O Problema dos Três Corpos
25. A morte de Lei Zhicheng e Yang Weining
25. A MORTE DE LEI ZHICHENG
E YANG WEINING
INVESTIGADOR: Nom e?
YE WENJIE: Ye Wenj ie.
INVESTIGADOR: Mês e ano de nascim ento? YE: Junho de 1943.
INVESTIGADOR: Profissão?
YE: Professora de astrofísica na Universidade Tsinghua. Aposentada desde 2004. INVESTIGADOR: Em consideração a seu estado de saúde, a senhora pode pedir
um intervalo no interrogatório a qualquer m om ento. YE: Obrigada. Estou bem .
INVESTIGADOR: Agora só estam os realizando um a investigação crim inal
corriqueira e não vam os entrar em questões m ais delicadas. Gostaríam os
de term inar logo. Esperam os que a senhora coopere. YE: Eu sei a que o senhor se refere. Sim , vou cooperar. INVESTIGADOR: Nossa investigação revelou que, quando você trabalhava na
Base Costa Verm elha, foi suspeita de assassinato. YE: Eu realm ente m atei duas pessoas.
INVESTIGADOR: Quando?
YE: Na tarde do dia 21 de outubro de 1979.
INVESTIGADOR: Nom e das vítim as?
YE: Lei Zhicheng, com issário da Base, e Yang Weining, engenheiro da Base e
m eu m arido.
INVESTIGADOR: Explique os m otivos para os assassinatos. YE: Posso… partir do princípio de que o senhor conhece a relevância do
contexto?
INVESTIGADOR: Estou a par do básico. Se precisar esclarecer algo, pergunto. YE: Ótim o. No dia em que a com unicação extraterrestre chegou e eu enviei a
resposta, descobri que não fui a única pessoa a receber a m ensagem . Lei
tam bém recebeu.
***
Lei era um quadro político típico daquela época: possuía um faro extrem am ente apurado para a política e enxergava tudo pelo viés da ideologia. A m aioria da equipe técnica da Base Costa Verm elha não sabia, m as ele tinha um pequeno program a rodando direto no com putador principal. Esse program a lia constantem ente os buffers de transm issão e recepção e arm azenava os resultados em um arquivo oculto criptografado. Assim , tudo o que a Costa Verm elha transm itisse ou recebesse seria salvo em um a cópia que só ele poderia ver. Foi por essa cópia que ele descobriu a m ensagem extraterrestre.
Na tarde do dia em que eu m andei m inha m ensagem para o sol nascente, e pouco depois de eu descobrir que estava grávida na enferm aria da base, Lei m e cham ou em sua sala, e vi na tela do term inal dele a m ensagem que eu tinha recebido de Trissolaris na noite anterior…
— Faz oito horas desde que você recebeu a prim eira m ensagem . Em vez de relatar, você deletou a m ensagem original e talvez tenha escondido um a cópia. É isso?
Fiquei de cabeça baixa e não respondi.
— Eu sei qual é seu próxim o passo: você pretende responder. Se eu não tivesse descoberto a tem po, você teria arruinado a civilização hum ana! É claro que não estou dizendo que tem os m edo de um a invasão interestelar. Mesm o se im aginássem os o pior e isso acontecesse de verdade, com certeza os invasores do espaço sideral se afogariam no oceano da guerra legítim a do povo!
Nessa hora percebi que ele não sabia que eu j á havia respondido. Quando coloquei a resposta no buffer de transm issão, não usei a interface de arquivo norm al. Por sorte, isso evitou o program a de m onitoram ento dele.
— Ye Wenj ie, eu tinha certeza de que você era capaz de algo assim . Você sem pre alim entou um ódio profundo pelo Partido e pelo povo. Aproveitaria qualquer oportunidade para se vingar. Você sabe quais são as consequências de suas ações?
Claro que eu sabia, então confirm ei com a cabeça. Lei ficou quieto por um instante, m as depois falou algo inesperado.
— Ye Wenj ie, não tenho nenhum a pena de você, que sem pre foi um a inim iga de classe e encara o povo com o um adversário. Mas eu servi durante m uitos anos com Yang. Não posso perm itir que ele sej a destruído j unto com você nem adm ito que o filho dele tam bém sej a. Você está grávida, não é?
O que ele disse não era apenas especulação. Naqueles tem pos, se m eus atos fossem revelados, fatalm ente teriam com prom etido m eu m arido, m esm o se ele não tivesse tido nenhum envolvim ento.
Lei falou com um tom de voz m uito baixo.
— Por enquanto, só você e eu sabem os o que aconteceu. O que precisam os fazer é m inim izar o im pacto de suas ações. Finj a que isso nunca aconteceu e não conte para ninguém , m uito m enos para Yang. Deixa que eu cuido do resto. Se você cooperar, poderá evitar as consequências desastrosas.
Percebi na hora as intenções de Lei. Ele queria ser o prim eiro hom em a descobrir a inteligência extraterrestre. Realm ente era um a oportunidade excelente de entrar para os livros de história.
Concordei. Quando fechei a porta, eu j á havia decidido tudo.
Peguei um a chave inglesa pequena e fui à sala de equipam entos do m ódulo de processam ento do receptor. Com o eu precisava inspecionar os equipam entos com frequência, ninguém reparou. Abri a caixa principal e afrouxei com cuidado o parafuso que prendia o fio terra na parte de baixo. A interferência do receptor aum entou de repente, e a resistência do solo passou de 0,6 ohm s para 5 ohm s. O técnico de plantão achou que fosse um problem a com o fio terra, porque esse tipo de defeito acontecia o tem po todo. Era um diagnóstico fácil. Ele j am ais teria im aginado que o problem a era na parte de cim a do fio terra, porque aquele lado estava bem firm e, abrigado, e eu falei que tinha acabado de conferir.
O cum e do pico do Radar tinha um a peculiaridade geológica: era coberto por um a cam ada de argila com m ais de doze m etros de espessura — pouca condutividade. Quando o fio terra não estava bem enterrado, a resistência do solo invariavelm ente ficava m uito alta. No entanto, o fio terra tam bém não podia ir m uito fundo, porque a cam ada de argila era m uito corrosiva e, com o tem po, acabaria danificando o m eio do fio terra. No fim das contas, a única solução foi pendurar o fio terra por cim a do penhasco até a ponta passar da cam ada de argila e enterrar a ponta na rocha. Mesm o assim , o aterram ento não era m uito estável, e a resistência costum ava ser excessiva. Quando esse tipo de problem a acontecia, sem pre tinha relação com a parte do fio cravada no penhasco. Quem fosse enviado para o conserto precisava se pendurar em cordas e descer pelo paredão.
O técnico de plantão inform ou a situação à equipe de m anutenção. Um dos soldados da equipe prendeu um a corda em um poste de ferro e desceu pelo penhasco. Depois de m eia hora, subiu de novo, encharcado de suor, e disse que não conseguiu achar o defeito. Parecia que a sessão de m onitoram ento seguinte teria que ser postergada. Eles precisavam inform ar o Centro de Com ando da Base. Fiquei esperando do lado do poste de ferro em cim a do penhasco. Pouco tem po depois, com o eu tinha planej ado, Lei Zhicheng voltou com o soldado.
A bem da verdade, Lei era m uito dedicado e cum pria à risca as expectativas im postas a oficiais políticos naqueles tem pos: tornar-se parte das m assas e sem pre estar na linha de frente. Talvez fosse só teatro, m as ele interpretava m uito bem . Quando havia algum trabalho difícil ou perigoso na base, ele sem pre se prontificava. Um dos trabalhos que ele fazia m ais do que os dem ais era consertar o fio terra, um a operação perigosa e cansativa. Em bora esse reparo não fosse m uito difícil em term os técnicos, ter experiência aj udava. Havia m uitas causas para os defeitos: um contato podia estar frouxo devido à exposição ao ar — algo difícil de detectar —, o lugar onde o fio terra entrava no penhasco podia estar seco dem ais etc. Os soldados voluntários responsáveis pela m anutenção da parte externa da base eram todos novatos, e ninguém tinha m uita experiência. Então im aginei que Lei provavelm ente ia aparecer.
Ele prendeu o equipam ento de segurança e desceu pela borda do penhasco com a corda, com o se eu não existisse. Depois de inventar um a desculpa para m e livrar do soldado que tinha vindo com Lei, fiquei sozinha no penhasco e retirei um a serra de arco pequena do bolso. Eu tinha quebrado um a serra m aior em três pedaços e j untado tudo lado a lado. Com as serras assim , qualquer corte que eu fizesse ficaria bastante irregular, e não seria óbvio que a corda tinha sido cortada com um a ferram enta.
Nessa hora, m eu m arido, Yang Weining, apareceu.
Quando expliquei o que tinha acontecido, ele olhou para baixo no penhasco e disse que, para verificar o term inal de aterram ento no costado do penhasco, era preciso cavar, e seria trabalho dem ais para Lei fazer sozinho. Ele queria descer e aj udar, então prendeu o equipam ento de segurança que o soldado tinha deixado para trás. Pedi para Yang usar outra corda, m as ele disse que não — a corda de Lei era grossa e resistente e aguentaria sem problem a o peso dos dois. Com o insisti, ele m e m andou buscar outra. Quando voltei correndo com a corda até o penhasco, ele j á havia descido pelo costado. Dei um a olhada pela borda e vi que ele e Lei j á haviam term inado a inspeção e estavam subindo de volta. Lei vinha na frente.
Eu nunca teria outra chance. Peguei a serra e cortei a corda.
INVESTIGADOR: Quero fazer um a pergunta, m as não vou registrar a resposta
nos autos. O que a senhora sentiu na hora?
YE: Calm a. Não senti nada quando cortei a corda. Eu tinha enfim descoberto um
propósito para dedicar m inha vida. Não dava a m ínim a para o que isso ia
custar, fovsse para m im ou para outras pessoas. E tam bém sabia que a
hum anidade toda pagaria um preço sem precedentes por esse propósito.
Foi um com eço m uito insignificante.
INVESTIGADOR: Muito bem . Prossiga.
YE: Escutei uns dois ou três gritos de surpresa e, em seguida, o barulho de corpos
batendo nas pedras no fundo do penhasco. Algum tem po depois, vi que o
riacho no sopé do penhasco tinha ficado verm elho… Não tenho m ais nada
a acrescentar.
INVESTIGADOR: Com preendo. Este é o depoim ento. Por favor, leia com
cuidado. Se não houver erros, por favor, assine.