O Problema dos Três Corpos

Cixin Liu · Capítulo 9 de 36

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O Problema dos Três Corpos

9. O universo pisca

 

Wang Miao tom ou a estrada Jingm i até chegar ao distrito de Miy un. Dali, seguiu para Heilongtan, subiu a m ontanha por um a estrada sinuosa e chegou ao observatório de radioastronom ia do Centro Astronôm ico Nacional da Academ ia Chinesa de Ciências. Ele viu um a fileira de vinte e oito antenas parabólicas, todas com nove m etros de diâm etro: parecia um a fileira de espetaculares plantas de aço. No final, havia dois radiotelescópios altos, com cinquenta m etros de diâm etro, construídos em 2006. Conform e Wang se aproxim ava, veio à sua m ente o fundo do retrato de Ye com a filha.

No entanto, o trabalho de Sha Ruishan, o aluno de Ye, não tinha nada a ver com aqueles radiotelescópios. O laboratório do dr. Sha ficava encarregado sobretudo de receber os dados transm itidos por três satélites: o Cobe (Cosm ic Background Explorer, ou Explorador da Radiação Cósm ica de Fundo), lançado em 1989 e prestes a ser desativado; o WMAP (Wilkinson Microwave Anisotropy Probe, ou Sonda de Anisotropia em Micro-Ondas Wilkinson); e o Planck, o observatório espacial lançado pela Agência Espacial Europeia em 2009.

A radiação cósm ica de fundo em m icro-ondas correspondia m uito precisam ente a um espectro térm ico de corpo negro de 2,7255 K de tem peratura e era m uito isotrópica — ou sej a, praticam ente uniform e em todas as direções —, com flutuações m ínim as da ordem de m ilionésim os de grau. O trabalho de Sha Ruishan era criar um m apa m ais detalhado da radiação cósm ica de fundo em m icro-ondas a partir de dados observacionais.

O laboratório não era m uito grande. Os equipam entos que recebiam os dados estavam entulhados na sala de com putadores principal, e três term inais exibiam as inform ações enviadas pelos três satélites.

Sha ficou anim ado ao ver Wang. Nitidam ente entediado com o longo isolam ento e feliz por receber visitas, ele perguntou que tipo de dados Wang queria ver.

— Quero ver a flutuação geral da radiação cósm ica de fundo em m icro-ondas.

— Você poderia… ser m ais específico?

— Quer dizer… quero ver a flutuação isotrópica na radiação cósm ica de fundo geral em m icro-ondas, entre um e cinco por cento — disse ele, repetindo a m ensagem do e-m ail de Shen.

Sha sorriu. Desde a virada do século, o Observatório de Radioastronom ia de Miy un passara a receber turistas. Para aum entar um pouco a renda, Sha costum ava fazer o papel de guia turístico ou dar palestras. Aquele sorriso era o m esm o que distribuía aos turistas, pois j á estava acostum ado à im pressionante ignorância científica deles.

— Professor Wang, im agino que você não sej a um especialista do ram o, correto?

— Eu trabalho com nanotecnologia.

— Ah, faz sentido. Mas você deve ter algum conhecim ento elem entar sobre a radiação cósm ica de fundo em m icro-ondas, certo?

— Não m uito. Sei que, à m edida que o universo esfriava depois do Big Bang, as “brasas” rem anescentes se tornaram a radiação cósm ica de fundo em m icro-ondas. Essa radiação preenche todo o universo e pode ser observada na faixa de centím etros de com prim entos de onda. Acho que foi nos anos 1960 que dois am ericanos descobriram a radiação por acaso, quando estavam testando um a antena receptora supersensível de sinais via satélite…

— Isso j á é m ais do que suficiente — interrom peu Sha, fazendo um gesto com a m ão. — Então você deve saber que, ao contrário das variações locais que observam os em diversas partes do universo, a flutuação geral da radiação cósm ica de fundo em m icro-ondas possui um a correlação com a expansão do universo. É um a m udança m uito lenta, m edida na escala da idade do universo. Mesm o com a sensibilidade do satélite Planck, um a observação constante ao longo de um m ilhão de anos poderia não detectar nenhuma variação. Mas você quer ver um a variação de cinco por cento hoj e? Sabe o que isso significaria? O universo piscaria com o se fosse um a lâm pada fluorescente que estivesse prestes a queim ar!

E ele vai piscar para mim, pensou Wang.

— Deve ser um a brincadeira da professora Ye — disse Sha.

— Nada m e deixaria m ais feliz do que descobrir que não passa de um a brincadeira — respondeu Wang. Ele estava a ponto de dizer para Sha que Ye não sabia os detalhes do inusitado pedido, m as tinha m edo de que Sha resolvesse não aj udá-lo se com entasse.

— Bom , j á que a professora Ye m e pediu para aj udá-lo, vam os fazer a observação. Não tem problem a. Se você só quer um a precisão de um por cento, os dados do velho Cobe bastam . — Enquanto falava, Sha digitou rapidam ente no term inal. Logo depois, apareceu um a linha verde na tela. — Esta curva é a m edição em tem po real da radiação cósm ica de fundo em m icro-ondas geral. Ah, seria m ais correto cham ar de linha reta. A tem peratura é de 2,725±0,002 K. A m argem de erro se deve ao efeito Doppler resultante do deslocam ento da Via Láctea, e j á foi com pensada. Se acontecer o tipo de variação que você está esperando, de m ais de um por cento, esta linha vai ficar verm elha e se transform ar em onda. Mas eu aposto que ela vai continuar um a linha verde reta até o fim do m undo. Se você quiser vê-la apresentar um tipo de flutuação observável a olho nu, talvez tenha que esperar até m uito depois da m orte do nosso Sol.

— Não estou interferindo em seu trabalho, não é?

— Não. Com o você quer um a precisão m uito baixa, podem os usar só alguns dados básicos do Cobe. Certo, está tudo pronto. A partir de agora, se um a flutuação grande com o essa acontecer, os dados serão gravados autom aticam ente no disco rígido.

— Acho que deve acontecer por volta de um a da m anhã.

— Uau, quanta precisão! Não tem problem a, j á que estou com o turno da noite m esm o. Você j á j antou? Ótim o, então vou fazer um tour com você.

Era um a noite sem luar. Os dois cam inharam ao longo da fileira de antenas, e Sha apontou para elas.

— É de tirar o fôlego, não? Pena que todas elas são com o os ouvidos de um surdo.

— Por quê?

— Desde que a construção term inou, as faixas de observação têm sofrido interferência constante. Prim eiro foram as torres de transm issão de pagers nos anos 1980. Agora é a correria para desenvolver redes m óveis de com unicação e torres de transm issão para celulares. Estes telescópios são capazes de realizar m uitas tarefas científicas, com o explorar o céu, detectar fontes variáveis de rádio, observar os resquícios de supernovas, m as não tem os com o fazer a m aioria dessas ações. Já reclam am os várias vezes para a Com issão Reguladora Estatal de Rádio, porém nunca adiantou nada. Com o é que vam os conseguir m ais atenção do que a China Mobile, a China Unicom , a China Netcom ? Sem dinheiro, os segredos do universo não valem m erda nenhum a. Pelo m enos m eu proj eto só depende de dados de satélite e não tem nada a ver com estas “atrações turísticas”.

— Nos últim os anos, o financiam ento de proj etos de pesquisa básica tem tido um sucesso razoável, com o na área da física de alta energia. Não seria m elhor construir os observatórios em lugares m ais afastados das cidades?

— No fim é tudo um a questão de dinheiro. Agora, nossa única opção é descobrir m aneiras técnicas de bloquear interferências. Bom , seria m uito m elhor se a professora Ye estivesse aqui. Ela teve m uito êxito nessa área.

E assim , com o o assunto da conversa passou a ser Ye Wenj ie, Wang finalm ente soube da vida dela a partir de seu ex-aluno. Ficou sabendo que ela havia presenciado a m orte do próprio pai durante a Revolução Cultural, que fora acusada inj ustam ente no Corpo de Produção e Construção e depois m eio que desapareceu até voltar a Beij ing no com eço dos anos 1990, quando passou a ensinar astrofísica na Universidade Tsinghua, onde o pai tinha sido professor, até se aposentar.

— Só recentem ente foi revelado que ela havia passado m ais de vinte anos na Base Costa Verm elha.

Wang ficou chocado.

— Quer dizer que aqueles boatos…

— A m aioria era verdade. Um dos pesquisadores que desenvolveu o sistem a de decodificação do Proj eto Costa Verm elha em igrou para a Europa e escreveu um livro no ano passado. Essa obra deu origem a grande parte dos boatos que estão circulando. Muitas pessoas que participaram da Costa Verm elha ainda estão vivas.

— Isso é… um a lenda fantástica.

— Ainda m ais por ter acontecido naqueles anos… absolutam ente incrível.

Eles continuaram conversando por um tem po. Sha perguntou sobre o propósito por trás do inusitado pedido de Wang. Com o ele evitou um a resposta clara, Sha não insistiu. A dignidade de especialista na área não perm itia que Sha m ostrasse m uito interesse por um pedido que ia claram ente contra seus conhecim entos profissionais.

Depois, eles foram a um bar para turistas e passaram duas horas lá. Sha bebia um a cervej a atrás da outra, e sua língua foi se soltando cada vez m ais. Já Wang foi ficando ansioso e não parava de pensar naquela linha verde no laboratório. Só às dez para um a da m anhã, Sha cedeu aos apelos constantes de Wang para que os dois voltassem .

Os holofotes que antes ilum inavam a fileira de antenas haviam sido desligados, e as antenas passaram a form ar um a im agem bidim ensional sim ples diante do céu noturno, com o se fossem um a série de sím bolos abstratos. Todas encaravam o céu no m esm o ângulo, com o se estivessem esperando algo, ansiosas. Wang estrem eceu ao vê-las, apesar do agradável calor da noite prim averil: a im agem trazia lem branças dos pêndulos gigantes de Três Corpos.

Eles chegaram ao laboratório à um a em ponto. Quando olharam o term inal, a flutuação tinha acabado de com eçar. A linha reta virou um a onda, e a distância entre duas cristas era inconstante. Ela ficou verm elha, com o um a cobra que despertava da hibernação, agitando-se à m edida que a pele voltava a se encher de sangue.

— Deve ser um defeito no Cobe!

Sha encarava apavorado a linha ondulada.

— Não é um defeito. — O tom de Wang era extrem am ente calm o. Ele havia aprendido a se controlar diante daquele tipo de situação.

— Saberem os logo — respondeu Sha, que foi até os outros dois term inais e digitou rapidam ente, reunindo os dados obtidos pelos satélites WMAP e Planck.

Três ondas passaram a se m over em sintonia nos três term inais, com pletam ente idênticas.

Sha pegou e ligou um laptop às pressas. Conectou um cabo de rede e apanhou o telefone. Pelo que Wang conseguiu ouvir da conversa, percebeu que Sha estava tentando entrar em contato com o observatório radioastronôm ico de Ürüm qi. Ele não explicou para Wang o que estava fazendo, m antendo os olhos fixos na j anela do navegador do laptop. Wang reparou que a respiração dele estava acelerada.

Alguns m inutos depois, um a onda verm elha apareceu na j anela do navegador, m exendo no m esm o ritm o das outras três.

Os três satélites e o observatório em solo confirm aram um m esm o fato: o universo estava piscando.

— Você pode im prim ir essa onda? — perguntou Wang.

Sha lim pou o suor frio da testa e assentiu com a cabeça. Mexeu o m ouse e clicou em IMPRIMIR. Wang pegou a prim eira folha assim que ela saiu da im pressora a laser e, com um lápis, com eçou a com parar a distância entre as cristas com a tabela de código Morse que tirou do bolso.

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Isso é 1108:21:37, pensou Wang.

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Isso é 1108:21:36.

A contagem regressiva continuava na escala do universo. Já haviam se passado 92 horas, e só restavam 1108 horas.

Nervoso, Sha andava de um lado para o outro, parando de vez em quando para olhar a sequência de núm eros que Wang anotava.

— Você não pode m e explicar o que está acontecendo? — gritou.

— Não sou capaz de explicar para você, dr. Sha. Acredite. — Wang afastou a pilha de papéis preenchidos com as ondas. Olhando a sequência de núm eros, disse: — Talvez os três satélites e o observatório estej am com defeito.

— Você sabe que isso é im possível.

— E se tiver sido sabotagem ?

— Tam bém im possível! Alterar sim ultaneam ente os dados de três satélites e de um observatório na Terra? Você está sugerindo um sabotador sobrenatural.

Wang assentiu com a cabeça. Na com paração com a ideia de que o universo estava piscando, ele teria preferido um sabotador sobrenatural. Só que então Sha destruiu aquele últim o raio de esperança.

— É fácil de confirm ar. Se a radiação cósm ica de fundo em m icro-ondas está flutuando tanto assim , podem os verificar com os próprios olhos.

— Com o assim ? O com prim ento de onda da radiação cósm ica de fundo é de sete centím etros. São cinco ordens de m agnitude abaixo do com prim ento da luz visível. Com o é que poderíam os ver isso?

— Com óculos 3K.

— Óculos 3K?

— Isso. É um brinquedo científico que criam os para o Planetário Capital. Com o nível atual da tecnologia, conseguim os fazer dos óculos um a m iniatura da antena corneta de seis m etros, utilizada por Penzias e Wilson há quase m eio século para descobrir a radiação cósm ica de fundo em m icro-ondas. Depois, acrescentam os um conversor para com prim ir em até cinco ordens de m agnitude a radiação detectada, de m odo a transform ar as ondas de sete centím etros em um a luz verm elha visível. Assim , os visitantes podem colocar os óculos à noite e observar pessoalm ente a radiação cósm ica de fundo. E agora, podem os usá-los para ver o universo piscar.

— Onde eu encontro esses óculos?

— No Planetário Capital. Criam os m ais de vinte unidades.

— Preciso arrum ar um antes das cinco.

Sha pegou o telefone. Depois de vários toques, alguém atendeu do outro lado da linha. Sha precisou de m uita energia para convencer a pessoa que tinha acordado no m eio da noite a ir até o planetário e esperar a chegada de Wang dali a um a hora.

— Não vou com você — disse ele, quando Wang estava de saída. — Já vi o suficiente e não preciso de m ais confirm ação. Apesar disso, espero que você m e explique a verdade quando achar que for a hora certa. Se esse fenôm eno levar a algum resultado científico, não m e esquecerei de você.

Wang abriu a porta do carro.

— A flutuação vai parar às cinco da m anhã. Sugiro que você não procure m ais depois. Acredite, não vai levar a lugar nenhum .

Sha encarou Wang por um bom tem po e assentiu.

— Entendo. Ultim am ente vêm acontecendo coisas estranhas com cientistas…

— Sim .

Wang entrou no carro. Não queria falar m ais do assunto.

— É a nossa vez?

— É a m inha vez, pelo m enos.

Wang deu partida no m otor.

Um a hora depois, Wang chegou ao novo planetário e saiu do carro. As luzes claras da cidade atravessavam as paredes translúcidas do im enso edifício de vidro e revelavam um vislum bre da estrutura interna. Wang pensou que se a intenção do arquiteto tinha sido expressar um sentim ento a respeito do universo, o proj eto era um sucesso: quanto m ais algo fosse transparente, m ais m isterioso parecia. O próprio universo era transparente: alguém com um olhar aguçado o bastante podia ver tão longe quanto quisesse. Porém , quanto m ais longe via, m ais m isterioso o universo ficava.

O funcionário sonolento do planetário estava esperando Wang na porta. Ele lhe entregou um a valise pequena e disse:

— Aí dentro tem cinco óculos 3K, todos com a bateria cheia. O botão esquerdo é para ligar. O sintonizador da direita é para aj ustar o brilho. Tenho m ais uns doze óculos lá em cim a. Pode olhar à vontade, m as agora vou tirar um cochilo ali naquela sala. Esse dr. Sha deve estar m aluco.

Ele entrou no planetário escurecido.

Wang abriu a valise no banco traseiro do carro e pegou um dos óculos 3K. Parecia a tela de dentro do capacete com visor panorâm ico do traj e V. Wang colocou os óculos no rosto e olhou para a cidade, que parecia igual, só m enos ilum inada. Então ele lem brou que precisava ligar os óculos.

A cidade se transform ou em um a m ultidão de auréolas de brilho difuso. A m aioria era fixa, m as algum as piscavam ou se m exiam . Wang percebeu que estas eram fontes de radiação na faixa centim étrica, todas convertidas para a luz visível. No centro de cada auréola havia um a fonte de radiação. Com o os com prim entos originais das ondas eram m uito longos, era im possível ver direito o form ato delas.

Wang levantou a cabeça e viu um céu brilhando com um a luz verm elha suave. De repente, estava enxergando a radiação cósm ica de fundo em m icro-ondas.

A luz verm elha tinha se originado havia m ais de dez bilhões de anos. Era o resquício do Big Bang, a brasa ainda quente da criação. Wang não conseguia enxergar nenhum a estrela. Em um a situação norm al, com o a luz visível estaria com prim ida pelos óculos até ficar invisível, cada estrela deveria aparecer com o um ponto preto. Mas a difração da onda de radiação centim étrica abafava quaisquer form as e detalhes.

Quando seus olhos se acostum aram à luz, Wang percebeu que o verm elho suave estava m esm o pulsando. O céu inteiro piscava, com o se o universo não passasse de um a lam parina trêm ula ao vento.

Sob a redom a cintilante do céu noturno, Wang teve a sensação repentina de que o universo encolhia até ficar tão pequeno que aprisionava apenas ele. O universo era um coração contraído, e a luz verm elha que inundava tudo era o sangue translúcido que enchia o órgão. Suspenso no sangue, Wang constatou que a cintilação da luz verm elha não era periódica — a pulsação era irregular. Ele sentiu um a presença estranha, perversa e im ensa, que j am ais poderia ser com preendida pelo intelecto hum ano.

Wang tirou os óculos e foi abaixando até sentar no chão, recostado na roda do carro. A noite da cidade recuperou lentam ente a realidade da luz visível, m as os olhos dele ficaram explorando, tentando capturar outras cenas. Havia um conj unto de lâm padas neon j unto à entrada do zoológico do outro lado da rua. Um a das lâm padas estava prestes a queim ar e piscava de m odo irregular. Ali perto, as folhas de um a árvore pequena trem ulavam com a brisa noturna, brilhando sem lógica ao refletir as luzes da rua. Ao longe, no topo do pináculo em estilo russo do Centro de Exposições de Beij ing, a estrela verm elha refletia a luz dos carros que passavam abaixo do edifício, tam bém piscando de m aneira aleatória…

Ele tentou interpretar as cintilações com o se fossem código Morse. Chegou a ter a sensação de que as dobras das bandeiras que trem ulavam ali perto e os círculos concêntricos na poça da rua talvez estivessem enviando m ensagens. Esforçou-se para com preender todas essas m ensagens e sentiu cada segundo da contagem regressiva.

Wang não sabia quanto tem po passara ali. O funcionário do planetário enfim saiu e perguntou se ele havia term inado. No entanto, quando viu o rosto de Wang, o sono em seus olhos desapareceu e foi substituído por m edo. Ele guardou os óculos, olhou para Wang por alguns segundos e foi em bora às pressas com a valise.

Wang pegou o celular e ligou para Shen Yufei. Ela atendeu na hora. Talvez tam bém estivesse com insônia.

— O que vai acontecer quando a contagem regressiva acabar? — perguntou Wang.

— Não sei. — E desligou.

O que será? Talvez a minha morte, como a de Yang Dong.

Ou talvez um desastre como o tsunami imenso que se espalhou pelo oceano Índico há mais de uma década. Ninguém associaria uma catástrofe dessas à minha pesquisa em nanotecnologia. Será que todos os desastres que já aconteceram, incluindo as duas guerras mundiais, foram também resultado do fim de alguma contagem regressiva fantasmagórica? Será que sempre havia alguém como eu, alguém que ninguém imaginava, alguém com toda a responsabilidade?

Ou talvez isso seja um sinal para o fim do mundo inteiro. Em um mundo perverso desses, isso seria um alívio.

Um a coisa era certa. Sej a lá o que acontecesse no fim da contagem , ao longo das cerca de m il horas que faltavam , as possibilidades o torturariam terrivelm ente, com o dem ônios, até que ele sofresse um colapso m ental com pleto.

Wang entrou no carro e deixou o planetário para trás. As ruas estavam relativam ente desertas pouco antes do am anhecer. Apesar disso, ele não se atrevia a dirigir m uito rápido, com a sensação de que, quanto m ais corresse, m aior seria a velocidade da contagem regressiva.

Assim que surgiu um vislum bre de luz no céu ao leste, ele estacionou e com eçou a cam inhar sem rum o. Sua m ente estava vazia: apenas a contagem pulsava diante do brilho verm elho fraco da radiação cósm ica de fundo. Aparentem ente, ele havia se transform ado em nada além de um m ero cronôm etro, um sino que dobrava para algum desconhecido.

O céu clareou. Wang estava cansado, então se sentou em um banco.

Quando levantou a cabeça para ver onde seu inconsciente o havia levado, Wang estrem eceu.

Estava diante da igrej a de São José em Wangfuj ing. Sob a fraca luz branca do am anhecer, os arcos rom ânicos da igrej a pareciam três dedos gigantes que indicavam algo no espaço para ele.

Quando Wang se levantou para ir em bora, ouviu um fragm ento de canto religioso e parou. Não era dom ingo, então provavelm ente se tratava de um coral ensaiando um hino pentecostal. Enquanto escutava a m elodia solene e sagrada, Wang Miao sentiu m ais um a vez que o universo havia encolhido até ficar do tam anho de um a igrej a vazia. O teto abobadado estava oculto pela luz verm elha irregular da radiação de fundo, e Wang era um a form iga andando pelas rachaduras do chão. Ele sentiu um a m ão invisível gigantesca acariciar seu coração trêm ulo e voltou a ser um bebê indefeso. Nas profundezas de sua m ente, algo que antes o sustentava am oleceu com o cera e cedeu. Wang cobriu os olhos e com eçou a chorar.

Suas lágrim as foram interrom pidas por um a risada.

— Hahaha, m ais um que j á era.

Ele se virou.

O capitão Shi Qiang estava em pé ao seu lado, soprando um a baforada de fum aça branca.