O Problema dos Três Corpos
13. Costa Vermelha III
DOCUMENTOS SELECIONADOS DO PROJETO
COSTA VERMELHA
Estes docum entos perderam o status de confidencial três anos depois que Ye Wenj ie revelou a Wang Miao os bastidores da Costa Verm elha e proporcionam inform ações com plem entares ao que ela contou.
I.
Uma questão amplamente ignorada pelas tendências da pesquisa
científica mundial de base
(Publicado originalm ente em Referência Interna, XX/XX/196X)
[Resumo] Levando em consideração a história m oderna e
contem porânea, existem dois cam inhos possíveis para que os resultados de pesquisas científicas de base sej am convertidos em aplicações práticas: o m odo gradualista e o m odo saltacional.
Modo gradualista: resultados teóricos de base são aplicados
gradualm ente à tecnologia; avanços se acum ulam até que sej a realizada um a descoberta. Exem plos recentes incluem o desenvolvim ento da tecnologia espacial.
Modo saltacional: resultados teóricos de base se tornam
tecnologia aplicada rapidam ente, levando a um salto tecnológico. Exem plos recentes incluem o aparecim ento de arm as nucleares. Até os anos 1940, alguns dos m ais brilhantes físicos ainda achavam que j am ais seria possível liberar a energia do átom o. Mas as arm as nucleares apareceram logo depois. Definim os a ocorrência de um salto tecnológico quando um a grande faixa da ciência de base se converte em tecnologia durante um intervalo de tem po extrem am ente breve.
Neste m om ento, tanto a Otan quanto o Pacto de Varsóvia
atuam e investem m aciçam ente em pesquisa de base, de m odo que um ou dois saltos tecnológicos podem acontecer a qualquer m om ento. Esses acontecim entos representarão um a am eaça significativa ao nosso planej am ento estratégico.
Este artigo defende que atualm ente estam os orientados
dem ais para o m odo gradualista de desenvolvim ento tecnológico, sem prestar atenção suficiente à possibilidade de saltos tecnológicos. Partindo de um a posição m ais favorável, deveríam os elaborar um a estratégia abrangente e um conj unto am plo de princípios para que possam os apresentar um a resposta apropriada quando ocorrerem saltos tecnológicos.
Áreas em que é m ais provável a ocorrência de saltos
tecnológicos:
Física: [ omitido]
Biologia: [omitido]
Ciências da com putação: [omitido] Busca por Inteligência Extraterrestre (Seti): de todas as áreas,
esta é a que apresenta m aior possibilidade de salto tecnológico. Se ocorrer um salto nesta área, o im pacto será superior ao total dos saltos tecnológicos ocorridos nas outras três áreas.
[Texto completo] [om itido] [Instruções da Liderança Central] Distribuir este artigo para
a equipe apropriada e organizar grupos de discussão. Nem todos vão concordar com as opiniões deste artigo, m as não podem os rotular o autor de m aneira intem pestiva. O im portante é considerar o raciocínio do autor a longo prazo. Alguns cam aradas são incapazes de enxergar além do próprio nariz, talvez em razão do am biente político m ais com plexo, talvez em virtude de sua própria arrogância. Isso não é bom . Pontos cegos estratégicos são extrem am ente perigosos.
Na m inha opinião, entre as quatro áreas passíveis de saltos
tecnológicos, a que m enos observam os é a últim a. Ela m erece algum a dose de atenção, e deveríam os analisar a questão sistem aticam ente e a fundo.
Assinado: XXX Data: XX/XX/196X
II.
Relatório de estudo sobre a possibilidade de saltos tecnológicos
em decorrência da busca por inteligência extraterrestre
1. Tendências atuais da pesquisa internacional [Resumo]
(1) Estados Unidos e outras nações da Otan: o caso científico e a necessidade do program a Seti são aceitos de m odo geral, e há forte apoio da academ ia.
Proj eto Ozm a: em 1960, o Observatório
Radioastronôm ico Nacional de Green Bank, na Virgínia
Ocidental, procurou inteligência extraterrestre com um radiotelescópio de vinte e seis m etros de diâm etro. O proj eto exam inou as estrelas Tau Ceti e Epsilon Eridani ao longo de duzentas horas, usando faixas próxim as da frequência de 1420 giga-hertz. O proj eto Ozm a II, que analisará m ais alvos e um a faixa de frequências m aior, está planej ado para 1972.
Sondas: as sondas Pioneer 10 e Pioneer 11, cada um a
contendo um a placa de m etal com inform ações sobre nossa civilização na Terra, estão com lançam ento previsto para 1972. As sondas Voy ager 1 e Voy ager 2, cada um a contendo um a gravação de áudio, estão com lançam ento previsto para 1977.
Observatório de Arecibo, Porto Rico: construído em
1963, é um instrum ento im portante para o Seti. Tem um a área de coleta de cerca de 80 m il m etros quadrados, extensão m aior do que a som a das áreas de coleta de todos os outros radiotelescópios do m undo. Quando com binado ao sistem a de com putadores do observatório, é capaz de m onitorar ao m esm o tem po 65 m il canais, além de realizar transm issões de energia ultra-alta.
(2) União Soviética: em bora haj a poucas fontes de inteligência disponíveis, existem indicações de grandes investim entos na área. Em com paração com países da Otan, a pesquisa parece m ais sistem ática e de longo prazo. De acordo com certos canais de inform ação isolados, existem planos para construir um sistem a global de radiotelescópios de síntese de abertura em interferom etria de linha de base m uito longa (VLBI). Quando o sistem a estiver concluído, será o m ais potente do m undo para exploração do espaço sideral.
2. Análise prelim inar de padrões sociais de civilizações extraterrestres m ediante um a concepção m aterialista da história [omitido]
3. Análise prelim inar da influência de civilizações extraterrestres em tendências sociais e políticas da hum anidade [omitido] 4. Análise prelim inar da influência que um possível contato com civilizações extraterrestres exercerá nos padrões internacionais da atualidade
(1) Contato unidirecional (apenas a recepção de m ensagens enviadas por um a inteligência extraterrestre): [omitido] (2) Contato bidirecional (troca de m ensagens com um a
inteligência extraterrestre e contato direto): [ omitido]
5. Perigo e consequências do contato inicial de superpotências com um a inteligência extraterrestre e do m onopólio desse contato
(1) Análise das consequências caso os im perialistas am ericanos e a Otan façam o prim eiro contato com um a inteligência extraterrestre e m onopolizem esse contato: [ainda sigiloso]
(2) Análise das consequências caso os revisionistas soviéticos e o Pacto de Varsóvia façam o prim eiro contato com um a inteligência extraterrestre e m onopolizem esse contato: [ainda sigiloso]
[Instruções da Liderança Central] Outras nações j á
enviaram m ensagens para o espaço. É perigoso se os extraterrestres só ouvirem a voz delas. Tam bém precisam os nos pronunciar. Só assim eles terão um a im agem com pleta da sociedade hum ana. Não é possível saber a verdade ouvindo apenas um dos lados. Devem os providenciar isso o quanto antes.
Assinado: XXX Data: XX/XX/196X
III.
Relatório de estudo sobre a fase inicial do Projeto Costa
Vermelha (XX/XX/196x)
ULTRASSECRETO
Núm ero de cópias: 2
Docum ento do resum o: Docum ento central núm ero
XXXXXX, encam inhado à Com issão de Ciência, Tecnologia e Indústria para a Defesa Nacional, à Academ ia Chinesa de Ciências e à Com issão Central de Planej am ento do Departam ento de Defesa Nacional; divulgado no Congresso XXXXXX e no Congresso XXXXXX; divulgado parcialm ente no Congresso XXXXXX.
Núm ero de Série do Tem a: 3760
Codinom e: “Costa Verm elha”
1. Obj etivo [Resumo]
Busca pela possível existência de inteligência extraterrestre e
tentativa de estabelecer contato e com unicação. 2. Estudo teórico do Proj eto Costa Verm elha
(1) Busca e m onitoram ento
Faixa de frequências de m onitoram ento: 1000 MHZ a 40 000 MHZ
Canais de m onitoram ento: 15 000
Principais frequências m onitoradas:
Frequência do átom o de hidrogênio em 1420 MHz Frequência da radiação do radical hidroxila em 1667 MHz Frequência da radiação da m olécula de água em 22 000 MHz Faixa de alcance: um a esfera com a Terra no centro e m il anos-luz de raio, contendo aproxim adam ente 20 m ilhões de estrelas. Para um a lista de alvos, favor conferir o Apêndice 1.
(2) Transm issão de m ensagens
Frequências de transm issão: 2800 MHz, 12 000 MHz, 22 000 MHz
Potência de transm issão: 10-25 m egawatts
Alvos de transm issão: um a esfera com a Terra no centro e duzentos anos-luz de raio, contendo aproxim adam ente 100 m il estrelas. Para um a lista de alvos, favor conferir o Apêndice 2.
(3) Desenvolvim ento do sistem a de codificação autointerpretativo da Costa Verm elha
Princípio básico: a partir de leis universais e m atem áticas básicas da física, construir um código linguístico elem entar que possa ser com preendido por qualquer civilização que tenha dom ínio de álgebra básica, de geom etria euclidiana e das leis da m ecânica clássica (física não relativística). Usando o código elem entar m encionado, com acréscim o de im agens de baixa resolução, desenvolver gradualm ente um sistem a linguístico com pleto. Idiom as aceitos: chinês e esperanto.
A totalidade do conteúdo inform acional do sistem a deve ser de 680 KB. Os tem pos de transm issão nos canais de 2800 MHz, 12 000 MHz e 22 000 MHz são, respectivam ente, 1183 m inutos, 224 m inutos e 132 m inutos.
3. Plano de im plem entação do proj eto Costa Verm elha
(1) Conceito prelim inar para o sistem a de m onitoram ento e busca da Costa Verm elha [ainda sigiloso] (2) Conceito prelim inar para o sistem a de transm issão da Costa Verm elha [ainda sigiloso] (3) Plano prelim inar de seleção de local para a base Costa Verm elha [ omitido]
(4) Ideias prelim inares quanto à form ação da força Costa Verm elha a partir do 2º Corpo de Artilharia [ainda sigiloso]
4. Conteúdo da m ensagem transm itida pela Costa Verm elha [Resumo]
Panoram a da Terra (3,1 KB), panoram a da vida na Terra (4,4 KB), panoram a da sociedade hum ana (4,6 KB), história m undial básica (5,4 KB).
Conteúdo total de inform ação: 17,5 KB.
A m ensagem integral será enviada após a transm issão do sistem a de codificação autointerpretativo. Os tem pos de transm issão nos canais de 2800 MHz, 12 000 MHz e 22 000 MHz são, respectivam ente, 31 m inutos, 7,5 m inutos e 3,5 m inutos.
A m ensagem será avaliada com cuidado por um com itê m ultidisciplinar, para garantir que não sej am reveladas as coordenadas da Terra em relação à Via Láctea. Entre os três canais, a transm issão nas frequências m ais altas de 12 000 MHz e 22 000 MHz será m inim izada para reduzir as chances de que a fonte da transm issão sej a determ inada com precisão.
IV.
Mensagem para civilizações extraterrestres Prim eiro rascunho [Texto Completo]
Atenção, você, que recebeu esta m ensagem ! Esta
m ensagem foi enviada por um país que representa a j ustiça revolucionária na Terra! Antes disso, você talvez j á tenha recebido outras m ensagens enviadas da m esm a direção. Essas m ensagens foram enviadas por um a potência im perialista deste planeta. Essa superpotência está disputando o dom ínio m undial com outra superpotência, a fim de fazer retroceder a história da hum anidade. Tem os esperança de que você não dê ouvidos às m entiras dessas nações. Apoie a j ustiça, apoie a revolução!
[ Instruções da Liderança Central] Isso está um a grande
porcaria! Já basta espalharm os cartazes com caracteres
garrafais* por todos os lados, m as não deveríam os m andá-los para o espaço. A liderança da Revolução Cultural não pode ter m ais nenhum envolvim ento com a Costa Verm elha. Um a m ensagem de tam anha im portância deve ser elaborada com cuidado. Provavelm ente seria m elhor que um com itê especial redigisse o com unicado, e que depois o texto fosse debatido e aprovado em um a reunião do politburo.
Assinado: XXX Data: XX/XX/196X
Segundo Rascunho [ omitido] Terceiro Rascunho [omitido] Quarto Rascunho [Texto Completo] Estendem os a vocês, habitantes de outro m undo, nossos m ais
calorosos cum prim entos. Após ler a seguinte m ensagem , vocês terão um a noção básica da civilização na Terra. Através de m uito trabalho e criatividade, a raça hum ana construiu um a civilização esplêndida, que floresceu com um a m ultiplicidade de culturas. Tam bém com eçam os a com preender as leis que regem o m undo natural e o desenvolvim ento das sociedades hum anas. Valorizam os todas as nossas conquistas.
Mesm o assim , nosso m undo ainda tem falhas. Há ódio, assim
com o preconceito e guerra. Por conta de conflitos entre as forças de produção e as relações de produção, a distribuição de riqueza é extrem am ente desigual, e grandes parcelas da hum anidade vivem na pobreza e na m iséria.
As sociedades hum anas estão se esforçando m uito para
resolver as dificuldades e os problem as que enfrentam , lutando para criar um futuro m elhor para a civilização da Terra. O país que enviou esta m ensagem participa desse esforço. Nós nos dedicam os a desenvolver um a sociedade ideal que respeite na plenitude o trabalho e o valor de cada indivíduo da raça hum ana, que atenda integralm ente as necessidades m ateriais e espirituais de todos, de m odo que a civilização da Terra possa se aperfeiçoar.
Movidos pelas m elhores intenções, desej am os estabelecer
contato com outras sociedades civilizadas do universo. Desej am os trabalhar j unto com vocês para desenvolver um a vida m elhor neste vasto universo.
V.
Políticas e estratégias relacionadas
1. Consideração de políticas e estratégias após recepção de
m ensagem por inteligência extraterrestre [omitido]
2. Consideração de políticas e estratégias após
estabelecim ento de contato com inteligência extraterrestre [omitido]
[Instruções da Liderança Central] É im portante reservar
um tem po em nossa agenda cheia para fazer algo sem qualquer relação com nossas necessidades im ediatas. Esse proj eto perm itiu um pouco de reflexão sobre questões que nunca tivem os
tem po de analisar. De fato, só podem os ponderar essas questões quando obtiverm os um distanciam ento suficiente. Isso j á basta para j ustificar o Proj eto Costa Verm elha.
Será m aravilhoso se o universo realm ente tiver outras
inteligências e outras sociedades! Observadores externos são os que têm a perspectiva m ais clara. Só alguém realm ente neutro será capaz de com entar se som os os heróis ou os vilões da história.
Assinado: XXX Data: XX/XX/196X
* A crença popular passou a associar cartazes m anuscritos com grandes caracteres chineses à Revolução Cultural. No entanto, vem de longa data a história do uso desse m aterial com o instrum ento de propaganda na China, tanto antes com o depois da Revolução Cultural.