O Problema dos Três Corpos
23. Costa Vermelha VI
Os oito anos seguintes foram alguns dos m ais pacíficos da vida de Ye Wenj ie. O horror vivido durante a Revolução Cultural foi aplacando gradualm ente, e ela enfim conseguiu relaxar um pouco. O Proj eto Costa Verm elha concluiu as fases de teste e iniciação e passou a se lim itar a operações de rotina. Sobravam cada vez m enos problem as técnicos, e tanto o trabalho quanto a vida se regularizaram .
Em paz, tudo que fora reprim ido pela ansiedade e pelo m edo com eçou a despertar de novo, e Ye percebeu que a dor estava só com eçando. Lem branças pavorosas, com o brasas que se reacendiam , queim avam com um a força cada vez m ais intensa e flagelavam seu coração. Em casos sem elhantes, talvez o tem po pudesse cicatrizar as feridas aos poucos, até porque, durante a Revolução Cultural, m uitas pessoas passaram por aquela situação e, em com paração com várias, Ye tivera relativa sorte. Só que Ye pensava com o um a cientista e se recusava a esquecer. Ela preferia encarar com um a perspectiva racional a loucura e o ódio que a haviam ferido.
A reflexão racional de Ye sobre o lado m aligno da hum anidade com eçou no dia em que leu Primavera silenciosa. Com o Ye foi se aproxim ando de Yang Weining, ele conseguia obter para ela m uitos clássicos de filosofia e de história em língua estrangeira, com a desculpa de adquirir m ateriais de pesquisa técnica. Ela ficou chocada com a história sangrenta da hum anidade, e as ideias extraordinárias dos filósofos tam bém contribuíram para que entendesse os aspectos m ais essenciais e secretos da natureza hum ana.
De fato, até m esm o no topo do pico do Radar, um lugar que o m undo quase esqueceu, a loucura e a irracionalidade da raça hum ana estavam sem pre em evidência. Ye via que a floresta abaixo deles continuava sendo derrubada pelo desm atam ento ensandecido de seus antigos cam aradas. Os hectares de terra vazia aum entavam a cada dia, com o se parcelas da cordilheira Grande Khingan tivessem perdido pedaços de pele. Quando esses trechos se transform aram em regiões, e depois em um todo interligado, as poucas árvores que resistiram pareciam até anorm ais. Para com pletar o plano de devastação, os cam pos desm atados foram incendiados, e o pico do Radar virou refúgio para os pássaros, que escapavam do inferno flam ej ante. Enquanto as cham as rugiam , os desoladores cantos das aves com penas queim adas soavam sem parar.
A insanidade da raça hum ana havia alcançado o zênite histórico. Era o auge da Guerra Fria. Em fantasm agóricos subm arinos nucleares nas profundezas do m ar e em incontáveis silos espalhados por dois continentes, m ísseis nucleares com capacidade de destruir dez vezes o planeta Terra podiam ser lançados de um a hora para outra. Um único subm arino ianque ou soviético transportava um a quantidade de ogivas suficiente para destruir centenas de cidades e m atar centenas de m ilhões de pessoas, m as quase todo m undo seguia a vida com o se estivesse tudo bem .
Com o astrofísica, Ye era extrem am ente contra arm as nucleares. Sabia que esse poder devia pertencer apenas às estrelas. E sabia tam bém que o universo tinha forças ainda m ais terríveis: buracos negros, antim atéria e m ais. Em com paração com essas forças, um a bom ba term onuclear era só um a vela m inúscula. Se os seres hum anos dom inassem qualquer um a daquelas forças, o m undo talvez fosse vaporizado em um instante. Diante da loucura, a racionalidade era im potente.
Quatro anos depois de entrar na Base Costa Verm elha, Ye se casou com Yang. Ele a am ava de verdade. Por am or, Yang abriu m ão do próprio futuro.
A fase m ais intensa da Revolução Cultural tinha acabado, e o clim a político ficou um pouco m ais am eno. Yang não chegou a ser processado por causa do m atrim ônio, m as, com o se casou com um a m ulher que fora classificada com o contrarrevolucionária, foi considerado politicam ente im aturo e perdeu o cargo de engenheiro-chefe. Yang e a esposa só tiveram perm issão para continuar na base com o técnicos com uns porque a base não podia dispensar as com petências técnicas dos dois.
Ye aceitou se casar com Yang sobretudo por gratidão. Se ele não a tivesse trazido para aquele porto seguro no m om ento m ais conturbado de sua vida, ela provavelm ente não teria sobrevivido. Yang era um hom em talentoso, culto e sensato. Ye não achava o m arido desagradável, m as seu coração era com o um punhado de cinzas, e a cham a do am or j am ais voltaria a arder.
Ao ponderar sobre a natureza hum ana, Ye se viu diante de um a perda absoluta de propósito e m ergulhou em m ais um a crise espiritual. Ela havia sido um a idealista que precisava dar tudo de si para perseguir um a grande m eta, m as agora percebia que todos os seus gestos tinham sido em vão e que o futuro tam bém não oferecia nada de valor. À m edida que esse estado de espírito persistia, Ye foi se sentindo cada vez m ais alienada do m undo. Ela se sentia isolada. Era atorm entada pela sensação de que estava vagando pelo deserto espiritual. Ye havia m ontado um a casa com Yang, m as sua alm a não tinha lar.
Certa vez, ela estava trabalhando no turno da noite, o período m ais solitário de todos. Nas profundezas do silêncio da m eia-noite, o universo se revelava com o um a vasta desolação para quem estivesse ouvindo. O que Ye m enos gostava de fazer era ver as ondas que se arrastavam vagarosam ente na tela, um registro visual do ruído sem significado que a Costa Verm elha captava do espaço. Para Ye, essa onda interm inável era um a im agem abstrata do universo: um a extrem idade ligada ao passado infinito, a outra, ao futuro infinito, e no m eio apenas os altos e baixos do puro acaso — sem vida, sem padrão, picos e vales em alturas diferentes com o se fossem grãos irregulares de areia, a curva toda com o se fosse um deserto unidim ensional em que todos os grãos estão alinhados em um a única fileira, solitária, desolada, infinita a ponto de ser intolerável. Dava para acom panhá-la para um lado ou para o outro, m as seria im possível chegar ao fim .
Porém , nesse dia, Ye viu algo estranho com a form a de onda na tela. Até especialistas tinham dificuldade para identificar a olho nu se um a onda possuía algum a inform ação. Mas Ye estava tão acostum ada com o ruído do universo que conseguiu perceber algo a m ais na onda que se deslocava diante de seus olhos. O sobe e desce da curva fina parecia ter um a alm a. Ye tinha certeza de que aquele sinal de rádio fora m odulado por algum a inteligência.
Ela correu até outro term inal e conferiu a classificação que o com putador em itia para a reconhecibilidade do sinal: AAAAA. Antes, nenhum outro sinal de rádio recebido pela Costa Verm elha alcançara um a classificação de reconhecibilidade superior a C. Um a classificação A significava que havia m ais de noventa por cento de chance de a transm issão conter algum a inform ação inteligente. Um a classificação AAAAA era um caso especial extrem o: era indicação de que a transm issão recebida usava exatam ente a m esm a codificação da transm issão enviada pela própria Costa Verm elha.
Ye ativou o sistem a de decodificação da Costa Verm elha. O program a tentava decifrar qualquer sinal cuj a classificação fosse superior a B. Durante todo o período de operação do Proj eto Costa Verm elha, ele nunca havia sido usado em um a circunstância real. Com base em dados de teste, a decodificação de um a transm issão que talvez fosse um a m ensagem podia levar alguns dias ou até m eses, e na m aior parte das vezes o resultado seria erro. No entanto, daquela vez, assim que o arquivo com a transm issão original foi inserido, a tela m ostrou que a decodificação estava concluída.
Ye abriu o docum ento resultante e, pela prim eira vez, um ser hum ano leu um a m ensagem enviada de outro m undo.
O conteúdo era diferente do que qualquer um teria im aginado. Era um alerta repetido três vezes.
Não responda!
Não responda!!
Não responda!!!
Ainda em balada pela em polgação e pela confusão vertiginosa, Ye decodificou a segunda m ensagem .
Este m undo recebeu sua m ensagem .
Eu sou um pacifista. Sua civilização deu sorte que eu
tenha sido o prim eiro a receber sua m ensagem neste m undo. Estou alertando: Não responda! Não responda!! Não responda!!!
Existem dezenas de m ilhões de estrelas na sua
direção. Se você não responder, este m undo não conseguirá determ inar a fonte de sua transm issão.
Porém , se você responder, a fonte será localizada
im ediatam ente. Seu planeta será invadido. Seu m undo será conquistado!
Não responda! Não responda!! Não responda!!!
Ao ler o texto na tela verde lum inosa, Ye perdeu a capacidade de pensar com clareza. Sua m ente, inibida pelo baque e pela em polgação, só com preendia o seguinte: haviam se passado cerca de nove anos desde que ela enviara a m ensagem ao sol. Então a fonte daquela transm issão devia estar a cerca de quatro anos-luz de distância e só podia ter vindo do sistem a estelar m ais próxim o
do sol: Alfa Centauro.*
O universo não era desolador. Não era vazio. Era cheio de vida! A hum anidade havia dirigido seu olhar para os confins do universo, m as não fazia ideia de que a vida inteligente j á existia nas estrelas m ais próxim as da Terra!
Ye olhou para a tela com a onda: o sinal continuava chegando do universo pela antena da Costa Verm elha. Ela abriu outra j anela e com eçou a decodificar em tem po real. As m ensagens com eçaram a aparecer no m esm o instante na tela.
Durante as quatro horas seguintes, Ye leu sobre a existência de Trissolaris, o fato de que a civilização precisava renascer reiteradam ente e o plano deles de m igrar para as estrelas.
Às quatro da m anhã, a transm issão de Alfa Centauro acabou. O sistem a de decodificação continuava rodando sem resultado e em itia um a série interm inável de códigos de erro. O sistem a de m onitoram ento da Costa Verm elha tinha voltado a ouvir apenas o ruído do universo.
Mas Ye tinha certeza de que o que ela havia acabado de presenciar não tinha sido um sonho.
O sol realm ente era um a antena am plificadora. Mas por que o experim ento não tinha recebido nada oito anos antes? Por que as ondas das em issões de rádio de Júpiter não batiam com a radiação posterior do sol? Mais tarde, Ye pensou em m uitos m otivos. Era possível que a seção de com unicações da base não fosse capaz de receber ondas de rádio naquela frequência, ou talvez a seção tivesse recebido o eco, m as soou com o ruído e o operador achou que não fosse nada. Quanto às form as de onda, era possível que o Sol acrescentasse m ais um a onda ao am plificar as em issões de rádio. Provavelm ente seria um a onda periódica que poderia ser com pensada com facilidade pelo sistem a de decodificação alienígena m as, na falta de instrum entos adequados, para Ye a onda de Júpiter e a do sol pareceriam m uito diferentes. Anos depois, quando j á não estava m ais na Costa Verm elha, Ye conseguiria confirm ar a últim a hipótese: o sol havia acrescentado um a onda senoidal.
Ela olhou para os lados em alerta. Havia três hom ens na sala de com putadores principal. Dois estavam conversando em um canto, e o terceiro cochilava na frente de um term inal. Na seção de análise de dados do sistem a de m onitoram ento, só os dois term inais diante dela eram capazes de ver a classificação de reconhecibilidade de um sinal e acessar o sistem a de decodificação.
Tentando m anter a com postura, Ye agiu depressa e transferiu todas as m ensagens recebidas para um subdiretório invisível com m uitas cam adas de criptografia. Depois, copiou um segm ento de ruído recebido um ano antes para substituir a transm issão recebida nas cinco horas anteriores.
Por fim , usou o term inal para inserir um a m ensagem curta no buffer de transm issão da Costa Verm elha.
Ye se levantou e saiu da sala de controle principal de m onitoram ento. Ela sentiu no rosto febril um vento gelado; a aurora estava com eçando a ilum inar o céu oriental, e ela seguiu m eio às escuras pelo cam inho de pedrinhas até a sala de controle de transm issão principal. No alto, a antena da Costa Verm elha estava aberta, silenciosa, com o um a m ão gigantesca espalm ada para o universo. Na luz do am anhecer, o guarda na frente da porta era só um a silhueta e, com o sem pre, não deu atenção a Ye quando ela entrou.
A sala de controle principal de transm issão estava m uito m ais escura que a de m onitoram ento. Ye passou por várias fileiras de arquivos até parar na frente do painel de controle e ativar um a dúzia de com utadores com a habilidade da prática e ligar o sistem a de transm issão. Os dois hom ens de plantão perto do painel de controle olharam para ela com cara de sono, e um espiou o relógio. Em seguida, um voltou a cochilar e o outro com eçou a folhear um j ornal velho. Na base, Ye não tinha nenhum status político, m as desfrutava de algum a liberdade de ação em questões técnicas. Era com um ser a encarregada de testar os equipam entos antes de um a transm issão. Em bora tivesse chegado cedo naquele dia — a transm issão só estava m arcada para dali a três horas —, com eçar a ligar os sistem as um pouco antes não era algo tão raro.
O período seguinte foi a m eia hora m ais longa da vida dela. Nesse tem po, Ye aj ustou a frequência de transm issão para o valor ótim o de am plificação pelo espelho de energia solar e aum entou ao m áxim o a potência de transm issão. Depois, de olho no visor do sistem a de posicionam ento ótico, ela viu o sol subir no horizonte e ativou o sistem a de posicionam ento da antena, alinhando-o cuidadosam ente com o sol. Quando a antena gigantesca se m exeu, o ronco sacudiu a sala de controle principal. Um dos hom ens de plantão olhou para Ye de novo, m as não falou nada.
O sol j á estava todo acim a do horizonte. A m ira do sistem a de posicionam ento da Costa Verm elha estava apontada para a beirada superior do sol, a fim de com pensar o tem po que levaria até a onda de rádio chegar. O sistem a de transm issão estava pronto.
O botão TRANSMITIR era um retângulo com prido — m uito parecido com a barra de espaço de um teclado de com putador, só que verm elho.
Ye deixou a m ão pairando a dois centím etros do botão.
O destino da hum anidade inteira dependia daqueles dois dedos finos.
Sem hesitar, Ye apertou o botão.
— O que você está fazendo? — perguntou um dos hom ens de plantão, ainda sonolento.
Ye sorriu para ele e não disse nada. Apertou um botão am arelo para interrom per a transm issão e m exeu na alavanca de controle para apontar a antena em outra direção. Depois, se afastou do painel de controle e foi em bora.
O hom em olhou para o relógio: estava na hora de encerrar o turno. Ele pegou o diário e pensou em registrar o fato de Ye ter operado o sistem a de transm issão. Afinal, não era procedim ento com um . Mas, quando viu a fita de papel, percebeu que Ye só havia transm itido por três segundos. Ele largou o diário, bocej ou, colocou o quepe na cabeça e saiu.
A m ensagem que estava viaj ando até o sol dizia: Venham! Vou ajudá-los a conquistar este mundo. Nossa civilização já não consegue mais resolver os próprios problemas. Precisamos que sua força intervenha.
O sol recém -nascido deixou Ye atordoada. Pouco depois de sair da sala de controle principal, ela caiu no gram ado, sem sentidos.
Quando acordou, percebeu que estava na enferm aria da base. Ao lado dela, Yang a olhava com um ar preocupado, com o naquela vez no helicóptero, m uitos anos antes. O m édico falou que Ye precisava tom ar cuidado e descansar bastante.
— Você está grávida — disse.
* Em bora a olho nu pareça um a única estrela, na verdade Alfa Centauro é um sistem a de duas estrelas (Alfa Centauro A e Alfa Centauro B). Um a terceira estrela, cham ada de Próxim a Centauro e invisível a olho nu, provavelm ente está associada ao sistem a de duas estrelas por atração gravitacional. O nom e dos obj etos em chinês (半人马座三星) deixa claro que a “estrela” na verdade é um sistem a de três estrelas.