O Problema dos Três Corpos

Cixin Liu · Capítulo 11 de 36

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O Problema dos Três Corpos

11. Três corpos: Mo Zi e chamas flamejantes

11. TRÊS CORPOS: MO ZI E

CHAMAS FLAMEJANTES

 

Antes de voltar para casa, Wang Miao parou em um a loj a para com prar um traj e V. Assim que chegou, sua m ulher disse que as pessoas do trabalho tinham passado o dia inteiro tentando entrar em contato com ele.

Wang ligou o celular, viu as m ensagens e retornou algum as ligações. Prom eteu que iria para o trabalho no dia seguinte. Durante o j antar, seguiu o conselho de Da Shi e bebeu um pouco m ais.

Mas não estava com sono. Depois que a esposa foi dorm ir, ele se sentou na frente do com putador, colocou o traj e V novo e entrou em Três Corpos.

Planície desolada ao nascer do sol.

Wang se encontrava diante da pirâm ide do rei Zhou. As cam adas de neve que cobriam a construção haviam desaparecido, e os blocos de pedra estavam m arcados pela erosão. O chão estava com um a cor diferente. Ao longe, havia alguns edifícios im ensos, que Wang im aginou serem desidratórios, m as tinham um a form a diferente dos que ele vira na outra vez.

Tudo indicava que haviam se passado eras inteiras.

Sob a luz fraca do am anhecer, Wang procurou um a entrada. Quando encontrou, viu que a abertura tinha sido bloqueada por blocos de pedra. No entanto, ao lado, um a escadaria escavada na pirâm ide levava até o ápice. Ele olhou para cim a e viu que o topo fora aplainado para form ar um a plataform a. A pirâm ide, que antes era de estilo egípcio, agora parecia asteca.

Wang subiu a escada e chegou ao ápice. A plataform a parecia um observatório astronôm ico da Antiguidade. Em um dos cantos, havia um telescópio com vários m etros de altura, cercado por outros telescópios m enores. Em outro canto, Wang viu alguns instrum entos estranhos que lem bravam antigas esferas arm ilares chinesas, m odelos de obj etos celestes.

Logo sua atenção foi atraída para a grande esfera de cobre no centro da plataform a. Com dois m etros de diâm etro, ela estava em cim a de um a m áquina com plexa. Movida por inúm eras engrenagens, a esfera girava lentam ente. Wang percebeu que a direção e a velocidade da rotação m udavam sem parar. Debaixo da m áquina, havia um a cavidade quadrada am pla. Com a ilum inação tênue proporcionada pelas tochas no interior, Wang viu vultos que pareciam ser de escravos girando um a roda, que fornecia energia para a m áquina do topo.

Um hom em se aproxim ou de Wang. Com o o rei Wen, o hom em estava de costas para a fresta de luz do horizonte, parecendo um par de olhos brilhantes flutuando na escuridão. Era m agro e alto, com um m anto preto esvoaçante. O cabelo estava am arrado sem m uito cuidado no topo da cabeça, deixando algum as m echas balançando ao vento.

— Oi — disse o hom em . — Meu nom e é Mo Zi.*

— Oi, eu sou Hairen.

— Ah, conheço você! — Mo Zi ficou anim ado. — Você era um seguidor do rei Wen lá na civilização núm ero 137.

— Segui o rei até aqui, sim . Mas nunca acreditei em suas teorias.

— Tem razão. — Mo Zi fez um gesto solene com a cabeça para Wang, e então se aproxim ou m ais. — Durante os trezentos e sessenta e dois anos em que você esteve ausente, a civilização renasceu m ais quatro vezes. Essas civilizações sofreram para se desenvolver ao longo da alternância irregular de Eras Caóticas e Eras Estáveis. A m ais curta só conseguiu avançar até m etade da Idade da Pedra, m as a civilização núm ero 139 bateu um recorde e progrediu até a Era Industrial.

— Quer dizer que as pessoas dessa civilização descobriram as leis que regem os m ovim entos do sol?

Mo Zi riu e balançou a cabeça.

— De j eito nenhum . Elas só deram sorte.

— Mas o esforço para desvendar esse m ovim ento nunca parou?

— É claro que não. Venha com igo, quero m ostrar os esforços da últim a civilização.

Mo Zi conduziu Wang até um dos cantos da plataform a de observação. A terra se estendia diante deles com o um velho pedaço de couro. Mo Zi apontou um dos telescópios m enores para um ponto no chão e fez um gesto para Wang, que olhou pelo visor e se deparou com algo estranho: um esqueleto. A luz do am anhecer produzia um reflexo branco com o a neve e fazia o esqueleto parecer m uito refinado.

Por incrível que pareça, o esqueleto ficava de pé por conta própria. Tinha um porte gracioso e elegante. Um a das m ãos estava sob o queixo, com o se afagasse um a barba havia m uito perdida. A cabeça estava ligeiram ente inclinada para cim a, com o se questionasse o céu e a terra.

— Aquele é Confúcio — disse Mo Zi. — Ele acreditava que tudo precisava se adequar ao li, o conceito de ordem e decência, e que nada no universo podia dispensá-lo. Ele criou um sistem a de ritos e pretendia usá-lo para prever os m ovim entos do sol.

— Já im agino o resultado.

— E tem razão. Ele calculou que o sol seguiria os ritos e previu um a Era Estável de cinco anos. E quer saber? Realm ente aconteceu um a Era Estável… que durou um m ês.

— E então, certo dia, o sol não nasceu m ais?

— Não, o sol nasceu nesse dia tam bém . Subiu até o m eio do céu e depois se apagou.

— O quê? Apagou?

— Sim . Foi dim inuindo gradualm ente, cada vez m enor, até se apagar de repente. Veio a noite. Ah, o frio. Confúcio ficou ali parado, congelou e se transform ou em um a coluna de gelo. Não se m exeu até agora.

— Restou algum a coisa no céu depois que o sol se apagou?

— Apareceu um a estrela voadora no lugar, com o um a alm a que tivesse ficado para trás após a m orte do sol.

— Quer dizer que o sol desapareceu de repente e a estrela voadora apareceu tam bém de repente? Você tem certeza?

— Sim , absoluta. Pode conferir os registros históricos. Foi docum entado com bastante clareza.

— Hm m m … — refletiu Wang. Em bora j á tivesse criado algum as hipóteses vagas sobre a m ecânica do m undo de Três Corpos, essa inform ação de Mo Zi derrubou todas as suas teorias. — Com o é que pode ser… repentino? — m urm urou ele, irritado.

— Agora estam os na dinastia Han. Não sei se é a Han Ocidental ou a Han Oriental.

— Você continuou vivo até agora?

— Tenho um a m issão: observar os m ovim entos precisos do sol. Aqueles xam ãs, m etafísicos e taoistas são todos inúteis. Assim com o os fam osos hom ens das letras, que nem sequer seriam capazes de distinguir entre tipos de grãos, eles não realizam trabalhos m anuais e não sabem de nada prático. Não têm habilidade algum a para realizar experim entos e passam o dia inteiro im ersos em seu m isticism o. Já eu sou diferente. Eu sei fazer coisas. — Ele apontou para os vários instrum entos na plataform a.

— Você acha que esses obj etos vão aj udá-lo a cum prir sua m eta? — Wang fez um gesto com a cabeça especificam ente para a enorm e esfera de cobre.

— Tam bém tenho teorias, m as não são m ísticas. Elas derivam de m uitas e m uitas observações. Em prim eiro lugar, você sabe o que o universo é? Um a m áquina.

— Isso não é m uito profundo.

— Serei m ais específico: o universo é um a esfera oca que flutua no m eio de um m ar de fogo. A superfície tem vários furos m inúsculos e um grande. A luz do m ar de cham as atravessa esses furos. Os m inúsculos são estrelas, e o grande é o sol.

— Esse m odelo é m uito interessante. — Wang olhou outra vez para a enorm e esfera de cobre e im aginou qual seria o propósito daquilo. — Mas sua teoria tem um problem a. Quando o sol nasce ou se põe, é possível ver seu m ovim ento diante de um fundo de estrelas fixas. Já em sua esfera oca, todos os furos perm anecem em posições fixas uns em relação aos outros.

— Correto! É por isso que m odifiquei m eu m odelo. A esfera universal é feita de duas esferas, um a dentro da outra. O céu que vem os é a superfície da esfera interna. A externa tem um buraco grande, e a interna tem m uitos furos pequenos. A luz que passa pelo buraco da esfera externa se reflete e dispersa várias vezes no espaço entre as duas esferas, enchendo-a de luz. Em seguida, a luz passa pelos furos m inúsculos da esfera interna, e é assim que vem os as estrelas.

— E o sol?

— O sol é a proj eção do buraco grande da esfera externa na interna. Essa proj eção é tão lum inosa que atravessa a esfera interna com o se ela fosse um a casca de ovo, e é assim que vem os o sol. Em volta do ponto de luz, os raios dispersados são tam bém m uito intensos e podem ser vistos pela casca interna. É por isso que podem os ver um céu claro durante o dia.

— Que força é essa que im pulsiona as duas esferas na m ovim entação irregular?

— É a força do m ar de fogo em volta das duas esferas.

— Mas o brilho e o tam anho do sol m udam com o tem po. Em seu m odelo de duas cascas, o tam anho e o brilho do sol deviam ser fixos. Ainda que o brilho das cham as no m ar de fogo fosse inconstante, o tam anho do buraco não seria.

— Sua concepção do m odelo é sim plista dem ais. À m edida que as condições no m ar de fogo variam , as duas cascas se expandem ou se contraem . Isso resulta na variação de tam anho e brilho do sol.

— E as estrelas voadoras?

— Estrelas voadoras? Por que você liga para isso? Elas nem são im portantes. Talvez não passem de um punhado qualquer de poeira flutuando dentro das esferas universais.

— Não, acho que as estrelas voadoras são extrem am ente im portantes. Caso contrário, com o é que seu m odelo explica o apagam ento súbito do sol durante a época de Confúcio?

— Isso foi um a exceção rara. Talvez tenha sido por causa de um ponto escuro ou em razão de um a nuvem no m ar de fogo que casualm ente passou na frente do buraco grande na casca externa.

Wang apontou para a grande esfera de cobre.

— Então este deve ser o seu m odelo.

— Sim . Construí um a m áquina para replicar o universo. As engrenagens com plexas que m ovem a esfera sim ulam as forças do m ar de fogo. As leis que regem esse m ovim ento se baseiam na distribuição das cham as e nas correntes do m ar de fogo. Deduzi tudo a partir de centenas de anos de observação.

— Essa esfera pode se contrair e se expandir?

— Claro. Neste instante, está se contraindo lentam ente.

Wang usou o corrim ão na beirada da plataform a com o referência visual fixa. Percebeu que a afirm ação de Mo Zi estava correta.

— E existe um a casca interna dentro dessa esfera?

— Claro. A casca interna se m ove dentro da externa por m eio de outro conj unto com plexo de m ecanism os.

— É m esm o um a m áquina proj etada com habilidade! — O elogio de Wang era sincero. — Só não estou vendo um buraco grande na casca externa que possa lançar a luz do sol na casca interna.

— Não tem nenhum buraco. Instalei um a fonte de luz na superfície interna da casca externa para sim ular o buraco. A fonte de luz é com posta do m aterial lum inescente acum ulado de centenas de m ilhares de vaga-lum es. Usei um a luz fria porque a casca interna é feita de gesso translúcido, que não é um condutor térm ico m uito bom . Dessa form a, evito o problem a de excesso de calor dentro da esfera, o que aconteceria com um a fonte de luz norm al. Assim , o observador pode ficar m ais tem po no interior.

— Tem um a pessoa dentro da esfera?

— Sim . Um escriba fica em cim a de um a estante com rodas na base, bem no centro da esfera. Depois que configuram os o universo-m odelo para corresponder ao estado atual do universo real, o m ovim ento do m odelo deve produzir um a sim ulação correta do futuro, incluindo os m ovim entos do sol. Quando o escriba registrar os m ovim entos solares, terem os um calendário preciso. Diante de nós está o sonho de centenas de civilizações anteriores.

“E parece que você chegou em um m om ento oportuno. De acordo com o universo-m odelo, está prestes a com eçar um a Era Estável de quatro anos. Com base na m inha previsão, o im perador Wu de Han acaba de dar a ordem de reidratar. Vam os esperar o am anhecer!”

Mo Zi abriu a interface do j ogo e aum entou ligeiram ente a passagem do tem po. Um sol verm elho se ergueu no horizonte, e os vários lagos congelados espalhados pela planície com eçaram a derreter. Antes cobertos de poeira e m isturados à terra parda, esses lagos agora pareciam vários espelhos d’água, com o se a terra tivesse aberto m uitos olhos. Ali de cim a, Wang não conseguia enxergar os detalhes da reidratação, m as dava para ver que m ais e m ais pessoas se reuniam às m argens dos lagos, com o um a infestação de form igas saindo dos form igueiros na prim avera. O m undo havia sido revivido m ais um a vez.

— Não quer fazer parte desta vida m aravilhosa? — perguntou Mo Zi, apontando para o chão abaixo deles. — Quando as m ulheres são revividas, elas desej am am ar. Já não há m otivos para você ficar m ais tem po aqui. O j ogo acabou. Eu venci.

— Com o m aquinário, seu universo-m odelo é de fato incom parável. Mas, quanto às previsões… Posso usar seu telescópio para um a observação?

— Por favor. — Mo Zi indicou o telescópio grande.

Wang foi até o instrum ento e hesitou.

— Com o eu faço para observar o sol?

Mo Zi pegou um pedaço redondo de vidro preto.

— Use este filtro de vidro escurecido. — Inseriu o obj eto no visor do telescópio.

Wang apontou o telescópio para o sol, que estava a m eio cam inho do alto do céu. Ficou im pressionado com a im aginação de Mo Zi: o sol parecia m esm o um buraco por onde se entrevia um m ar de fogo, um pequeno vislum bre de um todo m uito m aior.

Porém , ao exam inar com m ais atenção a im agem no telescópio, ele percebeu que o sol era diferente do que ele estava acostum ado a ver na vida real. Ali, o sol tinha um núcleo pequeno. Wang im aginou o sol com o um olho. O núcleo parecia a pupila do olho e, em bora pequeno, era lum inoso e denso. Em contrapartida, as cam adas ao seu redor pareciam etéreas, difusas, vaporosas. O fato de que Wang era capaz de enxergar o núcleo atrás das cam adas externas indicava que essas cam adas eram transparentes ou translúcidas, e que sua luz provavelm ente não passava da luz dispersada do núcleo.

Wang ficou chocado com os detalhes na im agem do sol. Mais um a vez, teve certeza de que os designers do j ogo haviam escondido em im agens superficialm ente sim ples um a quantidade colossal de dados, esperando que os j ogadores os revelassem .

Refletindo sobre o significado da estrutura do sol, Wang ficou em polgado. Com o o tem po do j ogo estava passando aceleradam ente, o sol j á estava se pondo. Wang se ergueu, aj ustou o telescópio para apontar para o sol de novo e acom panhou a traj etória até ele m ergulhar no horizonte.

Caiu a noite, e as fogueiras na terra eram um a reprodução do céu estrelado. Wang tirou o filtro de vidro escurecido e continuou explorando o céu. Seu m aior interesse era as estrelas voadoras, e logo encontrou duas. Só teve tem po de exam inar rapidam ente um a delas, e então o sol nasceu de novo. Ele inseriu o filtro e continuou observando…

Wang realizou observações astronôm icas dessa form a durante m ais de dez dias, desfrutando a em oção das descobertas. De fato, o tem po acelerado do j ogo aj udava as observações, j á que o m ovim ento dos corpos celestes ficava m ais perceptível.

No décim o sétim o dia da Era Estável, cinco horas após o m om ento previsto para a alvorada, o m undo continuava im erso nas trevas da noite escura. Multidões se aglom eraram diante da pirâm ide, e suas incontáveis tochas trem eluziam com o vento frio.

— O sol provavelm ente não vai nascer de novo. Está parecendo com o fim da civilização núm ero 137 — disse Wang a Mo Zi.

Mo Zi afagou a barba e deu um sorriso confiante.

— Não fique nervoso. O sol nascerá em breve, e a Era Estável continuará. Já descobri o segredo do m ovim ento da m áquina universal. Minhas previsões não podem estar erradas.

Com o se quisesse confirm ar as palavras de Mo Zi, o céu acim a do horizonte se ilum inou com os prim eiros raios da aurora. A m ultidão em volta da pirâm ide gritou de alegria.

A luz branca aum entou m uito m ais depressa do que o norm al, com o se o sol nascente quisesse com pensar o tem po perdido. Logo a luz cobria m etade do firm am ento, em bora o sol ainda estivesse abaixo do horizonte. O m undo j á estava claro com o se fosse o m eio do dia.

Wang olhou para o horizonte e viu que ele em itia um brilho ofuscante. O horizonte lum inoso se curvou para o alto e form ou um arco que se estendia de um a extrem idade à outra do cam po de visão dele. Wang logo percebeu que não estava vendo o horizonte, m as a borda do sol nascente, um sol de tam anho incom ensurável.

Quando seus olhos se acostum aram ao brilho intenso, o horizonte ressurgiu no lugar de sem pre. Wang viu colunas de fum aça negra subindo ao longe, ainda m ais nítidas diante do fundo lum inoso do disco solar. Um cavaleiro galopava depressa na direção da pirâm ide, deixando para trás o sol nascente, e a poeira levantada pelos cascos do anim al form ava um a linha perceptível na planície.

A m ultidão abriu cam inho, e Wang ouviu o cavaleiro gritar com todas as forças:

— Desidratar! Desidratar!

O cavaleiro era seguido por um a m anada de gado, cavalos e outros anim ais. O corpo deles estava pegando fogo, e avançavam pelo chão com o um tapete em cham as.

Metade do gigantesco disco solar j á havia se erguido no horizonte, ocupando grande parte do céu. A terra parecia estar se afundando aos poucos diante de um a parede de luz. Wang conseguiu ver com nitidez as estruturas sutis da superfície solar: m arés e ondas que cobriam o m ar de cham as; m anchas solares à deriva seguiam cam inhos aleatórios com o fantasm as; a coroa se estendia languidam ente, com o braços dourados.

No chão, com o se fossem inúm eras toras de lenha arrem essadas para dentro de um a fornalha, pessoas desidratadas ou não haviam com eçado a queim ar. As cham as que consum iam aquelas vidas eram ainda m ais intensas que carvão em brasa, m as logo se apagaram .

O sol gigante continuou subindo e em pouco tem po ocupou a m aior parte do céu. Wang olhou para cim a e sentiu um a m udança de perspectiva. De repente, não estava m ais olhando para cim a, e sim para baixo. A superfície do sol gigante se tornou um a terra flam ej ante, e ele sentiu com o se estivesse caindo em direção ao inferno brilhante.

Os lagos com eçaram a evaporar, e nuvens de vapor branco se ergueram com o nuvens atôm icas. Depois de subir, elas se expandiram e se dissiparam , cobrindo as cinzas dos m ortos.

— A Era Estável vai continuar. O universo é um a m áquina. Eu criei essa m áquina. A Era Estável vai continuar. O universo…

Wang virou a cabeça. Aquela voz pertencia a Mo Zi, que j á estava pegando fogo. O corpo dele estava envolto em um a alta colina flam ej ante laranj a, e sua pele enrugou e se transform ou em carvão. Ainda assim , os olhos preservaram um brilho que se distinguia do fogo que o consum ia. As m ãos, j á pedaços de carvão em cham as, ergueram a nuvem de cinzas revolutas que havia sido o calendário dele.

Wang tam bém estava pegando fogo. Ele levantou as m ãos e viu duas tochas.

O sol avançou bruscam ente para o oeste, revelando o céu atrás de si. O astro logo desceu no horizonte, e dessa vez o solo pareceu se erguer diante da parede brilhante. Um pôr do sol im pressionante se transform ou em noite, com o se um par de m ãos gigantes puxasse um véu preto sobre um m undo que havia se transform ado em cinzas.

A terra brilhou com um a lum inosidade verm elha fraca, com o um pedaço de carvão recém -tirado de um a fornalha. Por um breve instante, Wang viu as estrelas, m as logo nuvens de vapor e fum aça cobriram o céu e tudo o que havia na terra incandescente. O m undo m ergulhou em um caos profundo. Apareceu um a linha de texto verm elho:

A civilização núm ero 141 foi arruinada pelas cham as. Essa civilização havia avançado até o Período Han Oriental.

A sem ente da civilização perm anece. Ela germ inará

e voltará a desabrochar no m undo im previsível de Três Corpos.

Convidam os você a entrar novam ente.

Wang tirou o traj e V. Depois de se acalm ar um pouco, pensou m ais um a vez que Três Corpos era um a tentativa deliberada de fingir ser apenas um a ilusão, em bora na verdade possuísse algum a realidade subj acente. Em contrapartida, o m undo real diante de Wang havia com eçado a parecer com plexo na superfície, m as na verdade m uito sim ples, Qingming Shanghe Tu.

No dia seguinte, Wang foi até o Centro de Pesquisa em Nanotecnologia. Exceto por um a ligeira confusão m otivada por sua ausência no dia anterior, tudo estava norm al. O trabalho foi um calm ante eficaz para ele. Enquanto esteve absorto, Wang não se preocupou com suas inquietações perturbadoras. Ele fez questão de perm anecer ocupado o dia inteiro e só saiu do laboratório à noite.

Pouco depois de deixar o edifício do Centro de Pesquisa, Wang voltou a ser tom ando pela sensação perturbadora. Sentia que o céu estrelado era um a lupa acim a do m undo, e que ele era um inseto m inúsculo sob a lente, sem ter onde se esconder.

Wang precisava se ocupar com algum a coisa. Então pensou em Ye Wenj ie, a m ãe de Yang Dong, e foi até a casa dela.

Ye estava sozinha. Quando Wang entrou, ela estava sentada no sofá, lendo. Wang percebeu que ela era m íope e tinha vista cansada: Ye precisava trocar de óculos sem pre que lia ou tinha que olhar para algo distante. Ela ficou m uito feliz de ver Wang e disse que ele parecia m uito m elhor do que na visita anterior.

Wang deu um a risada.

— Tudo por causa de seu ginseng.

Ye balançou a cabeça.

— O que eu lhe dei não era m uito bom . A gente costum ava encontrar ginseng silvestre de excelente qualidade nas redondezas da base. Um a vez achei um deste tam anho… Com o será que aquilo está agora? Ouvi dizer que o lugar está deserto. Bom , acho que estou ficando velha m esm o. Hoj e em dia, vivo pensando no passado.

— Ouvi falar que a senhora sofreu m uito durante a Revolução Cultural.

— Foi Ruishan quem falou, não é? — Ye fez um gesto com a m ão, com o se tentasse afastar um fiapo de teia de aranha. — No passado, está tudo no passado… Ontem à noite, Ruishan m e ligou. O rapaz estava tão agitado que foi difícil entender o que estava dizendo. Só consegui com preender que havia acontecido algo com você. Xiao Wang, preste atenção: quando você chegar à m inha idade, vai perceber que tudo aquilo que parecia m uito im portante na verdade não im porta quase nada.

— Obrigado — respondeu Wang.

Mais um a vez experim entou a alegria que vinha lhe fazendo tanta falta. Na condição atual, sua estabilidade m ental dependia de dois pilares: aquela senhora idosa, que havia superado m uitas tem pestades e se tornado serena com o a água, e Shi Qiang, o hom em que não tinha m edo de nada porque não sabia de nada.

— No que diz respeito à Revolução Cultural — continuou Ye —, tive bastante sorte. Quando eu achava que não tinha m ais para onde ir, encontrei um lugar onde poderia sobreviver.

— A senhora se refere à Base Costa Verm elha?

Ye assentiu.

— Aquilo foi realm ente um proj eto incrível. Eu achava que era tudo boato.

— Boatos, não. Se você quiser, posso contar um pouco do que vivi.

A proposta deixou Wang um pouco preocupado.

— Professora Ye, não passa de curiosidade. A senhora não precisa m e contar, se não quiser.

— Não tem problem a. Vam os supor que eu estej a precisando de alguém para m e escutar.

— A senhora poderia fazer um a visita ao centro de convivência para idosos. Não se sentiria tão solitária se fosse lá de vez em quando.

— Muitos dos frequentadores eram m eus colegas na universidade, m as, por algum m otivo, não consigo m e j untar a eles. Todos gostam de relem brar o passado, m as ninguém quer escutar, e todos ficam irritados quando outra pessoa conta um a história. Você é o único que está interessado na Costa Verm elha.

— Mas m e falar dessas coisas… não é proibido?

— É verdade… ainda é confidencial. Só que depois da publicação daquele livro m uitas outras pessoas que participaram do proj eto com eçaram a contar suas histórias, então são m eio que segredos conhecidos. O hom em que escreveu aquele livro foi m uito irresponsável. Mesm o sem levar em conta as m otivações que teve, m uitos detalhes do conteúdo estavam errados. Eu devia pelo m enos corrigir esses erros.

Ye Wenj ie então com eçou a contar a Wang sobre o que aconteceu com ela durante os anos passados na Costa Verm elha.

 

* Mo Zi fundou a escola de filosofia m oísta durante o Período dos Reinos Com batentes. O próprio Mo Zi advogava pela im portância da experiência e da lógica e era tido com o um engenheiro e geôm etra talentoso.