O Problema dos Três Corpos

Cixin Liu · Capítulo 6 de 36

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O Problema dos Três Corpos

6. O franco-atirador e o criador de aves

6. O FRANCO-ATIRADOR E

O CRIADOR DE AVES

 

O dia seguinte era o com eço do fim de sem ana. Wang se levantou cedo e saiu de bicicleta. Com o fotógrafo am ador, seus tem as preferidos eram cenas de natureza sem presença hum ana. No entanto, com o j á estava na m eia-idade, não tinha m ais energia para se entregar a passeios tão indulgentes e só tirava fotos de cenas urbanas.

De m odo consciente ou não, costum ava escolher cantos da cidade que retivessem algum aspecto do m undo selvagem : um lago ressecado em um parque, a terra recém -revirada em um canteiro de obras, um pouco de m ato tentando brotar das rachaduras de um pedaço de concreto. Para elim inar a extravagância de cores da cidade no fundo, ele só usava film e preto e branco. De m aneira um tanto inesperada, havia desenvolvido um estilo próprio e cham ado um pouco de atenção. Seus trabalhos foram escolhidos para duas exposições, e Wang fazia parte da Associação de Fotógrafos. Sem pre que saía para tirar fotos, pegava a bicicleta e circulava pela cidade em busca de inspiração e com posições cativantes. Com frequência, passava o dia inteiro fora.

Naquela m anhã, Wang se sentia estranho. Em bora seu estilo fotográfico tendesse para o clássico, calm o e digno, parecia que naquela oportunidade ele não conseguiria entrar no clim a necessário para com posições desse tipo. Em sua cabeça, a cidade, despertando do sono, parecia construída sobre areia m ovediça. A estabilidade era ilusória. Wang havia sonhado com aquelas duas bolas de sinuca a noite inteira. Elas voavam por um espaço negro sem form ar qualquer padrão, e a bola preta desaparecia no fundo escuro e só revelava sua existência de vez em quando, ao obscurecer a branca.

Será que a natureza fundamental da matéria poderia mesmo ser a ausência de leis? Será que a estabilidade e a ordem do mundo não passam de um equilíbrio dinâmico temporário ocorrido em um canto do universo, um redemoinho efêmero em uma corrente caótica?

Quando voltou a si, percebeu que estava ao pé do recém -concluído edifício da Televisão Central da China. Ele parou no acostam ento e levantou a cabeça para contem plar a gigantesca torre em form ato de A, tentando retom ar a sensação de estabilidade. Seu olhar acom panhou a ponta reta do edifício, cintilando na luz da m anhã e apontando para as profundezas azuis e infinitas do céu. De repente, algum as palavras apareceram na sua m ente: “franco-atirador” e “criador de aves”.

Quando os integrantes da Fronteiras da Ciência debatiam a física, usavam m uito a abreviação “FC”. Não estavam falando de “ficção científica”, e sim das expressões “franco-atirador” e “criador de aves”. Era um a referência a duas hipóteses, am bas relacionadas com a natureza fundam ental das leis do universo.

Na hipótese do franco-atirador, um atirador com petente dispara contra um alvo, criando furos de dez em dez centím etros. Agora, digam os que a superfície do alvo sej a habitada por criaturas inteligentes bidim ensionais. Seus cientistas, ao observar o universo, descobrem um a grande lei: “Existe um furo no universo a cada dez centím etros”. Eles interpretaram equivocadam ente o resultado do capricho m om entâneo do franco-atirador, achando que fosse um a lei perm anente do universo.

A hipótese do criador de aves, por sua vez, tem um quê de história de terror. Todo dia de m anhã, um criador de perus aparece para alim entar as aves. Um peru cientista, após observar esse padrão se repetir sem alterações durante quase um ano, faz a seguinte descoberta: “Todo dia de m anhã, às onze, a com ida chega”. Na m anhã da véspera de Natal, o cientista anuncia essa lei para os dem ais perus. Porém , às onze da m anhã desse dia, a com ida não chega: o criador de perus aparece e m ata todas as aves.

Wang sentiu a estrada sob seus pés se deslocar com o areia m ovediça. O edifício em form a de A pareceu balançar e estrem ecer. Ele logo voltou os olhos para a rua.

Para se livrar da ansiedade, Wang se forçou a usar todo o rolo de film e. Ele voltou para casa antes do alm oço. Sua esposa j á havia saído com o filho deles e ficaria fora por algum tem po. Norm alm ente, Wang teria se apressado para revelar o film e, m as naquele dia estava sem ânim o. Após um alm oço rápido e sim ples, decidiu tirar um cochilo. Com o não havia dorm ido bem na noite anterior, quando acordou j á eram quase cinco da tarde. Só então se lem brou do rolo de film e e entrou na apertada sala escura que tinha sido convertida a partir de um closet.

Depois de revelar o film e, Wang com eçou a olhar os negativos para ver se algum a das fotos m erecia am pliação. Porém , viu algo estranho logo na prim eira im agem , em um a foto de um gram ado pequeno ao lado de um shopping grande. O centro do negativo continha um a linha de m arcas brancas m inúsculas que, vistas m ais de perto, eram na verdade núm eros: 1200:00:00.

A segunda foto tam bém tinha núm eros: 1199:49:33. Assim com o a terceira: 1199:40:18.

Na verdade, todas as fotos do rolo tinham núm eros parecidos, até a trigésim a sexta (e últim a) im agem : 1194:16:37.

O prim eiro pensam ento de Wang foi que havia algo errado com o film e. A câm era usada era um a Leica M2 de 1988 — totalm ente analógica, de m odo que era im possível o aparelho acrescentar um a m arcação de data. Com a lente excepcional e os m ecanism os internos sofisticados, ainda era considerada um a excelente câm era profissional até m esm o para padrões digitais.

Ao reexam inar os negativos, Wang descobriu outra peculiaridade com os núm eros: eles pareciam se adaptar ao fundo. Quando o fundo era preto, os núm eros eram brancos, e vice-versa. A m udança parecia ter sido concebida para m axim izar o contraste dos núm eros em favor da visibilidade. No m om ento em que Wang exam inava o décim o sexto negativo, seu coração j á estava acelerado, e ele sentiu um calafrio subindo pela espinha.

A foto era de um a árvore m orta na frente de um m uro antigo, m anchado, com partes pretas e brancas. Em um fundo assim , seria difícil ler até em cores. No entanto, na foto, os núm eros assum iram um a posição vertical para acom panhar a curva do tronco da árvore, possibilitando que os dígitos brancos aparecessem contra a cor escura da árvore m orta, com o se fossem um a serpente rastej ante.

Wang com eçou a analisar o padrão m atem ático dos núm eros. À prim eira vista, achou que fosse algum a sequência predeterm inada, m as a diferença entre os núm eros não era constante. Em seguida, im aginou que os núm eros representavam o tem po em form a de horas, m inutos e segundos. Pegou seu registro de fotografias, que m arcava a hora exata em que cada foto tinha sido tirada, até os segundos, e descobriu que a diferença entre os núm eros de duas fotos consecutivas correspondia à diferença de tem po entre as horas em que elas foram batidas.

Um a contagem regressiva.

A contagem com eçava com 1200 horas. E agora restavam cerca de 1194 horas, pouco m enos de cinquenta dias.

Agora? Não, no momento em que tirei a última foto. Será que a contagem continua?

Wang foi até a sala escura, pôs um rolo novo na Leica e com eçou a tirar fotos aleatórias. Saiu até para a varanda a fim de dar alguns cliques externos. Depois, retirou o film e e voltou para a sala escura. No film e revelado, os núm eros voltaram a aparecer em cada negativo com o se fossem fantasm as. O prim eiro estava m arcado 1187:27:39. A diferença equivalia ao tem po passado entre a últim a foto do rolo anterior e a prim eira do novo. Depois disso, os núm eros dim inuíam a um a taxa de três ou quatro segundos por im agem : 1187:27:35, 1187:27:31, 1187:27:27, 1187:27:24… tal qual os intervalos das fotos rápidas que havia tirado.

A contagem continuava.

Wang colocou m ais um rolo na m áquina. Tirou várias fotos apressadam ente, inclusive algum as com a tam pa da lente fechada. Quando estava tirando o rolo da m áquina, sua m ulher e o filho chegaram . Antes de entrar na sala escura para revelar o film e, ele colocou outro rolo na Leica e pediu para a m ulher.

— Aqui, term ine este rolo para m im .

— O que devo fotografar? — perguntou a esposa, encarando o m arido, espantada. Wang nunca havia perm itido que ninguém encostasse em sua câm era, em bora para ela e para o filho aquilo não despertasse nenhum interesse. Aos olhos deles, era só um a antiguidade sem graça que custava m ais de vinte m il y uans.

— Tanto faz. Tire foto do que quiser. — Wang enfiou a câm era nas m ãos dela e se m eteu na sala escura.

— Tudo bem . Dou Dou, que tal eu tirar um as fotos suas? — A esposa dele virou a lente para o filho.

De repente, Wang vislum brou a im agem dos dígitos fantasm agóricos estam pada no rosto de seu filho, com o a corda de um a forca. Sentiu um arrepio.

— Não, isso não. Tire foto de outra coisa.

O obturador clicou: a esposa havia tirado a prim eira foto.

— Por que não consigo apertar de novo? — perguntou ela. Wang ensinou a esposa a rodar o film e para avançá-lo.

— Assim . Você precisa fazer isso depois de cada foto.

Em seguida, ele voltou para dentro da sala escura.

— Muito com plicado! — A esposa de Wang, m édica, não conseguia entender por que alguém usaria um equipam ento tão caro e obsoleto quando havia no m ercado opções de câm eras digitais de dez a vinte m egapixels. Sem falar que o m arido usava film e preto e branco!

Depois de revelar o terceiro film e, Wang levantou a película na frente da luz verm elha. Viu que a contagem regressiva fantasm agórica continuava. Os núm eros apareciam com clareza em todas as fotos aleatórias, incluindo as poucas tiradas com a lente tam pada: 1187:19:06, 1187:19:03, 1187:18:59, 1187:18:56…

Sua esposa bateu à porta da sala escura e disse que tinha term inado de tirar as fotos. Wang abriu a porta e pegou a câm era. Suas m ãos trem iam enquanto ele tirava o rolo. Wang ignorou o olhar de preocupação da m ulher, voltou com o film e para dentro da sala escura e fechou a porta. Trabalhou às pressas e sem cuidado, derrubando revelador e fixador pelo chão todo. Pouco tem po depois, as im agens estavam reveladas. Ele fechou os olhos e rezou em silêncio. Por favor, não apareça. Seja o que for, por favor, não apareça agora. Que não seja a minha hora…

Exam inou o film e m olhado com um a lupa. Não havia contagem . Sua m ulher tinha deixado o obturador com um a velocidade baixa, e o m anuseio am ador fizera com que todas as im agens ficassem desfocadas. Mesm o assim , para Wang, aquelas eram as fotos m ais agradáveis que tinha visto na vida.

Wang saiu da sala escura e soltou um grande suspiro. Estava coberto de suor. A esposa estava na cozinha, preparando o j antar, e o filho brincava no quarto. Ele se sentou no sofá e refletiu sobre a questão de m odo m ais racional.

Em prim eiro lugar, os núm eros, que registravam com precisão a passagem do tem po entre as fotos e exibiam sinais de inteligência, não podiam ter sido im pressos previam ente no film e. Algo expôs aquelas sequências num éricas no film e. Mas o quê? Será que a câm era estava com algum defeito? Será que algum m ecanism o fora instalado sem que ele soubesse? Depois de tirar a lente e desm ontar o aparelho, Wang exam inou o interior com um a lupa, conferiu cada com ponente im pecável e não viu nada fora do lugar. Em seguida, considerando que os núm eros apareciam m esm o nas fotos tiradas com a lente coberta, Wang percebeu que a fonte de luz m ais provável era algum a form a de raio invasor. Mas com o isso era tecnologicam ente possível? Onde estava a origem desses raios? Com o eles poderiam ter sido controlados?

Pelo m enos diante da tecnologia do m om ento, esse tipo de poder seria sobrenatural.

A fim de ver se a contagem fantasm agórica tinha desaparecido, Wang colocou outro film e na Leica e tirou m ais fotos aleatórias. Quando o rolo foi revelado, a tranquilidade passageira de Wang foi abalada de novo. Ele sentiu que estava sendo levado à beira da insanidade. A contagem havia voltado. Pelo que os núm eros m ostravam , ela nunca tinha parado, só não aparecera no film e utilizado pela esposa.

1186:34:13, 1186:34:02, 1186:33:46, 1186:33:35…

Wang saiu correndo da sala escura e deixou o apartam ento. Bateu com força à porta do vizinho, Zhang, professor aposentado.

— Professor Zhang, o senhor tem um a câm era? Não um a digital, m as um a analógica!

— Um fotógrafo profissional com o você quer pegar m inha câm era em prestada? O que aconteceu com seu aparelho caro? Só tenho câm eras digitais sim ples. Está tudo bem ? Você está m uito pálido.

— Por favor, m e em preste a câm era.

Zhang voltou com um a câm era digital Kodak com um .

— Aqui. Pode apagar as poucas fotos que estão na m em ória.

— Obrigado!

Wang pegou a câm era e voltou correndo para casa. Na verdade, tinha outras três câm eras analógicas e um a digital, m as achou que seria m elhor pegar um a em prestada de outra pessoa. Ele olhou para a própria Leica no sofá, para o punhado de rolos de film e, parou para refletir e decidiu colocar um film e novo na Leica. Entregou a câm era digital em prestada para a esposa, que estava colocando a m esa para o j antar.

— Rápido! Tire m ais algum as fotos, que nem antes.

— O que você está fazendo? Olhe para a sua cara! O que está acontecendo?

— Não se preocupe. Tire fotos!

Ela colocou os pratos na m esa e foi até Wang, com os olhos carregados de preocupação e m edo.

Wang enfiou a Kodak nas m ãos do filho de seis anos, que estava prestes a com eçar a j antar.

— Dou Dou, venha aj udar o papai. Aperte este botão. Assim m esm o. Isso foi um a foto. Aperte de novo. Isso foi outra foto. Fique tirando fotos assim . Fotografe tudo o que você quiser.

O m enino aprendeu logo. Ficou m uito interessado e tirou fotos rápidas. Wang se virou, pegou a Leica no sofá e com eçou a tirar fotos tam bém . Pai e filho ficaram disparando os obturadores ensandecidam ente. Perdida no m eio dos flashes, a m ulher de Wang com eçou a chorar.

— Wang Miao, sei que você tem estado sob m uita pressão ultim am ente, m as, por favor, espero que não tenha…

Wang term inou o film e da Leica e pegou a câm era digital do filho. Ficou pensando por um instante e então, para evitar a esposa, entrou no quarto e tirou m ais algum as fotos com a câm era digital. Batia as fotos olhando pelo visor óptico em vez de pela tela LCD, porque tinha m edo de conferir o resultado, em bora logo fosse ter que encarar a situação.

Wang tirou o film e da Leica e voltou para a sala escura. Fechou a porta e trabalhou. Depois de revelar o film e, exam inou as im agens com cuidado. Com o trem ia, precisou segurar a lupa com as duas m ãos. Nos negativos, a contagem continuava.

Wang saiu da sala escura e com eçou a olhar as im agens digitais da Kodak. Na tela LCD, viu que as fotos tiradas pelo filho não tinham núm eros, m as as suas m ostravam com clareza a contagem , em sincronia com os núm eros no film e.

Ao usar câm eras diferentes, Wang pretendia elim inar duas possíveis explicações: problem as com a Leica ou com o film e. Porém , ao perm itir que o filho e a esposa tirassem algum as fotos, descobriu um resultado ainda m ais estranho: a contagem só aparecia nas fotos que ele tirava!

Desesperado, Wang pegou o am ontoado de film es, que parecia um ninho em bolado de cobras, um m onte de cordas presas em um nó im possível.

Sabia que não teria com o resolver esse m istério sozinho. Quem poderia aj udá-lo? Seus antigos colegas da faculdade e os com panheiros do Centro de Pesquisa não serviriam . Com o ele, todos tinham m entalidade técnica. Por intuição, Wang sabia que esse problem a ia além do lado técnico. Pensou em Ding Yi, m as o hom em estava enfrentando sua própria crise espiritual. Por fim , se lem brou da Fronteiras da Ciência: seus integrantes eram grandes pensadores e continuavam de m ente aberta. Então Wang ligou para o núm ero de Shen Yufei.

— Dra. Shen, estou com um problem a. Preciso encontrá-la.

— Venha — disse Shen, desligando em seguida.

Wang ficou surpreso. Shen era um a m ulher de poucas palavras. Algum as pessoas na Fronteiras da Ciência brincavam que ela era a versão fem inina de Hem ingway. Mas o fato de Shen nem sequer ter perguntado qual era o problem a deixou Wang sem saber se devia ficar tranquilo ou ainda m ais ansioso.

Ele enfiou a confusão de film es em um a bolsa e, com a câm era digital na m ão, saiu às pressas do apartam ento, enquanto a esposa o observava com um olhar ansioso. Wang podia ter pegado o carro, m as, m esm o na cidade m uito ilum inada, queria estar acom panhado. Cham ou um táxi.

Shen m orava em um condom ínio de luxo acessível por um dos trens urbanos m ais recentes. Naquela área, a ilum inação era m uito m ais fraca. As casas ficavam dispostas em torno de um pequeno lago artificial abastecido de peixes, e à noite o lugar parecia um vilarej o.

Era nítido que Shen tinha um a condição financeira confortável, m as Wang nunca conseguiu descobrir a origem daquela riqueza. Nem o antigo cargo de pesquisadora nem o em prego atual em um a em presa privada poderiam fornecer um a renda tão grande. Apesar disso, o interior da casa não exibia sinais de luxo. O espaço era usado com o ponto de encontro para a Fronteiras da Ciência, e Wang sem pre achou que parecia um a biblioteca com um a sala de reuniões.

Na sala de estar, Wang se deparou com Wei Cheng, o m arido de Shen. Wei tinha cerca de quarenta anos e o aspecto de um intelectual sóbrio e honesto. Além do nom e, Wang sabia pouco sobre ele. Shen não havia falado m uito ao apresentar o m arido. Aparentem ente, ele estava desem pregado, j á que passava o dia inteiro em casa. Nunca dem onstrou interesse nas conversas da Fronteiras da Ciência, m as parecia acostum ado à presença de tantos acadêm icos em sua casa.

No entanto, não era desocupado e parecia estar realizando algum a pesquisa em casa, sem pre perdido em pensam entos. Toda vez que via algum visitante, cum prim entava de um j eito distraído e voltava para seu quarto no andar de cim a. Passava a m aior parte do dia ali dentro. Certa vez, Wang viu de relance o interior do quarto por um a porta entreaberta e reparou em algo im pressionante: um a potente estação de trabalho da HP. Tinha certeza do que vira porque a estação de trabalho era do m esm o m odelo utilizado por ele no Centro de Pesquisa: case cor de grafite, m odelo RX8620, de quatro anos. Parecia m uito estranho ter um a m áquina que custava m ais de um m ilhão de y uans só para uso pessoal. O que será que Wei Cheng fazia com aquilo o dia inteiro?

— Yufei está um pouco ocupada agora. Você pode esperar um instante? — perguntou Wei Cheng, antes de subir a escada. Wang tentou esperar, m as percebeu que não conseguia ficar parado, então foi atrás de Wei Cheng. Wei estava prestes a entrar no quarto com a estação de trabalho quando percebeu Wang atrás de si. Sem parecer irritado, apontou para o côm odo à frente do seu e disse: — Ela está aí dentro.

Wang bateu à porta, que não estava trancada e se abriu depressa. Shen estava sentada diante de um com putador, j ogando. Wang ficou surpreso ao ver que ela estava com um traj e V.

O traj e V era um equipam ento m uito usado pela com unidade de gam ers, com posto por um capacete de visor panorâm ico e um a j aqueta de resposta sensorial. O traj e perm itia que o j ogador sentisse tudo o que acontecia no j ogo: a força de um soco, um a punhalada, o calor de cham as etc. Tam bém era capaz de gerar sensações de calor e frio extrem os, e até de sim ular a exposição a um a nevasca.

Wang se aproxim ou de Shen pelas costas. Com o o j ogo só era exibido no visor panorâm ico do capacete, a tela do com putador não tinha nenhum a im agem colorida. De repente, Wang se lem brou do com entário de Shi Qiang quanto a decorar endereços de sites e e-m ails. Ele olhou para o m onitor, e a URL do site do j ogo cham ou sua atenção: www.3corpos.net

Shen tirou o capacete, a j aqueta e colocou os óculos, que pareciam grandes dem ais no rosto fino. Não esboçando nenhum a expressão, fez um gesto com a cabeça para Wang, sem dizer nada. Wang tirou a confusão de film es da bolsa e com eçou a explicar a estranha experiência. Shen prestou m uita atenção na história, pegando os film es e olhando apenas casualm ente para as fotos. Em bora Wang tenha ficado surpreso, a postura de Shen confirm ou que ela não ignorava o que estava acontecendo com ele. Wang quase parou de falar, m as Shen continuou acenando com a cabeça, indicando que ele deveria continuar.

Quando ele term inou, Shen falou pela prim eira vez.

— Com o anda o proj eto de nanom ateriais que você está conduzindo?

Essa m udança de assunto deixou Wang confuso.

— O proj eto de nanom ateriais? O que ele tem a ver com isto? — Wang apontou para os film es revelados.

Shen não respondeu, m as continuou encarando Wang, esperando que ele respondesse à pergunta. Aquele sem pre tinha sido o estilo dela, nunca um a palavra desperdiçada.

— Interrom pa a pesquisa — disse ela.

— O quê? — Wang não sabia se tinha ouvido direito. — Do que você está falando?

Shen ficou quieta.

— Interrom per? É um proj eto nacional fundam ental!

Shen continuou sem falar nada, apenas o encarando com um a expressão tranquila.

— Você precisa m e dar um m otivo.

— Só interrom pa. Tente.

— O que você sabe? Diga!

— Já falei tudo que podia.

— Não dá sim plesm ente para interrom per a pesquisa. É im possível!

— Interrom pa. Tente.

A conversa sobre a contagem regressiva acabou aí. Depois disso, por m ais que Wang insistisse, Shen só repetia “Interrom pa. Tente”.

— Agora eu entendo — disse Wang. — A Fronteiras da Ciência não é só um grupo de discussão sobre teoria fundam ental, com o vocês afirm avam . A ligação da organização com a realidade é m uito m ais com plexa do que eu tinha im aginado.

— Não. É o contrário. Sua im pressão se deve ao fato de que a Fronteiras da Ciência trata de questões m uito m ais fundam entais do que você im agina.

Desesperado, Wang se levantou para ir em bora sem se despedir. Em silêncio, Shen acom panhou a visita até a porta e esperou que entrasse no táxi.

Na m esm a hora, outro carro chegou e brecou de repente diante da porta. Um hom em saiu. Com a luz fraca de dentro da casa, Wang reconheceu o suj eito im ediatam ente.

Era Pan Han, um dos integrantes m ais proem inentes da Fronteiras da Ciência. Com o biólogo, ele havia conseguido prever defeitos congênitos associados ao consum o prolongado de alim entos geneticam ente m odificados. Tam bém previra os desastres ecológicos resultantes do cultivo de plantações geneticam ente m odificadas. Ao contrário dos profetas do apocalipse que prenunciavam catástrofes sem dar qualquer inform ação específica, as previsões de Pan sem pre continham um a profusão de detalhes que m ais tarde acabavam se confirm ando. O índice de acerto do biólogo era tão alto que havia quem dissesse que ele vinha do futuro.

O outro m otivo de sua fam a era o fato de que ele tinha criado a prim eira com unidade experim ental da China. Diferente dos grupos utópicos que clam avam por um a “volta à natureza”, a China Pastoral não ficava na zona rural, e sim no m eio de um a das m aiores cidades do país. A com unidade não detinha nenhum a propriedade. Tudo o que era necessário para o dia a dia, incluindo alim entos, era obtido com o lixo urbano. Contrariando m uitas previsões, a China Pastoral não só sobreviveu, com o prosperou. Agora, contava com m ais de três m il integrantes perm anentes, e inúm eras pessoas haviam ingressado nela por períodos breves a fim de conhecer aquele estilo de vida.

Graças a esses dois sucessos, as opiniões de Pan a respeito de questões sociais tinham cada vez m ais peso. Ele acreditava que o progresso tecnológico era um a doença da sociedade. A explosão do desenvolvim ento tecnológico era análoga ao crescim ento de células cancerígenas, e os resultados seriam os m esm os: o esgotam ento de todas as fontes de nutrição, a destruição dos órgãos e, por fim , a m orte do organism o. Ele defendia o fim de tecnologias nocivas, com o com bustíveis fósseis e energia nuclear, em favor da m anutenção de tecnologias m enos agressivas, com o energia solar e energia hidrelétrica de pequena escala. Pan acreditava na descentralização gradual das m etrópoles m odernas m ediante a distribuição m ais eficiente das populações em cidades e vilarej os m enores. Com base nas tecnologias m ais avançadas, construiria um a nova sociedade agrícola.

— Ele está aqui? — perguntou Pan a Shen, apontando para a casa.

Shen não respondeu, m as não saiu do cam inho.

— Preciso alertar tanto ele quanto você. Não nos obriguem a agir. — O tom de Pan era frio.

Shen gritou para o taxista.

— Você j á pode ir.

Quando o táxi saiu, Wang não conseguiu m ais ouvir a conversa entre os dois, m as olhou para trás e viu que Shen não deixou Pan entrar na casa.

Quando Wang chegou em casa, j á passava de m eia-noite. Ao sair do táxi, um Volkswagen Santana preto parou a seu lado. O vidro da j anela abaixou, e um a nuvem de fum aça saiu de dentro. O corpulento Shi Qiang estava no banco do m otorista.

— Professor Wang! Acadêm ico Wang! Com o o senhor tem passado esses últim os dias?

— Por acaso você está m e seguindo? Não tem nada m elhor para fazer?

— Ora, não m e entenda m al. Eu poderia ter passado direto, m as preferi ser educado e dar um olá. O senhor está transform ando m inha gentileza em um esforço ingrato. — Shi exibiu o sorriso debochado característico. — E aí? Conseguiu descobrir algum a inform ação útil lá?

— Já falei, não quero tratar nada com você. Por favor, daqui para a frente m e deixe em paz.

— Tudo bem . — Shi ligou o carro. — Não vou passar fom e abrindo m ão da hora extra que eu ganho para isto. Queria não ter perdido o j ogo de futebol.

Wang entrou em casa. Sua esposa j á estava dorm indo. Ele a ouviu se revirar na cam a, m urm urando algo, ansiosa. Com certeza, o com portam ento estranho do m arido naquele dia tinha resultado em algum pesadelo. Wang tom ou alguns com prim idos para dorm ir, deitou-se na cam a e, depois de bastante tem po, adorm eceu.

Seus sonhos foram caóticos, m as havia um a constante: a contagem regressiva fantasm agórica, suspensa no ar. Mesm o antes de dorm ir, ele j á sabia que sonharia com aquilo. Nos sonhos, Wang atacou a contagem . Enlouquecido, ele golpeou a sequência num érica, m as nada que fizesse era capaz de m udar aquilo. Os núm eros continuavam pairando no m eio do sonho, avançando sem parar. Enfim , quando a frustração estava ficando quase insuportável, ele acordou.

Ao abrir os olhos, viu o teto, pouco nítido. Do lado de fora, as luzes da cidade lançavam um brilho fraco nas cortinas. Porém , teve com panhia ao voltar à realidade: a contagem regressiva. Ela ainda pairava diante de seus olhos. Os núm eros eram finos, m as brilhavam m uito, com um a lum inosidade branca intensa.

1180:05:00, 1180:04:59, 1180:04:58, 1180:04:57…

Wang olhou à sua volta, explorando as som bras difusas do quarto. Agora tinha certeza de que estava acordado, m as a contagem não desapareceu. Fechou os olhos, e a contagem continuou na escuridão, com o um fiapo de m ercúrio escorrendo pelas penas de um cisne negro. Wang abriu e esfregou os olhos, e ainda assim a contagem persistiu. Independente de para onde olhasse, os núm eros perm aneciam no centro de tudo.

Movido por um terror indescritível, Wang se sentou. A contagem se aferrava a ele. Wang saiu da cam a, puxou as cortinas e abriu as j anelas. A cidade, adorm ecida, ainda estava m uito ilum inada. A contagem pairava no m eio desse cenário grandioso, com o um a legenda em um a tela de cinem a.

Wang sentiu-se sufocado. Tentou abafar um grito. Sua esposa acordou com o susto e, ansiosa, perguntou o que havia de errado. Wang se forçou para ficar calm o e tranquilizá-la, dizendo que não era nada. Voltou a se deitar na cam a, fechou os olhos e passou o resto da noite difícil sob o brilho constante da contagem .

De m anhã, tentou agir de m aneira natural diante da fam ília, m as não conseguiu enganar a esposa. Ela perguntou se os olhos de Wang estavam com algum problem a, se ele estava conseguindo enxergar direito.

Depois do café, Wang ligou para o Centro de Pesquisa e pediu para tirar o dia de folga. Foi ao hospital. No cam inho, a im piedosa contagem persistia estam pada no m undo real, conseguindo aj ustar o próprio brilho de m odo a aparecer com clareza diante de qualquer fundo. Wang tentou até ofuscar os núm eros por um tem po, olhando direto para o sol nascente. Mas não adiantou nada. Os núm eros infernais ficaram pretos e se destacaram da esfera solar com o som bras, o que pareceu ainda m ais assustador.

O hospital Tongren estava m uito m ovim entado, porém ele conseguiu um a consulta com um oftalm ologista fam oso, colega de faculdade de sua m ulher. Wang pediu para o m édico avaliá-lo, m as não descreveu nenhum sintom a. Após um exam e cuidadoso, o oftalm ologista disse que os dois olhos estavam norm ais, sem qualquer sinal de doença.

— Tem algum a coisa persistente incom odando m eus olhos. Está sem pre atrapalhando m eu cam po de visão. — Ao dizer isso, viu os núm eros pairando diante do rosto do m édico.

1175:11:34, 1175:11:33, 1175:11:32, 1175:11:31…

— Ah, você está falando de m oscas volantes. — O oftalm ologista pegou um receituário e com eçou a escrever. — Isso é com um na nossa idade, consequência de um obscurecim ento do cristalino. Não é fácil de curar, m as tam bém não é nada m uito sério. Vou receitar um pouco de iodo em gotas e vitam ina D… Pode ser que elas sum am , m as é bom não criar m uita expectativa. Não se preocupe m esm o, isso não vai afetar sua visão. Só precisa se acostum ar a ignorar.

— Moscas volantes… Pode m e dizer qual é o aspecto delas?

— Não existe nenhum a form a definida. Varia de acordo com a pessoa. Para algum as, são pontinhos pretos m inúsculos; para outras, parecem girinos.

— E se um a pessoa vê um a série de núm eros?

O m édico parou de escrever.

— Você está vendo núm eros?

— É, bem no m eio do cam po de visão.

O m édico afastou o papel e a caneta e olhou para Wang com um a expressão de piedade.

— Assim que você entrou, percebi que tem trabalhado dem ais. No últim o reencontro da turm a, Li Yao m e disse que você estava sofrendo m uita pressão no laboratório. Na nossa idade, precisam os tom ar cuidado. Nossa saúde j á não é m ais a m esm a.

— Quer dizer que isso tem um fundo psicológico?

O m édico anuiu.

— Se fosse outra pessoa, eu sugeriria um a consulta com um psiquiatra. Mas não é nada sério, só exaustão. Que tal você descansar por alguns dias? Tire um as férias. Vá ficar com Yao e seu filho… com o é o nom e dele? Dou Dou, certo? Não se preocupe. Isso vai sum ir logo.

1175:10:02, 1175:10:01, 1175:10:00, 1175:09:59…

— Vou falar o que estou vendo. É um a contagem regressiva! Um segundo de cada vez, com precisão cirúrgica. Você está dizendo que isso está tudo na m inha cabeça?

O m édico abriu um sorriso tolerante.

— Sabe quanto a nossa visão pode ser afetada pela m ente? Mês passado, recebem os um a paciente… um a m enina, devia ter uns quinze ou dezesseis anos. Ela estava no m eio de um a aula quando, de repente, parou de enxergar, ficou com pletam ente cega. Acontece que todos os testes m ostraram que não havia nenhum problem a fisiológico nos olhos. Por fim , ela se tratou com um profissional do Setor de Psiquiatria durante um m ês. Do nada, a visão voltou.

Wang sabia que estava perdendo tem po ali. Levantou-se.

— Tudo bem , vam os parar de falar dos m eus olhos. Só quero fazer m ais um a pergunta: você conhece algum fenôm eno físico que possa agir à distância e levar um a pessoa a ter visões?

O m édico pensou por um instante.

— Sim , conheço. Algum tem po atrás, participei da equipe m édica que atendeu os tripulantes do veículo espacial Shenzhou 19. Alguns astronautas que realizaram atividades fora da nave disseram ter visto clarões que não existiam . Os astronautas na Estação Espacial Internacional descreveram experiências parecidas. Isso acontecia porque, durante períodos de atividade solar intensa, partículas de alta energia atingiam a retina e provocavam a visão dos clarões. Só que você está falando de núm eros… até de um a contagem regressiva. Nenhum a atividade solar causaria isso.

Wang saiu do hospital m eio atordoado. A contagem continuava pairando diante de seus olhos, e ele tinha a sensação de estar seguindo os núm eros, seguindo um fantasm a que se recusava a abandoná-lo. Com prou óculos escuros e colocou no rosto para que as pessoas não vissem seus olhos oscilando com o se ele fosse um sonâm bulo.

Antes de entrar no laboratório principal do Centro de Pesquisa em Nanotecnologia, Wang tirou os óculos. Ainda assim , seus colegas repararam que sua aparência traía um estado m ental perturbado e o observaram com preocupação.

Wang viu que a câm ara de reação principal no m eio do laboratório continuava em funcionam ento. O com partim ento principal do aparato gigantesco era um a esfera ligada a m uitos canos.

Eles haviam produzido quantidades reduzidas de um nanom aterial novo e ultraforte, que fora cham ado de “lâm ina voadora”. Porém , até o m om ento, todas as am ostras eram feitas com técnicas de construção m olecular — isto é, usando um a sonda m olecular em escala nano para em pilhar as m oléculas um a a um a, com o se fossem tij olos em um m uro. Esse m étodo dem andava m uitos recursos, e os resultados poderiam ser considerados as j oias m ais preciosas do m undo. Para a produção de quantidades grandes, essa form a não era m uito prática.

No m om ento, o laboratório estava tentando desenvolver um a reação catalítica com o substituto para a construção m olecular, de m odo que fosse possível em pilhar um a grande quantidade de m oléculas na ordem certa. A câm ara de reação principal podia executar um a grande variedade de reações em pouco tem po, usando com binações m oleculares diferentes. Havia tantas com binações possíveis que, com os m étodos tradicionais de teste m anual, o m esm o resultado teria dem orado m ais de cem anos. Além disso, o aparato extrapolava as reações que aconteciam com sim ulações m atem áticas. Quando a reação alcançava determ inado ponto, o com putador gerava um m odelo m atem ático com base em produtos interm ediários e term inava o restante da reação com sim ulações, o que aum entava m uito a eficiência do experim ento.

Tão logo viu Wang, o diretor do laboratório correu até ele e com eçou a relatar um a série de defeitos ocorridos na câm ara de reação principal — um ritual, instaurado recentem ente, sem pre que Wang chegava ao trabalho. Àquela altura, j á fazia m ais de um ano que a câm ara de reação principal estava em funcionam ento constante, o que resultava em erros de m edição que exigiam o desligam ento do aparato para m anutenção. No entanto, na condição de pesquisador-chefe do proj eto, Wang insistia que a m áquina só fosse desligada depois da conclusão do terceiro conj unto de com binações m oleculares. Os técnicos eram obrigados a com pensar com um a quantidade cada vez m aior de gam biarras na câm ara de reação. E essas gam biarras exigiam suas próprias gam biarras, um a situação que exauria a equipe de trabalho.

Mas o diretor do laboratório tom ou o cuidado de não tocar no assunto do desligam ento e da interrupção da m áquina, pois sabia que esse tipo de tem a tendia a enfurecer Wang Miao. Ele se lim itou a listar as dificuldades, em bora a intenção im plícita fosse clara.

Havia engenheiros agitados em volta da câm ara de reação principal, com o m édicos com um paciente em estado crítico, tentando fazê-lo resistir um pouco m ais. Na frente disso tudo, a contagem regressiva apareceu.

1174:21:11, 1174:21:10, 1174:21:09, 1174:21:08…

Interrompa. Tente. Wang pensou nas palavras de Shen.

— Quanto tem po levaria para desm ontar com pletam ente os sensores? — perguntou Wang.

— Quatro ou cinco dias. — Agora que o diretor do laboratório via um a fagulha de esperança, acrescentou às pressas: — Se a gente acelerar, vai levar só três dias. Posso garantir, chefe Wang!

Não estarei cedendo, pensou Wang. O equipamento precisa mesmo de manutenção, então é preciso interromper temporariamente o experimento. Não tem nenhum outro motivo. Wang se virou para o diretor do laboratório e olhou para ele através da contagem flutuante.

— Interrom pa o experim ento e realize a m anutenção. Cum pra o cronogram a prom etido.

— Sem problem a, chefe Wang. Vou passar um cronogram a atualizado im ediatam ente. Podem os interrom per a reação hoj e à tarde!

— Podem interrom pê-la agora m esm o.

O diretor o encarou, incrédulo, m as logo se em polgou de novo, com o se tivesse m edo de perder a oportunidade. Pegou o telefone e anunciou a ordem de interrom per a reação. Pesquisadores e técnicos, todos exaustos, tam bém se em polgaram . Sem perder um segundo, com eçaram o processo de desligam ento da câm ara de reação principal, acessando centenas de com utadores com plexos. As diversas telas de controle foram se apagando, um a a um a, até a tela principal dem onstrar que câm ara de reação estava com seu status interrom pido.

Quase ao m esm o tem po, a contagem regressiva nos olhos de Wang tam bém parou. A últim a sequência era 1174:10:07. Alguns segundos depois, os núm eros piscaram e sum iram .

Quando o m undo voltou ao norm al, livre dos núm eros fantasm agóricos, Wang soltou um suspiro dem orado, com o se acabasse de subir à superfície depois de ficar m uito tem po em baixo d’água. Esgotado, sentou-se e percebeu que as outras pessoas ainda estavam olhando para ele.

Wang se virou para o diretor do laboratório.

— A m anutenção dos sistem as é responsabilidade da Divisão de Equipam entos. Que tal vocês todos do grupo de pesquisa tirarem alguns dias de folga? Sei que todo m undo tem trabalhado m uito.

— Chefe Wang, o senhor tam bém está cansado. O engenheiro-chefe Zhang pode tom ar conta de tudo por aqui. Por que o senhor não volta para casa e descansa tam bém ?

— Sim , estou cansado — respondeu Wang.

Depois que o diretor do laboratório foi em bora, Wang pegou o celular e ligou para Shen Yufei. Ela atendeu depois de um toque.

— Quem ou o que está por trás disso? — perguntou Wang, tentando sem sucesso falar com um tom de voz calm o.

Silêncio.

— O que vai acontecer quando a contagem term inar?

Mais silêncio.

— Você está m e ouvindo?

— Estou.

— Por que nanom ateriais? Isso não é um acelerador de partículas. Só pesquisa aplicada. Por acaso é digno de atenção?

— Não cabe a nós decidir se algo é ou não é digno de atenção.

— Já chega! — gritou Wang no telefone. De repente, o terror e o desespero dos últim os dias se transform aram em um a fúria incontrolável. — Você acha m esm o que serei enganado com esses truques faj utos? Acha que podem im pedir o progresso da tecnologia? Confesso que, por enquanto, não consigo explicar com o vocês estão fazendo isso. Mas é só porque não pude ver através da cortina do seu ilusionista barato.

— Quer dizer que você gostaria de ver a contagem regressiva em um a escala ainda m aior?

A pergunta de Shen deixou Wang atordoado por um instante. Ele fez o possível para se acalm ar, para não cair em um a arm adilha.

— Pode guardar seus truques. E daí se você m e m ostrar em um a escala m aior? Vai continuar sendo apenas um a ilusão. Vocês podem proj etar um hologram a no céu, com o a Otan fez na últim a guerra. Com um laser potente o bastante, poderiam até proj etar um a im agem na superfície da Lua! O franco-atirador e o criador de aves seriam capazes de m anipular os elem entos em um a escala inacessível aos seres hum anos. Por exem plo, vocês podem fazer a contagem regressiva aparecer na superfície solar?

Wang ficou de boca aberta. Estava chocado com as próprias palavras. Sem se dar conta, citara as duas hipóteses que devia ter evitado. Sentia-se prestes a cair na m esm a arm adilha m ental que capturara as outras vítim as.

— Não posso prever todos os seus truques — continuou ele, tentando tom ar a iniciativa. — Talvez seu ilusionista faj uto consiga dar um j eito de fazer com que essa farsa parecesse real até no sol. Um a dem onstração convincente de verdade precisa ser feita em um a escala ainda m aior.

— A questão é se você aguenta — disse Shen. — Som os am igos. Quero aj udá-lo a evitar a sina de Yang Dong.

A referência ao nom e de Yang provocou arrepios em Wang. Porém , sentindo outra onda de raiva, agiu im pulsivam ente.

— Você vai aceitar m eu desafio?

— Claro.

— O que vocês vão fazer?

— Você tem um com putador ligado à internet? Certo, acesse o seguinte site: www.qsl.net/bg3tt/zl/m esdm .htm . Abriu? Agora im prim a a página e fique com ela.

Wang viu que o site era apenas um a tabela de código Morse.

— Não entendi. Isto…

— Nos próxim os dois dias, por favor, vá para algum lugar onde sej a possível ver a radiação cósm ica de fundo em m icro-ondas. Vou enviar os detalhes para seu e-m ail.

— O que… o que você vai fazer?

— Eu sei que seu proj eto em nanom ateriais foi interrom pido. Você pretende retom á-lo?

— Claro. Daqui a três dias.

— Então a contagem regressiva vai continuar.

— Vou ver em que escala?

Seguiu-se um longo silêncio. Aquela m ulher, que estava agindo com o porta-voz de algum a força além de qualquer com preensão hum ana, cortou todas as saídas de Wang.

— Daqui a três dias, no dia 14, entre um a e cinco da m anhã, o universo inteiro vai piscar para você.