O Problema dos Três Corpos
33. Trissolaris: Sófon
Oitenta e cinco m il horas trissolarianas (cerca de 8,6 anos terrestres) depois
O príncipe havia convocado um a reunião de em ergência com todos os cônsules de Trissolaris. Com o isso era m uito incom um , devia ter acontecido algo im portante.
A Frota Trissolariana fora lançada vinte m il horas antes. As naves sabiam a direção aproxim ada do alvo, m as não a distância. Era possível que o alvo estivesse a m ilhões de anos-luz de distância ou até m esm o do outro lado da galáxia. Diante de um oceano infinito de estrelas, a expedição não tinha m uitas expectativas.
A reunião dos cônsules aconteceu sob o Monum ento do Pêndulo. (Quando Wang Miao leu sobre esse episódio, não conseguiu deixar de pensar na sessão na sede da ONU no Três Corpos. Na realidade, o Monum ento do Pêndulo era um dos poucos obj etos do j ogo que existia de verdade em Trissolaris.)
O lugar escolhido pelo príncipe para a reunião intrigou a m aioria dos participantes. A Era Caótica ainda não havia term inado, e um sol pequeno acabava de nascer no horizonte, em bora pudesse se pôr a qualquer m om ento. Fazia frio, e todos os trissolarianos foram obrigados a usar traj es de aquecim ento elétrico por todo o corpo. O m ovim ento do pêndulo m etálico colossal era m agnífico e agitava o ar gélido. O sol pequeno produzia um a som bra com prida no chão, com o se um gigante da altura do céu estivesse cam inhando. Diante dos olhos atentos da m ultidão, o príncipe subiu à base do pêndulo e apertou um botão verm elho.
Depois, virou-se para os cônsules e disse:
— Acabei de desligar a energia do pêndulo. Ele vai parar aos poucos pela resistência do ar.
— Mas por quê, príncipe? — perguntou um cônsul.
— Todos com preendem os a im portância histórica do pêndulo. Ele foi criado para hipnotizar Deus. Mas agora sabem os que, para a civilização de Trissolaris, é m elhor que Deus estej a acordado, porque Ele nos abençoou.
Ninguém falou nada. Todo m undo refletia sobre o significado das palavras do príncipe. O pêndulo oscilou m ais três vezes.
— A Terra respondeu? — perguntou alguém .
O príncipe assentiu com a cabeça.
— Sim . Recebi a inform ação há m eia hora. Foi um a resposta ao alerta enviado.
— Tão rápido! Só se passaram oitenta m il horas depois daquilo, o que significa… o que significa…
— Significa que a Terra fica a apenas quarenta m il horas-luz daqui.
— Não é a estrela m ais próxim a de nós?
— Sim . Foi por isso que disse que Deus abençoou nossa civilização.
Os cônsules ficaram em êxtase, m as não conseguiram expressar tal sentim ento. O grupo parecia um vulcão prestes a explodir. Com o o príncipe sabia que seria perigoso perm itir que essas em oções viessem à tona, j ogou um balde de água fria neles.
— Já passei a ordem para que a Frota Trissolariana se dirij a para essa estrela. Mas a situação não é tão boa quanto vocês im aginam . Considerando o que j á sabem os, neste m om ento a frota está se dirigindo para a m orte certa.
Os cônsules se acalm aram .
— Alguém com preende m inha conclusão?
— Sim — disse o cônsul científico. — Todos nós estudam os com cuidado as prim eiras m ensagens da Terra. A parte m ais digna de atenção se refere à história dessa civilização. Vam os aos fatos: os seres hum anos levaram m ais de cem m il anos terrestres para evoluir da Era de Caça e Coleta para a Era Agrícola. Para ir da Era Agrícola para a Industrial, levaram alguns m ilhares de anos. Agora, para ir da Era Industrial para a Atôm ica, só levaram duzentos anos terrestres. Depois, em apenas algum as décadas terrestres, entraram na Era da Inform ação. Essa civilização possui um a capacidade assustadora de acelerar o próprio progresso.
“Em Trissolaris, em m ais de duzentas civilizações, incluindo a atual, nenhum a j am ais apresentou um desenvolvim ento acelerado desses. O progresso da ciência e da tecnologia em todas as civilizações trissolarianas sem pre seguiu um ritm o constante ou de desaceleração. Em nosso m undo, cada era tecnológica exige aproxim adam ente o m esm o período para um desenvolvim ento lento e constante.”
O príncipe assentiu.
— Daqui a quatro m ilhões e quinhentas m il horas, quando a Frota Trissolariana tiver chegado à Terra, o nível tecnológico daquela civilização terá superado em m uito o nosso, em virtude desse desenvolvim ento acelerado. Esse é o fato. A j ornada da Frota Trissolariana é longa e árdua, e a frota precisará passar por dois cinturões de poeira interestelar. É m uito provável que apenas m etade das naves chegue ao sistem a solar da Terra, e as outras perecerão no cam inho. E aí, a Frota Trissolariana estará à m ercê de um a civilização terrestre m uito m ais poderosa. Isso não é um a expedição, e sim um cortej o fúnebre!
— Mas, príncipe, se isso for verdade, as consequências são ainda m ais assustadoras… — disse o cônsul m ilitar.
— Sim . É fácil de im aginar. A localização de Trissolaris foi revelada. A fim de elim inar am eaças futuras, um a frota interestelar da Terra lançará um contra-ataque. É m uito possível que, bem antes de nosso planeta ser engolido por um a expansão solar, a civilização trissolariana j á tenha sido extinta pelos hum anos.
De repente, o futuro lum inoso se transform ou em um a sina terrivelm ente som bria. Os presentes se calaram .
— O que devem os fazer agora — disse o príncipe — é conter o avanço da ciência na Terra. Felizm ente, assim que recebem os as prim eiras m ensagens, com eçam os a planej ar isso. Agora, descobrim os um a condição favorável para colocar esses planos em ação. A resposta que acabam os de receber foi enviada por um a traidora da Terra. Por isso, tem os m otivos para acreditar que existem m uitas forças alienadas em m eio à civilização terrestre e devem os explorar ao m áxim o essa oportunidade.
— Príncipe, isso não é m uito fácil. Nossos m eios de com unicação com a Terra são ínfim os. Leva m ais de oitenta m il horas para um a troca de m ensagens.
— Mas lem brem que, assim com o aconteceu conosco, o conhecim ento de que existem civilizações extraterrestres provocará um choque em toda a sociedade terrestre e deixará m arcas profundas. Tem os m otivos para acreditar que as forças alienadas na civilização terrestre vão se unir e crescer.
— O que elas podem fazer? Sabotagem ?
— Considerando o intervalo de quarenta m il horas, qualquer tática tradicional de guerra ou de terrorism o tem valor estratégico irrisório, e eles podem se recuperar. Para conter m esm o o desenvolvim ento da civilização e desarm á-la por m uito tem po, só há um j eito: m atar a ciência na Terra.
— O plano é enfatizar os efeitos am bientais negativos do desenvolvim ento científico e dem onstrar indícios de um poder sobrenatural para a população da Terra — disse o cônsul científico. — Além de destacar os efeitos negativos do progresso, tam bém tentarem os usar um a série de “m ilagres” para produzir um universo ilusório que não possa ser explicado pela lógica da ciência. Quando essas ilusões perdurarem por algum tem po, existe um a possibilidade de que a civilização trissolariana passe a ser alvo de adoração religiosa por lá. Assim , a m entalidade contrária à ciência vai dom inar o pensam ento dos intelectuais da Terra, levando ao colapso de todo o sistem a de pensam ento científico.
— Com o podem os criar esses m ilagres?
— Para um m ilagre dar certo, ele não pode ser desvendado. Esse é o segredo. Isso pode exigir o envio de algum as tecnologias trissolarianas m uito superiores ao nível atual da hum anidade para as forças alienadas da Terra.
— Isso é m uito arriscado! Com o saber onde essas tecnologias vão acabar parando? É brincar com o perigo.
— Claro, ainda é preciso um a análise m elhor e m ais específica de quais tecnologias serão transferidas para a produção dos m ilagres…
— Por favor, espere um pouco, cônsul científico — disse o cônsul m ilitar, levantando-se. — Príncipe, sou da opinião de que esse plano será quase inútil para im pedir o progresso da ciência hum ana.
— Mas é m elhor do que nada — defendeu o cônsul científico.
— Não m uito — respondeu o cônsul m ilitar, com desdém .
— Concordo com seu ponto de vista — disse o príncipe. — Esse plano causará apenas um a ligeira interferência no desenvolvim ento científico da hum anidade. Precisam os de um fator decisivo que sufoque com pletam ente a ciência na Terra e a paralise no nível atual. Vam os considerar o elem ento-chave aqui: o desenvolvim ento tecnológico geral depende do avanço da ciência de base, e a essência da ciência de base é a exploração da estrutura elem entar da m atéria. Se não houver avanços nessa área, será im possível qualquer evolução da ciência e da tecnologia com o um todo. Claro, isso não vale som ente para a civilização da Terra, m as para todos os alvos que Trissolaris pretende conquistar. Já havíam os com eçado a trabalhar nisso antes m esm o de receber a prim eira com unicação extratrissolariana. Mas redobram os os esforços recentem ente.
“Agora, olhem todos para cim a. O que é aquilo?”
O príncipe apontou para o céu. Os cônsules levantaram a cabeça para olhar e viram no espaço um anel que em itia um brilho m etálico com a luz do sol.
— Aquele é o dique para a construção da segunda frota espacial?
— Não. É um grande acelerador de partículas ainda em desenvolvim ento. Os planos para a construção da segunda frota espacial foram abortados. Todos os recursos foram transferidos para o proj eto Sófon.
— Proj eto Sófon?
— Sim . Mantivem os esse plano em segredo da m aioria dos aqui presentes. Agora peço que o cônsul científico faça um a apresentação.
— Eu sabia desse plano, m as não im aginava que havia avançado tanto — disse o cônsul industrial.
— Eu tam bém sabia, m as achei que parecia um conto de fadas — disse o cônsul da Cultura e Educação.
— O proj eto Sófon, basicam ente — disse o cônsul científico —, visa
transform ar um próton em um com putador superinteligente.*
— Quase todos nós j á ouvim os falar nessa fantasia científica — disse o cônsul da Agricultura. — Mas é algo realizável? Eu sei que os físicos j á são capazes de m anipular nove das onze dim ensões da escala m icro, m as ainda não fazem os ideia de com o seria possível enfiar pinças em um próton e construir circuitos integrados de larga escala.
— É claro que isso é im possível. A criação de m icrocircuitos integrados só pode ser feita em escala m acro, e apenas em um plano m acroscópico bidim ensional. Por isso, precisam os abrir um próton em duas dim ensões.
— Abrir um a estrutura de nove dim ensões em duas? De que tam anho vai ser essa área?
—Muito grande, com o vocês verão.
O cônsul científico sorriu.
Passaram -se m ais sessenta m il horas trissolarianas. Vinte m il horas depois do fim da construção do gigantesco acelerador de partículas no espaço, a abertura do próton em duas dim ensões estava prestes a com eçar em órbita síncrona com Trissolaris.
Era um dia bonito e agradável de um a Era Estável. O céu estava particularm ente lim po. Com o no dia em que a frota havia zarpado oitenta m il horas antes, toda a população de Trissolaris olhou para o céu e ficou observando aquele anel gigantesco. O príncipe e todos os cônsules voltaram a se reunir sob o Monum ento do Pêndulo. Já fazia m uito tem po que o pêndulo tinha parado de se m over, e o peso parecia um a pedra sólida entre as duas colunas altas. Para quem olhava, era difícil acreditar que aquilo j á havia oscilado.
O cônsul científico deu a ordem de abrir em duas dim ensões. No espaço, três cubos voaram em volta do anel — os geradores de fusão que forneciam energia ao acelerador. Aos poucos, os dissipadores de calor em form a de asas com eçaram a brilhar com um a ligeira luz averm elhada. A m ultidão ansiosa encarava o acelerador, m as não parecia estar acontecendo nada.
Um décim o de hora trissolariana depois, o cônsul científico levou o fone ao ouvido e aguardou atentam ente.
— Príncipe — disse ele enfim —, infelizm ente a abertura não deu certo. Reduzim os um a dim ensão a m ais, e o próton se tornou unidim ensional.
— Unidim ensional? Um a linha?
— Sim . Um a linha infinitam ente fina. Na teoria, deve ter cerca de m il e quinhentas horas-luz de com prim ento.
— Investim os os recursos destinados a outra frota espacial só para obter um resultado desses? — questionou o cônsul m ilitar.
— Em experim entos científicos, percalços são norm ais. Leva algum tem po para superar os obstáculos. Além do m ais, esta é a prim eira vez que tentam os realizar um a abertura.
A m ultidão se dispersou desanim ada, m as o experim ento não term inou. De início, im aginou-se que o próton unidim ensional perm aneceria em órbita síncrona com Trissolaris para sem pre, m as, por conta da fricção dos ventos solares, pedaços da corda caíram na atm osfera. Seis horas trissolarianas depois, quem olhasse para o céu perceberia luzes estranhas no ar, fiapos translúcidos que sum iam e apareciam do nada. Logo os trissolarianos descobriram que isso era o próton unidim ensional, descendo até o chão em função da gravidade. Em bora a corda fosse infinitam ente fina, ela produzia um cam po que ainda era capaz de refletir luz visível. Foi a prim eira vez que os trissolarianos viram m atéria não form ada por átom os — os fiapos sedosos eram apenas pequenos fragm entos de um próton.
— Essas coisas são m uito irritantes. — O príncipe passou a m ão na frente do rosto várias vezes. Ele e o cônsul científico estavam na escadaria larga do Centro de Governo. — Meu rosto não para de coçar.
— Príncipe, essa sensação é totalm ente psicológica. Som adas, todas as cordas têm a m assa de um único próton, então é im possível que tenham qualquer efeito no m undo m acroscópico. São inofensivas. É com o se nem existissem .
Mas os fragm entos que caíram do céu foram ficando cada vez m ais num erosos e densos. Perto do solo, o ar estava cheio de lam pej os m inúsculos. O sol e as estrelas pareciam cercados por halos prateados. As cordas se enrolavam em quem saía para um a área aberta e, quando os trissolarianos andavam , arrastavam as luzes consigo. Quando os trissolarianos voltavam para algum lugar fechado, o reflexo das cordas revelava desenhos nas correntes de ar deslocado. Em bora a corda unidim ensional só pudesse ser vista com luz e não fosse sentida, as pessoas com eçaram a se incom odar.
A torrente de cordas unidim ensionais se estendeu por m ais de vinte horas trissolarianas, até enfim acabar, m as não porque todos os fragm entos tivessem caído no chão. Em bora absurdam ente pequena, ainda assim a m assa existia, então a aceleração pela gravidade era a m esm a de qualquer m atéria norm al. No entanto, ao chegar à atm osfera, esses fragm entos eram com pletam ente dom inados pelas correntes de ar e não caíam no chão. Após se abrir em um a dim ensão, a força nuclear forte no interior do próton ficou m uito atenuada, o que enfraqueceu a corda. Aos poucos, ela se desfez em pedaços m inúsculos, e a luz refletida deixou de ser visível. Os trissolarianos acharam que ela havia desaparecido, m as pedaços da corda unidim ensional continuariam flutuando no ar de Trissolaris para sem pre.
Cinquenta horas trissolarianas depois, foi iniciada a segunda tentativa de abrir um próton em duas dim ensões. Em pouco tem po, a m ultidão no solo viu algo estranho. Quando os dissipadores de calor dos geradores de fusão com eçaram a ficar verm elhos, apareceram vários obj etos colossais perto do acelerador. Todos tinham form as geom étricas regulares sólidas: esferas, tetraedros, cubos, cones etc. Em bora sua superfície tivesse um a coloração com plexa, um a observação m ais detida dem onstrou que, na verdade, eles eram incolores. A superfície dos obj etos geom étricos era com pletam ente reflexiva, e o que os trissolarianos viam era apenas o reflexo distorcido da superfície de seu planeta.
— Conseguim os? — perguntou o príncipe. — Aquilo é o próton aberto em duas dim ensões?
— Príncipe, é um novo fracasso — respondeu o cônsul científico. — Acabo de ser inform ado pelo centro de controle do acelerador. A abertura preservou um a dim ensão a m ais, e o próton foi aberto em três dim ensões.
Os sólidos geom étricos reflexivos continuaram aparecendo em grande núm ero, e as form as foram ficando cada vez m ais variadas. Havia toroides, cruzes sólidas e até algo que parecia um a fita de Möbius. Todos os obj etos geom étricos se afastaram do acelerador. Cerca de m eia hora depois, m ais da m etade do céu estava tom ado por eles, com o se um a criança gigante tivesse esvaziado um a caixa de blocos de brinquedo no firm am ento. Com a luz lançada pelas superfícies reflexivas, a lum inosidade que atingia o solo duplicou, m as a intensidade variava constantem ente. A som bra do pêndulo gigante piscava e oscilava sem parar.
Depois, todas as form as geom étricas com eçaram a se deform ar. Aos poucos, foram perdendo o form ato regular, com o se estivessem derretendo com o calor. A deform ação se acelerou, e as m assas resultantes ficaram m ais e m ais com plexas. Os obj etos j á não lem bravam blocos de m ontar, e sim vísceras e m em bros decepados. Com o os form atos não eram m ais regulares, a luz refletida para o solo ficou m ais fraca, m as as cores das superfícies passaram a ser ainda m ais estranhas e im previsíveis.
Nessa confusão de obj etos tridim ensionais, alguns cham aram a atenção dos trissolarianos no solo. À prim eira vista, apenas porque os obj etos se pareciam m uito. Mas, ao reparar um pouco m elhor, todos reconheceram do que se tratava, e um a onda de pânico se espalhou por Trissolaris.
Eram olhos! [Evidentem ente, não sabem os com o são os olhos dos trissolarianos, m as com certeza qualquer vida inteligente é m uito sensível à representação de olhos.]
O príncipe foi um dos poucos que continuou calm o.
— Quão com plicada é a estrutura interna de um a partícula subatôm ica? — perguntou ele ao cônsul científico.
— Depende da quantidade de dim ensões da perspectiva de observação. Por um a perspectiva unidim ensional, a partícula é só um ponto… para pessoas com uns, isso é o que as partículas são. Por um a perspectiva bi ou tridim ensional, a partícula com eça a apresentar um a estrutura interna. Por um a perspectiva quadridim ensional, um a partícula elem entar é um m undo im enso.
— Usar um a palavra com o “im enso” para descrever um a partícula subatôm ica com o um próton m e parece estranho — disse o príncipe.
O cônsul científico ignorou o príncipe e continuou:
— À m edida que vam os avançando para dim ensões superiores, a com plexidade e a quantidade de estruturas em um a partícula aum entam drasticam ente. As com parações que vou fazer não são m uito precisas, m as devem dar um a ideia da escala. A com plexidade de um a partícula vista por um a perspectiva heptadim ensional é equiparável ao nosso sistem a estelar de Trissolaris tridim ensional. Por um a perspectiva octodim ensional, um a partícula é um a presença tão vasta quanto a Via Láctea. Quando a perspectiva se eleva a nove dim ensões, as estruturas e a com plexidade internas da partícula são com paráveis ao universo inteiro. Quanto às dim ensões ainda m ais altas, com o nossos físicos ainda não conseguiram explorá-las, não tem os com o fazer ideia do nível de com plexidade.
O príncipe apontou para os olhos gigantes no espaço.
— Aquilo indica que o m icrocosm o contido no próton aberto possui vida inteligente?
— Nossa definição de “vida” provavelm ente não se aplica ao m icrocosm o pluridim ensional. Na realidade, só podem os dizer que esse universo contém inteligência ou sabedoria. Os cientistas j á previram essa possibilidade há m uito tem po. Seria estranho se um m undo tão com plexo e vasto não tivesse desenvolvido algum a form a de inteligência.
— Por que eles se transform aram em olhos para nos observar? — O príncipe fitou os olhos no espaço, estranhas esculturas, belas e vívidas, todas encarando o m undo.
— Talvez eles só queiram m ostrar presença.
— Algum perigo de caírem aqui?
— Nenhum . Pode ficar tranquilo, príncipe. Mesm o se eles caíssem , a m assa total daquelas estruturas enorm es é de apenas um próton. Assim com o a corda unidim ensional da outra vez, eles não terão efeito algum em nosso m undo. Os trissolarianos só vão ter que se acostum ar com a estranha paisagem .
Só que dessa vez o cônsul científico estava enganado.
Os trissolarianos perceberam que o m ovim ento dos olhos era m ais rápido que o das outras form as sólidas no céu, e eles estavam se j untando em um só lugar. Pouco depois, dois olhos se encontraram e se fundiram em um m aior. Cada vez m ais olhos se j untaram a esse olho m aior, e o volum e cresceu. Por fim , todos os olhos se fundiram em um só, tão im enso que parecia representar o olhar do universo voltado para Trissolaris. A íris era nítida e clara, e no centro se via a im agem de um sol. Na superfície larga do globo ocular, um a variedade de cores se alternava sem parar. Logo os detalhes do olho gigante perderam definição e acabaram sum indo, até a form a parecer um olho cego sem pupila. Em seguida, ele com eçou a se deform ar até perder a form a de olho e se tornar um círculo perfeito. Quando o círculo com eçou a girar, os trissolarianos perceberam que não era plano, e sim parabólico, com o se fosse um pedaço de um a esfera gigante.
Enquanto observava o obj eto colossal girando lentam ente no espaço, o cônsul m ilitar entendeu de repente e gritou:
— Príncipe e todos os outros, por favor, entrem no abrigo subterrâneo agora m esm o. — Ele apontou para cim a. — Aquilo é…
— Um espelho parabólico — disse o príncipe, calm o. — Deem ordem para que as forças de defesa espacial destruam aquilo agora m esm o. Ficarem os bem aqui.
O espelho parabólico apontou os raios do sol para a superfície de Trissolaris. A princípio, a área ilum inada era m uito grande, e o calor no ponto focal não era letal. A área se deslocou pelo solo, em busca do alvo, até o espelho descobrir a capital, a m aior cidade de Trissolaris, e com eçar a deslocar a luz até ela. Pouco depois, os raios estavam sobre a cidade.
Os trissolarianos que estavam no Monum ento do Pêndulo só viram um a grande lum inosidade no espaço, banhando tudo e trazendo um a onda de calor extrem o. A área ilum inada na capital dim inuiu conform e o espelho parabólico concentrava a luz. O brilho do espaço foi ficando cada vez m ais forte, até o ponto de ninguém m ais conseguir levantar a cabeça, e os trissolarianos que estavam na área ilum inada sentiram a tem peratura aum entar depressa. Quando o calor estava ficando insuportável, a m argem da área ilum inada passou pelo Monum ento do Pêndulo, e tudo se escureceu um pouco. Levou um tem po até os olhos dos trissolarianos se acostum arem à clareza norm al.
Quando todos olharam para cim a, a prim eira im agem que viram foi a de um pilar de luz entre o céu e a terra, da form a de um cone invertido. O espelho no espaço era a base do cone, e a ponta estava cravada no centro da capital, deixando tudo incandescente. Ondas de fum aça com eçaram a subir. Tornados causados pela diferença de calor do cone de luz form aram várias outras colunas de poeira que iam até o céu, rodopiando e dançando em volta do cone de luz…
Várias bolas de fogo reluzentes apareceram em diversos pontos do espelho, um a cor azulada que se distinguia da luz refletida. Eram ogivas nucleares lançadas pelo corpo de defesa espacial de Trissolaris. Com o as explosões estavam acontecendo acim a da atm osfera, não fizeram nenhum barulho. Quando as bolas de fogo desapareceram , havia vários buracos enorm es no espelho, e então toda a superfície com eçou a rachar e se despedaçar, até se quebrar em dezenas de pedaços.
O cone de luz m ortal sum iu e o m undo voltou à ilum inação norm al. Por um instante, o céu estava escuro com o em um a noite sem luar. Os pedaços quebrados do espelho, agora sem inteligência, continuaram se deform ando e logo ficaram indistinguíveis dos dem ais obj etos geom étricos no espaço.
— O que vai acontecer no próxim o experim ento? — O príncipe falou com o cônsul científico em um tom de voz m ordaz. — Você vai abrir um próton em quatro dim ensões?
— Príncipe, m esm o se isso acontecesse, não haveria m otivos para preocupação. Um próton aberto em quatro dim ensões será m uito m enor. Se o corpo de defesa espacial está preparado para atacar a proj eção no espaço tridim ensional, tam bém está no espaço quadridim ensional.
— Você está enganando o príncipe! — disse o cônsul m ilitar, furioso. — Você não falou do m aior perigo. E se o próton acabar sendo aberto em zero dim ensões?
— Zero dim ensões? — O príncipe ficou interessado. — Isso não seria um ponto sem tam anho?
— Sim , um a singularidade! Até um próton seria infinitam ente grande em com paração a isso. A m assa inteira do próton estará contida nessa singularidade, e a densidade será infinita. Príncipe, com certeza o senhor im agina o que isso seria.
— Um buraco negro?
— Sim .
— Príncipe, gostaria de explicar — intercedeu o cônsul científico. — O m otivo por que escolhem os um próton para abrir em duas dim ensões, e não um nêutron, foi j ustam ente para evitar esse tipo de risco. Se acabássem os m esm o abrindo em zero dim ensões, a carga do próton tam bém iria para o buraco negro aberto. Assim , poderíam os capturá-lo e controlá-lo com eletrom agnetism o.
— E se você não conseguir encontrá-lo ou controlá-lo? — perguntou o cônsul m ilitar. — Ele poderia cair no solo, absorver tudo o que encontrar e aum entar de m assa. Depois, ele desceria até o núcleo deste planeta e acabaria por absorver toda Trissolaris.
— Isso nunca vai acontecer. Eu garanto! Por que você sem pre dificulta a m inha vida? Com o eu disse, isto é um experim ento científico…
— Já chega! — disse o príncipe. — Qual é a probabilidade de sucesso da próxim a tentativa?
— Quase cem por cento! Príncipe, por favor, acredite em m im . Com esses dois insucessos, j á conseguim os dom inar os princípios da m ecânica de abertura de estruturas subatôm icas em um espaço m acro bidim ensional.
— Muito bem . Para perm itir a sobrevivência da civilização trissolariana, precisam os correr o risco.
— Obrigado!
— Mas, se você fracassar de novo, você e todos os cientistas que trabalham no proj eto Sófon serão culpados.
— Sim , claro, todos culpados. — Se os trissolarianos fossem capazes de transpirar, o cônsul científico devia estar encharcado de suor.
Foi m uito m ais fácil rem over os resquícios tridim ensionais do próton aberto em órbita síncrona do que tinha sido rem over a corda unidim ensional. Naves pequenas conseguiram afastar os pedaços do próton para longe de Trissolaris e evitar que eles entrassem na atm osfera. Os obj etos, alguns do tam anho de um a m ontanha, não tinham quase nada de m assa. Pareciam ilusões prateadas im ensas: até um bebê teria conseguido em purrá-los com facilidade.
Depois, o príncipe perguntou ao cônsul científico:
— Nós destruím os um a civilização no m icrocosm o deste experim ento?
— Era no m ínim o um corpo inteligente. Por sinal, príncipe, destruím os o m icrocosm o inteiro. Aquele universo em m iniatura é im enso em dim ensões superiores e provavelm ente continha m ais de um a inteligência ou civilização que nunca teve a chance de se expressar no espaço m acro. É claro que, em um espaço de dim ensões superiores nessas escalas m icros, as civilizações ou inteligências podem assum ir form as inconcebíveis para nós. É absolutam ente im pressionante. E é m uito provável que destruições com o essa j á tenham acontecido m uitas vezes antes.
— Com o assim ?
— Na longa história do progresso científico, quantos prótons j á foram arrebentados pelos físicos nos aceleradores? Quantos nêutrons e elétrons? Possivelm ente não m enos de cem m ilhões. É provável que cada colisão tenha sido o fim das civilizações e inteligências que habitavam um m icrocosm o. Na verdade, até m esm o na natureza, a cada segundo universos devem estar sendo destruídos, com o por exem plo com o decaim ento dos nêutrons. Além disso, um raio cósm ico de alta energia que entra na atm osfera pode destruir m ilhares de universos em m iniatura… O senhor não está se sentindo m al por causa disso, não é?
— Não m e faça rir. Inform arei agora m esm o o cônsul de Propaganda e darei instruções para que divulgue repetidam ente esse fato científico para o m undo. Os trissolarianos precisam entender que a destruição de civilizações é um acontecim ento com um que ocorre a cada segundo de cada hora.
— Por quê? O senhor desej a incentivar o povo a encarar a possível destruição de Trissolaris com tranquilidade?
— Claro que não. Para incentivar os trissolarianos a encarar a destruição da Terra com tranquilidade. Você sabe tão bem quanto eu que, assim que nossa política em relação à civilização terrestre for divulgada, haverá um a onda extrem am ente perigosa de pacifism o. Acabam os de descobrir que existem m uitos trissolarianos com o o ouvinte do Posto 1379. Precisam os controlar e elim inar esse sentim ento de fraqueza.
— Príncipe, isso é acim a de tudo o resultado das m ensagens recentes que recebem os da Terra. Sua previsão se confirm ou: as forças alienadas na Terra estão m esm o crescendo. Eles construíram o novo sistem a de transm issão sobre o qual têm pleno controle e com eçaram a nos enviar grandes quantidades de inform ações sobre sua civilização na Terra. Devo adm itir que a civilização deles exerce um a grande atração em Trissolaris. Para nosso povo, parece um a m úsica sagrada do paraíso. O hum anism o da Terra vai conduzir m uitos trissolarianos pelo cam inho errado. Assim com o a civilização trissolariana j á se tornou um a religião na Terra, a da Terra tam bém tem o m esm o potencial em Trissolaris.
— Você apontou um grande perigo. Controlarem os com rigor as inform ações que vêm da Terra e chegam para a população, sobretudo inform ações culturais.
A terceira tentativa de abrir um próton em duas dim ensões com eçou trinta horas trissolarianas depois. Dessa vez, foi à noite. Não dava para ver o anel do acelerador no espaço a partir do solo — a posição dele só era indicada pelo brilho verm elho dos dissipadores de calor dos reatores de fusão. Pouco depois de o acelerador com eçar a operar, o cônsul científico anunciou o sucesso.
Os trissolarianos olharam para o céu noturno e, a princípio, não viram nada. Mas logo apareceu um a im agem m ilagrosa: os céus se dividiram em duas partes. A posição das estrelas em cada um a das partes não batia, com o se alguém tivesse colocado um a fotografia pequena do céu em cim a de outra m aior. A Via Láctea parecia quebrada na linha entre os dois céus. A parte m enor do firm am ento estrelado era circular e se expandiu depressa diante do céu noturno norm al.
— Aquela constelação ali é do hem isfério sul! — disse o cônsul da Cultura e Educação, apontando para o trecho redondo cada vez m aior do céu.
Enquanto os trissolarianos exercitavam a im aginação para entender com o as estrelas que só podiam ser vistas do outro lado do planeta estavam aparecendo superpostas ao céu do hem isfério norte, aconteceu um cenário ainda m ais incrível: na borda do segm ento expansivo do céu noturno do hem isfério sul surgiu um pedaço de um globo gigantesco. Tinha um tom am arronzado e estava se revelando aos poucos, tira a tira, com o se fosse um a tela com um a taxa de atualização m uito lenta. Todos reconheceram o globo: era possível ver o contorno nítido dos continentes fam iliares. Quando ficou com pleto, o globo ocupou um terço do céu. Mais detalhes ficaram claros: rugas de cordilheiras m ontanhosas estendidas por continentes am arronzados, um a cobertura esparsa de nuvens distribuída pelos continentes com o se fosse neve…
— É o nosso planeta! — gritou alguém , enfim .
Sim , havia aparecido outra Trissolaris no céu.
Depois, o céu clareou. Ao lado da segunda Trissolaris no espaço, o círculo expansivo do céu noturno do hem isfério sul revelou outro sol. Nitidam ente, era o m esm o sol que estava ilum inando aquele hem isfério, m as parecia ter a m etade do tam anho.
Finalm ente, alguém entendeu:
— É um espelho.
O espelho im enso que apareceu acim a de Trissolaris era o próton aberto, um plano geom étrico sem nenhum a profundidade significativa.
Quando o processo de abertura term inou, o céu inteiro foi substituído pelo reflexo do céu noturno do hem isfério sul. No m eio do espelho, o céu estava dom inado pelo reflexo de Trissolaris e do sol. E então o céu com eçou a se deform ar perto do horizonte em todas as direções, e as estrelas refletidas se esticaram e retorceram com o se estivessem derretendo. A deform ação com eçou nas bordas do espelho, m as com eçou a se dirigir para o centro.
— Príncipe, o plano de próton está sendo deform ado pela gravidade do planeta — disse o cônsul científico. Ele indicou os vários pontos de luz no céu estrelado: era com o se os trissolarianos estivessem apontando lanternas para a redom a. — Aquilo são raios eletrom agnéticos lançados do solo para aj ustar a curvatura do plano contra a gravidade. A ideia é envolver toda Trissolaris com o próton aberto. Depois, os raios eletrom agnéticos vão continuar m antendo e estabilizando essa esfera im ensa, com o se fossem m uitas escoras. Desse m odo, Trissolaris se transform ará em um andaim e para firm ar o próton bidim ensional, e com eçará o trabalho de gravar os circuitos eletrônicos na superfície do plano de próton.
Levou m uito tem po para envolver toda Trissolaris com o plano de próton bidim ensional. Quando a deform ação do reflexo chegou à im agem de Trissolaris no zênite do plano, todas as estrelas j á haviam desaparecido, pois o plano de próton estava encurvado do outro lado do planeta e as escondia totalm ente. Ainda se infiltrava um pouco de luz do sol para dentro do plano curvo, e a im agem distorcida de Trissolaris nessa casa de espelhos espacial estava irreconhecível. Mas, por fim , quando o últim o raio de luz do sol foi bloqueado, Trissolaris m ergulhou na noite m ais escura de todos os tem pos. Quando a gravidade e os raios eletrom agnéticos se equilibraram , o plano de próton se transform ou em um a casca gigantesca em órbita síncrona com Trissolaris.
Seguiu-se um frio intenso. A superfície com pletam ente reflexiva do plano de próton lançava toda a luz do sol de volta para o espaço. A tem peratura em Trissolaris teve um a queda brusca, chegando a um nível com parável à ocorrência sim ultânea de três estrelas voadoras, que fora a ruína de m uitos ciclos de civilização no passado. A m aioria da população trissolariana se desidratou e foi arm azenada. Um silêncio sepulcral cobriu grande parte da superfície enegrecida. No céu, a única luz vinha dos pontos lum inosos fracos dos raios que sustentavam a m em brana de próton. De vez em quando, alguns outros pontos m inúsculos de luz m ais forte apareciam em órbita: as naves espaciais que estavam gravando os circuitos na m em brana gigantesca.
Os princípios que regiam circuitos integrados em m icroescala eram com pletam ente diferentes dos de circuitos convencionais, j á que a base não era com posta de átom os, e sim da m atéria de um único próton. As “j unções PN” dos circuitos eram feitas pela m anipulação local da força nuclear forte na superfície do plano de próton, e as linhas condutoras eram m ésons que transm itiam força nuclear. Com o a área da superfície era extrem am ente grande, os circuitos tam bém eram m uito grandes. As linhas do circuito eram largas com o fios de cabelo, e um observador que se aproxim asse o bastante conseguiria percebê-las a olho nu. Vista de perto, a m em brana de próton parecia um plano vasto com posto de circuitos integrados com plexos e detalhados. A área total coberta pelos circuitos era dezenas de vezes m aior do que a área dos continentes de Trissolaris.
A gravação dos circuitos no próton era um feito de engenharia colossal, e m ilhares de naves espaciais trabalharam durante m ais de quinze m il horas trissolarianas para concluí-la. O processo de depuração do software levou outras cinco m il horas. Mas enfim chegou o m om ento de testar o sófon pela prim eira vez.
A tela grande no centro de controle do sófon, localizado no subterrâneo do planeta, exibiu o progresso da longa sequência de autoteste. Depois, chegou o m om ento de carregar o sistem a operacional. Por fim , a tela azul vazia exibiu um a linha de texto em fonte grande: Microinteligência 2.10 carregada. Sófon Um pronto para aceitar comandos.
— Nasceu um sófon — disse o cônsul científico. — Dotam os um próton de sabedoria. Esta é a m enor inteligência artificial que podem os criar.
— Só que, por enquanto, parece a m aior inteligência artificial — disse o príncipe.
— Assim que aum entarm os a dim ensionalidade do próton, ela vai ficar m uito pequena.
O cônsul científico digitou um com ando no term inal:
>Sófon Um , os controles de dim ensionalidade espacial estão operacionais?
Afirm ativo. Sófon Um é capaz de iniciar aj ustes de dim ensionalidade espacial a qualquer m om ento. >Aj ustar dim ensionalidade para três.
Quando esse com ando foi inserido, a m em brana bidim ensional do próton que tinha envolvido Trissolaris com eçou a encolher rapidam ente, com o se a m ão de um gigante estivesse puxando um a cortina de cim a do m undo. A luz do sol recaiu sobre o planeta em um instante. O próton se fechou de duas para três dim ensões e se transform ou em um a esfera descom unal em órbita síncrona, m ais ou m enos do m esm o tam anho da lua gigante. O sófon estava acim a do lado escuro do planeta, m as sua superfície espelhada refletia a luz do sol e transform ava a noite em dia. Com o a superfície de Trissolaris ainda estava extrem am ente fria, os trissolarianos no centro de controle só puderam observar as m udanças por um a tela.
Dim ensionalidade aj ustada com sucesso. Sófon Um está pronto para aceitar com andos.
>Aj ustar dim ensionalidade para quatro.
No espaço, a esfera descom unal encolheu até parecer ter o tam anho de um a estrela voadora. A noite voltou a cobrir aquele lado do planeta.
— Príncipe, a esfera que estam os vendo não é o sófon com pleto. É apenas a proj eção do corpo do sófon em um espaço tridim ensional. Na realidade, em um espaço quadridim ensional, ele é um gigante e nosso m undo parece um a folha de papel fina tridim ensional. O gigante está de pé em cim a dessa folha, só que nós enxergam os apenas o rastro do ponto em que os pés encostam no papel.
Dim ensionalidade aj ustada com sucesso. Sófon Um está pronto para aceitar com andos.
>Aj ustar dim ensionalidade para seis.
A esfera no céu desapareceu.
— Qual é o tam anho de um próton hexadim ensional? — perguntou o príncipe.
— Cerca de cinquenta centím etros de raio — disse o cônsul científico.
Dim ensionalidade aj ustada com sucesso. Sófon Um está pronto para aceitar com andos.
>Sófon Um , você consegue nos ver?
Sim . Vej o o centro de controle, todo m undo dentro dele, os órgãos dentro de cada um , e até os órgãos dentro dos órgãos.
— O que é isso que ele está dizendo? — perguntou o príncipe, confuso.
— Um sófon que observa três dim ensões a partir de um espaço hexadim ensional é sem elhante a um trissolariano que olha para um plano bidim ensional. É claro que ele consegue enxergar dentro de nós.
>Sófon Um , entre no centro de com ando.
— Ele é capaz de atravessar o solo? — perguntou o príncipe.
— Ele não vai “atravessar” exatam ente. Na verdade, vai entrar a partir de um a dim ensão superior. O sófon é capaz de entrar em qualquer espaço fechado de nosso m undo. Mais um a vez, é um a situação sim ilar à m aneira com o nós, seres tridim ensionais, nos relacionam os com um plano bidim ensional. Poderíam os entrar com tranquilidade em qualquer círculo traçado nesse plano: é só passar por cim a. Mas nenhum a criatura bidim ensional nesse plano conseguiria entrar sem rom per o círculo.
Assim que o cônsul científico term inou de falar, um a esfera espelhada apareceu no m eio do centro de controle e ficou flutuando no ar. O príncipe se aproxim ou e olhou para o próprio reflexo distorcido.
— Isso é um próton? — perguntou ele, adm irado.
— Isso é o corpo hexadim ensional do próton proj etado no espaço tridim ensional.
O príncipe estendeu um a das m ãos. Com o o cônsul científico não se opôs, ele tocou a superfície do sófon. Sem fazer quase nenhum a força, o sófon foi em purrado a um a distância considerável.
— É m uito liso. Em bora só tenha a m assa de um próton, senti algum a resistência na m ão — disse o príncipe, intrigado.
— Isso se deve à resistência do ar na superfície da esfera.
— Você consegue aum entar a dim ensionalidade para onze e deixá-lo do tam anho de um próton com um ?
Assim que o príncipe term inou de falar, o cônsul científico gritou para o sófon, e sua voz tinha um tom de m edo.
— Atenção! Isto não é um com ando!
Sófon Um entende.
— Príncipe, se aum entássem os a dim ensionalidade para onze, perderíam os a criação para sem pre. Quando o sófon encolhe até o tam anho de um a partícula subatôm ica norm al, os sensores internos e as portas de entrada e saída ficam m enores do que o com prim ento de onda eletrom agnética. Logo, ele não seria capaz de sentir o m undo da escala m acro e não conseguiria receber nossos com andos.
— Mas em algum m om ento terem os que fazer esse sófon encolher até voltar a ser um a partícula subatôm ica.
— É verdade. Mas, para isso, precisarem os esperar a conclusão de Sófon Dois, Sófon Três e Sófon Quatro. Um a quantidade plural de sófons deve ser capaz de form ar um sistem a que possa sentir o m undo da escala m acro por m eio de efeitos quânticos. Por exem plo, digam os que um núcleo possui dois prótons. Os dois vão interagir e m anter determ inados padrões de m ovim ento. Digam os o spin: talvez o spin de cada próton precise ter um sentido oposto ao do outro. Quando esses dois prótons são retirados do núcleo, por m ais que se afastem , o padrão vai se m anter. Com base nesse efeito, quando os dois prótons são convertidos em sófons, vão criar um sistem a de sensibilidade m útua. Um a quantidade m aior de sófons então pode com por um a form ação de sensibilidade m útua. A escala dessa form ação pode ser aj ustada para qualquer tam anho e, então, receber ondas eletrom agnéticas para sentir o m undo em escala m acro em qualquer frequência. Obviam ente, os verdadeiros efeitos quânticos necessários para criar um a form ação de sófons com o essa são m uito com plexos. Minha explicação é só um a analogia.
A abertura dos outros três prótons em duas dim ensões deu certo de prim eira, e a construção de cada sófon tam bém levou m etade do tem po de Sófon Um . Quando Sófon Dois, Sófon Três e Sófon Quatro foram concluídos, a form ação sensível quântica tam bém foi criada com sucesso.
O príncipe e todos os cônsules voltaram a se reunir no Monum ento do Pêndulo. Os quatro sófons pairavam acim a deles, todos encolhidos em um espaço hexadim ensional. A superfície espelhada cristalina de cada um exibia um a im agem do sol nascente, um a visão que lem brava os olhos tridim ensionais que haviam aparecido no espaço.
>Form ação de sófons, aj ustar dim ensionalidade para onze.
Quando o com ando foi inserido, as quatro esferas espelhadas desapareceram .
— Príncipe — disse o cônsul científico —, agora Sófon Um e Sófon Dois serão lançados na direção da Terra. A partir da grande base de conhecim ento arm azenada nos m icrocircuitos, os sófons com preendem a natureza do espaço. São capazes de extrair energia do vácuo, se tornar partículas de alta energia em um instante e navegar pelo espaço quase na velocidade da luz. Em bora isso possa parecer violar a lei de conservação de energia, na realidade os sófons só estão pegando “em prestada” a energia da estrutura do vácuo. Porém , a hora de devolver essa energia está m uito distante, quando o próton decair. Mas o fim do universo não vai ser m uito depois disso.
“Quando os dois sófons chegarem à Terra, a prim eira m issão será localizar os aceleradores de partículas de alta energia usados pelos hum anos que fazem pesquisas em física e se esconder dentro desses dispositivos. Pelo nível de desenvolvim ento científico da Terra, o m étodo básico de exploração da estrutura profunda da m atéria é acelerar partículas de alta energia e fazê-las colidir com outras partículas. Quando essas partículas são destruídas, os habitantes da Terra analisam os resultados para tentar descobrir inform ações que dem onstrem a estrutura profunda da m atéria. Nos experim entos feitos, eles usam a substância que contém as partículas a serem colididas com o alvo para os proj éteis acelerados.
“Mas o interior da substância atingida é um vácuo quase total. Digam os que um átom o tenha o tam anho de um teatro: o núcleo seria um a noz pairando no m eio do teatro. Assim , é m uito raro acontecer um a colisão. Por isso, os habitantes da Terra costum am lançar um a grande quantidade de partículas contra o alvo durante algum tem po para que essa colisão se produza. Esse tipo de experim ento não é diferente de se procurar em um a tem pestade um a gota que sej a de um a cor ligeiram ente diferente.
“Isso perm ite que os sófons interfiram . Eles podem assum ir o lugar da partícula-alvo e aceitar a colisão. E, com o são extrem am ente inteligentes, podem determ inar com m uita rapidez e precisão, por m eio da form ação sensível quântica, as traj etórias que as partículas aceleradas vão seguir e se deslocar para o lugar certo. Desse m odo, a probabilidade de que um sófon sej a atingido é bilhões de vezes m aior do que um a partícula-alvo de verdade. Quando o sófon for atingido, apresentará resultados errados ou caóticos. Assim , m esm o se a partícula-alvo for atingida em algum m om ento, os físicos da Terra não conseguirão distinguir o resultado correto dos vários incorretos.”
— Isso tam bém não destruiria o sófon? — perguntou o cônsul m ilitar.
— Não. Quando um sófon é despedaçado, são gerados vários sófons novos. E todos continuarão suj eitos ao entrelaçam ento quântico entre si, da m esm a form a que obtem os dois ím ãs se quebrarm os um m aior ao m eio. Cada sófon parcial terá um a capacidade m uito m enor do que o sófon original inteiro, m as o software de autorrecuperação fará com que os pedaços se reaproxim em e form em outra vez o sófon original. Esse processo só leva um m icrossegundo e vai ocorrer após a colisão no acelerador, e depois que os pedaços do sófon registrarem os resultados errados na câm ara de bolhas ou no film e sensível.
— Seria possível que os cientistas da Terra descobrissem um j eito de detectar os sófons e usar um cam po m agnético forte para aprisioná-los? — perguntou alguém . — Os prótons têm carga positiva.
— É im possível. Para detectar os sófons, os seres hum anos precisariam realizar grandes avanços no estudo da estrutura profunda da m atéria. Porém , todos os aceleradores de alta energia deles vão se transform ar em m ontes de sucata. Com o eles conseguirão realizar qualquer avanço nessa área? A presa j á terá cegado os olhos do caçador.
— Os hum anos ainda poderão apelar para um m étodo de força bruta — com entou o cônsul industrial. — Eles podem construir um a grande quantidade de aceleradores a um ritm o m ais rápido do que a nossa capacidade de construir sófons. Assim , pelo m enos alguns aceleradores da Terra ficarão livres dos sófons e poderão apresentar resultados corretos.
— Esse é um dos aspectos m ais interessantes do proj eto Sófon! — O cônsul científico ficou visivelm ente anim ado com a observação. — Senhor cônsul industrial, não se preocupe com o perigo de a construção de m uitos sófons produzir o colapso da econom ia trissolariana. Não precisarem os recorrer a isso. Pode ser que façam os m ais alguns, m as não m uitos. Na verdade, esses dois j á são m ais do que o suficiente, porque cada sófon é m ultitarefa.
— Multitarefa?
— É um term o relacionado aos antigos com putadores de série. Antigam ente, a unidade central de processam ento de um com putador só conseguia realizar um a instrução de cada vez. Mas, com o isso acontecia de m aneira m uito rápida e auxiliada por escalonam ento de processos, do ponto de vista de nossa perspectiva de baixa velocidade, parecia que o com putador estava executando m uitos program as ao m esm o tem po. Com o vocês sabem , os sófons se m ovim entam quase à velocidade da luz. A superfície da Terra é um espaço ínfim o para eles. Se os sófons ficarem patrulhando em volta dos aceleradores da Terra nessa velocidade, para os hum anos será com o se eles existissem ao m esm o tem po em todos os aceleradores, e será possível criar de m odo quase sim ultâneo resultados errados em todos os experim entos.
“Pelos nossos cálculos, cada sófon é capaz de controlar m ais de dez m il aceleradores de alta energia. Os hum anos levam cerca de quatro a cinco anos para construir cada um desses aparelhos, e não parece provável que esses dispositivos possam ser produzidos em m assa com base na econom ia e nos recursos disponíveis da Terra. Claro, eles poderiam aum entar a distância entre os aceleradores, construindo em outros planetas do sistem a deles, o que destruiria a operação m ultitarefa dos sófons. Mas, no tem po que eles levariam para conseguir isso, tam bém não seria difícil para nós em Trissolaris construirm os pelo m enos dez sófons.
“Um a quantidade cada vez m aior de sófons vai circular por aquele sistem a planetário. A m assa total deles não vai chegar nem perto de um bilionésim o da m assa de um a bactéria, m as ainda assim eles vão fazer com que os físicos da Terra j am ais sej am capazes de vislum brar os segredos ocultos nas profundezas da estrutura da m atéria. Os hum anos nunca conseguirão acessar as dim ensões da escala m icro, e sua capacidade de m anipular a m atéria perm anecerá lim itada a m enos de cinco dim ensões. A partir de agora, sej a daqui a quatro m ilhões e m eio ou quatrocentos e cinquenta trilhões de horas, a tecnologia da civilização terrestre j am ais realizará esse avanço fundam ental. Ela ficará estagnada para sem pre no estágio prim itivo. A ciência da Terra foi com pletam ente paralisada, e as am arras são tão fortes que os hum anos serão incapazes de se libertar por conta própria.”
— Isso é m aravilhoso! Por favor, perdoe m eu desrespeito anterior pelo proj eto Sófon — disse o cônsul m ilitar, com sinceridade.
— Na verdade, atualm ente existem apenas três aceleradores com potência suficiente para produzir possíveis avanços. Quando Sófon Um e Sófon Dois chegarem à Terra, terão m uita capacidade ociosa. Para aproveitarm os plenam ente os sófons, vam os aplicá-los em outras tarefas além da interferência nesses três aceleradores. Por exem plo, eles serão o principal m eio de executar o plano Milagre.
— Os sófons conseguem produzir m ilagres?
— Para os hum anos, sim . Todo m undo sabe que partículas de alta energia podem causar exposição em film es sensíveis. Essa é um a das m aneiras pelas quais os aceleradores prim itivos da Terra revelavam partículas individuais. Quando um sófon passa pelo film e em alta energia, produz um ponto exposto m inúsculo. Se o sófon passar várias vezes pelo film e, poderá ligar os pontos e form ar letras, núm eros ou até m esm o im agens, com o se fosse um bordado. O processo é m uito rápido, bem m ais do que a velocidade com que os hum anos expõem film e ao tirar fotos. Além do m ais, a retina hum ana é sem elhante à trissolariana. Portanto, um sófon de alta energia tam bém pode usar a m esm a técnica para exibir letras, núm eros e im agens na retina deles… E, se esses pequenos m ilagres conseguirem confundir e apavorar os hum anos, o próxim o grande m ilagre será suficiente para m atar de m edo os cientistas da Terra, que são m eros insetos: os sófons conseguem fazer com que a radiação cósm ica de fundo brilhe nos olhos deles.
— Isso seria m uito assustador até para nossos cientistas. Com o farão isso?
— Muito sim ples. Já criam os o software que perm ite que um sófon se abra em duas dim ensões. Quando o processo de abertura acaba, o plano im enso pode envolver a Terra inteira. O software tam bém consegue deixar a m em brana transparente, m as essa transparência pode ser aj ustada nas frequências da radiação cósm ica de fundo em m icro-ondas… E, claro, os sófons são capazes de exibir “m ilagres” ainda m ais m aravilhosos quando se abrem e fecham em várias dim ensões. Ainda estam os desenvolvendo o software para esses casos, m as o desnorteam ento que esses “m ilagres” vão criar será o suficiente para desorientar a ciência hum ana. Assim , podem os usar o plano Milagre para lim itar as iniciativas científicas terrestres de outras áreas além da física.
— Só m ais um a pergunta: por que não m andam os todos os quatro sófons construídos para a Terra?
— O entrelaçam ento quântico funciona à distância. Mesm o se quatro sófons fossem dispostos em cantos opostos do universo, ainda conseguiram sentir uns aos outros de m aneira instantânea, e a form ação quântica entre eles continuaria existindo. Se m antiverm os Sófon Três e Sófon Quatro aqui, poderem os receber no m esm o instante as inform ações enviadas por Sófon Um e Sófon Dois e, assim , m onitorar a Terra em tem po real. Além do m ais, a form ação de sófons perm ite um a com unicação instantânea entre Trissolaris e as forças alienadas da civilização terrestre.
Sem que ninguém se desse conta, o sol que havia acabado de nascer sum iu no horizonte. Era o com eço de m ais um a Era Caótica em Trissolaris.
Enquanto Ye Wenj ie lia as m ensagens de Trissolaris, o Centro de Com ando em Batalha conduzia outra im portante reunião para analisar m ais a fundo os dados capturados.
— Cam aradas — disse o general Chang antes do encontro —, por favor, saibam que nossa reunião provavelm ente está sendo acom panhada pelos sófons. A partir de agora, não haverá m ais nenhum segredo.
O am biente não m udou quando ele falou isso. As som bras das árvores dançavam para além das cortinas abertas, m as, aos olhos dos presentes, o m undo j á não era m ais o m esm o. Todos sentiam a força de olhos onipresentes, e era im possível se esconder deles. Essa sensação os perseguiria para sem pre, e seus descendentes tam bém estariam suj eitos a ela. Os seres hum anos levariam m uitos e m uitos anos para se acostum ar à situação.
Três segundos depois de o general Chang falar, Trissolaris se com unicou com a hum anidade pela prim eira vez fora da OTT, e todo contato com os adventistas foi encerrado definitivam ente em seguida. Pelo resto da vida das pessoas ali presentes, Trissolaris nunca m ais enviaria nenhum a m ensagem .
Todos no Centro de Com ando em Batalha viram a m ensagem nos próprios olhos, tal com o a contagem regressiva de Wang Miao. A m ensagem piscou por apenas dois segundos e desapareceu, m as todo m undo entendeu. Era um a única frase:
Vocês são insetos!
* Existe um trocadilho entre a palavra chinesa para próton, zhizi (MN), e a palavra para sófon, zhizi (LN).