O Problema dos Três Corpos
34. Insetos
Quando Shi Qiang passou pela porta da casa de Ding Yi, Wang Miao e Ding Yi j á estavam m uito bêbados.
Os dois ficaram felizes de ver Shi Qiang. Wang se levantou e abraçou o recém -chegado.
— Ah, Da Shi, policial Shi…
Ding, que nem conseguia ficar de pé, pegou um copo e colocou na m esa de sinuca.
— Seu raciocínio criativo não aj udou — disse ele, servindo um pouco de bebida. — Mesm o se não tivéssem os olhado aquelas m ensagens, o resultado daqui a quatrocentos anos continuaria sendo o m esm o.
Da Shi se sentou na frente da m esa de sinuca e observou os dois com um olhar m atreiro.
— É isso m esm o? Já acabou tudo?
— Claro. Acabou — disse Ding.
— Vocês não podem usar os aceleradores e não conseguem estudar a estrutura da m atéria. Isso significa que está tudo acabado? — perguntou Da Shi.
— Hum … o que você acha?
— A tecnologia ainda está avançando. O acadêm ico Wang e sua equipe acabaram de criar o nanom aterial…
— Im agine um reino ancestral, por favor. A tecnologia desse reino está avançando. As pessoas podem inventar espadas, facas, lanças m elhores. Talvez até consigam inventar bestas de repetição que disparam várias setas com o se fossem m etralhadoras…
Da Shi indicou com a cabeça que estava acom panhando.
— Mas se essas m esm as pessoas não sabem que a m atéria é com posta de m oléculas e átom os, nunca vão criar m ísseis e satélites. Estão lim itadas por seu próprio nível científico.
Ding deu um tapinha no om bro de Da Shi.
— Eu sem pre soube que nosso policial Shi era esperto. Só que você…
Wang interrom peu.
— O estudo da estrutura profunda da m atéria é a base para todas as outras ciências. Se não houver nenhum progresso nessa área, todo o resto, com o você diria, não passa de palhaçada.
Ding apontou para Wang.
— O acadêm ico Wang vai passar o resto da vida ocupado e continuará aprim orando nossas espadas, facas e lanças. Que porra que eu vou fazer? Alguém pode m e dizer? — Ele j ogou um a garrafa vazia na m esa e pegou um a bola de sinuca para arrebentá-la.
— Isso é bom ! — Wang levantou o copo. — Vam os poder viver o resto da vida de um j eito ou de outro. Pelo m enos toda decadência e depravação será j ustificável! Nós som os insetos! Insetos que estão prestes a entrar em extinção! Haha…
— Exatam ente! — Ding tam bém levantou o copo. — Eles nos desprezam tanto que nem perdem tem po disfarçando o plano, esfregam logo na nossa cara. Sem falar que contaram tudo para os adventistas. É que nem a gente que não precisa esconder a lata de inseticida dos verm ezinhos. Vam os ferrar os insetos! Nunca im aginei que o fim do m undo seria tão bom . Longa vida aos insetos! Longa vida aos sófons! Longa vida ao fim do m undo!
Da Shi balançou a cabeça e virou o copo. Depois balançou a cabeça de novo.
— Bando de frouxos.
— O que você quer? — Ding encarou Da Shi com um olhar em briagado. — Você acha que consegue nos anim ar?
Da Shi se levantou.
— Vam os.
— Aonde?
— Achar um negócio para anim ar vocês.
— Que se dane, m eu am igo. Senta aí de novo. Beba.
Da Shi pegou os dois pelos braços, obrigando-os a se levantar.
— Vam os. Tragam a bebida se precisarem .
Na rua, os três entraram no carro de Da Shi. Quando o m otor foi ligado, Wang perguntou com a língua pastosa para onde estavam indo.
— Minha cidade natal — respondeu Da Shi. — Não é m uito longe.
O carro saiu da cidade e seguiu para o oeste pela rodovia Beij ing-Shij iazhuang. Assim que eles entraram na província de Hebei, Da Shi saiu da rodovia, parou o carro e arrastou os dois passageiros para fora.
Quando Ding e Wang saíram do carro, tiveram que apertar os olhos por causa do sol claro da tarde. Diante deles se estendiam os trigais da planície do norte da China.
— Por que você nos trouxe aqui? — perguntou Wang.
— Para olhar os insetos. — Da Shi acendeu um dos charutos que o coronel Stanton lhe dera e apontou com ele para os trigais.
Wang e Ding se deram conta de que a lavoura estava coberta por um a cam ada de gafanhotos. Todos os colm os de trigo tinham alguns em cim a. No chão, vários outros se agitavam , com o um líquido espesso.
— Tem um a praga de gafanhotos aqui? — Wang afastou alguns gafanhotos de um trecho pequeno do trigal e se sentou.
— Eles com eçaram a aparecer há dez anos, com o as tem pestades de areia. Mas este ano está sendo o pior.
— E daí? Nada m ais im porta, Da Shi — disse Ding, ainda com voz de bêbado.
— Eu só queria perguntar um a coisa para vocês: o abism o tecnológico entre hum anos e trissolarianos é m aior do que o que existe entre os gafanhotos e os hum anos?
A pergunta caiu nos dois cientistas com o um balde de água fria. Quando eles olharam para os am ontoados de gafanhotos diante de si, assum iram um a expressão solene. Os dois entenderam o raciocínio de Shi Qiang.
Olhem só para eles, os insetos. Os seres hum anos j á usaram tudo o que podiam para exterm iná-los: aplicaram todos os tipos de veneno, fizeram pulverização aérea, introduziram e cultivaram predadores naturais, procuraram e destruíram os ovos, usaram m odificação genética para esterilizá-los, queim aram com fogo, afogaram com água. Toda fam ília tem inseticida em casa, toda escrivaninha tem um m ata-m oscas na gaveta… Essa longa guerra vem sendo travada por toda a história da civilização hum ana, m as ainda não se sabe quem vencerá. Os insetos não foram elim inados. Vivem cheios de orgulho entre o céu e a terra, e a população não ficou m enor do que era antes do surgim ento dos seres hum anos.
Os trissolarianos achavam que os hum anos eram m eros insetos, m as se esqueceram de um a coisa: os insetos nunca foram realm ente derrotados.
Um a pequena nuvem escura encobriu o sol e fez um a som bra se deslocar pelo chão. Não era um a nuvem com um , e sim um a infestação de gafanhotos que havia acabado de chegar. Quando a nuvem pousou na lavoura, os três hom ens se levantaram no m eio de um a chuva viva e sentiram a dignidade da vida na Terra. Ding Yi e Wang Miao viraram no chão o vinho das duas garrafas que tinham levado, um brinde aos insetos.
— Da Shi, obrigado. — Wang estendeu a m ão.
— Tam bém agradeço. — Ding cum prim entou a outra m ão de Da Shi.
— Vam os voltar — disse Wang. — Tem os m uito a fazer.