O Problema dos Três Corpos
18. Encontro
Os j ogadores de Três Corpos se encontraram em um a cafeteria pequena e afastada. Wang sem pre im aginara que eventos de videogam e eram ocasiões anim adas e cheias de gente, m as aquele encontro tinha a participação de apenas sete j ogadores, contando com ele. Assim com o Wang, os outros seis tam bém não pareciam viciados em gam es. Só dois eram relativam ente j ovens. Outros três, incluindo um a m ulher, eram de m eia-idade. Havia tam bém um senhor idoso, que parecia ter cerca de sessenta ou setenta anos.
Wang tinha im aginado que, assim que o grupo se reunisse, com eçaria um a discussão anim ada sobre Três Corpos, m as não foi o que aconteceu. O conteúdo com plexo e estranho de Três Corpos havia causado um im pacto psicológico nos j ogadores. Todos, inclusive o próprio Wang, não conseguiam tocar no assunto e se lim itaram a fazer breves apresentações pessoais. O senhor idoso pegou um cachim bo elegante, encheu de fum o e ficou circulando pela cafeteria, pitando e adm irando os quadros nas paredes. Os dem ais ficaram sentados em silêncio, esperando o organizador do encontro aparecer. Eles tinham chegado cedo.
Na verdade, dos outros seis, Wang j á conhecia dois. O idoso era um intelectual de renom e que ganhara fam a im buindo a filosofia oriental de elem entos da ciência m oderna. A m ulher de roupa estranha era um a escritora fam osa, um a daquelas raras pessoas que escreviam com um estilo de vanguarda, m as tam bém eram sucesso de público. Dava para com eçar a ler um livro dela a partir de qualquer página.
Dos dois hom ens de m eia-idade, um era vice-presidente na m aior em presa de desenvolvim ento de softwares da China; estava usando roupas sim ples, um estilo casual, e ninguém na rua desconfiaria de sua posição. O outro era um executivo do alto escalão da Em presa Estatal de Energia. Dos dois rapazes, um era repórter em um a im portante em presa da m ídia e o outro fazia doutorado na área de ciências. Wang se deu conta de que, assim com o ele, era provável que boa parcela de j ogadores de Três Corpos fizesse parte da elite social.
O organizador não dem orou m uito para aparecer. O coração de Wang disparou assim que ele viu o suj eito: era Pan Han, o principal suspeito do assassinato de Shen Yufei. Wang pegou o celular quando ninguém estava olhando e com eçou a escrever um a m ensagem de texto para Shi Qiang.
— Haha, todo m undo chegou cedo! — Pan cum prim entou os j ogadores com tranquilidade, com o se estivesse tudo bem . Em geral, quando saía na m ídia, ele sem pre parecia ter um aspecto desleixado, com o se fosse um m endigo, m as naquele dia Pan estava m uito bem vestido, com terno e sapato social. — Vocês são exatam ente com o eu im aginei. Três Corpos é voltado para pessoas da classe de vocês porque o público geral não é capaz de entender o significado e o espírito do j ogo. Para se dar bem , é preciso ter conhecim ento e um nível de com preensão que as pessoas com uns não têm .
Wang enviou a m ensagem : Vi Pan Han. Cafeteria Yunhe em Xicheng.
— Todo m undo aqui é excelente no Três Corpos — continuou Pan. — Vocês têm as pontuações m ais altas e se dedicam ao j ogo. Acredito que Três Corpos j á sej a um a parte im portante da vida de vocês.
— É um a das m inhas razões de viver — disse o j ovem doutorando.
— Eu vi sem querer no com putador do m eu neto — com entou o filósofo idoso, levantando a piteira do cachim bo. — O rapaz abandonou a partida depois de tentar um pouco, falando que era difícil dem ais. Mas eu achei interessante. É estranho, terrível, m as tam bém belo. Existe m uita inform ação oculta por trás de um a representação sim ples.
Alguns j ogadores, Wang inclusive, concordaram com a descrição e assentiram com a cabeça.
Wang recebeu a resposta de Da Shi: Também estamos vendo. Não esquente. Continue. Banque o viciado na frente deles, mas não exagere para não dar pinta.
— Sim — concordou a escritora, gesticulando com a cabeça. — Eu gosto dos elem entos literários de Três Corpos. As ascensões e quedas de 203 civilizações evocam as qualidades dos épicos em um novo form ato.
Ela m encionou 203 civilizações, m as Wang só havia visto 184. Isso indicava que Três Corpos avançava de m aneira independente para cada j ogador, talvez com m undos diferentes.
— Estou um pouco cansado do m undo real — disse o j ovem repórter. — Três Corpos j á é m inha segunda realidade.
— É m esm o? — perguntou Pan, interessado.
— Eu tam bém — disse o vice-presidente da em presa de softwares. — Em com paração com Três Corpos, a realidade é m uito banal e m onótona.
— Que pena que é só um j ogo — disse o executivo da estatal de energia.
— Que bom — disse Pan. Wang percebeu que os olhos dele estavam brilhando de em polgação.
— Eu queria fazer um a pergunta e acho que todo m undo está curioso para saber a resposta — disse Wang.
— Eu sei qual é. Mas pode perguntar.
— Três Corpos é só um j ogo?
Os outros j ogadores assentiram com a cabeça. Era evidente que eles tam bém estavam com essa dúvida na cabeça.
Pan se levantou e disse, solene:
— O m undo de Três Corpos, ou Trissolaris, existe de verdade.
— Onde ele fica? — perguntaram vários j ogadores ao m esm o tem po.
Pan olhou para cada um deles e se sentou.
— Algum as perguntas eu posso responder. Outras, não. De qualquer m aneira, se for o destino de vocês perm anecer com Trissolaris, todas as suas perguntas serão respondidas em algum m om ento.
— Então… o j ogo realm ente é um a representação fiel de Trissolaris? — perguntou o repórter.
— Em prim eiro lugar, a capacidade dos trissolarianos de se desidratar ao longo dos m uitos ciclos de civilização é real. Para se adaptar ao am biente natural im previsível e evitar condições clim áticas extrem as e inadequadas para a vida, eles podem expelir toda a água do corpo e se transform ar em obj etos secos e fibrosos.
— Com o é a aparência dos trissolarianos?
Pan balançou a cabeça.
— Não sei. Não sei m esm o. A cada ciclo de civilização, a aparência dos trissolarianos m uda. No entanto, o j ogo representa outra coisa que tam bém existiu de verdade em Trissolaris: a form ação de com putador trissolariana.
— Engraçado! Achei que esse tinha sido o aspecto m enos realista — disse o vice-presidente da em presa de softwares. — Cheguei a fazer um teste com m ais de cem funcionários na m inha em presa. Mesm o se a ideia funcionasse, um com putador feito de gente provavelm ente seria m ais devagar do que a com putação m anual.
Pan deu um sorriso m isterioso.
— Tem razão. Mas im agine que, dos trinta m ilhões de soldados que form avam o com putador, cada um fosse capaz de erguer e baixar as bandeiras pretas e brancas cem vezes por segundo. Im agine tam bém que os soldados da cavalaria ligeira no barram ento principal conseguissem correr a um a velocidade várias vezes m aior que a do som , ou até m ais rápido. Aí, o resultado seria m uito diferente.
“Você perguntou agora há pouco sobre a aparência dos trissolarianos. De acordo com alguns indícios, o corpo dos trissolarianos que form avam o com putador era coberto por um a superfície com pletam ente reflexiva, provável traço evolutivo para perm itir a sobrevivência em condições extrem as de ilum inação solar. A superfície espelhada podia assum ir qualquer form ato, e os indivíduos se com unicavam entre si direcionando luz com o próprio corpo. Esse tipo de fala por luz perm itia a transm issão de inform ações a um a velocidade extrem am ente rápida e foi a base da form ação de com putador trissolariana. Claro, ainda era um a m áquina m uito ineficiente, m as podia realizar cálculos sem idifíceis de ser feitos m anualm ente. De fato, em Trissolaris o com putador apareceu prim eiro com o form ação de pessoas, antes de ser m ecânico e, por fim , eletrônico.”
Pan se levantou e ficou andando por trás dos j ogadores.
— Com o j ogo, Três Corpos só aproveita a história da sociedade hum ana para sim ular o desenvolvim ento de Trissolaris. Isso acontece para proporcionar aos j ogadores um am biente m ais fam iliar. O m undo real de Trissolaris é m uito diferente do m undo do j ogo, m as os três sóis existem de verdade e são a base do am biente trissolariano.
— O desenvolvim ento do j ogo deve ter consum ido um a quantidade im ensa de esforço — disse o vice-presidente. — Mas, claram ente, o obj etivo não é gerar lucro.
— O obj etivo de Três Corpos é m uito sim ples e puro: reunir pessoas com o nós, que têm ideais em com um — disse Pan.
— Quais são exatam ente os ideais que tem os em com um ? — Na m esm a hora, Wang se arrependeu de perguntar, com m edo de ter parecido hostil.
Pan exam inou todos com um olhar significativo e, por fim , disse em voz baixa:
— O que vocês achariam se a civilização trissolariana entrasse em nosso m undo?
— Eu ficaria feliz. — O j ovem repórter foi o prim eiro a rom per o silêncio. — Perdi m inha fé na hum anidade depois do que tenho visto nos últim os anos. A sociedade hum ana é incapaz de m elhorar por conta própria, e precisam os da intervenção de um a força externa.
— Concordo! — gritou a escritora, m uito em polgada, com o se enfim tivesse encontrado um a form a de extravasar sentim entos reprim idos. — A raça hum ana é um horror. Passei m etade da vida exam inando essa feiura com o bisturi da literatura, m as agora estou até cansada do trabalho de dissecação. Desej o que a civilização trissolariana traga beleza verdadeira para este m undo.
O filósofo idoso gesticulou com o cachim bo, que tinha se apagado.
— Vam os discutir a questão um pouco m ais a fundo — disse, com um tom sério. — Qual é a im pressão que você tem dos astecas?
— Som brios e sanguinários — disse a escritora. — Pirâm ides encharcadas de sangue e ilum inadas por fogueiras insidiosas no m eio de florestas escuras. Essa é a m inha im pressão.
O filósofo assentiu com a cabeça.
— Muito bem . Então tente im aginar: se os conquistadores espanhóis não tivessem interferido, qual teria sido a influência dessa civilização na história da hum anidade?
— Você está invertendo as coisas — interrom peu o vice-presidente da em presa de softwares. — Os conquistadores que invadiram as Am éricas não passavam de assassinos e saqueadores.
— Ainda assim , pelo m enos eles evitaram que os astecas se desenvolvessem sem lim ite e transform assem as Am éricas em um grande im pério de sangue e som bras. Aí a civilização que conhecem os não teria aparecido no continente, e a dem ocracia teria dem orado m uito m ais para florescer. Na verdade, talvez ela nem tivesse existido. O cerne da questão é: sej a lá o que os trissolarianos forem , sua chegada será um a boa notícia para a doença fatal da raça hum ana.
— Mas você j á refletiu que os astecas foram com pletam ente destruídos pelos invasores ocidentais? — perguntou o executivo da estatal de energia, olhando para os outros j ogadores com o se estivesse vendo aquelas pessoas pela prim eira vez. — Seus pensam entos são m uito perigosos.
— Você quis dizer profundos! — respondeu o doutorando, de dedo em riste. Ele balançou a cabeça, cum prim entando o filósofo. — Pensei a m esm a coisa, m as não sabia com o expressar. Você falou m uito bem !
Depois de um instante de silêncio, Pan se virou para Wang.
— Os outros seis j á m anifestaram suas opiniões. E você?
— Concordo com eles — disse Wang, apontando para o repórter e o filósofo. Sua resposta foi sim ples. Quanto menos eu falar, melhor.
— Muito bem — disse Pan, que se voltou para o vice-presidente da em presa de softwares e para o executivo da estatal de energia. — A presença de vocês dois não é m ais aceita no encontro. Vocês não são j ogadores adequados para Três Corpos. Seus logins serão deletados. Por favor, se retirem agora. Obrigado.
Os dois se levantaram e trocaram um olhar. Em seguida, olharam para os lados, confusos, e saíram .
Pan estendeu a m ão para os cinco que ficaram e cum prim entou cada um . Por fim , disse, solene:
— Som os cam aradas agora.