O Problema dos Três Corpos

Cixin Liu · Capítulo 10 de 36

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O Problema dos Três Corpos

10. Da Shi

 

Shi se sentou ao lado de Wang e lhe entregou um m olho de chaves.

— Aqui. As chaves do seu carro, que você deixou no cruzam ento de Dongdan. Se eu tivesse chegado um m inuto atrasado, ele teria sido rebocado pelos guardas de trânsito.

Da Shi, se eu soubesse que você estava me seguindo, teria ficado mais tranquilo, pensou Wang, se referindo ao policial pelo apelido, m as guardando as palavras para si, por am or-próprio. Ele aceitou um cigarro de Da Shi e deu a prim eira tragada em m uitos anos, desde que havia parado de fum ar.

— Com o é que você está, m eu am igo? Difícil de encarar? Eu falei que você não ia aguentar. Mas você insistiu em bancar o fortão.

— Você não teria com o entender. — Wang deu m ais algum as tragadas longas.

— Seu problem a é que eu entendo bem dem ais… Certo, vam os arrum ar algum a coisa para com er.

— Não estou com fom e.

— Então vam os beber! Eu pago.

Wang entrou no carro de Da Shi, e eles foram para um pequeno restaurante ali perto. Ainda era cedo, e o lugar estava deserto.

— Duas porções de bucho frito e um a garrafa de er guo tou!* — gritou Da Shi, sem nem levantar a cabeça. Estava nítido que era um freguês habitual.

Quando olhou para os dois pratos cheios de tiras pretas de bucho, Wang sentiu o estôm ago vazio com eçar a se revirar e achou que fosse passar m al. Da Shi pediu um pouco de leite de soj a m orno e panquecas fritas, e Wang se forçou a com er um pouco.

Depois, eles beberam doses de er guo tou. Wang com eçou a sentir a cabeça leve e a língua solta. Aos poucos, foi contando para Da Shi o que havia acontecido nos últim os três dias, m esm o consciente de que Da Shi provavelm ente j á soubesse de tudo; talvez Da Shi soubesse até m ais do que ele.

— Quer dizer que o universo estava… piscando para você? — perguntou Da Shi, chupando tiras de bucho com o se fosse m acarrão.

— Essa é um a m etáfora m uito adequada.

— Palhaçada.

— Sua falta de m edo se deve à ignorância.

— Mais palhaçada. Vam os, beba!

Wang virou outra dose. O m undo tinha passado a girar, e só Shi Qiang, o devorador de tripas, perm anecia estável à sua frente.

— Da Shi — disse ele —, você j á… refletiu sobre certas questões filosóficas elem entares? Por exem plo, de onde viem os, para onde vam os, de onde veio o universo, para onde o universo vai, essa coisa toda?

— Não.

— Nunca?

— Nunca.

— Você com certeza j á viu as estrelas. Nunca ficou fascinado ou curioso com o m istério delas?

— Eu nunca olho para o céu à noite.

— Com o é possível? Achei que você costum asse trabalhar no turno da noite.

— Meu am igo, quando eu trabalho à noite, o suspeito foge se eu ficar olhando para o céu.

— Nós realm ente não tem os nenhum a afinidade. Certo. Beba!

— Para falar a verdade, m esm o se eu olhasse o céu à noite, não ficaria pensando nessas questões filosóficas. Tenho outras preocupações! Preciso quitar a casa, econom izar para a faculdade do garoto e lidar com um a sequência interm inável de casos… Sou um hom em sim ples, sem coisas com plicadas. Se você olhar dentro da m inha garganta, vai conseguir enxergar até m inha bunda. Claro, não consigo agradar m eus chefes. Anos depois da m inha baixa do Exército, m inha carreira não está indo para lugar nenhum . Se eu não fosse m uito bom no que faço, teria sido expulso há m uito tem po… Você acha que isso não é preocupação suficiente? Acha que tenho tem po para ficar olhando as estrelas e filosofando?

— Tem razão. Certo, vire o copo!

— Mas eu cheguei a inventar um a regra básica.

— Diga.

— Qualquer coisa esquisita o bastante deve ser suspeita.

— Que… que regra idiota é essa?

— O que eu quero dizer é: sem pre tem alguém por trás de coisas que parecem não ter explicação.

— Se você tivesse ao m enos um conhecim ento básico de ciências, saberia que é im possível qualquer força realizar as coisas que presenciei. Especialm ente essa últim a. Manipular os acontecim entos na escala do universo… não só a ciência atual é incapaz de explicar isso, com o eu tam bém nem consigo im aginar com o explicar fora da ciência. É algo m ais do que sobrenatural. É sobre sei lá o quê…

— Estou falando, é palhaçada. Já vi m uitas coisas esquisitas.

— Então diga o que eu devo fazer agora.

— Continue bebendo. Depois, durm a.

— Certo.

Wang Miao não fazia ideia de com o conseguiu voltar para o carro. Apenas caíra no banco traseiro e dorm ira um sono sem sonhos. Achou que não tinha dorm ido por m uito tem po, m as, quando abriu os olhos, viu que o sol j á estava quase se pondo no oeste.

Ele saiu do carro. Em bora estivesse fraco pelo álcool que bebeu durante a m adrugada, se sentia m elhor. Percebeu que estava em um a esquina da Cidade Proibida. O pôr do sol ilum inava o palácio ancestral e se dissolvia em pequenas ondas douradas no fosso. Aos olhos de Wang, o m undo voltou a parecer norm al e estável.

Ele continuou sentado até o anoitecer, aproveitando um a paz que havia desaparecido de sua vida. O Santana preto que ele j á conhecia m uito bem passou pela rua e parou à sua frente. Shi Qiang saiu do carro.

— Dorm iu bem ? — resm ungou Da Shi.

— Dorm i. E agora?

— O quê? Para você? Vá j antar. Depois, beba m ais um pouco. Depois, durm a de novo.

— E depois?

— Depois? Você não precisa trabalhar am anhã?

— Mas a contagem regressiva… só faltam m il e noventa e um a horas.

— Foda-se a contagem regressiva. Sua prioridade agora é ter certeza de que consegue ficar de pé e não desm oronar. Depois a gente conversa sobre outras coisas.

— Da Shi, você pode m e dizer algo sobre o que está realm ente acontecendo? Estou im plorando.

Da Shi encarou Wang por um instante. E riu.

— Já perdi a conta de quantas vezes falei exatam ente a m esm a coisa para o general Chang. Nós dois, você e eu, estam os no m esm o barco. Falando sério: não sei porra nenhum a. Ocupo um lugar m uito baixo na hierarquia, e ninguém m e diz nada. Às vezes isso parece um pesadelo.

— Mas você deve saber m ais do que eu.

— Tudo bem . Vou contar o pouco que sei.

Da Shi apontou para a beirada do fosso em volta da Cidade Proibida. Os dois escolheram um lugar e se sentaram .

Já era noite, e o trânsito seguia intenso atrás deles, correndo ininterrupto com o um rio. Os dois ficaram observando suas som bras crescendo e dim inuindo em cim a do fosso.

— No m eu ram o, o trabalho é ligar vários pontos que parecem não ter nenhum a relação entre si. Quando a gente liga do j eito certo, a verdade aparece. Já tem algum tem po que vêm acontecendo algum as coisas estranhas.

“Por exem plo, vem ocorrendo um a onda inédita de crim es contra instituições acadêm icas e de pesquisa científica. Com certeza você soube da explosão no canteiro de obras do acelerador em Liangxiang. Teve tam bém o assassinato daquele ganhador do Nobel… Todos esses crim es foram esdrúxulos: não por dinheiro, não por vingança. Nenhum a m otivação política, só destruição pura.

“Outros acontecim entos estranhos não tiveram a ver com crim es. Por exem plo, a Fronteiras da Ciência e o suicídio daqueles acadêm icos. Ao m esm o tem po, a ousadia dos am bientalistas tem aum entado: m ultidões de m anifestantes em canteiros de obras para im pedir a construção de usinas nucleares e barragens de hidrelétricas, com unidades experim entais de ‘retorno à natureza’ e outras questões aparentem ente triviais… Você costum a ir ao cinem a?”

— Não, não m uito.

— Todas as m egaproduções recentes seguem tem as rústicos. Os cenários são sem pre m ontanhas verdej antes e águas claras, com hom ens e m ulheres angelicais de algum a época indefinida vivendo em harm onia com a natureza. Citando as palavras dos diretores, esses film es “representam a beleza da vida antes de a ciência estragar a natureza”. Vej a A fonte das flores de pessegueiro: claram ente, é o tipo de film e que ninguém quer ver. Mas gastaram centenas de m ilhões na produção. Tam bém fizeram um concurso de ficção científica que oferecia um prêm io de cinco m ilhões para a pessoa que im aginasse o futuro m ais asqueroso de todos. Gastaram ainda m ais algum as centenas de m ilhões para transform ar os contos vencedores em film es. E tem tam bém esse m onte de seita estranha aparecendo por todos os lados, com líderes que parecem ter m uito dinheiro…

— O que essa últim a parte tem a ver com tudo o que você falou antes?

— Você precisa ligar todos os pontos. É claro que eu não precisava m e preocupar com essas questões antes, m as, depois que m e transferiram da unidade de crim es para o Centro de Com ando em Batalha, isso passou a fazer parte do m eu trabalho. Até o general Chang está im pressionado com m eu talento para ligar os pontos.

— E qual é sua conclusão?

— Tudo que está acontecendo é coordenado por um a pessoa que está nos bastidores e tem um obj etivo: arruinar com pletam ente as pesquisas científicas.

— Quem ?

— Não faço ideia. Mas consigo pressentir o plano, um plano m uito am plo e bem com plicado: danificar com plexos de pesquisa científica, assassinar alguns cientistas e enlouquecer e levar outros, com o você, ao suicídio… Mas o obj etivo principal é desorientar os cientistas até que vocês pensem que são ainda m ais ignorantes do que as pessoas com uns.

— Essa sua últim a observação é m uito perspicaz.

— Ao m esm o tem po, querem arruinar a reputação da ciência na sociedade. É claro que sem pre teve gente envolvida em atividades contra a ciência, m as agora é algo coordenado.

— Acredito em você.

— Agora você acredita em m im . Um m onte de gente da elite científica foi incapaz de perceber, e aí um cara com o eu, que só fez escola técnica, encontra a resposta? Rá! Quando expliquei m inha teoria, fui ridicularizado pelos intelectuais e pelos m eus chefes.

— Se você tivesse m e contado sua teoria antes, com certeza eu não teria rido. Vej a aqueles picaretas que praticam pseudociência. Sabe de quem eles têm m ais m edo?

— Dos cientistas, claro.

— Não. Muitos dos m elhores cientistas podem ser enganados pela pseudociência, às vezes dedicando a vida a ela. Mas a pseudociência tem m edo de um tipo específico de gente, pessoas m uito difíceis de enganar: m ágicos. E com razão, porque m uitos em bustes pseudocientíficos foram desvendados por m ágicos. Enfim , na com paração com os acadêm icos bitolados do m undo científico, você tem m uito m ais chance de perceber um a conspiração de grande escala, por causa da sua experiência com o policial.

— Bom , tem m uita gente m ais esperta do que eu. Os figurões com poder nas m ãos sabem m uito bem da tram a. Quando m e ridicularizaram no com eço, foi só porque eu não tinha explicado a teoria para as pessoas certas. Mais tarde, m eu antigo com andante de com panhia, o general Chang, cuidou pessoalm ente da m inha transferência. Mas ainda não estou fazendo nada além de pequenos serviços… Pronto. Agora você sabe tanto quanto eu.

— Mais um a dúvida: o que isso tem a ver com as Forças Arm adas?

— Tam bém fiquei confuso. Quando perguntei, disseram que, agora que tem um a guerra, é claro que as Forças Arm adas iam se envolver. Eu estava que nem você, achando que os caras só estavam falando besteira. Mas não, não era brincadeira. O Exército está m esm o em alerta m áxim o. Foram instalados vinte e tantos Centros de Com ando em Batalha no planeta inteiro. E acim a de todos existe m ais um nível na hierarquia, m as ninguém conhece os detalhes.

— Quem é o inim igo?

— Não faço ideia. Agora tem os representantes da Otan na sala de guerra do Estado-Maior do ELP, e há um m onte de oficiais do ELP trabalhando no Pentágono. Quem é que sabe que m erda a gente está enfrentando?

— Isso é tudo tão estranho. Você tem certeza de que é tudo verdade?

— Tenho vários am igos de longa data no Exército que hoj e são generais, então sei de algum as coisas.

— A m ídia não tem ideia nenhum a disso?

— Ah, essa é outra questão. Todos os países estão deixando isso bastante fechado, com sucesso até agora. Garanto que o inim igo é incrivelm ente poderoso. As pessoas no com ando estão apavoradas! Eu conheço m uito bem o general Chang. Ele é o tipo de suj eito que não tem m edo de nada, nem m esm o de o céu desabar. Só que percebi que ele está preocupado com algo m uito pior agora. Parece que estão todos m orrendo de m edo e duvidam que tenham chance de vencer.

— Se o que você está dizendo for verdade, então todo m undo tem que ficar assustado.

— Todo m undo tem m edo de algo. O inim igo tam bém deve ter. Quanto m ais poderosos eles forem , m ais têm a perder para seus m edos.

— Do que você acha que o inim igo tem m edo?

— De vocês! Dos cientistas! O estranho é que, quanto m enos prática for a área de pesquisa, m aior é o m edo deles em relação a vocês. Com o teorias abstratas, o tipo de coisa com que Yang Dong trabalhava. Eles têm m ais m edo desse tipo de trabalho do que vocês têm do universo piscando. É por isso que são tão cruéis. Se m atar vocês fosse resolver o problem a, todos j á estariam m ortos. Mas a técnica m ais eficaz ainda é em baralhar seus pensam entos. Quando um cientista m orre, ele é substituído por outro. Mas se os pensam entos se confundem , a ciência acaba.

— Você está dizendo que eles têm m edo da ciência de base?

— Sim , da ciência de base.

— Mas a natureza da m inha pesquisa é m uito diferente daquela do estudo de Yang Dong. Os nanom ateriais com que trabalho não são ciência de base. É só um m aterial m uito forte. Com o é que isso pode representar am eaça?

— Você é um caso atípico. Norm alm ente, eles não incom odam pessoas relacionadas com pesquisa aplicada. Talvez tenham bastante m edo do m aterial que você está desenvolvendo.

— Então o que eu deveria fazer?

— Vá trabalhar e continue a pesquisa. Essa é a m elhor m aneira de contra-atacar. Não se preocupe com essa contagem regressiva de m erda. Se quiser relaxar um pouco depois do expediente, entre naquele j ogo. Se conseguir vencer, talvez aj ude.

— Aquele j ogo? Três Corpos? Você acha que tem algum a relação com isso tudo?

— Com certeza tem algum a relação. Eu sei que vários especialistas do Centro de Com ando em Batalha estão j ogando tam bém . Não é um j ogo norm al. Alguém com o eu, destem ido por ignorância, não tem com o j ogar. Precisa ser alguém entendido com o você.

— Mais algum a coisa?

— Não. Se eu descobrir m ais, aviso. Deixe o celular ligado, m eu am igo. Fique de cabeça fria e, se tiver m edo de novo, é só lem brar m inha regra básica.

Da Shi foi em bora antes que Wang tivesse chance de agradecer.

 

* Er guo tou é um a bebida destilada feita a partir do sorgo; às vezes, é cham ada de “vodca chinesa”.