O Problema dos Três Corpos

Cixin Liu · Capítulo 22 de 36

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O Problema dos Três Corpos

22. Costa Vermelha V

 

Desde que entrou na Base Costa Verm elha, Ye Wenj ie nunca pensou em sair. Quando descobriu o verdadeiro obj etivo do Proj eto Costa Verm elha, um a inform ação ultrassecreta que m uitos quadros de nível interm ediário da base desconheciam , ela rom peu sua ligação espiritual com o m undo exterior e se entregou de corpo e alm a ao trabalho. A partir de então, tornou-se ainda m ais im portante para o núcleo técnico da Costa Verm elha e com eçou a assum ir tem as de pesquisa m ais im portantes.

O com issário Lei nunca esqueceu que o chefe Yang fora o prim eiro a confiar em Ye, m as não se incom odava de passar tem as im portantes para ela. Em virtude do status de Ye, ela não tinha direito aos resultados de sua pesquisa. Lei, que havia estudado astrofísica, era um oficial político e um intelectual ao m esm o tem po, algo raro naquela época. Por isso, ele podia receber o crédito por todos os resultados de pesquisa e artigos de Ye e se apresentar com o um oficial político exem plar, com saber técnico e fervor revolucionário.

A princípio, o Proj eto Costa Verm elha tinha convidado Ye por causa de um artigo dela publicado durante a pós-graduação no Journal of Astrophysics. O trabalho postulava um m odelo m atem ático do sol: em com paração com a Terra, o astro era um sistem a físico m uito m ais sim ples, com posto quase que todo de hidrogênio e hélio. Em bora os processos físicos fossem violentos, tinham com plexidade relativam ente baixa, lim itando-se à fusão do hidrogênio para form ar o hélio. Logo, era provável que um m odelo m atem ático pudesse descrever o sol com bastante precisão. O artigo era elem entar, m as Lei e Yang viram no estudo um a esperança de resolver um a dificuldade técnica que ocorria no sistem a de m onitoram ento da Costa Verm elha.

Interferências solares, um problem a com um para as com unicações via satélite, sem pre afetaram as operações de m onitoram ento da Costa Verm elha.

Quando a Terra, um satélite artificial e o sol ficam alinhados, o sol aparece atrás do satélite pela perspectiva da antena situada no solo. O sol é um a fonte gigantesca de radiação eletrom agnética e, por consequência, as transm issões entre o satélite e o solo sofrem interferência da radiação solar. Continua sendo im possível resolver definitivam ente esse problem a, m esm o no século XXI.

A interferência que a Costa Verm elha enfrentava era sem elhante, m as a fonte de interferência (o sol) estava entre a fonte da transm issão (o espaço sideral) e o receptor no solo. Em com paração com os satélites de com unicação, as interferências solares sofridas pela Costa Verm elha eram m ais frequentes e severas. Além disso, com o as estruturas da Base Costa Verm elha eram m uito m ais m odestas do que na planta do proj eto original, os sistem as de transm issão e de m onitoram ento usavam a m esm a antena. Por isso, os m om entos disponíveis para as atividades de m onitoram ento eram ainda m ais preciosos, e a interferência solar, um problem a ainda m ais sério.

Lei e Yang tinham um a ideia m uito sim ples para elim inar a interferência: determ inar o espectro de frequências e as características da radiação solar na faixa m onitorada e com pensar isso digitalm ente. Os dois tinham form ação técnica, rara e fortuita coincidência para a época, na m edida em que era com um que ignorantes liderassem os instruídos. Porém Yang não era especialista em astrofísica, e Lei tinha seguido um a carreira de oficial político, o que o im pedira de aprofundar seu conhecim ento técnico. Na verdade, a radiação eletrom agnética do sol apenas é estável no segm ento lim itado entre o quase ultravioleta e as frequências interm ediárias da faixa infraverm elha (incluindo a luz visível). Nas dem ais faixas, a radiação é m uito volátil e im previsível.

Para não criar expectativas exageradas, j á em seu prim eiro relatório de pesquisa, Ye deixou claro que era im possível elim inar a interferência durante períodos de atividade solar intensa — m anchas ou explosões solares, ej eções de m assa coronal etc. Desse m odo, o obj eto de pesquisa deveria ser restrito à radiação dentro das faixas de frequência m onitoradas pela Costa Verm elha em períodos de atividade solar norm al.

As condições de pesquisa na base não eram ruins. A biblioteca podia obter m aterial sobre o assunto em outras línguas, incluindo os m ais recentes periódicos acadêm icos da Europa e dos Estados Unidos. Naqueles anos, isso não era fácil. Ye tam bém podia usar a linha telefônica m ilitar para entrar em contato com os dois grupos que estudavam o sol na Academ ia Chinesa de Ciências e obter os resultados das observações deles por fax.

Depois de m eio ano de estudos, Ye j á não tinha nenhum fio de esperança. Ela logo descobriu que a radiação solar flutuava im previsivelm ente na faixa de frequências m onitoradas pela Costa Verm elha. Quando analisou um a grande quantidade de dados observados, se deparou com um m istério curioso. Às vezes, durante um a das flutuações súbitas de radiação solar, a superfície do sol ficava calm a. Com o toda radiação de ondas curtas e de m icro-ondas com origem no núcleo do Solera absorvida por centenas de m ilhares de quilôm etros de m atéria solar, a radiação devia ter saído de atividades na superfície, de m odo que deveria haver atividades observáveis quando essas flutuações aconteciam . Se não havia nenhum a perturbação condizente na superfície, o que causava essas m udanças repentinas nas bandas estreitas? Quanto m ais ela pensava, m ais m isteriosa a questão parecia.

Com o tem po, Ye acabou ficando sem hipóteses e decidiu desistir. No últim o relatório, ela adm itiu que não conseguia resolver a questão. Em princípio, isso não seria nenhum problem a: as Forças Arm adas pediram que vários grupos em universidades e na Academ ia Chinesa de Ciências pesquisassem a m esm a questão, e nenhum teve sucesso. Só que Yang queria tentar m ais um a vez, contando com o talento extraordinário de Ye.

Os interesses de Lei eram ainda m ais sim ples: ele só queria o artigo de Ye. O tópico da pesquisa era m uito teórico e seria um a dem onstração da capacidade e do conhecim ento dele. Com o o caos da sociedade chinesa enfim tinha com eçado a am ainar, as exigências im postas aos quadros tam bém estavam m udando, e havia um a necessidade urgente de hom ens com o ele, politicam ente m aduros e bem -sucedidos academ icam ente. Era óbvio que seu futuro seria brilhante. Quanto ao problem a das interferências solares, ele não se im portava m uito.

No entanto, no fim das contas, Ye não entregou o relatório. Ela achava que, se o proj eto de pesquisa fosse encerrado, a biblioteca da base não receberia m ais periódicos estrangeiros nem outros m ateriais de pesquisa. Com o nesse caso Ye perderia acesso a um a fonte abundante de referências em astrofísica, ela fingiu continuar a pesquisa m as, na verdade, passou a tentar refinar seu m odelo m atem ático do sol.

Certa noite, com o de costum e, Ye estava sozinha na fria sala de leitura da biblioteca da base. Na m esa com prida à sua frente havia um a infinidade de docum entos e periódicos abertos. Após com pletar um a série de cálculos m atriciais tediosos e trabalhosos, ela assoprou as m ãos para se aquecer e pegou a edição m ais recente do Journal of Astrophysics, para arej ar um pouco. Enquanto folheava as páginas, um texto curto sobre Júpiter cham ou sua atenção:

Na edição anterior, em “Um a fonte nova e potente de radiação dentro do

sistem a solar”, o dr. Harry Peterson do Observatório de Monte Wilson

publicou um conj unto de dados obtidos por acaso, enquanto ele observava

a precessão de Júpiter em 12 de j unho e em 2 de j ulho e detectou radiação

eletrom agnética intensa, com duração de 81 segundos e 76 segundos,

respectivam ente. Os dados incluíam as faixas de frequências da radiação,

entre outros parâm etros. Durante as em issões de rádio, Peterson observou

tam bém certas alterações na Grande Mancha Verm elha. Essa descoberta

atraiu m uito interesse de cientistas planetários. Nesta edição, o artigo de G.

McKenzie defende que isso foi um sinal do início de fusões no núcleo de

Júpiter. Na próxim a edição, publicarem os o artigo de Inoue Kum oseki, que

atribui as em issões de rádio j upiterianas a um m ecanism o m ais com plexo

— a m ovim entação de placas internas de hidrogênio m etálico — e oferece

um a descrição m atem ática com pleta.

Ye se lem brava com nitidez das duas datas indicadas no artigo. Durante aquelas interferências, o sistem a de m onitoram ento da Costa Verm elha tam bém havia recebido m uita interferência do sol. Ela conferiu o diário de operações e confirm ou a lem brança. Os períodos eram próxim os, m as as interferências solares ocorreram dezesseis m inutos e quarenta e dois segundos após a chegada das em issões de rádio de Júpiter na Terra.

Os dezesseis minutos e quarenta e dois segundos são fundamentais! Ye tentou acalm ar o coração acelerado e pediu para o bibliotecário entrar em contato com o Observatório Nacional e obter as efem érides da posição da Terra e de Júpiter durante esses dois períodos.

No quadro-negro, ela traçou um triângulo grande com o sol a Terra e Júpiter nos vértices, m arcou as distâncias nos três lados e anotou os tem pos de chegada do lado da Terra. Pela distância entre a Terra e Júpiter, era fácil descobrir o tem po que as em issões de rádio levaram para fazerem o traj eto. Em seguida, calculou o tem po que levaria para as em issões de rádio viaj arem de Júpiter até o sol, e depois do sol até a Terra. A diferença entre os dois era de exatam ente dezesseis m inutos e quarenta e dois segundos.

Ye recorreu a seu m odelo m atem ático da estrutura solar e tentou arranj ar um a explicação teórica. Seu olhar se voltou para a descrição do que ela havia cham ado de “espelhos de energia” na zona de radiação solar.

A princípio, as reações no núcleo do sol produzem raios gam a de alta energia. A zona radiativa, que é a região interna em volta do núcleo solar, absorve esses fótons de alta energia e os reem ite a um nível energético ligeiram ente m enor. Depois de um longo período de absorções e reem issões consecutivas (um fóton pode dem orar m il anos para sair do sol), os raios gam a se transform am em radiação x, ultravioleta extrem a, ultravioleta e, por fim , luz visível e outras form as de radiação.

Isso era o que se sabia a respeito do sol. Mas o m odelo de Ye levava a um novo resultado: conform e a radiação solar percorria essas frequências variadas ao atravessar a zona radiativa, ela passava por fronteiras entre as subzonas correspondentes a cada tipo de radiação. Quando a energia atravessava um a fronteira, a frequência da radiação passava por um a redução brusca. Isso contrariava a noção tradicional de que as frequências de radiação se reduziam gradativam ente no cam inho do núcleo para fora. Os cálculos dela dem onstraram que essas fronteiras refletiam a radiação que saía do lado de frequência m enor, e por isso Ye cham ou essas fronteiras de “espelhos de energia”.

Ela havia analisado com cuidado essas superfícies fronteiriças m em branosas no oceano de plasm a de alta energia do Sol e descobriu diversas propriedades m aravilhosas. Deu o nom e de “reflexividade de ganho” para um a das características m ais incríveis. No entanto, a característica era tão estranha que era difícil confirm á-la, e nem Ye conseguia acreditar que aquilo fosse verdade. Parecia m ais provável se tratar de algum erro nos cálculos com plexos e confusos.

No entanto, naquele m om ento, Ye deu o prim eiro passo para confirm ar seu palpite sobre a reflexividade de ganho dos espelhos de energia solares: os espelhos de energia não apenas refletiam a radiação que vinha da cam ada de frequência m enor, com o tam bém a am plificavam . Todas as m isteriosas flutuações repentinas nas bandas estreitas de frequência que Ye havia observado eram resultado da am plificação de outras radiações oriundas do espaço, após serem refletidas em um espelho de energia do sol.

Daquela vez, quando as em issões de rádio de Júpiter chegaram ao sol, elas foram reem itidas, com o se tivessem batido em um espelho, e am pliadas em cerca de cem m ilhões de vezes. A Terra recebeu as duas em issões, antes e depois da am plificação, com um intervalo de dezesseis m inutos e quarenta e dois segundos.

O sol era um am plificador de ondas de rádio.

Porém havia um a dúvida: o sol deve receber radiação eletrom agnética do espaço o tem po todo, incluindo ondas de rádio em itidas pela Terra. Por que só algum as das ondas eram am plificadas? A resposta era sim ples: além da seletividade dos espelhos de energia quanto às frequências refletidas, o principal m otivo era o efeito de blindagem da zona convectiva do sol, a cam ada líquida m ais externa, eternam ente em ebulição em volta da cam ada radiativa. As ondas de rádio oriundas do espaço precisam antes penetrar a zona convectiva para chegar aos espelhos de energia na zona radiativa, onde seriam am plificadas e refletidas de volta para fora. Assim , para chegar aos espelhos de energia, a potência das ondas precisaria exceder um valor m ínim o. A im ensa m aioria de fontes de rádio na Terra não tinha capacidade para superar esse valor, m as a em issão de rádio j upiteriana teve…

E a potência m áxim a de transm issão da Costa Verm elha tam bém era superior ao valor m ínim o.

O problem a das interferências solares não tinha sido resolvido, m as surgiu outra possibilidade em polgante: os seres hum anos poderiam usar o sol com o um a superantena e, a partir dele, transm itir ondas de rádio para o universo. As ondas de rádio seriam enviadas com o poder do sol, centenas de m ilhões de vezes m aior do que a potência total de transm issão disponível na Terra.

A civilização terrestre tinha capacidade de transm issão correspondente a um a civilização do Tipo 2 de Kardashev.

O passo seguinte seria com parar as form as de onda das duas em issões j upiterianas com as form as de ondas das interferências solares recebidas pela Costa Verm elha. Se fossem iguais, seria m ais um a confirm ação da hipótese de Ye.

Ye encam inhou à liderança da base um a solicitação para entrar em contato com Harry Peterson e obter os dados sobre as form as de onda das duas em issões de rádio de Júpiter. Não foi fácil. Era difícil encontrar as vias de com unicação apropriadas, e um a extensa burocracia exigia diversas etapas de papelada form al. Qualquer erro poderia levantar suspeitas de que Ye estivesse agindo com o espiã estrangeira. Assim , ela não podia insistir m uito e teve que esperar os trâm ites norm ais.

Mas havia um a form a m ais direta de com provar essa hipótese. A própria Costa Verm elha podia transm itir ondas de rádio para o sol com um a potência superior ao valor m ínim o.

Ye encam inhou m ais um a solicitação à liderança da base, m as não se atreveu a inform ar o verdadeiro m otivo — era fantástico dem ais, e com certeza o pedido teria sido negado. Ela explicou que queria fazer um experim ento para sua pesquisa sobre o sol: o sistem a de transm issão da Costa Verm elha seria usado com o um radar de exploração solar, e os ecos seriam analisados em busca de inform ações sobre a radiação solar. Com o Lei e Yang tinham conhecim ento científico, não seria fácil enganá-los. Porém o experim ento que Ye descreveu tinha precedentes genuínos nas pesquisas solares feitas no Ocidente: na verdade, sua sugestão era tecnicam ente m ais fácil do que a exploração por radar de planetas rochosos que j á vinha sendo conduzida.

— Ye Wenj ie, você está se excedendo — com entou o com issário Lei. — Sua pesquisa deveria se concentrar na teoria. Precisam os m esm o fazer isso tudo?

— Com issário — im plorou Ye —, é possível que aconteça um a grande descoberta. Os experim entos são absolutam ente necessários. Por favor, eu só quero tentar um a vez.

— Com issário Lei — disse Yang —, talvez devêssem os tentar um a vez. Não parece nada m uito difícil em term os operacionais. Receber os ecos depois da transm issão dem oraria…

— Dez, quinze m inutos — disse Lei.

— Então a Costa Verm elha tem tem po suficiente para se alternar entre o m odo de transm issão e o de m onitoram ento.

Lei balançou a cabeça de novo.

— Eu sei que é técnica e operacionalm ente viável. Mas você… ah, chefe Yang, você não tem sensibilidade para esse tipo de coisa. Quer apontar um feixe de rádio superpotente para o sol verm elho. Já pensou no sim bolism o político de

um experim ento desses?*

Tanto Yang quanto Ye ficaram com pletam ente estarrecidos. Eles não acharam que a obj eção de Lei fosse ridícula, pelo contrário: os dois estavam horrorizados por não terem pensado nisso antes. Naqueles anos, a busca por sim bolism o político havia alcançado níveis absurdos. Os relatórios de pesquisa que Ye entregava precisavam ser revisados com cuidado por Lei, para que até m esm o term os técnicos relativos ao sol pudessem ser conferidos várias vezes a fim de elim inar riscos políticos. Term os com o “m anchas solares” eram

proibidos.** É claro que um experim ento que enviava um a transm issão potente de rádio na direção do sol podia render m il interpretações positivas, m as bastaria um a única negativa para causar um desastre político para todos. O m otivo da recusa de Lei era realm ente incontestável.

Apesar disso, Ye não desistiu. Na verdade, contanto que não se arriscasse dem ais, não seria difícil realizar o obj etivo. O transm issor da Costa Verm elha era ultrapotente, m as todos os com ponentes haviam sido produzidos internam ente na China durante a Revolução Cultural. Com o não tinham um a qualidade m uito boa, o índice de falhas era bem alto. A cada quinze transm issões, o sistem a inteiro precisava ser desm ontado, e depois a base sem pre fazia um a transm issão-teste. Poucas pessoas participavam desse teste, e os alvos e dem ais parâm etros eram escolhidos de m odo arbitrário.

Certa vez, quando estava de plantão, Ye foi designada para trabalhar em um a dessas transm issões-teste depois de um a desm ontagem . Com o as transm issões-teste pulavam várias etapas operacionais, só havia cinco outras pessoas presentes além de Ye. Três eram operadores de baixo escalão que não sabiam m uito sobre os princípios por trás do equipam ento. Os outros dois eram um técnico e um engenheiro, exaustos e um pouco desatentos depois de dois dias de trabalho de desm ontagem . Ye com eçou aj ustando a potência m áxim a do sistem a de transm issão da Costa Verm elha para superar o valor m ínim o previsto por sua teoria dos espelhos de energia com reflexividade de ganho. Em seguida, estabeleceu o valor da frequência que tinha m ais chances de ser am plificada pelo espelho de energia e, com a desculpa de testar os com ponentes m ecânicos, apontou a antena para o sol poente no oeste. O conteúdo da transm issão era o m esm o de sem pre.

Foi um a tarde clara do outono de 1971. Posteriorm ente, Ye recordaria o dia m uitas vezes, m as não se lem braria de nenhum sentim ento especial além de ansiedade, um desej o de que a transm issão acabasse rápido. Mais que tudo, Ye tinha m edo de ser flagrada pelos colegas. Em bora tivesse preparado algum as desculpas, não era com um usar a potência m áxim a para um a transm issão-teste, porque causaria um desgaste nos com ponentes. Além do m ais, o equipam ento de posicionam ento do sistem a de transm issão da Costa Verm elha não fora proj etado para m irar o sol. Ye sentiu o visor esquentar: se o aparelho queim asse, ela estaria em sérios apuros.

Ye precisava acom panhar o sol à m edida que o astro descia lentam ente no Oeste. Era um procedim ento m anual, e a antena da Costa Verm elha parecia um girassol gigante naquele m om ento, virando-se aos poucos para acom panhar o sol poente. Quando a luz verm elha que indicava o fim da transm issão se acendeu, Ye j á estava encharcada de suor.

Ela olhou para os lados. Os três operadores no painel de controle estavam desligando o equipam ento, um a peça de cada vez, de acordo com as instruções do m anual de operações. O engenheiro bebia água em um canto da sala de controle, e o técnico estava cochilando na cadeira. Historiadores e escritores m ais tarde tentariam descrever a cena com pom pa, m as a verdade é que foi algo com pletam ente prosaico.

Depois que a transm issão foi concluída, Ye saiu correndo da sala de controle e entrou na sala de Yang Weining.

— Diga para a estação da base com eçar a m onitorar o canal de doze m il m ega-hertz! — pediu ela, tentando recuperar o fôlego.

— O que a gente poderia receber por lá? — perguntou o chefe Yang, surpreso. Ele olhou para Ye, que estava com fiapos de cabelo colados no rosto suado. Em com paração com o sistem a de m onitoram ento extrem am ente sensível da Costa Verm elha, o rádio m ilitar convencional (usado em geral para a com unicação da base com o m undo exterior) não passava de um brinquedo.

— Talvez a gente receba algo. Não dá tem po de m udar os sistem as da Costa Verm elha para o m odo de m onitoram ento! — Em geral, alternar e aquecer o sistem a de m onitoram ento levava pouco m ais de dez m inutos. No entanto, naquele m om ento, o sistem a tam bém estava sendo desm ontado: m uitos m ódulos tinham sido retirados e ainda não estavam reinstalados. Eles ficariam fora de operação por algum tem po.

Yang ficou olhando para Ye por alguns segundos e então tirou o telefone do gancho e deu ordens para que a seção de com unicações seguisse as instruções de Ye.

— Considerando a baixa sensibilidade daquele rádio, provavelm ente só vam os receber sinais de extraterrestres da lua.

— O sinal vem do sol — disse Ye. Pela j anela, j á se via a beirada do sol chegando perto das m ontanhas no horizonte, verm elho com o sangue.

— Você usou a Costa Verm elha para enviar um sinal para o sol? — perguntou Yang, preocupado.

Ye confirm ou com a cabeça.

— Não fale para m ais ninguém . Isso não pode acontecer nunca m ais. Nunca! — Yang olhou para trás, para ver se não havia ninguém na porta.

Ye fez outro gesto com a cabeça.

— De que adianta? A onda do eco deve ser extrem am ente fraca, m uito além da sensibilidade de um rádio convencional.

— Não. Se m eu palpite estiver certo, vam os receber um eco extrem am ente forte. Vai ser m ais potente do que… nem consigo im aginar. Desde que a potência de transm issão supere determ inado lim ite, o sol pode am plificar o sinal em cem m ilhões de vezes.

Yang olhou para Ye com um a expressão estranha estam pada no rosto. Ela ficou quieta. Os dois esperaram , em silêncio. Yang conseguia escutar sem dificuldade a respiração e o coração de Ye. Ele nem havia prestado m uita atenção no que ela disse, m as os sentim entos reprim idos durante m uitos anos voltaram à tona. O m áxim o que ele podia fazer era se conter e esperar.

Vinte m inutos depois, Yang pegou o telefone, ligou para a seção de com unicações e fez algum as perguntas sim ples.

Ele colocou o telefone de volta no gancho.

— Não receberam nada.

Ye soltou o suspiro que estava segurando havia m uito tem po e, por fim , assentiu com a cabeça.

— Mas aquele astrônom o am ericano respondeu.

Yang pegou um envelope grosso coberto de selos da alfândega e entregou a Ye. Ela abriu o envelope e deu um a olhada na carta de Harry Peterson. Na correspondência, Harry dizia que nunca im aginara que haveria colegas na China estudando eletrom agnetism o planetário e que gostaria de trocar m ais inform ações e colaborações no futuro. O envelope continha tam bém duas pilhas de papel: o registro com pleto das form as de onda da em issão de rádio j upiteriana. Obviam ente, tinham sido fotocopiadas da fita de gravação extensa do sinal, de m odo que seria preciso j untar as folhas.

Ye pegou todas aquelas folhas de papel fotocopiado e com eçou a alinhá-las em duas colunas no chão. No m eio do esforço, j á não tinha m ais nenhum a esperança: ela conhecia m uito bem as form as de onda das duas interferências solares, e aquelas folhas não batiam .

Ye reuniu as folhas lentam ente no chão. Yang se abaixou para aj udá-la e, quando entregou a pilha de folhas para aquela m ulher que am ava de todo o coração, viu que ela sorria. O sorriso era tão triste que partiu o coração de Yang.

— Qual é o problem a? — perguntou ele, sem perceber que nunca havia falado com ela com tanta doçura.

— Nada. Só estou acordando de um sonho.

Ye sorriu de novo, j untou a pilha de fotocópias e o envelope e saiu da sala. Voltou para o quarto, pegou a m arm ita e cam inhou até o refeitório. Só tinham sobrado alguns pãezinhos mantou e pepinos em conserva e, com o a equipe do refeitório disse sem delicadeza que eles estavam fechando, Ye se viu obrigada a sair com a m arm ita. Ela foi até a beirada do penhasco, sentou-se na gram a e ficou m astigando o mantou frio.

O sol j á havia se posto. A cordilheira Grande Khingan parecia sem cor nem definição, exatam ente com o a vida de Ye. Naquela vida cinzenta, os sonhos sem pre pareciam ganhar cor e luz especiais. Só que as pessoas sem pre acordam dos sonhos, assim com o o sol — que, em bora fosse nascer de novo, não sim bolizava nenhum a esperança renovada. Naquele m om ento, Ye viu o resto de sua vida im erso em um cinza interm inável.

Com os olhos m arej ados, ela sorriu de novo e continuou com endo o mantou frio.

Ye não sabia que, naquele m om ento, o prim eiro grito de um a civilização terrestre que podia ser ouvido pelo espaço j á estava se distanciando do sol à velocidade da luz. Um a onda de rádio potencializada pelo sol, com o um a onda m aj estosa, j á havia cruzado a órbita de Júpiter.

Naquele instante, na frequência de doze m il m egahertz, o sol era a estrela m ais lum inosa da Via Láctea inteira.

 

* O presidente Mao era com parado com frequência ao “sol verm elho”, sobretudo durante os anos da Revolução Cultural.

** O term o em chinês para “m ancha solar” (QPON) significa literalm ente “m anchas solares pretas”. O preto era a cor dos contrarrevolucionários.