O Problema dos Três Corpos

Cixin Liu · Capítulo 4 de 36

Páginas do PDF

O Problema dos Três Corpos

Parte II

Três Corpos

4. FRONTEIRAS DA CIÊNCIA

 

Mais de quarenta anos depois

 

Para Wang Miao, os quatro suj eitos que vieram procurá-lo pareciam um a com binação um tanto estranha: dois policiais e dois m ilitares fardados. Se os m ilitares fossem policiais arm ados, seria relativam ente com preensível, m as na verdade eram oficiais do ELP.

Wang ficou irritado assim que viu os policiais. Não tinha problem a com o m ais j ovem — pelo m enos era educado. Mas o outro, vestido à paisana, lhe deu nos nervos na m esm a hora. Era corpulento e tinha os m úsculos do rosto salientes. Usava um casaco de couro suj o, fedia a cigarro e falava alto: exatam ente o tipo de pessoa que Wang desprezava.

— Wang Miao?

A m aneira sem cerim ônia com que o policial se dirigiu a ele, tão direto e m al-educado, incom odou Wang. Para piorar, o suj eito acendeu um cigarro, sem nem sequer pedir perm issão. Antes que Wang pudesse responder, o hom em fez um gesto com a cabeça para o policial m ais novo, que m ostrou o distintivo.

Após acender o cigarro, o policial m ais velho fez m enção de entrar no apartam ento de Wang.

— Por favor, não fum e na m inha casa — disse Wang, im pedindo a passagem .

— Ah, desculpe, professor Wang. — O policial j ovem sorriu. — Este é o capitão Shi Qiang. — Ele olhou para Shi com um a expressão consternada.

— Tudo bem , podem os conversar no corredor — respondeu Shi, que deu um a longa tragada. Em bora quase m etade do cigarro tenha virado cinzas, ele não soprou m uita fum aça. Inclinou a cabeça para o policial m ais novo. — Você pergunta, então.

— Professor Wang, querem os saber se o senhor teve algum contato recente com m em bros da Fronteiras da Ciência — disse o policial j ovem .

— A Fronteiras da Ciência está cheia de acadêm icos fam osos e m uito influentes. Por que não posso ter contato com um grupo acadêm ico internacional legítim o?

— Preste atenção no j eito que fala! — respondeu Shi. — A gente disse algum a coisa sobre não ser legítim o? A gente disse que você não podia ter contato com eles? — Em seguida, soprou a nuvem de fum aça que havia tragado antes bem no rosto de Wang.

— Então está bem . Por favor, respeitem m inha privacidade. Não preciso responder a suas perguntas.

— Sua privacidade? Você é um acadêm ico fam oso. Tem responsabilidade com o bem -estar da população. — Shi j ogou fora a guim ba do cigarro e pegou outro de um m aço am assado.

— Eu tenho o direito de não responder. Por favor, se retirem . — Wang se virou para voltar para dentro.

— Espere! — gritou Shi. Ele fez um gesto para o policial j ovem a seu lado. — Passe para ele o endereço e o telefone. Você pode vir à tarde.

— Afinal, o que vocês querem ? — perguntou Wang, agora com um a ponta de raiva na voz. A discussão atraiu os vizinhos para o corredor, curiosos para ver o que estava acontecendo.

— Capitão Shi! O senhor disse que… — O policial j ovem se afastou um pouco com Shi e continuou falando aos sussurros, em um tom insistente. Aparentem ente, Wang não era o único incom odado com a postura grosseira daquele hom em .

— Professor Wang, por favor, não nos entenda m al. — Um dos oficiais do Exército, um m aj or, se adiantou. — Vai haver um a reunião im portante na tarde de hoj e, que contará com a presença de diversos acadêm icos e especialistas. O general nos enviou para fazer o convite ao senhor.

— Tenho um com prom isso m arcado para a tarde de hoj e.

— Sabem os disso. O general j á conversou com o diretor do Centro de Pesquisa em Nanotecnologia. Não podem os realizar essa reunião sem o senhor. Se não puder com parecer, precisarem os adiá-la.

Shi e o policial j ovem não falaram nada, apenas se viraram e desceram a escada. Os dois oficiais do Exército viram a dupla ir em bora e pareceram suspirar de alívio.

— Qual é o problem a daquele cara? — m urm urou o m aj or para o outro oficial.

— Ele tem um péssim o histórico. Durante um a situação com reféns há alguns anos, ele agiu de m aneira im pulsiva, sem consideração pela vida dos dem ais. No final, três pessoas da m esm a fam ília m orreram nas m ãos dos bandidos. Dizem que ele tam bém tem am igos no crim e organizado e usa um a gangue para com bater outra. No ano passado, praticou tortura para extrair confissões e deixou um dos suspeitos incapacitado para sem pre. Foi por isso que ele foi suspenso da força…

Wang Miao desconfiava que os oficiais tinham a intenção de que ele entreouvisse a conversa. Talvez quisessem m ostrar que eram diferentes daquele policial grosseiro, talvez quisessem deixá-lo curioso sobre a m issão.

— Com o é que um hom em assim faz parte do Centro de Com ando em Batalha? — perguntou o m aj or.

— O general pediu especificam ente para que ele participasse. Acho que deve ter algum as habilidades especiais. De qualquer form a, a função dele é bastante restrita. Além de questões de segurança pública, ele não tem perm issão para fazer m uita coisa.

Centro de Comando em Batalha? Wang olhou para os dois oficiais, perdido.

O carro enviado para buscar Wang Miao seguiu com o professor para um grande com plexo na periferia da cidade. Com o a porta só estava identificada por um núm ero, sem letreiro, Wang deduziu que o edifício era das Forças Arm adas, não da polícia.

Wang se surpreendeu com o caos que reinava na enorm e sala de reuniões. Viu à sua volta m uitos com putadores em condições variadas de desordem . Com o não havia m esas suficientes, algum as estações de trabalho estavam instaladas no chão m esm o, onde cabos de rede e fios form avam um em aranhado. Em vez de prateleiras, o m onte de roteadores estava largado em cim a dos servidores. Havia papel branco espalhado por todos os lados. Em alguns cantos da enorm e sala, telões de proj eção form avam ângulos estranhos, com o se fossem barracas de ciganos. Havia um a nuvem de fum aça no ar… Wang Miao não sabia se aquilo era o Centro de Com ando em Batalha, m as sabia de um a coisa: fosse lá qual fosse a situação, era im portante dem ais para eles se preocuparem com as aparências.

A m esa de reunião, form ada pela j unção de várias m esas m enores, estava coberta de docum entos e obj etos variados. Os presentes tinham a roupa am arrotada e pareciam exaustos. Quem estava de gravata havia afrouxado o nó. Parecia que todo m undo ali tinha passado a noite em claro.

Um general de brigada cham ado Chang Weisi presidia a reunião, e m etade dos presentes era com posta por oficiais das Forças Arm adas. Após um a breve apresentação, Wang descobriu que m uitos eram da polícia. Os dem ais eram acadêm icos com o ele, incluindo alguns cientistas proem inentes especializados em pesquisa de base.

Wang tam bém percebeu quatro estrangeiros e ficou chocado ao descobrir quem eram : um coronel da Aeronáutica dos Estados Unidos e um coronel do Exército britânico, am bos adidos da Otan, além de dois agentes da CIA, aparentem ente na condição de observadores.

No rosto de todos em volta da m esa, Wang percebeu um m esm o sentim ento: Fizemos tudo o que dava. Vamos acabar logo com esta merda.

Wang Miao viu Shi Qiang sentado à m esa. Em contraste com a grosseria do dia anterior, Shi cham ou Wang de “Professor” ao cum prim entá-lo. Mas o sorriso debochado irritou Wang. Ele não queria ficar sentado ao lado de Shi, porém não teve escolha, pois era a única cadeira sobrando. A nuvem j á densa de fum aça aum entou.

Conform e os docum entos eram distribuídos, Shi se aproxim ou de Wang.

— Professor Wang, pelo que entendi o senhor pesquisa algum a espécie de… m aterial novo?

— Nanom aterial — respondeu Wang.

— Já ouvi falar. Esse negócio é m uito forte, né? O senhor acha que pode ser usado para com eter crim es? — Com o Shi continuava estam pando um m eio sorriso, Wang não sabia se ele estava brincando.

— Com o assim ?

— Pois é, ouvi falar que um fio feito com esse negócio poderia ser usado para erguer um cam inhão. Se bandidos roubassem um pouco desse m aterial e fizessem um a faca, por acaso não conseguiriam cortar um carro ao m eio só com um golpe?

— Não é preciso fazer um a faca. Esse tipo de m aterial pode ser m ontado em um a linha cem vezes m ais fina que um fio de cabelo. Se você estendesse essa linha em um a rua, um carro que passasse seria cortado ao m eio, com o m anteiga… Agora, o que não pode ser usado para com eter crim es? Até um a faca cega de escam ar peixe!

Shi com eçou a tirar um docum ento do envelope à sua frente e voltou a guardá-lo, perdendo o interesse de repente.

— Tem razão. Até m esm o um peixe pode ser usado para com eter crim es. Já tive um caso assim de assassinato. Um a vez um a vadia capou o m arido. Sabe o que ela usou? Um a tilápia congelada que estava no freezer! As barbatanas do bicho pareciam navalhas…

— Não quero saber. Você m e cham ou para esta reunião para falar disso?

— Peixe? Nanom ateriais? Não, não, nada a ver com isso. — Shi se aproxim ou e sussurrou no ouvido de Wang. — Não sej a legal com esses caras. Eles têm preconceito com a gente. Só querem tirar inform ação, m as nunca vão nos dizer nada. Olhe só para m im . Estou aqui há um m ês e ainda não sei de nada, que nem você.

— Cam aradas — disse o general Chang —, vam os com eçar. De todas as zonas de com bate no m undo, esta se tornou o ponto de convergência. Precisam os deixar os cam aradas presentes a par da atual situação.

Wang estranhou a expressão “zona de com bate”. Tam bém percebeu que o general não parecia disposto a explicar em detalhes o contexto da situação para pessoas com o ele, o que reforçava a sugestão de Shi. Além disso, o general Chang havia usado a palavra “cam aradas” duas vezes em sua breve introdução. Wang olhou para os agentes da Otan e da CIA sentados à sua frente. O general não acrescentara “cavalheiros”.

— Eles tam bém são cam aradas. Pelo m enos é assim que todos se cham am por aqui — sussurrou Shi para Wang, apontando o cigarro para os quatro estrangeiros.

Wang ficou perplexo ao ver que Shi adivinhara seus pensam entos e achou im pressionante o poder de observação dele.

— Da Shi, apague o cigarro. Já tem os bastante fum aça aqui — disse o general Chang, enquanto folheava alguns docum entos. Ele tratou Shi Qiang por um apelido, “Grande Shi”.

Shi procurou um cinzeiro, m as não achou. Por fim , largou o cigarro em um a xícara. Levantou a m ão e, antes que Chang tivesse tem po de perceber, falou alto:

— General, gostaria de fazer um pedido que j á fiz em outras reuniões: quero paridade de inform ação.

O general Chang levantou a cabeça.

— Nenhum a operação m ilitar j am ais teve paridade de inform ação. Peço desculpas a todos os acadêm icos, m as não posso passar m ais detalhes.

— Nós não som os com o os cabeçudos — respondeu Shi. — A polícia tem sido parte do Centro de Com ando em Batalha desde o com eço. Mas, até agora, ainda não sabem os do que se trata. Vocês insistem em nos m anter afastados. Aprendem o que precisam das nossas técnicas e depois vão nos expulsando, um de cada vez.

Outros policiais presentes m urm uraram para que Shi calasse a boca. Wang ficou surpreso de ver que Shi se atrevia a falar daquele j eito com um hom em da patente de Chang. Só que a resposta de Chang foi ainda m ais surpreendente.

— Da Shi, parece que você continua com o m esm o problem a de quando estava no Exército. Por acaso acha que está falando pela polícia? Em razão de seu péssim o histórico, você tinha sido suspenso por vários m eses e estava prestes a ser expulso da força. Intercedi a seu favor porque reconheço sua experiência. Você deveria dar valor a esta oportunidade.

Shi continuou com um tom grosseiro.

— Então estou trabalhando na esperança de que, com bons serviços prestados, eu possa m e redim ir? Achei que você tinha falado que todas as m inhas técnicas eram desonestas e corruptas.

— Mas são úteis. — Chang acenou com a cabeça para Shi. — A única coisa que nos im porta é que elas sej am úteis. Em tem pos de guerra, não podem os nos dar ao luxo de ter m uitos escrúpulos.

— Não podem os ser m eticulosos dem ais — disse um dos agentes da CIA, falando em perfeito m andarim padrão m oderno. — Não podem os m ais pensar de form a convencional.

O coronel britânico tam bém parecia entender chinês. Ele assentiu com a cabeça.

— Ser ou não ser… — acrescentou ele, em inglês. — É um a questão de vida ou m orte.

— O que ele está falando? — perguntou Shi a Wang.

— Nada — respondeu Wang de m odo m ecânico. A conversa ali parecia sair direto de um sonho. Tempos de guerra? Cadê essa guerra? Ele se virou para olhar por um dos j anelões. Pelo vidro, vislum brou Beij ing ao longe: o sol da prim avera ilum inava os carros que enchiam as ruas com o um rio denso; alguém passeava com um cachorro pela gram a; crianças brincavam …

O que é mais real? O mundo lá fora ou aqui dentro destas paredes?

— O inim igo intensificou o padrão de ataques recentem ente — disse o general Chang. — Os alvos ainda são cientistas de alto escalão. Por favor, passem os olhos pela lista de nom es no docum ento.

Wang tirou a prim eira folha do docum ento, im pressa com caracteres grandes. A lista parecia ter sido feita às pressas e continha nom es em chinês e inglês.

— Professor Wang, ao ver esses nom es, algum cham a sua atenção? — perguntou o general Chang.

— Conheço três. Todos são pesquisadores fam osos que atuam na vanguarda do estudo da física. — Wang estava um pouco distraído. Seus olhos se fixaram no últim o nom e da lista. Em sua m ente, os dois caracteres pareciam assum ir um a cor diferente dos nom es anteriores. Como é que o nome dela aparece aqui? O que aconteceu com ela?

— Conhece ela? — Shi apontou para o nom e com seu dedo grosso e am arelado de fum ante. Wang não respondeu. — Rá. Não conhece. Mas quer conhecer?

Agora Wang Miao entendia por que o general Chang havia pedido para trabalhar com aquele hom em . Shi, que parecia vulgar e descuidado, tinha olhos de águia. Talvez não fosse um policial bom, m as com certeza era tem ível.

Um ano antes, Wang Miao fora responsável pelos com ponentes de escala nano para o proj eto de acelerador de partículas de alta energia “Sinotron II”. Certa tarde, durante um rápido intervalo no canteiro de obras de Liangxiang, Wang ficou im pressionado com o cenário. Com o fotógrafo de paisagens am ador, m uitas vezes Wang via as cenas à sua volta com o com posições artísticas.

O principal elem ento da com posição era o solenoide do eletroím ã supercondutor que eles ainda estavam instalando. Com cerca de dez m etros de altura e apenas parcialm ente construído, o eletroím ã se proj etava com o um m onstro feito de pedaços gigantescos de m etal e de um a confusão de tubos de refrigeração criogênica. Com o um m onte de entulho da Revolução Industrial, a estrutura transpirava a frieza inum ana tecnológica e a barbárie do aço.

Na frente desse m onstro de m etal estava a figura esbelta de um a j ovem . A ilum inação da com posição tam bém era fantástica: o m onstro de m etal se encontrava im erso na som bra de um a cobertura tem porária para obras, o que enfatizava ainda m ais o aspecto grave e duro. Apesar disso, um raio de sol vespertino passava pelo buraco no centro do abrigo, atingindo a m ulher. O brilho suave ilum inava os cabelos m acios e dava destaque para o pescoço branco visível acim a do colarinho do m acacão, com o se um a flor solitária desabrochasse em m eio a um a ruína m etálica após um a tem pestade violenta…

— O que você está olhando? Volte ao trabalho!

Wang despertou do devaneio com um choque, m as logo percebeu que o diretor do Centro de Pesquisa em Nanotecnologia não estava falando com ele, e sim com um j ovem engenheiro que tam bém tinha ficado olhando para a m ulher. Ao voltar da arte para a realidade da vida, Wang notou que a j ovem não era um a operária com um — o engenheiro-chefe estava ao lado dela, explicando algo com um tom respeitoso.

— Quem é ela? — perguntou Wang ao diretor.

— Você devia saber — respondeu o diretor, traçando um círculo grande com a m ão. — O prim eiro experim ento neste acelerador de vinte bilhões de y uans provavelm ente vai ser um teste do m odelo de supercordas dela. Acontece que tem po de experiência pesa no ram o da física teórica e, em outra situação, ela não seria vista com o experiente o bastante para ser a prim eira da fila. Só que, com o aqueles acadêm icos com m ais bagagem não se atreveram a aparecer antes, com m edo de passar vergonha caso suas teorias fracassassem , ela ganhou a chance.

— O quê? Yang Dong é… um a m ulher?

— Pois é — disse o diretor. — Só descobrim os quando finalm ente a conhecem os, dois dias atrás.

— Ela tem algum problem a psicológico? — perguntou o j ovem engenheiro. — Por que ela não quer conceder entrevistas para a m ídia? Será que

ela é com o Qian Zhongshu,* que m orreu sem nunca ter aparecido na TV? — As palavras de Wang estavam m arcadas por um a ponta de autodepreciação. Ele ainda não era fam oso o bastante para cham ar a atenção da m ídia, que dirá para recusar convites de entrevista.

— Mas pelo m enos nós sabíam os que Qian era hom em . Aposto que Yang passou por algum as experiências estranhas na infância. Talvez tenha ficado um pouco autista por causa disso.

Yang se aproxim ou do engenheiro-chefe. Quando passaram , ela sorriu para Wang e os dem ais, fazendo um gesto sutil com a cabeça, sem falar nada. Wang se lem brava daqueles olhos lím pidos.

À noite, sentado no escritório, Wang estava adm irando as poucas fotografias de paisagem penduradas na parede: eram as criações de que ele m ais se orgulhava. Fixou os olhos em um a cena de fronteira: um vale desolado que term inava em um a m ontanha coberta de neve. Na parte m ais próxim a do vale, m etade de um a árvore m orta, desgastada por m uitos anos de exposição, ocupava um terço da foto. Em sua im aginação, Wang colocou a figura da m ulher que não saía de seus pensam entos no fundo do vale. Ficou surpreso ao constatar que o cenário todo pareceu ganhar vida, com o se o m undo da fotografia reconhecesse aquela figura m inúscula e reagisse, com o se o cenário todo existisse para ela.

Em seguida, Wang a im aginou em cada um a das outras fotografias, às vezes colando os olhos dela no céu vazio acim a das paisagens. Essas im agens tam bém ganharam vida, alcançando um a beleza que Wang j am ais havia im aginado.

Wang sem pre havia pensado que suas fotografias careciam de algum tipo de espírito. Agora entendia que o que faltava era ela.

— Todos os físicos nessa lista com eteram suicídio nos últim os dois m eses — disse o general Chang.

Wang ficou chocado. Aos poucos, as paisagens em preto e branco se desvaneceram em sua m ente. As fotografias j á não possuíam a figura dela no prim eiro plano, e seus olhos foram riscados do firm am ento. Aqueles m undos estavam todos m ortos.

— Quando… isso aconteceu? — perguntou Wang, em tom m ecânico.

— Nos últim os dois m eses — repetiu Chang.

— Você está se referindo ao últim o nom e, não é? — indagou Shi, satisfeito. — Ela foi a últim a a se suicidar. Na noite retrasada, um a overdose de rem édios para dorm ir. A m orte foi pacífica. Sem dor.

Por um instante, Wang sentiu-se grato a Shi.

— Por quê? — perguntou Wang. Os cenários m ortos daquelas fotos de paisagem continuavam m artelando em sua cabeça.

— Nossa única certeza — respondeu o general Chang — é a seguinte: todos com eteram suicídio pelo m esm o m otivo. Mas é difícil levantar hipóteses. Talvez sej a im possível para nós, que não som os especialistas, cogitar o m otivo. O docum ento contém trechos das cartas de suicídio. Todos vocês podem exam iná-los após a reunião.

Wang folheou as páginas das cartas: todas pareciam ensaios extensos.

— Dr. Ding, por favor, o senhor poderia m ostrar a m ensagem de Yang Dong ao professor Wang? A dela é a m ais curta e, talvez, a m ais representativa.

O hom em em questão, Ding Yi, havia perm anecido em silêncio até aquele m om ento. Após m ais um instante, ele enfim pegou um envelope branco e entregou para Wang por cim a da m esa.

— Ele era o nam orado de Yang — sussurrou Shi. Wang se lem brava de ter visto Ding no canteiro de obras do acelerador de partículas em Liangxiang. Ele era um teórico que havia ficado fam oso ao descobrir os m acroátom os quando estava estudando relâm pagos globulares. Wang tirou do envelope um a folha fina e de form ato irregular, com um a fragrância sutil… não de papel, m as de bétula. Havia um a única linha de caracteres escritos em um a caligrafia elegante:

Todas as provas apontam para uma única conclusão: a física nunca existiu nem jamais existirá. Sei que o que estou fazendo é irresponsável. Mas não tenho escolha.

O papel não estava nem assinado. Ela se fora.

— A física… não existe? — Wang não fazia ideia do que pensar.

O general Chang fechou a pasta.

— O arquivo tam bém contém inform ações específicas relativas aos resultados experim entais obtidos após a finalização dos três aceleradores de partículas m ais novos do m undo. Com o é bastante técnico, não tratarem os disso aqui. O prim eiro obj eto de nossa investigação é a Fronteiras da Ciência. A Unesco determ inou que 2005 seria o Ano Mundial da Física, e essa organização se form ou gradativam ente, a partir dos diversos congressos e encontros acadêm icos realizados ao longo daquele ano por físicos do m undo inteiro. Dr. Ding, j á que o senhor estuda física teórica, poderia nos dar m ais inform ações sobre essa organização?

Ding confirm ou com a cabeça.

— Não tenho nenhum a relação direta com a Fronteiras da Ciência, m as a organização é fam osa no m eio acadêm ico. O obj etivo central dela é ser um a resposta para o seguinte problem a: desde a segunda m etade do século XX, a física perdeu aos poucos a concisão e a sim plicidade das teorias clássicas. Os m odelos teóricos m odernos se tornaram cada vez m ais com plexos, vagos e im precisos. A verificação experim ental se tornou m ais difícil tam bém . Isso tudo é um sinal de que a vanguarda da pesquisa em física parece estar chegando a um lim ite.

“Os m em bros da Fronteiras da Ciência querem experim entar um a nova form a de pensar. Para sim plificar: eles querem usar os m étodos científicos para descobrir os lim ites da ciência, para tentar descobrir se existe lim ite para a extensão e a precisão com que a ciência pode conhecer a natureza, um lim ite que a ciência não pode transpor. O desenvolvim ento da física m oderna parece sugerir que essa linha j á foi alcançada.”

— Muito bem — disse o general Chang. — De acordo com nossas investigações, a m aioria dos pesquisadores que se suicidaram tem algum a ligação com a Fronteiras da Ciência, e alguns até faziam parte dela. Mas não encontram os indícios de drogas psicotrópicas nem de técnicas sim ilares à m anipulação ideológica presente em seitas religiosas. Em outras palavras, em bora tenham sido influenciados pela Fronteiras da Ciência, isso ficou lim itado a relações acadêm icas legítim as. Professor Wang, visto que a organização entrou em contato com o senhor recentem ente, gostaríam os de pedir algum as inform ações.

— Incluindo o nom e de seus contatos — acrescentou Shi de m aneira grosseira —, o horário e o local dos encontros, o assunto das conversas e eventuais trocas de cartas ou e-m ails…

— Cale-se, Da Shi! — disse o general Chang.

Outro policial se inclinou e sussurrou para Shi:

— Por acaso acha que vam os esquecer que você tem boca se não a m antiver aberta o tem po todo?

Shi pegou a xícara, viu a guim ba de cigarro enfiada no chá e voltou a colocá-la na m esa.

As perguntas de Shi voltaram a deixar Wang irritado, a m esm a sensação que um hom em teria ao descobrir que engoliu um a m osca j unto com a com ida. A gratidão experim entada havia pouco desapareceu sem deixar vestígios. Mas ele se conteve e respondeu:

— Meu contato com a Fronteiras da Ciência com eçou com Shen Yufei, um a física j aponesa descendente de chineses que trabalha atualm ente para um a em presa j aponesa aqui em Beij ing. Ela j á trabalhou em um laboratório da Mitsubishi com pesquisa sobre nanotecnologia. Nós nos conhecem os em um congresso no com eço deste ano. Por interm édio dela, conheci alguns de seus am igos físicos, todos integrantes da Fronteiras da Ciência, alguns chineses, alguns estrangeiros. Em nossas conversas, todos os assuntos eram … com o dizer? Bem radicais. Todos os tem as estavam relacionados à pergunta que o dr. Ding acabou de m encionar: qual é o lim ite da ciência?

“A princípio, eu não tinha m uito interesse nesses assuntos, que só encarava com o um passatem po. Trabalho com pesquisa aplicada e não conheço m uito dessas questões teóricas. Estava interessado principalm ente em ouvir os debates e as discussões que eles travavam . Todos eram grandes pensadores, com pontos de vistas originais, e eu sentia que m inha m ente se expandia com as conversas. Com o tem po, fui ficando m ais interessado. Mas os debates se lim itavam à teoria pura e nada m ais. Eles m e convidaram um a vez a entrar para a Fronteiras da Ciência. Só que, caso eu tivesse aceitado, com parecer às discussões teria se transform ado em obrigação. Com o eu não tinha m uito tem po livre nem energia de sobra, recusei.”

— Professor Wang — disse o general Chang —, gostaríam os que o senhor aceitasse o convite e entrasse para a Fronteiras da Ciência. Esse é o principal m otivo para term os insistido em sua presença na reunião de hoj e. Por interm édio do senhor, gostaríam os de saber m ais sobre as atividades internas da organização.

— Vocês querem que eu sej a um espião? — Wang não estava à vontade.

— Um espião! — Shi riu.

Chang lançou um olhar de censura para Shi e se virou para Wang.

— Só querem os que o senhor nos passe algum as inform ações. Não tem os nenhum a outra via de acesso.

Wang balançou a cabeça.

— Sinto m uito, general. Não posso fazer isso.

— Professor Wang, a Fronteiras da Ciência é com posta de pensadores internacionais de prim eira linha. O trabalho de investigação é extrem am ente com plexo e delicado. Para nós, seria com o pisar em ovos. Sem a aj uda de alguém do m eio acadêm ico, não tem os com o fazer nenhum progresso. Por isso estam os fazendo esse pedido. Mas respeitarem os sua vontade. Se o senhor não aceitar, vam os entender.

— Eu ando… m uito atarefado. Não tenho tem po para isso.

O general Chang assentiu com a cabeça.

— Tudo bem , professor Wang. Não vam os m ais desperdiçar o seu tem po. Obrigado por vir a esta reunião.

Wang esperou m ais alguns segundos até perceber que havia sido dispensado.

O general Chang o acom panhou gentilm ente até a porta. Dava para ouvir a voz alta de Shi atrás deles.

— É m elhor assim . Nem concordo com o plano m esm o. Muitos CDFs j á se m ataram . Mandar esse cara seria o m esm o que j ogar um pedaço de carne dentro de um canil.

Wang se virou, foi até Shi, reprim iu a raiva e disse:

— O seu j eito de falar não é adequado para um bom policial.

— Quem disse que eu sou um bom policial?

— Não sei por que esses pesquisadores se m ataram , m as você não devia falar deles com tanto desdém . A m ente brilhante desses estudiosos trouxe contribuições inigualáveis para a hum anidade.

— Você está dizendo que eles são m elhores do que eu? — Ainda sentado, Shi ergueu os olhos para encarar Wang. — Eu pelo m enos não m e m ataria só porque alguém m e falou um a besteira.

— Você acha que eu m e m ataria?

— Tenho que m e preocupar com a sua segurança.

Lá estava aquele sorrisinho debochado de novo.

— Acho que eu estaria m uito m ais seguro que você nesse tipo de situação. Você deve saber que a capacidade de um a pessoa de discernir a verdade é diretam ente proporcional ao conhecim ento que ela tem .

— Não sei, não. Digam os que alguém com o você…

— Silêncio, Da Shi! — disse o general Chang. — Mais um a palavra e você será expulso!

— Não tem problem a — respondeu Wang. — Deixe falar. — Ele se virou para o general Chang. — Mudei de ideia. Vou entrar para a Fronteiras da Ciência, com o vocês querem .

— Ótim o! — Shi balançou a cabeça com força. — Fique atento depois de entrar. Obtenha inform ações sem pre que for possível. Por exem plo, dê um a olhada na tela dos com putadores deles, decore endereços de e-m ail ou de sites…

— Basta! Você não entendeu. Não quero ser um espião. Só quero provar que você não passa de um idiota!

— Se você continuar vivo por algum tem po depois de entrar, j á vai ser um a ótim a prova. Mas eu tem o por sua segurança… — Shi levantou o rosto, e a expressão debochada se transform ou em um sorriso m aldoso.

— É claro que vou continuar vivo! Mas nunca m ais quero ver você.

Eles m antiveram Wang afastado enquanto os outros iam em bora para que ele não topasse com Shi Qiang de novo. Depois, o general Chang acom panhou Wang até o pé da escada e cham ou um carro para levá-lo de volta para casa.

— Não se preocupe com Shi Qiang — disse ele para Wang. — Ele é daquele j eito m esm o. Na verdade, Shi é um policial m uito experiente e um especialista em antiterrorism o. Vinte anos atrás, era soldado da m inha com panhia.

Enquanto os dois se aproxim avam do carro, Chang acrescentou:

— Professor Wang, o senhor deve ter m uitas perguntas.

— O que aquilo tudo que vocês falaram lá dentro tem a ver com as Forças Arm adas?

— A guerra tem tudo a ver com o Exército.

Sob o sol da prim avera, Wang olhou ao redor, confuso.

— Mas onde é que está essa guerra? Este talvez sej a o período m ais pacífico da história.

Chang o encarou com um sorriso indecifrável.

— O senhor saberá em breve. Todo m undo saberá. Professor Wang, j á aconteceu algo com o senhor que m udou a sua vida da noite para o dia? Algum a circunstância que tenha feito com que o m undo se tornasse um lugar totalm ente diferente para o senhor?

— Não.

— Então o senhor teve sorte na vida. Mesm o que o m undo sej a cheio de im previstos, o senhor nunca se deparou com um a crise.

Wang revirou as palavras na cabeça, ainda sem entender.

— Acho que isso vale para a m aioria das pessoas.

— Então a m aioria das pessoas teve sorte na vida.

— Mas… m uitas gerações viveram dessa form a sim ples.

— Todas tiveram sorte.

Wang riu, balançando a cabeça.

— Preciso confessar que não estou m e sentindo m uito esperto hoj e. O senhor está sugerindo que…

— Sim , que a hum anidade teve sorte ao longo de toda sua história. Desde a Idade da Pedra até hoj e, nunca aconteceu nenhum a crise de verdade. Tivem os sorte, m uita sorte. Agora, com o tudo isso foi sorte, um dia teria que acabar. Vou m ais longe: j á acabou. Prepare-se para o pior.

Em bora Wang quisesse saber m ais, Chang balançou a cabeça e se despediu, evitando novas perguntas.

Depois de Wang entrar no carro, o m otorista quis saber para onde deveria levar o passageiro. Wang inform ou o endereço e perguntou:

— Ah, não foi você que m e trouxe aqui? Achei que fosse o m esm o carro.

— Não, não fui eu. Eu trouxe o dr. Ding.

Wang teve um a ideia nova. Pediu para o m otorista levá-lo ao endereço de Ding.

 

* Qian Zhongshu (1910-98) foi um a das m entes literárias chinesas m ais fam osas do século XX. Erudito, m ordaz e recluso, ele insistia em rej eitar convites para aparecer na m ídia. Poderia ser considerado um a versão chinesa de Thom as Py nchon.