— Não sei. Com o é que você acha que são as partículas subatôm icas com o nêutrons e prótons?

— Devem parecer um ponto, m as um ponto com um a estrutura interna.

— Por sorte, a im agem na m inha cabeça é m ais realista que a sua. — Ding j ogou fora a guim ba do cigarro enquanto falava. — O que você acha que aquilo é? — E apontou para a guim ba.

— Um filtro de cigarro.

— Ótim o. Olhando para aquele negócio m inúsculo de longe, com o você descreveria?

— É praticam ente um ponto.

— Certo. — Ding pegou de volta a guim ba. Diante dos olhos de Wang, ele rasgou o envoltório e m ostrou o m aterial esponj oso no interior do filtro. Wang sentiu o cheiro de alcatrão queim ado. Ding continuou: — Olhe, se você espalhar essa coisinha, a área da superfície adsorvente pode ser tão grande quanto um a sala de estar. — Ele j ogou o filtro fora. — Você fum a cachim bo?

— Já não fum o m ais nada.

— Cachim bos usam um tipo de filtro m ais avançado. Dá para com prar um por três y uans. Tem m ais ou m enos o m esm o diâm etro dos filtros de cigarro, só que é m ais com prido: um tubinho de papel cheio de carvão ativado. Se você tirar todo o carvão de dentro, ele parece um punhadinho de partículas pretas, com o cocô de rato. Mas, considerando o total, a superfície adsorvente form ada pelos buracos m inúsculos no m eio é tão grande quanto um a quadra de tênis. Por isso o carvão ativado é tão adsorvente.

— O que você está querendo dizer? — perguntou Wang, prestando m uita atenção.

— A esponj a ou o carvão ativado dentro de um filtro tem três dim ensões. Só que a superfície adsorvente é bidim ensional. Por isso, dá para ver que um a estrutura m inúscula com m uitas dim ensões pode conter um a estrutura im ensa com poucas dim ensões. Mas, na escola m acroscópica, esse é m ais ou m enos o lim ite da capacidade que um espaço com m uitas dim ensões tem de conter um espaço com poucas dim ensões. Com o Deus era m esquinho, na hora do Big Bang, Ele só deu ao m undo m acroscópico três dim ensões espaciais, m ais a dim ensão do tem po. Mas isso não significa que não existam dim ensões superiores. Existem até sete dim ensões a m ais na escala m icro ou, para ser m ais exato, no universo quântico. E, som adas às quatro dim ensões da escala m acro, as partículas elem entares existem em um espaço-tem po com onze dim ensões.

— E daí?

— Só quero destacar o seguinte: no universo, um m arco im portante do avanço tecnológico de um a civilização é a capacidade de controlar e utilizar as dim ensões da escala m icro. Utilizar partículas elem entares sem tirar proveito das dim ensões da escala m icro é algo que nossos ancestrais pelados e cabeludos j á faziam quando acendiam um a lareira dentro da caverna. Controlar reações quím icas é só um j eito de m anipular m icropartículas sem levar em conta as dim ensões da escala m icro. Claro, esse controle tam bém progrediu do nível bruto para o avançado: fogueiras, m otores a vapor e depois geradores. Agora, a capacidade dos seres hum anos de m anipular m icropartículas em um a escala m acro chegou a um lim ite: tem os com putadores e nanom ateriais. Mas tudo isso é possível sem term os acesso às várias dim ensões da escala m icro. Pelo ponto de vista de um a civilização m ais avançada no universo, em essência, fogueiras, com putadores e nanom ateriais não são diferentes. Todos fazem parte de um m esm o nível. É por isso tam bém que eles ainda acham que os seres hum anos são m eros insetos. Infelizm ente, acho que eles têm razão.

— Você poderia ser m ais específico? O que isso tudo tem a ver com aqueles dois prótons? Afinal, o que os dois prótons que chegaram à Terra podem fazer? É com o o investigador disse: um único cílio de um a bactéria pode conter bilhões de prótons. Mesm o se esses dois prótons se transform assem em energia pura na ponta do m eu dedo, eu sentiria no m áxim o um a alfinetada.

— Você não sentiria nada. Provavelm ente nem a bactéria sentiria nada se eles se transform assem em energia nela.

— Então o que você está tentando dizer?

— Nada. Não sei de nada. O que é que um inseto sabe?

— Mas você é um físico entre insetos. Sabe m ais do que eu. Pelo m enos não ficou com pletam ente confuso quando soube desses prótons. Por favor, diga. Senão, não vou conseguir dorm ir hoj e.

— Se eu disser m ais, você realm ente não vai conseguir dorm ir. Esqueça. De que adianta se preocupar? Nós deveríam os aprender a ter um a m entalidade filosófica com o Wei Cheng e Shi Qiang. Fazer o m elhor possível dentro do que está ao nosso alcance. Vam os beber e depois voltar para casa e dorm ir com o bons insetos.