O Problema dos Três Corpos
16. O problema dos três corpos
Assim que Wang saiu do j ogo, o telefone tocou.
Era Shi Qiang, que pedia para Wang procurá-lo com urgência em sua sala na Divisão de Crim es. Wang olhou para o relógio: eram três da m anhã.
Ele chegou à sala caótica de Da Shi e viu que o lugar j á estava tom ado por um a densa nuvem de fum aça de cigarro. Um a policial j ovem que dividia a sala com Da Shi balançava um caderno na frente do nariz para afastar a fum aça. Da Shi apresentou a colega com o Xu Bingbing, especialista em inform ática da Divisão de Segurança de Inform ações.
Wang ficou surpreso com a terceira pessoa na sala. Era Wei Cheng, o recluso e m isterioso m arido de Shen Yufei, da Fronteiras da Ciência. O cabelo de Wei estava um a bagunça. Ele olhou para Wang, m as parecia ter esquecido que j á se conheciam .
— Desculpe incom odar você a essa hora, m as pelo m enos parece que você não estava dorm indo — disse Da Shi. — Tenho que lidar com algo que ainda não com uniquei ao Centro de Com ando em Batalha e preciso de um a consultoria sua. — Ele se virou para Wei Cheng. — Diga a ele o que você m e falou.
— Minha vida está em perigo — disse Wei, com o rosto inexpressivo.
— Que tal com eçar do com eço?
— Certo. Vou com eçar, m as não venha m e cham ar de prolixo. Para ser sincero, ultim am ente tenho pensado m uito em falar com alguém … — Wei se virou para Xu Bingbing. — Você não precisa tom ar nota ou algo do tipo?
— Por enquanto não — cortou Da Shi. — Você não tinha ninguém com quem conversar antes?
— Não, não é isso. Eu tinha preguiça dem ais de falar. Sem pre fui preguiçoso.
A HISTÓRIA DE WEI CHENG
Desde pequeno, sem pre fui indolente. Quando estudava em um internato, eu nunca lavava a louça nem fazia a cam a. Nunca m e anim ava com nada. Tinha preguiça dem ais de estudar, preguiça dem ais até de brincar, e passava o dia inteiro sem fazer nada.
Mas eu sabia que tinha alguns talentos especiais que outros não tinham . Por exem plo, se alguém traçasse um a linha, eu sem pre conseguia traçar outra linha que a dividisse exatam ente na proporção áurea: 1,618. Meus colegas diziam que eu devia virar carpinteiro, m as eu achava que era m ais do que isso, um a espécie de intuição para núm eros e form as. Só que eu tirava notas tão ruins em m atem ática quanto em outras disciplinas. Eu tinha preguiça dem ais para m e dar ao trabalho de apresentar m eu raciocínio. Nas provas, eu só anotava o resultado final nas respostas. Em m ais ou m enos oitenta ou noventa por cento das vezes eu acertava, m as m esm o assim m inhas notas eram m edíocres.
Quando eu estava no segundo ano do ensino m édio, um professor de m atem ática reparou em m im . Na época, m uitos professores de ensino m édio tinham um currículo acadêm ico im pressionante, j á que durante a Revolução Cultural diversos pesquisadores talentosos acabaram indo dar aula em colégios. Meu professor era um caso desses.
Um dia, ele m e fez ficar depois da aula. Passou m ais ou m enos doze sequências num éricas no quadro-negro e m e pediu para escrever a notação de som atório de cada um a. Eu escrevi as notações de algum as quase no m esm o instante e percebi só de olhar que as outras sequências eram divergentes.
Meu professor pegou um livro, Coletânea de casos de Sherlock Holmes. Abriu um a das histórias — acho que foi “Um estudo em verm elho”. Tem um a cena em que Watson cham a a atenção de Holm es depois de ver um m ensageiro com roupas sim ples no térreo. Holm es diz: “Ah, você se refere ao sargento reform ado dos fuzileiros navais?”. Watson fica im pressionado com a capacidade de Holm es de deduzir a história do hom em , m as Holm es não consegue articular seu raciocínio e precisa refletir um pouco para entender qual foi sua linha de deduções. Ele se baseou na m ão do suj eito, em seus m ovim entos etc. Holm es diz a Watson que isso não tem nada de estranho: a m aioria das pessoas não consegue explicar com o é que elas sabem que dois e dois são quatro.
Meu professor fechou o livro e m e disse:
— Você é exatam ente assim . Sua derivação é tão rápida e instintiva que você não consegue nem dizer com o descobriu a resposta. — Depois, ele m e perguntou: — O que você sente quando vê um a série de núm eros? Estou falando de sensações.
— Qualquer com binação de núm ero parece ter um a form a tridim ensional para m im — respondi. — É claro que não sei descrever o form ato dos núm eros, m as eles aparecem m esm o com o form as.
— E o que acontece quando você vê figuras geom étricas? — perguntou o professor.
— É exatam ente o contrário. Na m inha cabeça, não existem form as geom étricas. Tudo se transform a em núm eros. É que nem quando você olha bem de perto um a foto no j ornal e tudo se transform a em um m onte de pontinhos.
— Você tem m esm o um dom nato para a m atem ática — disse ele —, m as… m as… — O professor acrescentou outros “m as”, andando de um lado para o outro com o se eu fosse um problem a difícil de abordar. — Mas pessoas com o você não dão valor para esse dom . — Depois de pensar por algum tem po, ele pareceu desistir e disse: — Que tal você se inscrever no cam peonato de m atem ática do distrito no m ês que vem ? Não vou ser seu orientador. Com o você é m uito bom , eu só estaria perdendo m eu tem po. Mas, quando der suas respostas, não se esqueça de escrever seu raciocínio.
Então eu participei do cam peonato. Desde o nível distrital até a Olim píada Internacional de Matem ática em Budapeste, tirei o prim eiro lugar em todas. Quando voltei, fui aceito em um program a de m atem ática de um a faculdade de elite sem ter que passar pelas provas de adm issão…
Vocês não estão entediados com esse m eu falatório todo? Ah, ótim o. Bom , para entender o que aconteceu depois, eu preciso contar tudo isso. Aquele professor de m atem ática do ensino m édio tinha razão. Eu não dava valor para o m eu talento. Graduação, m estrado, doutorado… nunca m e esforcei m uito em nenhum deles, m as consegui passar por todos. No entanto, quando m e form ei e voltei ao m undo real, percebi que eu era com pletam ente inútil. Fora m atem ática, eu não sabia de nada. Estava m eio adorm ecido em relação às com plexidades dos relacionam entos entre as pessoas. Quanto m ais eu trabalhava, pior ficava a m inha carreira. Com o tem po, passei a dar aulas em um a faculdade, m as tam bém não consegui ficar m uito. Eu não conseguia levar a carreira docente a sério. Eu escrevia no quadro “fácil de provar”, e ainda assim m eus alunos passavam um bom tem po se esforçando. Mais tarde, quando com eçaram a dispensar os piores professores, fui dem itido.
A essa altura, eu estava farto de tudo. Fiz as m alas e fui para um tem plo budista perdido nas m ontanhas em algum lugar no Sul da China.
Ah, não fui para virar m onge. Preguiça dem ais para isso. Eu só queria ir m orar por algum tem po em um lugar realm ente pacífico. O abade lá era um velho am igo do m eu pai — um grande intelectual, que se tornou m onge depois de idoso. Pelo que m eu pai m e contou, na situação dele, era a única opção. O abade m e convidou para ficar.
— Eu quero achar um j eito pacífico de deixar correr o resto da m inha vida — respondi.
— Este lugar não é pacífico de verdade. Recebem os m uitos turistas e tam bém m uitos peregrinos. Quem é realm ente calm o consegue encontrar a paz até em um a cidade efervescente. Para alcançar esse estado, você precisa se esvaziar.
— Já sou bastante vazio. Fam a e fortuna não significam nada para m im . Muitos m onges neste tem plo são m ais sofisticados do que eu.
O abade balançou a cabeça e respondeu:
— Não, o vazio não é o nada. O vazio é um tipo de existência. Você precisa usar esse vazio existencial para preencher a si m esm o.
Achei aquelas palavras m uito esclarecedoras. Mais tarde, depois de pensar um pouco no assunto, percebi que isso não tinha nada de filosofia budista, estava m ais ligado a algum as teorias da física m oderna. O abade tam bém m e disse que não discutiria budism o com igo. O m otivo era o m esm o do m eu professor da escola: com alguém com o eu, seria só um a perda de tem po.
Naquela prim eira noite, não consegui dorm ir no quarto m inúsculo do tem plo. Não im aginei que aquele refúgio isolado do m undo seria tão desconfortável. O cobertor e o lençol ficaram úm idos com a neblina da m ontanha, e a cam a era m uito dura. Para m e obrigar a dorm ir, tentei seguir o conselho do abade e m e encher de “vazio”.
Na m inha m ente, o prim eiro “vazio” que criei foi a infinitude do espaço. Não havia nada nele, nem luz. Mas logo percebi que esse universo vazio não m e daria paz. Na verdade, ele m e enchia de um a ansiedade generalizada, com o se eu fosse um hom em que tentava se segurar em qualquer coisa para não m orrer afogado.
Então criei um a esfera para m im nesse espaço infinito: não m uito grande, m as que tivesse m assa. Só que m eu estado m ental não m elhorou. A esfera flutuava no m eio do “vazio” — no espaço infinito, qualquer lugar podia ser o m eio. O universo não continha nada que pudesse agir na esfera, e ela não podia agir em nada. Ficava lá, im óvel, eterna, com o um a releitura perfeita da m orte.
Criei um a segunda esfera de m assa igual à da prim eira. As duas tinham um a superfície com pletam ente reflexiva. Cada um a refletia a im agem da outra, exibindo a única existência do universo além de si m esm a. Mas a situação não m elhorou m uito. Se as esferas não tivessem nenhum m ovim ento inicial — isto é, se não fossem em purradas por m im —, elas logo seriam atraídas pelas respectivas forças gravitacionais. As duas esferas então continuariam j untas e perm aneceriam im óveis, um sím bolo da m orte. Se tivessem um m ovim ento inicial e não colidissem , ficariam orbitando um a à outra sob a influência da gravidade. Independente das condições iniciais, as revoluções acabariam se estabilizando e se tornando im utáveis: a dança da m orte.
Então introduzi um a terceira esfera e, para m inha surpresa, a situação m udou com pletam ente. Com o j á disse, na m inha cabeça, qualquer figura geom étrica se transform a em núm eros. Todos os universos (o sem esferas, o com um a e o com duas) apareciam para m im com o um a ou algum as equações, com o um punhado de folhas solitárias no final do outono. Mas essa terceira esfera infundiu o “vazio” de vida. As três esferas, ao receberem um m ovim ento inicial, realizavam um a série com plexa e aparentem ente aleatória de m ovim entos. Parecia um a chuva torrencial incessante de equações descritivas.
De repente, adorm eci. As três esferas continuaram dançando nos m eus sonhos, um a dança sem padrões nem repetições. Porém , nas profundezas da m inha m ente, a dança possuía um ritm o, só que o período de repetição era infinitam ente longo. Isso m e fascinou. Eu queria descrever o período inteiro, ou pelo m enos um a parte.
No dia seguinte, continuei pensando nas três esferas que dançavam no “vazio”. Eu nunca tinha ficado tão concentrado. Chegou ao ponto de um dos m onges perguntar ao abade se eu tinha problem as m entais. O abade riu e disse:
— Não se preocupe. Ele encontrou o vazio.
Sim , eu havia encontrado o vazio. Agora poderia ficar em paz em um a cidade efervescente. Até m esm o no m eio de um a m ultidão barulhenta, m eu coração continuaria com pletam ente tranquilo. Pela prim eira vez, gostei de m atem ática. Estava m e sentindo com o um libertino que vivia saltando de m ulher em m ulher até de repente se dar conta de que está apaixonado.
Os princípios da física por trás do problem a dos três corpos* são m uito sim ples. É sobretudo um problem a m atem ático.
— Você não ouviu falar de Henri Poincaré? — perguntou Wang Miao,
interrompendo Wei.**
Na época, não. Sim , eu sei que um a pessoa que estuda m atem ática deveria saber de um gênio com o Poincaré, m as eu não idolatrava gênios e não queria m e tornar um , então não conhecia o trabalho dele. Porém , m esm o que tivesse conhecido, eu teria continuado insistindo no problem a dos três corpos.
Parece que todo m undo acredita que Poincaré provou que o problem a dos três corpos não tem solução, m as acho que as pessoas se enganaram . Ele só provou que havia um a dependência sensível em condições iniciais e que o sistem a de três corpos não podia ser solucionado por integrais. Mas essa sensibilidade não é o m esm o que com pleta indeterm inabilidade. A questão é que a solução contém um a quantidade m aior de form as diferentes. É preciso criar um novo algoritm o.
Naquele tem po, eu só pensava em um a coisa. Vocês j á ouviram falar do m étodo Monte Carlo? Ah, é um program a de com putador usado com frequência para calcular a área de form as irregulares. Para ser m ais específico: o program a coloca a figura de interesse em um a figura de área conhecida, com o um círculo, e a golpeia várias vezes com bolinhas m inúsculas em pontos aleatórios, sem nunca acertar o m esm o lugar duas vezes. Depois de um a grande quantidade de bolas, a proporção de bolas que cabem na form a irregular em com paração com a quantidade total de bolas usadas para golpear o círculo vai resultar na área da form a. É claro que, quanto m enores forem as bolas usadas, m ais preciso será o resultado.
Em bora o m étodo sej a sim ples, dem onstra com o é m atem aticam ente possível que a força bruta aleatória supere a lógica precisa. É um a abordagem num érica que usa quantidade para obter qualidade. Essa é a m inha estratégia para resolver o problem a dos três corpos. Estudo o sistem a um m om ento por vez. A cada m om ento, os vetores de m ovim ento das esferas podem se com binar em form as infinitas. Trato cada com binação com o um ser vivo. O segredo é estabelecer algum as regras: que com binações de vetores de m ovim ento são “saudáveis” e “benéficas” e que com binações são “prej udiciais” e “nocivas”. As prim eiras levam um a vantagem para a sobrevivência, ao passo que as outras são preteridas. A com putação em seguida elim ina as com binações preteridas e preserva as que têm vantagem . A com binação final que persiste é a previsão correta para a configuração seguinte do sistem a, o m om ento seguinte no tem po.
— É um algoritmo evolucionário — disse Wang.
— Que bom que eu convidei você. — Shi Qiang fez um gesto com a cabeça para Wang.
Sim . Só fui conhecer esse term o m uito m ais tarde. A característica determ inante desse algoritm o é que exige um poder de com putação ultra-alto. Para o problem a dos três corpos, os com putadores que existem hoj e não bastam .
Na época, no tem plo, eu não tinha nem um a calculadora. Precisava ir até a secretaria para pegar um livro-caixa em branco e um lápis. Com ecei a elaborar o m odelo m atem ático no papel. Tive que trabalhar m uito e logo enchi m ais de um a dúzia de livros-caixa. Os m onges encarregados da contabilidade não ficaram m uito felizes, m as, com o era vontade do abade, arranj aram m ais papel e caneta para m im . Eu escondia os cálculos concluídos em baixo do travesseiro e j ogava as folhas de rascunho no incensário do pátio.
Certa noite, um a m oça entrou de repente no m eu quarto. Foi a prim eira vez que um a m ulher aparecia onde eu m orava. Ela estava segurando uns pedaços de papel com as bordas queim adas, as folhas de rascunho que eu tinha j ogado fora.
— Disseram que isto aqui é seu. Você está estudando o problem a dos três corpos? — Por trás dos óculos grandes, os olhos dela pareciam estar pegando fogo.
Fiquei surpreso com a m ulher. Eu não estava usando m atem ática convencional, e m inhas derivações davam saltos grandes. Mas o fato de que ela tivesse conseguido identificar m eu tem a de estudo a partir de um punhado de rascunhos indicava que ela possuía um talento incom um para a m atem ática e que, com o eu, se dedicava m uito ao problem a dos três corpos.
Eu não tinha um a boa im pressão dos turistas e peregrinos. Os turistas não faziam ideia do que estavam visitando, só ficavam correndo de um lado para o outro e tirando fotos. Já os peregrinos pareciam ainda m ais pobres que os turistas, com o se vivessem em um estado letárgico, com o intelecto inibido. Só que aquela m ulher era diferente. Ela parecia um a acadêm ica. Mais tarde, descobri que havia chegado com um grupo de turistas j aponeses.
Sem esperar eu responder, ela acrescentou:
— Sua abordagem é brilhante. Vínham os procurando um m étodo assim , que pudesse transform ar o com plicado problem a dos três corpos em um a questão de com putação m aciça. Claro, para isso seria necessário um com putador m uito potente.
Falei a verdade para ela:
— Mesm o se usássem os todos os com putadores do m undo, não seria suficiente.
— Mas você precisa ter um am biente de pesquisa adequado, e não tem nada disso por aqui. Posso conseguir um supercom putador para você e tam bém um m inicom putador. Venha em bora j unto com igo am anhã de m anhã.
A m ulher, claro, era Shen Yufei. Assim com o hoj e, era autoritária e de poucas palavras, m as na época era m ais atraente. De m odo geral, sou um a pessoa fria. Eu tinha m enos interesse em m ulheres do que os m onges à m inha volta. Só que com aquela m ulher, que não se encaixava nas ideias convencionais de fem inilidade, era diferente: eu a achava atraente. Com o não tinha m ais nada para fazer m esm o, concordei.
Naquela noite, não consegui dorm ir. Coloquei um a cam isa e saí para o pátio. Ao longe, avistei Shen no salão pouco ilum inado do tem plo. Ela estava aj oelhada na frente do Buda, com varetas de incenso acesas, e todos seus gestos pareciam piedosos. Eu m e aproxim ei sem fazer barulho e, quando cheguei até a porta do tem plo, ouvi Shen m urm urando um a oração:
— Buda, por favor, aj ude m eu Senhor a escapar do m ar de infortúnio.
Achei que tinha ouvido errado, m as ela repetiu a oração.
— Buda, por favor, aj ude m eu Senhor a escapar do m ar de infortúnio.
Eu não entendia de religião e não m e interessava por nenhum a, m as realm ente não conseguia im aginar nenhum a oração m ais estranha que aquela.
— O que você está dizendo? — perguntei, de repente.
Ela m e ignorou. Ficou de olhos quase fechados, com as m ãos j untas na frente do corpo, com o se estivesse vendo a oração subir com a fum aça do incenso até o Buda. Depois de um bom tem po, ela enfim abriu os olhos e se virou para m im .
— Vá dorm ir. Precisam os levantar cedo.
Ela nem olhou para m im .
— Esse “Senhor” que você m encionou faz parte do budism o? — indaguei.
— Não.
— Então…?
Shen não disse nada, só saiu às pressas. Não tive chance de fazer m ais nenhum a pergunta. Repeti a oração para m im m esm o várias vezes, e ela parecia ficar ainda m ais estranha. Depois de um tem po, fiquei assustado. Corri até o quarto do abade e bati à porta.
— O que significa quando alguém reza para o Buda para aj udar outro Senhor? — E contei os detalhes do que tinha visto.
O abade olhou para o livro que estava em suas m ãos e não disse nada: estava pensando no que eu falei, não lendo. Depois, disse:
— Por favor, preciso ficar sozinho um pouco. Preciso refletir.
Eu m e virei e saí, sabendo que aquilo não era com um . O abade era m uito erudito. Norm alm ente, conseguia responder qualquer pergunta sobre religião, história e cultura sem precisar refletir. Fiquei esperando do lado de fora do quarto m ais ou m enos uns cinco m inutos, e então o abade m e cham ou.
— Acho que só existe um a possibilidade. — Ele estava com um a expressão grave.
— O quê? O que pode ser? Será que existe algum a religião cuj a divindade, para ser salva, precisa que os devotos rezem aos deuses de outras religiões?
— O Senhor dela existe de verdade.
Essa resposta m e deixou confuso.
— Então… o Buda não existe?
Assim que falei isso, m e dei conta de com o soou grosseiro. Pedi desculpas.
O abade balançou a m ão devagar para m im .
— Já falei, nós dois não podem os conversar sobre o budism o. A existência do Buda é de um tipo que não pode ser com preendida. Mas o Senhor de que ela estava falando existe de um j eito que é possível com preender… Não posso falar m ais nada sobre esse assunto. Só posso aconselhar que você não vá em bora com ela.
— Por quê?
— É só um a sensação. Estou com a sensação de que, por trás dela, existem coisas que nem eu nem você som os capazes de im aginar.
Saí do quarto do abade, atravessei o tem plo e cam inhei até o m eu quarto. Era noite de lua cheia. Olhei para cim a, e a lua parecia um olho prateado estranho m e encarando, carregado de um a frieza perturbadora.
No dia seguinte, fui em bora com Shen — afinal, eu não podia ficar no tem plo para sem pre. Mas não achei que, nos anos seguintes, eu acabaria tendo a vida dos m eus sonhos. Shen cum priu a prom essa. Eu tinha um m inicom putador e um am biente confortável. Até saí do país algum as vezes para usar supercom putadores — não em esquem a de tem po com partilhado, m as com o processador todo só para m im . Ela tinha m uito dinheiro, m as eu não sabia de onde vinha.
Mais tarde, a gente se casou. Não havia m uito am or ou paixão, só conveniência m útua. Nós dois queríam os realizar algum a coisa. Quanto a m im , os anos seguintes poderiam ser descritos com o um único dia. O tem po passou tranquilam ente para m im . Na casa dela, eu tinha tudo de m ão beij ada e, com o não precisava m e preocupar com com ida ou roupas, podia m e dedicar ao estudo do problem a dos três corpos. Shen nunca se m etia na m inha vida. A garagem tinha um carro, que eu podia dirigir para qualquer lugar. Com certeza ela nem teria se im portado se eu tivesse levado outra m ulher para casa. Shen só prestava atenção na m inha pesquisa, e o único assunto que a gente discutia no dia a dia era o problem a dos três corpos.
— Você sabe o que mais Shen anda fazendo? — perguntou Shi Qiang.
— Só a Fronteiras da Ciência. Ela está sempre ocupada com isso. Muita gente aparece todo dia.
— Ela não convidou você para participar?
— Nunca. Ela nem fala sobre isso comigo. Eu também não ligo. Esse é o meu jeito. Não ligo para nada. Ela sabe e diz que eu sou um homem indolente, sem nenhuma motivação de verdade. A organização não combina comigo e acabaria interferindo na minha pesquisa.
— Você fez algum avanço no problema dos três corpos? — perguntou Wang.
Em com paração com a situação geral da área, m eu avanço poderia ser considerado grande. Alguns anos atrás, Richard Montgom ery, da Universidade da Califórnia em Santa Cruz, e Alain Chenciner, da Universidade Paris Diderot, descobriram outra solução periódica estável para o problem a dos três corpos. A partir de condições iniciais adequadas, os três corpos vão correr um atrás do outro ao longo de um a curva fixa em form a de oito. Depois disso, todos com eçaram a tentar encontrar essas configurações estáveis especiais, e cada descoberta era recebida com alegria. Só foram encontradas um as três ou quatro configurações dessas.
Mas m eu algoritm o evolucionário j á revelou m ais de cem configurações estáveis. O traçado das órbitas delas encheria um a galeria de arte pós-m oderna, m as m eu obj etivo não é esse. A verdadeira solução para o problem a dos três corpos é criar um m odelo m atem ático que perm ita a previsão de todos os m ovim entos do sistem a de três corpos, sej a qual for a configuração inicial com vetores conhecidos. É isso que Shen Yufei desej a tam bém .
Mas m inha vida pacífica acabou ontem .
— Esse é o crim e que você está denunciando? — perguntou Shi Qiang.
— Sim . Um hom em ligou ontem e disse que, se eu não interrom pesse m inha pesquisa, eu seria m orto.
— Quem era?
— Não sei.
— Núm ero de telefone?
— Não sei. O identificador de cham adas não m ostrou.
— Mais algum a inform ação relevante?
— Não sei.
Da Shi riu e j ogou a guim ba do cigarro em um cinzeiro.
— Você ficou falando sem parar e, no fim das contas, a única coisa que tinha para relatar era um a frase e um punhado de “não sei”?
— Se eu não tivesse m e prolongado, vocês teriam com preendido a im portância dessa ligação? Por sinal, se fosse só isso, eu nem teria vindo aqui. Sou preguiçoso, lem bram ? Aconteceu outra coisa, no m eio da noite, não sei se hoj e ou ontem . Eu estava deitado, oscilando entre o sono e a vigília, quando senti algo frio se m exendo no m eu rosto. Abri os olhos, vi Shen Yufei e quase m orri de susto.
— O que tem de tão apavorante ver sua esposa no m eio da noite?
— Ela estava m e encarando de um j eito que eu nunca tinha visto antes. A luz que vinha do lado de fora da casa estava pegando no rosto dela, e Shen parecia um fantasm a. Estava com algum a coisa na m ão: um a arm a! Ela passou o cano na frente do m eu rosto e disse que eu precisava continuar trabalhando no problem a dos três corpos. Senão, ela m e m ataria.
— Ah, agora está ficando interessante.
Da Shi fez um gesto satisfeito com a cabeça e acendeu outro cigarro.
— Interessante? Escute, eu não tenho para onde ir. Foi por isso que procurei vocês.
— Diga o que exatam ente ela falou para você.
— Ela disse: “Se você conseguir resolver o problem a dos três corpos, vai ser o salvador do m undo. Se parar agora, será um pecador. Se alguém viesse a salvar ou destruir a raça hum ana, sua possível contribuição ou pecado seria exatam ente duas vezes m aior que a dele”.
Da Shi soltou um a nuvem densa de fum aça e ficou encarando Wei Cheng até ele desviar os olhos. Pegou um bloco e um a caneta da m esa bagunçada.
— Você queria que nós tom ássem os notas, não é? Repita o que acabou de falar.
Wei obedeceu.
— O que ela falou é m esm o estranho — disse Wang. — O que ela quis dizer com exatam ente duas vezes m aior?
Wei piscou.
— Acho que é bastante sério. Quando cheguei, o policial de plantão m e m andou im ediatam ente para cá. Parece que você j á estava de olho em Shen e em m im .
Da Shi assentiu com a cabeça.
— Deixa eu fazer outra pergunta: você acha que a arm a que sua m ulher estava segurando era de verdade? — Ele percebeu que Wei não sabia responder. — Você sentiu cheiro de lubrificante?
— Sim , tinha m esm o um cheiro de óleo.
— Ótim o. — Da Shi, que estava sentado na escrivaninha, pulou para o chão. — Finalm ente tem os um a brecha. Suspeita de posse ilegal de arm as j á dá para j ustificar um m andado de busca e apreensão. Vou deixar a papelada para am anhã, porque tem os que andar rápido. — Ele se virou para Wang. — Não tem descanso. Preciso que você venha j unto e preste um pouco m ais de consultoria. — E então se virou para Xu Bingbing, que havia perm anecido calada o tem po inteiro. — Bingbing, agora estou só com dois hom ens de plantão, o que não é o suficiente. Sei que a Divisão de Segurança de Inform ações não costum a ir a cam po, m as preciso que você venha tam bém .
Xu assentiu, feliz de sair da sala cheia de fum aça.
Além de Da Shi e Xu, a equipe encarregada de executar a busca e apreensão era com posta por Wang Miao, Wei Cheng e outros dois policiais da Divisão de Crim es. Os seis rasgaram a escuridão que precede a alvorada em duas viaturas, seguindo para o bairro de Wei, na periferia da cidade.
Xu e Wang estavam no banco traseiro. Assim que o carro deu partida, ela m urm urou para Wang:
— Professor Wang, sua reputação no Três Corpos é m uito alta.
Alguém falou de Três Corpos no mundo real! Wang ficou em polgado e logo sentiu afinidade com a j ovem policial.
— Você j oga?
— Sou responsável por m onitorar e rastrear o j ogo. Um a tarefa desagradável.
— Pode m e falar da história do j ogo? — perguntou Wang, ansioso. — Quero m uito saber.
Com a luz fraca que entrava pela j anela do carro, Wang viu Xu abrir um sorriso m isterioso.
— A gente tam bém quer saber. Mas todos os servidores ficam situados no exterior. Com o o sistem a e o firewall são m uito seguros, fica difícil invadir. Não sabem os m uito, m as tem os certeza de que o foco não está no lucro. O software é de um a qualidade incom um , bem elevada, e a quantidade de inform ação contida nele é ainda m ais incom um . Nem parece um j ogo.
— Já apareceu algum … — Wang escolheu as palavras certas com cuidado. — ... indício sobrenatural?
A noite de Wang fora cheia de coincidências. Ele tinha sido cham ado para discutir o problem a dos três corpos com Wei Cheng im ediatam ente após solucionar o j ogo Três Corpos. E agora Xu estava dizendo que ela m onitorava o j ogo. Algo não estava cheirando bem .
— Acho que não. Muitas pessoas no m undo inteiro participaram do desenvolvim ento do j ogo. O m étodo de colaboração não parece diferente de outras práticas populares de código aberto, com o a usada para fazer o sistem a operacional Linux. Mas com certeza eles estão utilizando algum as ferram entas avançadas. Agora, quanto ao conteúdo do j ogo, vai saber de onde tiraram … Parece m esm o um pouco… sobrenatural, com o você disse. Porém, ainda acreditam os na fam osa regra do capitão Shi: tudo isso deve ser obra de pessoas. Nossos esforços de rastream ento são eficazes, e terem os os resultados em pouco tem po.
A j ovem não sabia m entir direito, e seu últim o com entário fez Wang perceber que ela estava om itindo grande parte da verdade.
— Essa “regra” é fam osa, é? — Wang olhou para Da Shi, no banco do m otorista.
Quando chegaram à casa de Shen, o sol ainda não tinha nascido. Era m ais ou m enos o m esm o horário em que Wang havia visto Shen j ogar Três Corpos. Um a j anela estava acesa no segundo andar, m as todas as outras estavam escuras.
Assim que saiu do carro, Wang ouviu barulhos que vinham do andar de cim a. Parecia algo batendo na parede. Da Shi, que tam bém havia acabado de sair do carro, ficou alerta na m esm a hora. Ele chutou o portão do quintal e entrou correndo na casa, com um a agilidade surpreendente para seu tam anho, sendo seguido de perto pelos três colegas.
Wang e Wei tam bém correram para dentro da casa. Eles subiram a escada, entraram no quarto com a luz acesa e pisaram em um a poça de sangue. Shen estava caída no m eio do quarto, e ainda j orrava sangue dos dois ferim entos à bala em seu peito. Um a terceira bala tinha atravessado a sobrancelha esquerda, deixando o rosto dela todo ensanguentado. Não m uito longe do corpo havia um a arm a no m eio de um a poça verm elha.
Quando Wang entrou, Da Shi e um dos outros policiais saíram às pressas e entraram no quarto escuro do outro lado do corredor. A j anela estava aberta, e Wang ouviu o barulho de um carro dando partida do lado de fora. Um policial com eçou a telefonar para alguém . Xu Bingbing ficou um pouco afastada, observando ansiosa. Assim com o Wang e Wei, ela provavelm ente nunca havia visto um a cena com o aquela.
Um m om ento depois, Da Shi voltou. Ele guardou a arm a no coldre e disse para o policial com o telefone:
— Um Santana preto com um hom em sozinho. Não consegui ver a placa. Diga para bloquearem todos os acessos ao anel rodoviário S50. Merda. Ele talvez até consiga escapar.
Da Shi olhou ao redor e viu os buracos de bala na parede. Deu um a conferida nos cartuchos caídos no chão e acrescentou:
— O hom em deu cinco tiros e acertou três. Ela disparou duas vezes e errou as duas.
Ele então se abaixou para exam inar o corpo com o outro policial. Xu ficou afastada, dando um a olhada de relance em Wei Cheng, que estava a seu lado. Da Shi tam bém olhou para ele.
O rosto de Wei tinha um traço de choque e um traço de pesar, m as só um traço. A costum eira expressão neutra continuava estam pada em seu sem blante. Ele estava m uito m ais calm o que Wang.
— Você não parece estar m uito abalado — disse Da Shi para Wei. — Eles provavelm ente vieram aqui para m atá-lo.
Wei abriu um sorriso pálido.
— O que é que eu vou fazer? Até hoj e, ainda não sei nada sobre ela. Cansei de falar para ela levar um a vida sim ples. Estou pensando no conselho que o abade m e deu naquela noite. Mas… ah.
Da Shi se levantou e estacou na frente de Wei. Ele pegou um cigarro e acendeu.
— Estou achando que você ainda não contou tudo o que sabe.
— Algum as coisas que eu tinha preguiça dem ais de falar.
— Então é m elhor você se esforçar m ais dessa vez!
Wei pensou por um instante e respondeu:
— Hoj e… não, ontem à tarde… ela discutiu com um hom em na sala. Era aquele Pan Han, o am bientalista fam oso. Os dois j á haviam discutido outras vezes antes, em j aponês, com o se tivessem m edo de que eu bisbilhotasse. Mas ontem não deram a m ínim a e discutiram em chinês. Escutei alguns trechos.
— Tente dizer o que exatam ente você ouviu.
— Certo. Pan Han disse: “Em bora pareça que estam os na m esm a barca, na verdade som os inim igos irreconciliáveis”. Shen disse: “Sim , você está tentando usar o poder de nosso Senhor contra a hum anidade”. Pan disse: “Até que sua opinião faz algum sentido. Querem os que nosso Senhor venha a este m undo para punir aqueles que há m uito m erecem castigo. Só que você está trabalhando para im pedir a vinda de nosso Senhor, e isso não podem os tolerar. Se você não parar por bem , obrigaremos você a parar por m al!”. Shen disse: “O com ando estava cego ao perm itir que você entrasse para a organização!”. Pan disse: “Falando nisso, você sabe se o com ando está do lado dos adventistas ou dos redentistas? O com ando quer que a hum anidade sej a elim inada ou salva?”. Essas palavras de Pan calaram Shen por um tem po, e depois os dois não discutiram m ais tão alto. Não escutei m ais nada.
— Com o era a voz do hom em que fez a am eaça para você no telefone?
— Você quer saber se a voz parecia ser de Pan Han? Não sei. Ele estava falando m uito baixo, não sei m esm o dizer.
Chegaram diversas outras viaturas da polícia, com a sirene berrando. Um grupo de policiais com luvas brancas subiu com câm eras, e a casa se encheu de agitação. Da Shi disse para Wang voltar para casa e descansar um pouco.
Em vez disso, Wang entrou na sala com o m inicom putador para falar com Wei.
— Você pode m e descrever por alto seu algoritm o evolucionário do problem a dos três corpos? Eu quero… apresentá-lo a algum as pessoas. Sei que m eu pedido é repentino. Se não puder, não se preocupe.
Wei pegou um CD e entregou para Wang.
— Está tudo aí: o m odelo inteiro e outros docum entos. Por favor, publique em seu nom e. Seria um a grande aj uda.
— Não, não! Com o é que eu faria um a coisa dessas?
Wei apontou para o disco na m ão de Wang e disse:
— Professor Wang, você m e cham ou a atenção desde a prim eira vez que veio aqui. É um hom em bom , um hom em com noção de responsabilidade. É por isso que aconselho a ficar longe disso. O m undo está prestes a m udar. Todos deveriam procurar viver o resto da vida em paz. Seria m elhor. Não se preocupe m uito com outras questões. Não adianta nada m esm o.
— Você parece saber ainda m ais do que contou.
— Eu passei todos os dias com ela. É im possível não desconfiar.
— Então por que não fala para a polícia?
Wei deu um sorriso de desdém .
— A polícia é inútil. Mesm o se Deus estivesse aqui, não adiantaria nada. Toda a raça hum ana chegou ao ponto em que ninguém está escutando nossas orações.
Wei estava perto de um a j anela com vista para o leste. Do outro lado do vidro, para além da paisagem distante da cidade, o céu estava se ilum inando com os prim eiros raios da aurora. Por algum m otivo, a luz levou Wang a se lem brar da estranha alvorada que ele via sem pre que entrava em Três Corpos.
— Na verdade, não sou tão desapegado. Faz alguns dias que não consigo dorm ir à noite. Todo dia de m anhã, quando vej o o sol nascer, tenho a sensação de estar vendo o pôr do sol. — Ele se virou para Wang e, depois de um longo silêncio, acrescentou: — E tudo porque Deus, ou o Senhor de quem ela falava, é incapaz de proteger até a Si m esm o.
* O m ovim ento de três corpos, influenciado m utuam ente pelas atrações gravitacionais de cada um , é um problem a tradicional da m ecânica clássica que surgiu com o um questionam ento natural no estudo da m ecânica celeste. Muitos pensadores trabalharam nele desde o século XVI. Euler, Lagrange e pesquisadores m ais recentes (com o auxílio de com putadores) encontraram soluções para casos específicos do problem a dos três corpos. Mais tarde, Karl F. Sundm an provou a existência de um a solução geral para o problem a dos três corpos na form a de um a série convergente infinita, m as essa série converge a um ritm o tão lento que é praticam ente inútil. (N. A.)
** Poincaré dem onstrou que o problem a dos três corpos apresentava um a dependência sensível em condições iniciais, algo que hoj e consideram os que sej a característica de um com portam ento caótico.