O Problema dos Três Corpos

Cixin Liu · Capítulo 12 de 36

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O Problema dos Três Corpos

12. Costa Vermelha II

 

Ye não recebeu nenhum a função im portante ao chegar à Base Costa Verm elha. Diante da vigilância atenta de um guarda, ela só tinha perm issão para realizar algum as atividades técnicas.

Quando ainda estava no segundo ano da faculdade, Ye j á havia conhecido o professor que se tornaria seu orientador para o trabalho de conclusão de curso. Ele havia com entado que, para Ye desenvolver pesquisas em astrofísica, não adiantava nada dom inar a teoria sem conhecer m étodos experim entais e técnicas de observação — pelo m enos não na China. Em bora o pai de Ye tivesse um a opinião m uito diferente, ela tendia a concordar com o professor. Ye sem pre tivera a im pressão de que o pai era teórico dem ais.

Seu orientador era um dos pioneiros da radioastronom ia na China. Influenciada por ele, Ye tam bém desenvolveu um grande interesse por radioastronom ia, estudando por conta própria engenharia elétrica e ciências da com putação, que eram a base para realizar experim entos e observações na área. Durante os dois anos do curso de pós-graduação, eles testaram o prim eiro radiotelescópio de pequena escala da China e acum ularam m uita experiência no ram o.

Ela nunca havia im aginado que esse conhecim ento algum dia viria a ser útil na Base Costa Verm elha.

Com o tem po, Ye foi designada para o Departam ento de Transm issão, encarregado pela m anutenção e pelos reparos dos equipam entos. Logo ela se tornou parte indispensável das operações.

A princípio, achou essa situação um pouco confusa. Ye era a única pessoa da base que não usava farda. E, considerando seu status político, todos m antinham distância dela. Para superar a solidão, ela acabou se entregando de corpo e alm a ao trabalho. No entanto, isso não bastava para explicar por que a base contava tanto com ela. Afinal, aquele era um proj eto crucial de defesa. Com o era possível que a equipe técnica fosse tão m edíocre a ponto de Ye, sem diplom a de engenharia nem qualquer experiência profissional de verdade, ter conseguido assum ir sem m aiores dificuldades o trabalho deles?

Ela não dem orou a descobrir o m otivo. Ao contrário das aparências, a equipe da base era com posta pelos m elhores oficiais técnicos do 2º Corpo de Artilharia. Mesm o se passasse a vida inteira estudando, Ye j am ais chegaria aos pés daqueles excepcionais engenheiros elétricos e técnicos de com putação. No entanto, a base ficava isolada, as condições eram péssim as, e o grosso do trabalho de pesquisa do Proj eto Costa Verm elha j á estava feito. Com o só restavam atividades de m anutenção, não havia m uito espaço para resultados técnicos interessantes. A m aioria das pessoas não queria se tornar indispensável, porque todos sabiam que, em proj etos altam ente confidenciais com o aquele, quando alguém era designado para um a função técnica essencial, dificilm ente obteria um a transferência para fora da base. Por isso, todo m undo fazia um esforço deliberado para disfarçar a própria com petência técnica no dia a dia de trabalho.

Mas ninguém podia parecer incom petente demais. Então, se o supervisor dissesse que era preciso ir para o leste, as pessoas se esforçariam m uito para ir para o oeste, fingindo ignorância. A ideia era fazer o supervisor pensar o seguinte: Esse homem está trabalhando muito, mas tem capacidade limitada. Não adianta nada mantê-lo aqui, pois ele só vai atrapalhar. Muitos chegaram a conseguir um a transferência usando esse m étodo.

Nessas condições, Ye se tornou aos poucos um a técnica essencial para a base. Mas o outro m otivo que lhe perm itiu alcançar essa posição a intrigava, e ela não conseguiu descobrir nenhum a explicação: a Base Costa Verm elha — pelo m enos as áreas conhecidas por Ye — não possuía nenhum a tecnologia realm ente avançada.

Com o passar do tem po, à m edida que Ye prosseguia com seu trabalho no Departam ento de Transm issão, as restrições im postas a ela foram sendo atenuadas, e até m esm o o guarda encarregado de vigiá-la acabou sendo transferido para outra função. Ye foi autorizada a m exer na m aioria dos com ponentes dos sistem as da Costa Verm elha e a ler os docum entos técnicos relevantes. Claro, ainda havia áreas de acesso proibido para Ye. Entre outros setores, ela não podia chegar nem perto dos sistem as de controle dos com putadores. No entanto, Ye descobriu que esses sistem as exerciam um im pacto m uito m enor na Costa Verm elha do que ela havia im aginado. Por exem plo, os com putadores do Departam ento de Transm issão se lim itavam a três

m áquinas ainda m ais prim itivas que o DJS130.1 Os aparelhos usavam um a m em ória de núcleo m agnético ineficiente e fita de papel com o dispositivo de entrada, e o tem po m áxim o de funcionam ento não passava de quinze horas. Ye tam bém percebeu que a precisão do sistem a de m ira da Costa Verm elha era m uito ruim , provavelm ente até pior do que o de um canhão de artilharia.

Certo dia, o com issário Lei procurou Ye para um a conversa. Àquela altura, Yang Weining e Lei Zhicheng haviam trocado de lugar aos olhos dela. Durante aqueles anos, na condição de oficial técnico de patente m ais alta, Yang não tinha um status político elevado nem m uita autoridade em questões que não fossem técnicas. Ele precisava tom ar cuidado com seus subordinados e falar com educação até m esm o com sentinelas, para não acabar tachado de intelectual resistente à reform a do pensam ento e à colaboração com as m assas. Assim , sem pre que ele enfrentava dificuldades no trabalho, Ye virava seu saco de pancadas. No entanto, à m edida que Ye foi ganhando im portância com o integrante da equipe técnica, o com issário Lei deixou de lado a grosseria e a frieza inicial e passou a tratá-la com gentileza.

— Wenj ie — disse o com issário Lei —, a esta altura, você j á conhece bastante bem o sistem a de transm issão, que é tam bém o com ponente ofensivo da Costa Verm elha, a principal peça. Você poderia m e dizer sua opinião sobre o sistem a com o um todo?

Eles estavam sentados na beirada de um penhasco íngrem e no pico do Radar, o lugar m ais isolado da base. O penhasco parecia se abrir direto para um abism o infinito. No início, Ye tinha m edo daquele lugar, m as com o tem po passou a gostar de ir ali sozinha.

Ye não sabia bem com o responder à pergunta do com issário Lei. Ela só era responsável pela m anutenção dos equipam entos e não conhecia nada da Costa Verm elha com o um todo, nem das operações, nem dos alvos etc. Na verdade, não tinha perm issão para saber. Nem sequer tinha perm issão para estar presente durante a transm issão. Ela refletiu sobre a questão, com eçou a falar e se conteve.

— Vá em frente, diga o que está pensando — pediu o com issário Lei, que arrancou um a folha de gram a e ficou brincando com ela, distraído.

— É… é só um radiotransm issor.

— Isso m esm o, é só um radiotransm issor. — O com issário fez um gesto satisfeito com a cabeça. — Você conhece os fornos de m icro-ondas?

Ye balançou a cabeça.

— São brinquedinhos de luxo do Ocidente capitalista. A com ida é aquecida pela energia gerada ao absorver radiação de m icro-ondas. Em m inha estação de pesquisa anterior, para testarm os com precisão o envelhecim ento de alta tem peratura de certos com ponentes, im portam os um aparelho desses. Depois do trabalho, a gente usava para esquentar pães mantou, assar batatas, esse tipo de coisa. É m uito interessante. O interior se aquece enquanto a parte externa continua fria.

O com issário Lei se levantou e ficou andando de um lado para o outro. Estava tão perto da beirada do penhasco que deixou Ye nervosa.

— A Costa Verm elha é um forno de m icro-ondas, e os alvos aquecidos são as naves espaciais inim igas. Se puderm os aplicar radiação de m icro-ondas em um nível de energia específico de um décim o de watt por centím etro quadrado, conseguirem os incapacitar ou destruir m uitos com ponentes eletrônicos de satélites de com unicações, radares e sistem as de navegação.

Ye finalm ente entendeu. Em bora a Costa Verm elha fosse apenas um radiotransm issor, estava longe de ser convencional. O aspecto m ais surpreendente era a potência de transm issão: até vinte e cinco m egawatts! Isso não era só m ais potente do que qualquer transm issão de com unicações, m as tam bém do que qualquer transm issão de radar. A Costa Verm elha contava com um conj unto de capacitores gigantescos. Com o o consum o de energia era m uito alto, os circuitos de transm issão tam bém eram diferentes dos proj etos convencionais. Ye agora entendia o propósito dessa potência ultra-alta no sistem a, m as algo pareceu errado logo de cara.

— A em issão do sistem a parece m odulada.

— Isso m esm o. No entanto, a m odulação não é igual à usada em com unicações convencionais via rádio. O obj etivo não é acrescentar inform ações, m as alterar frequências e am plitudes para penetrar possíveis blindagens do inim igo. Claro, isso ainda é experim ental.

Ye assentiu com a cabeça. Muitas de suas perguntas agora tinham resposta.

— Recentem ente, dois satélites-alvo foram lançados a partir de Jiuquan. Os testes de ataque da Costa Verm elha foram realizados com sucesso. A tem peratura dentro dos satélites chegou a quase m il graus, e todos os instrum entos e equipam entos fotográficos a bordo foram destruídos. Em guerras no futuro, a Costa Verm elha pode atingir os satélites de com unicações e reconhecim ento do inim igo, com o os satélites espiões KH-8, que os im perialistas am ericanos usam , assim com o os KH-9, que estão prestes a ser lançados. Os satélites espiões dos revisionistas soviéticos, que têm um a órbita m ais baixa, são ainda m ais vulneráveis. Se for necessário, tem os até capacidade para destruir a estação espacial Saly ut, dos revisionistas soviéticos, e a Sky lab, que os im perialistas am ericanos pretendem lançar no ano que vem .

— Com issário! O que você está contando para ela? — perguntou alguém atrás de Ye. Ela se virou e viu o engenheiro-chefe Yang Weining, que encarava o com issário Lei com um olhar grave.

— Isso é para o trabalho — respondeu o com issário Lei, antes de ir em bora. Yang olhou para Ye sem falar nada e saiu. Ye ficou sozinha.

Foi ele quem me trouxe para cá, mas ainda não confia em mim, pensou Ye, desolada. Ela estava apreensiva com o com issário Lei. Na base, Lei tinha m ais autoridade do que Yang, j á que o com issário dava a palavra final na m aioria das questões im portantes. No entanto, a pressa com que Lei saiu com Yang parecia indicar que ele acreditava ter sido flagrado fazendo algo errado pelo engenheiro-chefe. Ye deduziu que Lei havia tom ado um a decisão pessoal ao lhe revelar o verdadeiro obj etivo do Proj eto Costa Verm elha.

O que vai acontecer com ele agora? Ao olhar para as costas corpulentas do com issário Lei, ela sentiu um a onda de gratidão. Para Ye, confiança era um luxo que não se atrevia a desej ar. Na com paração com Yang, Lei era quem m ais se aproxim ava da im agem que ela fazia de um oficial m ilitar de verdade, com a postura franca e direta de um soldado. Yang, por sua vez, nada m ais era do que um intelectual típico da época: cauteloso, inseguro, interessado apenas na própria proteção. Em bora Ye com preendesse aquilo, o vasto abism o entre os dois aum entou.

No dia seguinte, Ye foi retirada do Departam ento de Transm issão e transferida para o Departam ento de Monitoração. A princípio, achou que a m udança tivesse relação com o incidente do dia anterior, um a tentativa de afastá-la do núcleo da Costa Verm elha. Porém , ao chegar ao Departam ento de Monitoração, percebeu que aquilo parecia m ais o coração da Costa Verm elha. Em bora os dois departam entos dividissem alguns recursos, com o a antena, o nível da tecnologia do Departam ento de Monitoração era m uito m ais avançado.

O Departam ento de Monitoração tinha um radiorreceptor m uito sofisticado

e sensível. Um m aser2 de ondas progressivas com cristal de rubi am plificava os sinais recebidos pela antena gigante e, para m inim izar a interferência, o núcleo do sistem a receptor estava im erso em hélio líquido a –269 graus Celsius. Assim , o sistem a receptor era capaz de captar até m esm o sinais m uito fracos. Ye não podia deixar de im aginar com o aquele equipam ento seria m aravilhoso para estudos em radioastronom ia.

O sistem a de com putadores do Departam ento de Monitoração tam bém era m uito m aior e m ais com plexo do que o do Departam ento de Transm issão. Ao entrar pela prim eira vez na sala de controle principal, Ye viu um a fileira de telas de tubo de raios catódicos. Ficou im pressionada ao observar que todas exibiam linhas de program ação e que os operadores podiam editar e testar os códigos com o teclado. Quando tinha aprendido program ação na faculdade, o código-fonte sem pre era escrito nas m arcações de papéis de program ação especiais e, depois, transferido para um a fita de papel com um a m áquina de escrever. Ye ouvira falar de teclados e telas com o dispositivos de entrada, m as era a prim eira vez que via aquilo.

Os softwares disponíveis a deixaram ainda m ais im pressionada. Ye aprendeu sobre algo cham ado FORTRAN, que perm itia que a program ação usasse um a linguagem sem elhante à linguagem natural. Dava até para inserir equações m atem áticas diretam ente no código! Program ar com isso era m uitíssim o m ais eficiente do que program ar com linguagem de m áquina. E havia tam bém um negócio cham ado base de dados, que facilitava o arm azenam ento e a m anipulação de quantidades im ensas de inform ação.

Dois dias depois, o com issário Lei cham ou Ye para m ais um a conversa. Dessa vez, eles estavam na sala de controle principal do Departam ento de Monitoração, na frente da fileira de telas de luz verde. Yang Weining se sentou perto deles, sem fazer parte da conversa, m as tam bém sem querer sair, o que deixou Ye bastante incom odada.

— Wenj ie — com eçou o com issário Lei —, vou explicar o trabalho do Departam ento de Monitoração. Em poucas palavras, o obj etivo é buscar atividades inim igas no espaço, interceptar com unicações das em barcações espaciais inim igas entre si e com o solo, colaborar com nossos centros de telem etria, rastream ento e com ando para determ inar a órbita de em barcações espaciais inim igas e fornecer inform ações aos sistem as de com bate da Costa Verm elha. Resum indo, os olhos da Costa Verm elha estão aqui.

— Com issário Lei — interrom peu Yang —, acho que o que o senhor está fazendo não é um a boa ideia. Não precisa contar essas coisas para ela.

Ye olhou para Yang e disse, ansiosa:

— Com issário, se isso não for adequado, então…

— Não, não, Wenj ie. — O com issário levantou a m ão para interrom per Ye e se virou para Yang. — Chefe Yang, vou repetir o que disse em outro m om ento. Isso é para o trabalho. Para que Wenj ie possa cum prir m elhor suas obrigações, precisa saber dos obj etivos.

Yang se levantou.

— Relatarei isso aos nossos superiores.

— Claro, é um direito seu. Mas não se preocupe, chefe Yang, eu assum irei a responsabilidade por qualquer coisa.

Yang saiu com um a expressão fechada.

— Não se preocupe com o chefe Yang. É só o j eito dele. — O com issário Lei deu um a risadinha e balançou a cabeça. Em seguida, olhou para Ye e assum iu um a entonação solene. — Wenj ie, quando trouxem os você para a base, o obj etivo era sim ples. Os sistem as de m onitoram ento da Costa Verm elha costum avam sofrer interferência causada pela radiação eletrom agnética de explosões e m anchas solares. Por coincidência, vim os seu artigo e percebem os que você havia estudado as atividades solares. Com o entre os pesquisadores chineses seu m odelo de previsão era o m ais preciso, resolvem os pedir sua aj uda para resolver esse problem a.

“Só que, depois que você chegou, dem onstrou ter m uito talento, então decidim os lhe atribuir m ais responsabilidades. Minha ideia foi a seguinte: nom eá-la prim eiro para o Departam ento de Transm issão e depois para o Departam ento de Monitoração. Desse m odo, você obteria um a com preensão abrangente da Costa Verm elha com o um todo e nós poderíam os esperar para ver que outra função delegar m ais à frente.

“Claro, com o você pode ver, esse plano enfrentou algum a resistência. Mas eu confio em você, Wenj ie. Quero deixar claro: até agora, a confiança depositada em você é toda m inha, pessoal. Espero que você possa continuar trabalhando m uito e conquiste a confiança de toda a organização.”

O com issário Lei colocou a m ão no om bro de Ye. Ela sentiu a sim patia e a força daquele gesto.

— Wenj ie, vou dizer o que espero que aconteça: um dia, ainda pretendo cham á-la de camarada Ye.

Lei se levantou e saiu andando com o porte confiante dos soldados. Ye sentiu os olhos se encherem de lágrim as, fazendo com que os códigos de program ação na tela parecessem cham as inconstantes. Aquela foi a prim eira vez que ela chorou desde a m orte do pai.

Conform e se acostum ava com o trabalho do Departam ento de Monitoração, Ye descobriu que ali se destacava m uito m enos do que no Departam ento de Transm issão. Seu conhecim ento em ciências da com putação estava desatualizado, e ela precisou aprender as técnicas de program ação do zero. Em bora o com issário Lei confiasse nela, Ye continuava sob restrições severas: por exem plo, tinha autorização para ver o código-fonte dos program as, m as não podia chegar nem perto da base de dados.

No dia a dia, Ye perm anecia principalm ente sob a supervisão de Yang, que passou a tratá-la de m aneira ainda m ais grosseira e ficava irritado com ela por qualquer m otivo. O com issário Lei conversou com ele sobre isso diversas vezes, em vão. Parecia que Yang era consum ido por um a ansiedade m isteriosa assim que via Ye.

Aos poucos, à m edida que foi percebendo cada vez m ais elem entos inexplicáveis no trabalho, Ye se deu conta de que o Proj eto Costa Verm elha era m uito m ais com plexo do que havia im aginado.

Certo dia, o sistem a de m onitoram ento interceptou um a transm issão que, após decodificação por com putador, revelou ser algum as fotos de satélite. As im agens desfocadas foram enviadas à Seção de Exploração e Mapeam ento do Estado-Maior, que após proceder à interpretação descobriu que eram fotos de alvos m ilitares im portantes na China, incluindo o porto naval de Qingdao e

algum as fábricas im portantes do program a Terceira Frente.3 Os analistas confirm aram que as im agens tinham origem no sistem a de reconhecim ento am ericano KH-9.

O prim eiro satélite KH-9 acabara de ser lançado. Em bora concebido sobretudo para recuperar im agens para os serviços de inteligência, o satélite tam bém estava sendo usado para testar um a técnica m ais avançada de transm issão via rádio de im agens digitais. Com o a tecnologia ainda não estava m uito desenvolvida, o satélite transm itia a um a frequência baixa, o que aum entava a faixa de recepção o bastante para que pudesse ser interceptada pela Costa Verm elha. Além disso, com o era apenas um teste, a criptografia não era m uito com plexa e podia ser decifrada com pouca dificuldade.

Sem dúvida, o KH-9 era um alvo im portante para ser m onitorado, pois representava um a oportunidade rara de obter m ais inform ações sobre os sistem as de reconhecim ento via satélite dos am ericanos. Porém , depois do terceiro dia, Yang Weining deu ordem para m udar a frequência e a direção do m onitoram ento e abandonou o alvo. Ye não conseguia entender essa decisão.

Outra situação tam bém a deixou chocada. Em bora Ye agora fizesse parte do Departam ento de Monitoração, às vezes o Departam ento de Transm issão ainda precisava de sua aj uda. Certa vez, viu sem querer os aj ustes de frequência de algum as das transm issões futuras. Descobriu que as frequências designadas para as transm issões 304, 318 e 325 estavam abaixo da faixa de m icro-ondas e não resultariam em nenhum efeito de aquecim ento no alvo.

Um dia, do nada, um oficial cham ou Ye para a sala da adm inistração central da base. Considerando o tom e a expressão do oficial, Ye percebeu que algo não estava certo.

Ao entrar na sala, a cena lhe pareceu fam iliar: todos os oficiais superiores da base estavam presentes, além de outros dois que ela não conhecia. No entanto, só de olhar ela percebeu que eles estavam acim a na hierarquia.

Todos aqueles olhares frios se viraram para Ye. Porém , graças à sensibilidade desenvolvida nos anos turbulentos, ela se deu conta de que não era a única pessoa em apuros por ali. Na pior das hipóteses, era um a coadj uvante. O com issário Lei estava sentado em um canto, com um a expressão desolada.

Ele finalmente vai pagar por ter confiado em mim, pensou ela. Na m esm a hora, Ye decidiu que faria o possível para salvá-lo: assum iria a responsabilidade por tudo e até m entiria, se fosse preciso.

Só que o com issário Lei foi o prim eiro a se m anifestar, e suas palavras revelaram algo com pletam ente inesperado.

— Ye Wenj ie, devo deixar claro desde j á que não concordo com o que está prestes a acontecer. A decisão foi tom ada pelo engenheiro-chefe Yang, após consulta a nossos superiores. Ele será o único responsável por todas as consequências.

O com issário Lei se virou para Yang, que fez um gesto solene com a cabeça.

— Para que pudéssem os aproveitar m elhor suas com petências na Base Costa Verm elha — continuou Lei —, o engenheiro-chefe Yang solicitou reiteradam ente a nossos superiores perm issão para abandonar a história de fachada e abrir o j ogo com você. Nossos cam aradas do Departam ento de Política do Exército — ele indicou os dois oficiais que Ye não conhecia — foram enviados para investigar sua situação profissional. Por fim , com a aprovação dos nossos superiores, decidim os inform á-la da verdadeira natureza do Proj eto Costa Verm elha.

Só depois de um a longa pausa foi que Ye enfim entendeu o significado das palavras do com issário Lei: ele havia m entido para ela o tem po todo.

— Espero que você valorize esta oportunidade e trabalhe m uito para redim ir seus pecados. A partir de agora, sua postura deverá ser im pecável. Qualquer com portam ento reacionário será punido com rigor! — O com issário Lei encarou Ye. Era um a pessoa com pletam ente diferente da im agem que Ye havia form ado. — Ficou claro? Ótim o. Agora o chefe Yang pode explicar.

Os outros saíram , deixando na sala apenas Yang e Ye.

— Se você não quiser, ainda dá tem po.

Ye percebeu o peso por trás dessas palavras. Enfim com preendia a ansiedade de Yang sem pre que se esbarravam nas últim as sem anas. Para que pudessem aproveitar totalm ente as com petências dela, seria necessário abrir o j ogo sobre a Costa Verm elha. No entanto, essa decisão apagaria o últim o raio de esperança de um a possível saída do pico do Radar. Se dissesse sim , Ye realm ente passaria o resto da vida na Base Costa Verm elha.

— Eu aceito.

Assim , naquela noite de com eço de verão, enquanto o vento uivava na gigantesca antena parabólica e a floresta se agitava na distante cordilheira Grande Khingan, Yang Weining explicou a Ye Wenj ie a verdadeira natureza da Costa Verm elha.

Era um conto de fadas extraordinário, ainda m ais inacreditável que as m entiras do com issário Lei.

 

1. Minicom putador chinês de dezesseies bits proj etado com base no m odelo am ericano Data General Nova.

2. Parecido com um laser, m as usado para radiação eletrom agnética, geralm ente m icro-ondas, fora do espectro da luz visível.

3. O program a Terceira Frente era um esforço m ilitar secreto de industrialização durante a Revolução Cultural, com o obj etivo de construir fábricas no interior da China, onde seriam m enos vulneráveis a ataques am ericanos e soviéticos.